terça-feira, 1 de dezembro de 2009

História do cerco dos minaretes e das torres de igreja

1. A única altura na vida em que pessoana pensou em minaretes foi enquanto lia a História do Cerco de Lisboa. (O José Saramago prefere a palavra almádena à palavra minarete. A pessoana também.) A História do Cerco de Lisboa tem pouco mais de 200 páginas, pelo que a pessoana não passou muito tempo da sua vida a pensar em almádenas. As descrições de José Saramago são, porém, inesquecíveis e a pessoana jamais se esqueceria do almuadem cego e das escadas em caracol da almádena.

2. Numa certa época da sua vida, a janela da sala de estar da casa da pessoana tinha vista para a torre de uma igreja. Agora já não é assim, porque pessoana mudou de casa, mas nessa época, nos fins-de-semana, o homem ilimitado acordava muito cedo por causa dos sinos. Ela não. (Os sinos da igreja não a despertam; dão-lhe sono.) Por esta razão, e também pelo facto de ter tido uma educação católica (muito embora não tenha casado pela igreja) e não conhecer um único muçulmano (muito embora viva rodeada deles), a pessoana pensa mais rapidamente em sinos de igrejas do que em almádenas.

3. A pessoana percebe muito pouco (quase nada) de religião e arquitectura, mas tem para si que a almádena está para o islamismo como a torre da igreja está para o cristianismo, porque a almádena e a torre da igreja cumpriam, num passado mais ou menos longínquo, a função de chamar os crentes à oração. (Esta comparação, como é evidente, não é original.) Porém, nos dias que correm, a pessoana tem dúvidas quanto à função das almádenas e das torres de igrejas. Gostaria, aliás, de subir uma almádena ou a torre de uma igreja para perguntar aos fiéis e infiéis: Para que servem as almádenas e as torres das igrejas? A pessoana gostaria também de confessar o seguinte: por princípio, não tem nada contra a ideia de se começar a construir mesquitas sem almádenas, desde que as igrejas passem também a ser construídas sem torres. Tão simples quanto isto.

4. Se Portugal e outros países decidissem o seu futuro com base em referendos e noutras formas de democracia directa, é provável que muitas pessoanas votassem, por exemplo, contra a entrada da Suíça na União Europeia (os suíços decidiram – também por referendo – não pertencer à União Europeia). Muitas pessoanas não percebem nada sobre a Suíça nem sobre a União Europeia e, por isso mesmo, votariam contra a entrada da Suíça na União Europeia. No entender de pessoana e de outras pessoanas, o exercício da democracia directa exprime, não as vontades de um povo nem as suas convicções, mas sim os seus medos. Já se sabe que todos os europeus têm medo dos suíços, incluindo os próprios suíços. Os suíços, por seu turno, também têm medo dos muçulmanos, daí não quererem almádenas. A pessoana, por sua vez, tem medo dos suíços, dos muçulmanos e da democracia directa.

5. É por estas e por outras que pessoana acredita que se vive tão bem sem a democracia directa como se vive sem minaretes e torres de igrejas. A pessoana acredita também noutras coisas, mas não propriamente em Deus. Na verdade, a pessoana tem mais dúvidas do que crenças. Ou seja, é céptica. Isto deve-se, provavelmente, à sua educação católica.

3 comentários:

heretico disse...

1."Os sinos da igreja não a despertam; dão-lhe sono..."

2."É por estas e por outras que pessoana acredita que se vive tão bem sem a democracia directa como se vive sem minaretes e torres de igrejas..."

é por estas e outras que sabe bem vir aqui.

"invejável" texto.

NoKas disse...

Também tenho medo disso tudo. E tenho medo de ter medo, que estas coisas deviam era ser confrontadas...

Sara Bandarra disse...

Excelente texto.
Que referendo mais inacreditável!
Os minaretes e as torres não me incomodam, podem ser obras de arquitectura. Incomoda-me o facto de se ter de chamar pelos fiéis. Se cada religião se der ao direito de chamar os seus fiéis à hora que lhe apetece, ou até, ao mesmo tempo. Temos os dias muito coloridos com sons.
É inacreditável como o homem consegue que a religião que deveria gerar união, gera tantas guerras.