sexta-feira, 30 de abril de 2010

A casa (VII)

Nunca tinha estado tanto tempo longe de casa, por isso, quando abriu a porta, surpreendeu-a o odor intenso da noite imposta, o som real e aturado do tempo nas paredes e nos tecidos da sala, como se a ausência fosse um corpo que ocupasse o seu próprio espaço, alimentando-se de si própria, do pó do parapeito, das madeiras mais-que-perfeitas. Correu os cortinados e o corpo do tempo ergueu-se das coisas, prolongou-se exponencial pela casa. Abriu as janelas da sala, as três janelas da sala. O corpo do tempo era feito de pequeníssimas partículas que emitiam luz como estrelas minúsculas. Essas estrelas morriam no primeiro contacto com o chão ou com o tecto ou com as mãos que estendíamos para elas. O corpo do tempo era frágil. Abriu as portas e as janelas dos quartos. Os seus passos eram estranhos à casa, pesavam sobre ela como relógios de cuco. As paredes espreguiçavam-se, contrariadas. Regressava às coisas com as mãos. Aos braços de napa do sofá, ao ferro forjado do porta-revistas, às rugas da tapeçaria, às arestas da casa dos livros, aos armários ocos da cozinha, à imagem reflectida no espelho, ao colo profundo do quarto, às mãos frias do azulejo. Tocava nos objectos com a ponta dos dedos, dedilhando-os, como se deles saíssem música. Nunca tinha estado tanto tempo longe da casa. Tão longe do tempo e de casa.
Sentou-se na cadeira de baloiço.
E baloiçou-se. Vagarosa. Absorta.
À espera que a casa voltasse.

3 comentários:

Sara Bandarra disse...

Encantador...fantástico, cheio de presença como o tempo.
É tão especial que nem encontro palavras para o dizer.
Um abraço enoooorme cheio de corpo!

Miuxa disse...

Nunca tinha pensado nisso, mas desconfio que a minha casa também teima em ter a sua própria existência. E aguarda a nossa chegada, como a gata.
Talvez seja verdade para todas as casas. A não ser que aquelas que vemos com janelas entaipadas, tijolo à vista por baixo do reboco esfolado, e grafitis por todo o lado, estejam já mortas.
Gostei muito do teu texto. Está também ele bem encorpado.

heretico disse...

gosto muito de "casas-âncora". que fundam o(s) tempo(s). e balançam caminhos...

amoravel texto.

cumprimentos.