quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Escola e cidadania

 O mais velho começou a ir à escola. 

Tem quase três anos e agora também tem uma mochila e uma marmita.

Conheci a educadora à porta da sala de aula, ela de máscara, eu de máscara. Não sei nada sobre ela além do primeiro nome e ela não sabe nada sobre mim, nem sequer o meu primeiro nome. Na perspetiva da educadora, eu sou mãe de alguém. Mais nada.

O mais velho lá fica, com a sua mochila, a sua marmita e o seu primeiro nome. Eu fico a vê-lo, muito pequeno e perdido no meio de outras crianças igualmente pequenas e perdidas, e penso que talvez isto não esteja lá muito certo, que a escola se calhar não devia ser assim tão brusca.

Na verdade não sei como é que estas crianças pequenas e perdidas passam o dia; se riem, brincam, cantam e escutam, se a educadora as trata bem e lhes conta histórias, mas tenho esperança de que assim seja, espero bem que a educadora lhes conte histórias, que saiba imitar as vozes dos animais, que seja criativa, paciente e responsável. Que os miúdos se divirtam uns com os outros, que aprendam uns com os outros.

O que fazer senão ter esperança?

Tenho esperança na escola pública e no ensino obrigatório. Tenho esperança na progressão por etapas, desde a pré-primária até ao nível superior. Tenho esperança também nesta educadora de quem não sei nada além do primeiro nome.

Pode ser uma ilusão minha, uma fantasia, um delírio até, mas o que é a esperança senão um sonho, uma quimera, uma orientação inventada?



Bem ou mal aí está ele, o meu filho em sociedade. 

Vejo-o ao longe e espero que se dê bem na escola, espero que aprenda a ler e a escrever, claro, e também a somar e a dividir, espero que ache importante saber umas coisas sobre rochas vulcânicas, recursos naturais e circuitos elétricos, que se interesse minimamente pelo Império Romano e pela União Europeia, que aprenda a fazer cambalhotas e dê uns toques de voleibol, que adquira noções básicas de Geometria Descritiva, mas acima de tudo a minha maior esperança é a de que a escola faça do meu filho um bom cidadão. Espero sinceramente que a escola seja um espaço de diálogo, reflexão e crescimento. E que nos próximos anos o meu filho aprenda na sala de aula e também no recreio, no refeitório, no ginásio, na biblioteca, no bar e nos corredores da escola que vale a pena acreditarmos em alguma coisa, que a liberdade nem sempre é livre, que a sociedade não é pêra doce, que a lei existe e deve ser cumprida, que ele se deve indignar perante a injustiça, que ele é dono do seu corpo e da sua vontade, que a escola determina muita coisa na vida e o Estado também, que nem sempre vamos concordar com os nossos professores, que nem sempre estaremos à altura do desafio, que nem tudo é consensual nem opcional, que fazemos parte de um momento na história da humanidade, que temos direitos e deveres, que a cidadania hoje é assim e amanhã há de ser outra coisa, que é mais fácil destruir do que construir e que, de vez em quando, convém pôr em causa isto tudo: a escola, a cidadania, a obrigatoriedade. Vejo o meu filho ao longe e penso que se calhar não andamos a fazer isto muito bem. Que se calhar também os adultos deviam ir à escola aprender a ser pais e cuidadores, porque só um bom cidadão pode ser um bom pai, só um bom cidadão pode ser um bom profissional e um bom amigo, um bom artista, um bom condutor, um bom parceiro. 

No emprego, na escola, no café, na fila do supermercado, nos transportes públicos, e até na cama, o que está em causa é sempre a dignidade humana. 

A cidadania não é uma disciplina. É isto tudo. É a nossa quimera. É a nossa esperança. 

É a escola da vida.