sexta-feira, 19 de março de 2010

As cartas do pai parecem pautas de música

Para o melhor pai de todos.

O meu pai escreve-me cartas. São feitas de papel de verdade e vêm impecavelmente dobradas ao meio, como mapas de tesouros. As cartas do pai vêm dentro de envelopes de verdade que exibem selos de verdade e chegam às minhas mãos a meio da semana, misturadas com recortes de jornal. Rasgamos o envelope com os dedos ou então com os dentes ou então com uma tesoura ou com a ponta de uma caneta. Rasgamos o envelope de qualquer maneira. Lemos as cartas do pai antes de vermos as capas das revistas ou dos jornais que nos envia. Lemos as cartas do pai antes de tudo o resto. As cartas do pai demoram quatro páginas, as quais demoram todo o tempo do mundo. Cada página demora muitas letras. Cada letra é longa como uma semibreve. As cartas do pai parecem pautas de música, porque as letras são altas e delgadas como claves de sol e caminham ordeiras pelas páginas alvacentas. As cartas do pai parecem pautas de música, também porque têm o ritmo e o som de canções conhecidas. Contam-nos a história das horas e das pessoas, dos centros comerciais, da cidade de Lisboa, do fim-de-semana passado, do próximo fim-de-semana, das actividades da Dona Lina e da Dona Amélia, das peripécias do Dom Rodrigo, dos horários do filho que entretanto se fez pai. A letra do pai é atilada e traz adornos suaves nas pontas e nos acentos. Com as cartas do pai chegam outras histórias: recortes do Expresso, da Visão, da Revista Única, do Público, que são receitas de cozinha, entrevistas, faits divers de Hollywood, crónicas da Clara Ferreira Alves, reportagens sobre lugares desconhecidos no mundo. Não sabemos quanto tempo o pai se demora na escrita e nos seus recortes, quanto tempo se demora nos correios. Também não sabemos quanto tempo nos demoramos na leitura. Provavelmente todo o tempo do mundo, que é quanto demoram as quatro páginas. As cartas do pai viverão certamente mais tempo do que nós e, por isso, escondemo-las numa caixa que escondemos, por sua vez, na casinha dos livros. Faríamos o mesmo a outros mapas de tesouros. Nem sempre leio todos os artigos que o pai me envia, porque me falta o tempo ou o espaço ou outra dimensão qualquer. Também não respondo às cartas do pai. Provavelmente pelas mesmas razões. O pai escreve na mesma. Gostaria de ser melhor filha para merecer o melhor pai de todos, cujas cartas parecem pautas de músicas.

6 comentários:

Anónimo disse...

Fazes parte das 8, 10, 15 Maravilhas. Estamos todos à espera e a abanar o rabinho.
Não gosto de escrever gosto mais de fazer beijos gggrandes

Sara Bandarra disse...

O teu pai também tem a sorte de ter uma filha como tu, por isso é que ele escreve semanalmente. Como um músico que saboreia cada pauta que toca. Ele escreve com todo o tempo e amor do mundo.
O que vos une podia também se sentir na música, daquela que nos faz arrepiar os pêlos.
Abraço.

NoKas disse...

O que escreveste (o que eu acabei de ler) é tão bonito! Gostei mesmo! :D

Miuxa disse...

Mimem-se bem 'que é o que se leva desta vida'.
Eu diria antes que é aquilo com que se desfruta melhor esta vida.
Cá em casa somos um bocado de esconder sentimentos, mas também talvez seja mais fácil escrevê-los ao longe do que dizê-los ao perto.

Ou musicá-los.

heretico disse...

"pelos frutos se conhece a àrvore..."

terno, delicado e saborosíssimo texto.

a beleza comove...

beijo

Anónimo disse...

Adorable!

Ofelia