Em certos dias lia um livro inteiro. Não havia um único barulho de fundo naquela sala além do ressonar longínquo do frigorífico e a respiração quase inaudível do televisor em stand by.
Sentava-se no sofá com o café da manhã e inaugurava a leitura. Levantava-se a meio da tarde para comer qualquer coisa. Normalmente pão barrado com uma espécie de queijo. Depois comia uma maçã (descascava-a vagarosamente para um prato de sobremesa, tirava-lhe a pele e os caroços, mordia cada pedaço como se fosse o último).
Continuava a ler. Tinha sobre a mesa de apoio um caderno preto. E uma caneta sobre o caderno preto. Nele apontava certos nomes de personagens, certas frases promissoras. Nunca lia o que apontava no caderno preto. Apontava apenas.
Certo dia, leu um livro sobre uma mulher que, em certos dias, lia um livro inteiro. Era um livro sobre si própria, adivinhou. A história parecia-lhe desinteressante, a personagem também. Pensou: A minha vida é mais interessante na vida real do que no livro. Devia ser ao contrário.
Na narrativa faltava-lhe certas características excepcionais, por exemplo. Pela primeira vez na vida, aborreceu-se e deixou um livro a meio (a um terço, para sermos mais precisos). Concluiu: Não sou suficientemente interessante para um livro.
Preparou-se para sair de casa. Queria comprar outro livro qualquer, mas lembrou-se a tempo que não tinha a carteira consigo. Deixara-a caída no carro, que tinha entretanto emprestado à senhora do terceiro andar.
Preparou-se para sair de casa. Queria comprar outro livro qualquer, mas lembrou-se a tempo que não tinha a carteira consigo. Deixara-a caída no carro, que tinha entretanto emprestado à senhora do terceiro andar.
(Não se importava de emprestar o carro, mas não gostava de emprestar livros.)
Pensou: A realidade tem ficções verdadeiramente estúpidas. Acrescentou: Os livros são tão mais interessantes do que a vida.
Tinha pressa em ler qualquer coisa, por isso pôs-se a ler o caderno preto. A páginas tantas leu: «O pior pecado é não amar» e lembrou-se imediatamente daquele livro de bolso. Disse: José Eduardo Agualusa, como quem diz o nome de Deus e confessou:
Pequei.
Fechou o caderno. Repetiu:
Pequei.
Sentiu o sabor da palavra na boca, saboreou-a como saboreava as maçãs.
Achou-se um pouco mais interessante do que antes. Pegou no livro sobre si própria e leu a contracapa: A história de uma mulher que aprende a amar.
Achou-se um pouco mais interessante do que antes. Pegou no livro sobre si própria e leu a contracapa: A história de uma mulher que aprende a amar.
Recomeçou a leitura. Já agora, queria saber o fim.
10 comentários:
Liiiindo :)
"O Pior pecado é não amar"!
Muito bom! :))
Beijinhos
Isto do ser e do estar muitas vezes vai do começar...
Beijos
Gostei muito!
Bom fim-de-semana!
A magia dos cadernos pretos! Será um Moleskine?;-)
Beijos e bom fim-de-semana
Saber o fim...
Gosto mais de saber o princípio.
Dá mais gozo!
O princípio é sempre o fim de qualquer coisa.É sempre um desafio.
Não fui eu que defini o pior pecado! Não tenho esse tipo de pretensões! Mas tenho outras, como por exemplo escrever num Moleskine!
Desconfio saber quem é o(a) Mutti! Cá está novamente a minha veia Sherlock Holmes!
A ver se estreio um policial numa destas terças!:-)
Desta vez não foi coincidência. Foi consciência. Ontem, uma personagem de um filme que vi, também citou a expressão " O pior pecado é não amar".
Os teus contos têm essa magia de nos fazer pensar e despertar.
"A história de uma mulher que aprende a amar".
Nada disso, é sim a história de uma mulher que ama tudo aquilo que escreve e, bem melhor, sabe que "outréns" apreciam e até amam tudo aquilo que a Ana escreve.
Uma vez mais, o nosso mais sentido
"obrigado" (meu e de todos aqueles leitores anónimos que tenham vergonha de se expressar nesse sentido).
Cumprimentos de todos aqueles que te estimam.
Pecado é:
>> NÃO AMAR <<
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