quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O moleiro

Falava sozinho. Dizia:
- Só o ar importa!
e nisto o Senhor Müller inspirava toda a inspiração do mundo e dizia sentir o ar por dentro, a ventania do corpo. Havia dias de furacão, explicava, e nessas alturas o corpo inchava como um balão, ia com o vento, completamente dominado. Dizia tudo isto e rodava a anca larga.

No fundo do moinho havia um saco e ninguém sabia o que tinha dentro. O Senhor Müller recusava-se a abri-lo e guardava o moinho como um guarda prisional. Dizia que era secreto, mais valioso que os tesouros, que um moleiro tinha mais do que qualquer pirata no mar alto, por interpretar melhor o vento.

O moleiro inspirava até o fim de si mesmo e ficava suspenso, cheio, gasoso, branco como as nuvens. Dizia:
- Só o ar é puro e livre, só o ar viaja pelos corpos, dentro do próprio sangue.
O Senhor Müller era naturalmente louco, mas a sua loucura parecia saudável, fazia-lhe bem ao corpo, não fosse o segredo perturbante do saco.

Claro que na aldeia se falava constantemente daquele mistério e o padre servia-se dele aos domingos, para incentivar o terror a Deus. As crianças diziam que nele (no saco e não em Deus) dormia um monstro e as senhoras benziam-se quando alguém falava no nome da Senhora Müller e sugeria que a pobre mulher estava muito bem embrulhada no saco.
A padeira remexia desconfiada a farinha que vinha do moinho e provava-a antes de fazer a massa. Mas no final, todos comiam do pão, até mesmo o padre e as beatas nas suas metaformoses religiosas de pão que se transforma em corpo.

- O corpo transforma-se em ar!
(Era assim que o Senhor Müller explicava a morte.)

O moleiro morreu no próprio moinho, numa tarde sem vento. Antes de se ocuparem do corpo, os aldeões dirigiram-se ao saco. Era tão pesado que até o próprio padre teve de ajudar os homens a arrastarem-no para a rua. As crianças esconderam-se no moinho e as mulheres, cheias de terror nos olhos e no corpo, agarravam-se umas às outras. E fizeram bem.

Porque quando a boca do saco se abriu, saltaram para o mundo todas as inspirações possíveis, todo o ar imaginado, desde um furacão até às nuvens mais brancas, de formas variadas. Era um espectáculo bonito de se ver aquele, o ar a explodir de liberdade, cheio de cores, texturas e cheiros.

Os aldeões pensaram ter visto um milagre, mas o padre acusou o moleiro de heresia e o assunto foi literalmente enterrado.

O Senhor Müller ainda disse:
- Guardei tudo isto para que nunca nos faltasse o ar!
E algumas pessoas ouviram-no, já que a sua voz andava à solta, a viajar pelos corpos.

9 comentários:

uxa disse...

"Era um espectáculo bonito de se ver aquele, o ar a explodir de liberdade, cheio de cores, texturas e cheiros."

Se fosse possível guardar um bom clima no saco, para ser utilizado quando necessário, estava descoberta a solução para os nossos males ...

Sandes de Choco c/mortandela disse...

Pandora?

pessoana disse...

Uxa, não querias mais nada?

Pandora?! Não, nada disso!
Aqui só há mortandela!

Magui disse...

Também tu tens um saco cheio de fantasias que nos enchem a alma do mais puro ar.

Mutti disse...

Não te esqueças nunca de abrir um pouco o teu saco para nos enebriares com o perfume que ele exala.
Só os espíritos tacanhos temem o sopro desses ventos.

Meio Surdo disse...

Este teu conto só não é um milagre porque está aqui escrito: Não é preciso acreditar. É que juro que ouvi o Senhor Müller! (Até fiquei meio surdo!)

OrCa disse...

Ele há gente assim. De repente, vai a ver-se e é um ar que lhes dá!...
;-)

OrCa disse...

Ele há gente assim. De repente, vai a ver-se e é um ar que lhes dá!...
;-)

Sinapse disse...

As palavras, as palavras ... és mestra nas palavras!
Por isso ... passa lá no Postais de BXL de NYC ... tens TPC à tua espera ... ;))