quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Ovo, larva e fase adulta

Amadurece atrás do ovo e chama-o «ventre» por uma questão de fé: quer nascer mamífero e sugar o alimento. Nasce e é quase nada: um volume sem metafísica, uma alma sem peso. Querem matá-la e é ela a predadora: olha-os nos olhos e eles hesitam. É pequena e brutal. Tem um projecto de asas nas costas e adivinhamos o sangue de todos os homens no corpo translúcido da virgem. Vem pela noite e o seu voo é sôfrego, sofrido, total. As pernas leves e longas como as bailarinas dos sonhos e o corpo negro, tão negro que a noite nasce mais clara do que antes. Vem pela escuridão e as suas asas são ágeis, delicadas, dedicadas, iguais às das fadas que pousam nas janelas. Vem graciosa e feminina beijar os pescoços dos homens para colher do seu sangue. A boca prolongada numa espécie de bico e é agora uma espécie de ave. Abre a boca e tem dentes, é afinal um mamífero. Chamam-lhe vampira e ela encolhe-se para desaparecer na noite: as mãos cobertas de sangue, o fruto proibido nos lábios. Quando amanhece, ela morre. É uma morte triste e da sua boca escorre o fruto de todos os homens.
Do laço de sangue nasce outro ovo. Ela chama-o «ventre».
Por uma questão de fé.

4 comentários:

uxa disse...

Desculpa a observação tão terra-a-terra, mas fizeste-me pensar em melgas.

Só que da maneira negra e intensa como estão descritas, acredito que se trate de criaturas bem mais fantásticas !

Deixas o leitor preso na dúvida ...

Magui disse...

Estaremos aqui por uma quetão de fé? Por um impulso?
Morremos em cada "manhã" para renascermos cada vez mais mamíferos, mais...?
Só sei que renasci duas vezes em dois seres maravilhosos!

Mutti disse...

Bendito o fruto do ventre da tua mãe!

Anónimo disse...

pensei que era um mosquito e apeteuceu-me ser picada A imagem é excelente bejinhos