quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

História do rapaz que deixou de ver

Uma manhã igual a outras, um pouco mais tímida, mais jovem, mais ingénua. O rapaz dos óculos saiu do metro e começou a subir a Rue de la Loi. De repente, estava ele a seguir com o olhar os carros que vinham do sentido oposto e deixou de ver. O rapaz parou. Esperou. Continuou a andar pela rua, de pés inseguros, seguindo o compasso apressado das pessoas. O rapaz tirou os óculos. Tentou ver e não via. Limpou os óculos com a ponta da camisola. Voltou a equilibrá-los na ponta do nariz. Continuava sem ver. O rapaz estendeu então os braços, tocava nas pessoas fugidias, rodopiava em plena rua. Gritou: Estou cego!
Mas não estava, claro.
O oftalmologista quase diagnoticou um daltonismo estranho, qualquer coisa a ver com o cinzento. Mas depois lá percebeu que se tratava de uma coisa de pele. Mandou-o ao dermatologista. Este também não percebeu a causa daquela cegueira momentânea. Mandou-o para o psicólogo.
Consta que o rapaz dos óculos tinha uma alergia ao nevoeiro.

6 comentários:

uxa disse...

Mantenham-se sempre jovens e ingénuos (digo eu ...). Os nevoeiros são passageiros e quase todos têm cura.

Bjnhs

pessoana disse...

Diz a uxa que, por sinal, não vive em Bruxelas! É que os nevoeiros aqui não passam: são opacos como cortinas de palco.
Dão-me cá umas alergias de pele! Mas ao menos não me dá para a cegueira!

uxa disse...

Realmente nunca vi, mas isso já não me parece nevoeiro ... Olha, de qualquer modo tem cuidado, não vás dar de caras com El-Rei D.Sebastião.
(Diz-se que era jovem e ingénuo !)

OrCa disse...

Temível essa densa névoa... principalmente porque as pessoas passam a não se poderem ver umas às outras.

É um dos momentos ideais para se passar da metáfora à realidade.

Por outro lado, espíritos mais empíricos descobrem nela (na névoa, claro) os encantos da apalpação.

Anónimo disse...

Eu cá gosto de cães e eles de mim, dos humanos tb, diz-se por aí que tenho fé nas coisas :)
marta

Magui disse...

O rapaz precisa de vir a Portugal de vez em quando...