quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O meu avô e eu

Para o meu avô.


O meu avô morreu. Chamava-se Fernando Pessoa, mas não era poeta, era engenheiro.
Quando decidi estudar alemão na universidade, bateu-me nas costas três vezes. Disse-me que eu era a primeira da família a estudar Letras. (No peso da sua mão estava o peso da família inteira.)
O meu avô batia-me nas costas três vezes, quando eu fazia qualquer coisa acertada ou quando ele pensava que eu tinha feito alguma coisa acertada.
Também me disse que o alemão era uma língua fácil para quem tinha estudado latim. (O alemão é uma língua difícil, mesmo para quem tenha estudado latim, mas eu nunca disse isto ao avô.)
O meu avô não discutia as suas ideias: a própria ideia de discutir ideias irritava-o.
Ninguém discute com o avô Fernando.
O meu avô conta uma história e abre muito a mão direita para mostrar a dimensão da sua história, da sua inteligência, do seu feito. O meu avô conta uma história, várias histórias, mil e uma histórias, sempre as mesmas histórias. Fala dos pretos, de África, do Antigo Regime, diz mal de quase todos os povos, e todos o ouvimos respeitosamente. Ninguém discute com o avô Fernando.
Certo dia, quase sem querer, saí de Portugal. Estava na Alemanha há cerca de um ano e o meu avô sentou-se ao meu lado.
(Foi a primeira e única vez que o meu avô se sentou ao meu lado.)
Disse-me: Sobre essa tua decisão de viver no estrangeiro, interessa-me saber uma coisa. E nisto abriu a tal mão direita, para me mostrar o peso dessa coisa.
(Até então, eu não tinha consciência de ter tomado decisões na vida. A ideia de ter decidido viver no estrangeiro assustava-me.)
Prosseguiu: Eu queria saber, justamente, qual é o teu objectivo. E repetiu, apontando para mim: O teu objectivo.
Nessa altura e mesmo hoje em dia, fixar objectivos parece-me uma tarefa tão ou mais difícil do que aprender alemão, por isso, em vez de falar sobre temas difíceis, falei de outras coisas: da Alemanha, dos alemães, da importância daquela experiência. Falei também da Europa, de como era fácil viajar na Europa, de como o mundo estava tão perto. Disse-lhe ainda que queria estar sozinha, fazer qualquer coisa sozinha, descobrir qualquer coisa sozinha. O meu avô ouviu tudo isto com muita atenção, mas no final perguntou-me: E o teu objectivo? Qual é o teu objectivo?. Insistiu: Tens de ter um objectivo!. Encolhi os ombros. Respondi-lhe que o meu objectivo era conseguir. O meu avô bateu-me três vezes nas costas e levantou-se. Eu levantei-me também. Depois repetiu com o ar mais sério do mundo, como se o meu futuro começasse ali: O teu objectivo é conseguir.
O meu avô só não foi poeta, porque não quis.
Quando eu crescer, quero ser poeta. E conseguir como ele conseguiu. Para que ele me bata nas costas três vezes.

6 comentários:

Sara Bandarra disse...

Olá minha querida Ana, este é o texto mais lindo que o teu avô pode levar no coração para te guardar para sempre.
Um abraço muito apertado.
E guarda as três pancadinhas nas costas num lugar especial.

NoKas disse...

Tão bonito!!!! De certeza que vais "conseguir" como ele conseguiu. Beijinho grande

heretico disse...

uma avó "às direitas". sem dúvida ...

... e poeta, claro!

André F.Pessoa Silva disse...

Prima,

Gostei muito deste teu texto.

Sabes, sempre tive orgulho em ter no meu nome, o nome do Avô.

Embora sem o Correia, sou um Fernando Pessoa.

Somos todos um Pessoa, e como Pessoa que somos, admiramos desde sempre, e para sempre, o nosso Avô, que é, um Fernando Pessoa.

Admiro não só o Avô, mas também a Avó, e com os dois já aprendi muito e ouvi muitas histórias, que mesmo que já as tenha ouvido, nunca me canso de ouvir mais uma vez.

Todos os dias tento conseguir como o Avô conseguiu, para sentir que mereço ser um Fernando Pessoa.

Desde pequeno que quero ser engenheiro, só há pouco tempo me decidi pela especialidade, mas serei engenheiro, como o Avô.

Quero portanto que saibas, que como tu, este teu primo também quer conseguir como o Avô conseguiu, para um dia mais tarde receber três pancadinhas nas costas.

Beijinhos Prima =) até ao Natal

Anónimo disse...

Viemos hoje aqui ler, finalmente, este lindo texto teu sobre o teu avô, nosso cunhado e tio.
Muito, muito bonito, mesmo!
Gostámos muito e não nos é nada difícil imaginar o que contas e como contas. O teu avô era mesmo assim e, por tudo o que era, viverá sempre nos nossos corações.
Beijinhos da tia Lilita e do primo Zé Miguel.

Anónimo disse...

Sou afilhado dos teus Avós, Fernandos Pessoa. Sou amigo de infância do teu Pai, Fernando Pessoa e da tua Tia, Fernanda Pessoa. Eram e são a nossa família porque em Angola a família era constituída pelos bons amigos. Que saudades deixa o teu Avô. Quantas pancadinhas nas costas tivemos dos teus Avós e dos meus Pais.
Adorei o teu blog. Continua que vais conseguir.
Francisco Outeiro