quarta-feira, 22 de maio de 2013

Uma senhora nas urgências III

As cortinas abrem-se, sai um médico.

- Madame não-sei-quê?
- Sim, sou eu.
- Sou o médico YZ.
- Sim.
- Está numa cadeira de rodas?!
- Como?
- A senhora está numa cadeira de rodas?!
- Sim.
- Mas porquê?
- Foi o enfermeiro que me deu esta cadeira, não sei.
- Mas não consegue andar?
- Consigo.
- Ah, estava a ver!
- ...
- Bom, não sei se vai compreender o que lhe vou dizer…
- Compreender?
- Bom, não sei se consegue reter alguma informação neste momento.
- Informação?!
- Sim, por causa do choque e assim… Vamos então para esta sala aqui ao lado, por favor.
- É preciso ir para outra sala?
- Sim, é melhor. Como deve perceber, não lhe trago notícias excelentes.

A senhora e o médico saem de cena. Pas d'excellentes nouvelles.

Há semanas que a narradora deste texto anda a pensar na senhora das urgências, no seu dedo indicador. Na sua voz.
Estamos cá sozinhos.
Realmente...
Sozinhos…

6 comentários:

Sara Bandarra disse...

...

Miuxa disse...

Eu pensava que o que distinguia os cidadãos do mundo como vocês dos simples mortais que se agarram ao seu país era não terem medo de estar sozinhos, porque nunca se sentiriam sozinhos mesmo à distância.
No entanto, a minha preocupação em comentar-te todos os teus posts não é só por gostar muito dos teus textos, mas, pensava eu, fazer-te um pouco de companhia. Sei que tens outras companhias telefonicas mais importantes, e hoje em dia, penso que em poucas horas alguém poderá chegar aí ao pé de ti se fôr preciso.
Bjnhs

pessoana disse...

Obrigada, Miúxa!

Penso que a narradora se referia a todos nós.
(TODOS) estamos cá sozinhos.

Mas eu por acaso não concordo.
A narradora deste texto é totó.

jc disse...

Ana.
Se quiseres uns contactos facebook de portuguesas aí ao pé de ti, que são amigas de infância de um amigo/colega meu diz ...

Miuxa disse...

Ana.
Se quiseres uns contactos facebook de portuguesas aí ao pé de ti, que são amigas de infância de um amigo/colega meu diz ...

Magui disse...

Estou à espera do último episódio.
Estes escritores pregam-nos cada partida! Observam e registam tudo em pastas que não arquivam. Anda tudo ali à solta. Um dia, misturam tudo e trocam-nos as voltas.
Não sabemos quem fez ou sentiu o quê. Recriam tudo.
Por isso é que a escrita criativa nos encanta.