terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Sede

Abriu uma porta do armário, tirou um copo, abriu a torneira. Ergueu o copo cheio como outros erguem o cálice do vinho.
Bebeu. E suspirou.
Limpou a boca com as costas de uma mão e reparou que estavam secas:
a boca e a mão.
Tinha sede. Imensa sede. Bebeu mais um copo de água. Dois copos de água, três, quatro.
- Este copo é pequeno! - concluiu, e atirou-o para o chão.
O copo partiu-se.
Abriu uma porta do armário e tirou uma taça. Achou-a pequena. Tirou uma taça maior, depois outra. Eram todas pequenas. Atirou-as para o chão.
Partiram-se.
Abriu outra porta e tirou um tacho, depois outro. No final, tirou uma panela de pressão. Pousou a panela no lavatório e encheu-a de água. Enquanto esperava, outra espécie de água brotava da boca. Quis beber mas os braços não conseguiam levantar a panela. Debruçou-se sobre o lavatório e sorveu a água com a língua.
Desistiu.
Tirou a panela do lavatório e enfiou nele a cabeça. Abriu a torneira, molhou o rosto e os cabelos. Depois bebeu toda a água que o corpo permitia. Finalmente, fechou a torneira e caiu no chão com o peso do líquido.
Os vidros enfiaram-se no corpo e havia sangue no chão da cozinha. Suspirou e nessa altura reparou que os lábios continuavam secos. Quis levantar-se para beber e não conseguia.
Era uma sede inexplicável, impossível, insaciável.
Arrastou-se até ao lavatório e ergueu-se com a ajuda das mãos. Estendeu a língua por baixo da torneira e saboreou uma gota que caía. Não tinha força para rodar o manípulo, mas tinha sede. Imensa sede.
Uma luta aterradora contra o próprio corpo.
Declarou:
- A sede da minha alma é indomável.
E abriu a torneira.

6 comentários:

Carlota disse...

Este post é tão realista que até dá sede!
:)

uxa disse...

É por essas e por outras que tenho sempre uma ou duas garrafas de 1,5l de Luso em cima da secretária ...

e agora também os teus textos para animar a alma !


Bjnhs

João Ricardo Branco disse...

«cálice do vinho», «suspirou», «atirou-o para o chão», «havia sangue», «caiu no chão com o peso do líquido», «uma gota que caía», «corpo», «alma». A paixão/via-sacra do sedento? ;)

Beijos,

JRB

Anónimo disse...

eu por vezes tenhos muita sede mas nunca andei as cambalhotas. Vou experimentar. Gostei mesmo da imagem beijos ate breve

Anónimo disse...

eu por vezes tenhos muita sede mas nunca andei as cambalhotas. Vou experimentar. Gostei mesmo da imagem beijos ate breve

Magui disse...

Temos muita,muita sede na adolescência. Muita quando adultos. Serenidade na idade madura.
É bom ter sede quanto baste. Quanto nos baste!
Difícil é ter sede de ter sede