terça-feira, 7 de maio de 2013

A casa (VIII)

No último dia, lavei o chão. Já não havia nada na casa.
Só eu, o balde e a sabrina. Se eu falasse, a minha voz faria eco, mas eu não falei.
Lavei só o chão. Depois fechei a porta.
Dentro do meu bolso, um porta-chaves sem chaves. Um porta-chaves que é uma casa fofinha.
Uma casa dentro do bolso.
Quando cheguei cá abaixo, olhei para ela. A casa olhava para mim de janela aberta.
Malandra!
Quem, eu?
Não, a casa!
De janela aberta.
Agora já não há nada a fazer.
Não tenho chaves. Não vai dar para fechar a janela.
Paciência.
Não foi por mal.
Foi, foi.
Não foi, não.
Foi esquecimento.
O esquecimento é um mal menor.
É, não é?
É.
Os nossos nomes na caixa do correio. Pas de publicité!
Depois virei as costas e fui-me dali. Com o Homem Ilimitado.
Ele sim, uma casa.
Bons alicerces.
Não há lobo mau que o derrube.

3 comentários:

Sara Bandarra disse...

hhhhhhooooohhhhhhh.
Que bonito.

Magui disse...

Fiquei comovida logo no início do conto, mas na parte final, então, ainda mais.

Miuxa disse...

Que bom teres uma 'casa móvel', uma 'casa' que te acompanha para onde quer que vás :-)