quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Seis vezes seis

É quarta-feira. Hoje há mercado. E eu faço 36 anos.
Vou comprar ameixas. Alperces. Pepino. E azeitonas, pera abacate, queijo de cabra, húmus. Com sorte, ainda há pão com nozes e meloas doces. Eu sou feliz à quarta-feira. Especialmente hoje, que está mais fresquinho. A minha cria odeia calor e eu preciso de arejar as ideias. Talvez aprenda qualquer coisa hoje. A mulher dos legumes, que parece um homem, dá-me sempre bons conselhos. As mãos duras e calejadas, uma espécie de luvas nos pulsos. Espero que o senhor dos queijos me faça um elogio. Passa a vida a amanteigar-me. "Esse vestido fica-lhe tão bem." Vou almoçar àquele sítio novo aqui ao lado. Tem um bom terraço. O meu filho fica sentado na mesa a brincar com o guardanapo. Depois havemos de ir ao parque ver as árvores e os pássaros. Eu vou beber café, ele vai comer relva. Pelas 16h convém estarmos em casa para lhe dar a fruta. Eu faço planos dentro da cabeça e também faço 36 anos. Sou um seis ao quadrado. Um seis vezes seis na tabuada da vida. Nada mau. Um dia talvez venha a ser um sete vezes sete, um oito vezes oito. Eu olho para o meu filho, este pé descalço que só sabe pôr terra à boca, e penso que ele ainda nem chegou ao início da tabuada. Ao um vezes um. E penso também que talvez um dia ele chegue aqui, ao seis vezes seis. E que nessa altura talvez saiba que o tempo e o espaço continuarão depois dele. Que, na melhor das hipóteses, gostará de estar entre os vivos e chegará ao fim da tabuada. Ao dez vezes dez. Que a história da vida é feita das histórias dos dias. Das nossas paixões, das nossas zangas. Das nossas idas ao mercado, dos nossos passeios no parque. Que a maior parte dos dias acabam da mesma maneira. Com um certo cansaço. Que não é nada mau regressar a casa. Que o amor existe. Que o amor pode. Que o amor ordena. E que, depois do seis vezes seis, ainda há muita tabuada pela frente. Eu, que sempre fui uma nostálgica debruçada sobre o passado, chego aos 36 a pensar nos próximos 36 anos. Oxalá cheguemos a esse futuro. Oxalá a minha tabuada ainda não vá a meio. Gostava que me restasse mais tempo com este menino, pé descalço, do que o tempo que vivi sem ele.

2 comentários:

guiduxa disse...

Que texto maravilhoso! Felizmente, tive o privilégio de ler alguns quando eras apenas um nove vezes dois. Essa criança maravilhosa que cresce a olhos vistos e come terra ( todos ou quase todos comem num qualquer período das suas vidas) ainda fará muitas tabuadas e os passeios num qualquer parque tornar-se-ão uma simples razão de existência maternal ☺ sim ela existe e ainda hoje, quando olho para as minhas duas filhas (25 e 22 - muitas tabuadas) sinto que continuo o meu papel especial de mãe e adoro! Beijinho muito especial neste dia. O 36 um dia será 63 ��������✨������

feltro nas mãos disse...

❤ Que texto tão bonito/ sentido! 😊

Gosto tanto de aqui vir... 😊
Parabéns, por TUDO!!! ❤

Beijitos