quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

No final do ano é sempre assim

No final do ano é sempre assim: subimos muito alto. Ficamos suspensos no ar a ver as casas lá em baixo. 
As casas, as estradas, as pontes.

Estamos dentro de um avião dentro das nuvens. 
São nuvens brancas e suaves, não fazem mal a uma mosca.

Ao longe, tudo é bonito: a cidade, as casas, as nuvens.

Ao longe, também o tempo é bonito: janeiro, fevereiro, março.

Um ligeiro peso nas pálpebras. No pescoço. Na consciência. 
Uma ressaca do mundo inteiro. Um cansaço antigo.

No final do ano é sempre assim: fechamos os olhos para o tempo. Interrompemos o mundo a meio de uma frase, a meio de um segundo.

Estamos dentro de um sono dentro de um avião dentro do tempo, a passear pelas nuvens. 
Descalços e descontinuados.

De súbito, uma turbulência qualquer no corpo. Uma ansiedade minúscula alinhada à esquerda.

Abrimos os olhos e vemo-la: a cidade do Porto. As casas, as estradas, as pontes.

Ao longe, a cidade invicta é bonita.
A beleza tranquila da distância.

Pousamos devagar no mundo. Como pequenos deuses. Primeiro os pés e depois a cabeça.
Só então o tempo recomeça.
O tempo e o mundo.

2016 ao virar da esquina. 

Mais um ano, mais uma viagem. 
O tempo ao longe.

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