Sétimo dia.
A Avó morreu no dia da Ascensão de Cristo.
Eu estava na Eslovénia, um país de florestas imaginadas, e a notícia passou por mim como um unicórnio branco, um ser desconhecido, irreal, e na minha cabeça morava agora o silêncio estranho de uma casa vazia.
A Avó não morreria nunca.
Eu estava convencida de que a Avó não morreria nunca, de que o seu coração era mais forte do que os outros, porque o coração da Avó era, de facto, mais forte do que os outros.
Primeira verdade: A Avó não foi uma avó para mim.
Sim, foi uma avó para mim, é evidente que foi uma avó para mim. Mas não uma avó como as outras. Não uma avó que me levasse à praia, que me ajeitasse o vestido nos dias de festa, que me desse rebuçados por baixo da mesa, que me ensinasse a tabuada. Não essa avó.
Uma outra avó.
Eu digo Avó e não a minha Avó. Foi a Avó que me ensinou a falar assim.
Dizia-me: Não precisas de dizer o meu pai ou a minha mãe. Toda a gente sabe que o pai e a mãe são o teu pai e a tua mãe.
Uma avó que gostava de falar sobre literatura, sobre língua portuguesa, sobre história e geografia, sobre viagens. Que me oferecia enciclopédias e colecções de contos tradicionais, edições especiais da Peregrinação, d'Os Lusíadas. Apertava o cabelo num carrapito, bebia espumante ao almoço, falava como quem escreve: a sintaxe correcta, um adjectivo inesperado, um advérbio de modo. Frases que eram o essencial. Por vezes até meia frase, meia palavra, meia sílaba.
Para bom entendedor.
Neste 7.º dia, lembro-me de certos dias, de certos episódios, de certas frases.
De uma frase:
Um dia, ainda este ano, acompanhou-me até à porta de sua casa e despediu-se de mim com uma frase. A sua frase não foi: "Boa viagem.", não foi: "Volta sempre.".
A avó não dizia o que os outros dizem.
A sua frase foi: "Continua assim: uma mulher vertical."
Um adjectivo inesperado, meia frase, para bom entendedor. Corria então o mês de Fevereiro e a avó não morreria nunca, porque o seu coração era mais forte do que os outros.
Parti para outra terra com aquele adjectivo inesperado ao colo, não sou grande entendedora. Além de ser torta e não vertical, nesse dia tinha pintado as unhas de cor‑de‑rosa choque, uma cor absurda para uma mulher vertical. Tenho a certeza de que a avó não gostava de cor-de-rosa choque, especialmente nas unhas, ainda que nunca mo tenha dito.
A Avó.
Não era uma avó como as outras. Não era uma pessoa como as outras. Não era um coração como os outros. Dizia uma frase, meia frase, e eu ficava a pensar em adjectivos inesperados, em escritores portugueses, em contos tradicionais.
Morreu no dia da Ascensão de Cristo.
Uma espécie de milagre.
Segunda verdade:
Eu não acredito em Deus. Eu acho que não acredito em Deus.
A Avó sabia disto, ainda que eu nunca lho tenha dito, e celebrou o meu casamento como se eu tivesse casado pela igreja, com toda a fé, toda a comunhão.
Uma outra avó.
Que dizia o essencial. Que nem sempre foi entendida, que nem sempre soube entender. Que via um pouco mais além do que os outros, para lá do cor-de-rosa choque da vida.
Que sabia ser e estar como outros não sabem ser nem estar, como eu não sei ser nem estar, como ninguém sabe.
Escrevi-lhe um postal que nunca chegou a ler. Um postal que dizia pouco para não cansar a vista nem o coração. Um postal na casa vazia.
Eu não vou à missa do sétimo dia, mas é como se fosse.
A Avó morreu no dia da Ascensão de Cristo.
E eu tenho a certeza absoluta de que encontrou o Avô no Céu.
Eu estava na Eslovénia, um país de florestas imaginadas, e a notícia passou por mim como um unicórnio branco, um ser desconhecido, irreal, e na minha cabeça morava agora o silêncio estranho de uma casa vazia.
A Avó não morreria nunca.
Eu estava convencida de que a Avó não morreria nunca, de que o seu coração era mais forte do que os outros, porque o coração da Avó era, de facto, mais forte do que os outros.
Primeira verdade: A Avó não foi uma avó para mim.
Sim, foi uma avó para mim, é evidente que foi uma avó para mim. Mas não uma avó como as outras. Não uma avó que me levasse à praia, que me ajeitasse o vestido nos dias de festa, que me desse rebuçados por baixo da mesa, que me ensinasse a tabuada. Não essa avó.
Uma outra avó.
Eu digo Avó e não a minha Avó. Foi a Avó que me ensinou a falar assim.
Dizia-me: Não precisas de dizer o meu pai ou a minha mãe. Toda a gente sabe que o pai e a mãe são o teu pai e a tua mãe.
Uma avó que gostava de falar sobre literatura, sobre língua portuguesa, sobre história e geografia, sobre viagens. Que me oferecia enciclopédias e colecções de contos tradicionais, edições especiais da Peregrinação, d'Os Lusíadas. Apertava o cabelo num carrapito, bebia espumante ao almoço, falava como quem escreve: a sintaxe correcta, um adjectivo inesperado, um advérbio de modo. Frases que eram o essencial. Por vezes até meia frase, meia palavra, meia sílaba.
Para bom entendedor.
Neste 7.º dia, lembro-me de certos dias, de certos episódios, de certas frases.
De uma frase:
Um dia, ainda este ano, acompanhou-me até à porta de sua casa e despediu-se de mim com uma frase. A sua frase não foi: "Boa viagem.", não foi: "Volta sempre.".
A avó não dizia o que os outros dizem.
A sua frase foi: "Continua assim: uma mulher vertical."
Um adjectivo inesperado, meia frase, para bom entendedor. Corria então o mês de Fevereiro e a avó não morreria nunca, porque o seu coração era mais forte do que os outros.
Parti para outra terra com aquele adjectivo inesperado ao colo, não sou grande entendedora. Além de ser torta e não vertical, nesse dia tinha pintado as unhas de cor‑de‑rosa choque, uma cor absurda para uma mulher vertical. Tenho a certeza de que a avó não gostava de cor-de-rosa choque, especialmente nas unhas, ainda que nunca mo tenha dito.
A Avó.
Não era uma avó como as outras. Não era uma pessoa como as outras. Não era um coração como os outros. Dizia uma frase, meia frase, e eu ficava a pensar em adjectivos inesperados, em escritores portugueses, em contos tradicionais.
Morreu no dia da Ascensão de Cristo.
Uma espécie de milagre.
Segunda verdade:
Eu não acredito em Deus. Eu acho que não acredito em Deus.
A Avó sabia disto, ainda que eu nunca lho tenha dito, e celebrou o meu casamento como se eu tivesse casado pela igreja, com toda a fé, toda a comunhão.
Uma outra avó.
Que dizia o essencial. Que nem sempre foi entendida, que nem sempre soube entender. Que via um pouco mais além do que os outros, para lá do cor-de-rosa choque da vida.
Que sabia ser e estar como outros não sabem ser nem estar, como eu não sei ser nem estar, como ninguém sabe.
Escrevi-lhe um postal que nunca chegou a ler. Um postal que dizia pouco para não cansar a vista nem o coração. Um postal na casa vazia.
Eu não vou à missa do sétimo dia, mas é como se fosse.
A Avó morreu no dia da Ascensão de Cristo.
E eu tenho a certeza absoluta de que encontrou o Avô no Céu.
11 comentário(s):
Um beijo.
"Sejam tão felizes como eu fui com o vosso avô".
Assim lembro.
Abraço.
A minha avó também era muito especial. A mala dela condizia sempre com os sapatos e com os cintos, tinha sempre vestidos diferentes e nunca andava sem brincos. Descobri há uns anos uma folha de jornal que ela tinha guardada: era uma notícia de uma passagem de modelos e a minha avó estava na primeira fila.
Não consigo imaginar a minha avó a assistir a uma passagem de modelos.
Mas lembro-me sempre dela com os dois braços abertos para nos receber ao colo e um sorriso malandro quando, contra a vontade da minha mãe, nos dizia que podíamos não comer a sopa.
As avós e os avôs são a primeira parte de nós que morre. Mas a memória que deixam acompanha-nos sempre.
beijinho grande, querida Ana.
Uma neta-mulher-vertical de uma avó-mulher-vertical.
Ou melhor dizendo,
"Uma avó-mulher-vertical de uma neta-mulher-vertical"
está um texto fantástico. Um texto que descreve bem como era a pessoa a quem nós chamámos e chamamos Avó. E lembro-me perfeitamente de ela ter dito isso no filme que vos fizemos.
Beijos grandes prima-vertical :-)
Texto muito bonito e de uma profundidade contagiante. Pena que tenha sido motivado por um acontecimento triste.
Um beijinho
Francisco
Ana,
Apesar de muitas coisas é sempre bom ter-se tido uma avó, uma avó como pertença.
Eu sempre tenho usado em alguns textos a frase: "Como dizia a minha avó". Trato-a de uma forma muito especial, embora quase não a tenha conhecido. Faço minhas tantas avós de tanta gente. É a minha avó nacional, da sabedoria pura, de compreensão eterna e absoluta.
Ao reler este texto eu quase que posso dizer: "Também morreu a minha avó".
Para todos vós, na família, as minhas sinceras condolências.
A mim preparou-me alguns tutus de ballet, em tule preto com florinhas brancas sobre maiôt preto. Mas nunca nos deixou trocar as sapatilhas cor-de-rosa por sapatilhas pretas.
Confortou-me muitas lágrimas de menina gorda. Ensinou-me o francês pelos livros do Asterix, como me indicou Hemingway ou Eça de Queirós. Tenho as suas receitas de culinária de alguns dos pratos que mais gostava de fazer.
Disseram-me outro dia que tenho as mãos dela, que são como as da minha Avó. Dizem-me muitas vezes que sou parecida com ela.
Deixou-me a capacidade de chorar mesmo quando não me podem confortar como ela, e a capacidade de sorrir pela felicidade de viver pelo Bem.
o que é uma coisa maravilhosas .Temos todos duas avós
Ó alfacinha, há Avós que morrem antes de as podermos conhecer e conviver com elas ... e neste caso, no que me diz respeito falo de uma Mãe, que como saberá 'há só uma'.
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