segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ir ou voltar

Dezoito e quarenta e cinco, lá estão os ecrãs gigantes, TAP Portugal, números, letras. Malas grandes e coloridas, pequenos mistérios. Turistas de boné, rostos escarlates, pessoas com ar importante, óculos escuros, missão impossível. Arrasto as minhas rodinhas para a fila. Olho para o meu BI, estava com o cabelo diferente naquela altura, foi naquele cabeleireiro da Flagey. Felizmente, o drop off tem pouca gente, vai ser num instante. Sorriso chapa cinco, boa viagem. Quando é que voltas? A pergunta confunde-me, não sei se estou a ir ou a voltar. Como? Por ser bonita e formosinha, tenho direito à fila prioritária da segurança, o que é ótimo, dá para choramingar mais rápido. Olho para trás, adeus, adeus, sorriso chapa cinco, vou. Um segurança bem-parecido. Computador? Líquidos? Um cremezinho para as mãos, se calhar? Uma garrafinha de água? Digo Não quatro vezes, tiro o relógio. Nunca sei se é para tirar o relógio. Uns dizem que sim, outros dizem que não, não é coerente. Passo no raio-x, não apito, yeeeah, ninguém apalpa o meu terreno hoje. Tenho tempo. Caminho devagar, devagarinho, o mais devagarinho possível, estou quase parada, sou uma tartaruga. Passo na Alma Lusa. Nunca compro nada na Alma Lusa, mas gosto de ver os turistas escarlates a comprarem canequinhas do 28, carteiras de cortiça, um pin do Santo António, um azulejo. Turistas felizes em Lissabon, ridículos. Porta de embarque 22, vou andando. Compro uma água Luso no café, 50 centilitros. Não tem 65 cêntimos ou 15 cêntimos? Faço-me difícil, Não, não tenho (preciso de trocos para a máquina dos chocolates). Nunca percebi o problema dos trocos em Portugal. Onde andam as moedas? Penso na piscina do tio Patinhas, grandes mergulhos que eu dei no mar. Porta 22, cá estamos. Afinal não, é um voo para Porto Santo. Pergunto à farda da TAP, muito composta atrás do balcão. O voo para Bruxelas é na 23, mudaram de porta. Aaaaaah, a praia de Porto Santo. Fico indecisa, era bem bom. Passageiros para o voo TAP Portugal com destino a Milão, por favor, queiram embarcar na porta Y. Porquê embarcar se já não há caminhos marítimos por descobrir? Devíamos dizer aviar, por exemplo. Passageiros para o voo X queiram aviar na porta Y. Assim é que era. Chego à porta 23, pessoas sentadas. Olho para o chão, vou super-mega-rápido até a um banquinho vazio e sento-me sossegadinha. Abro uma revista, espeto o nariz lá dentro. O meu objetivo é nunca olhar à minha volta, para não dar de caras com caras conhecidas, porque depois tenho de participar num diálogo monossilábico muito chato e eu não sei assim tantos monossílabos como isso: Olá, olá. Já vai pra lá, né? Pois, tem de ser. Com o sol que tá por cá… Pois é. Cruzes canhoto, que neura, não me apetece. Leio um artigo sobre qualquer coisa. Uma criancinha aproxima-se de mim com um balão vermelho, não dá para ignorar. Tiro os olhos da revista, sorriso chapa cinco. A criancinha atira-me o balão desajeitado, levo com ele no trombil, sensação agradável. Os pais riem-se, que filhote tão atrevido. Brinco um bocadinho com a criancinha e depois dou uma pancadita mais forte no balão para me livrar dos dois (do balão e da criança, sorry). Espeto o nariz na revista. Senhores passageiros, não-sei-quê, problema na aeronave, temos pena, atraso e tal, voo previsto para as dez e cinco. A moça à minha frente desata num pranto daqueles, até tira os óculos para chorar melhor, tinha provavelmente um compromisso importante em Bruxelas ou então só uma birra de sono, não sei. De qualquer forma, merecia um abracinho, mas ninguém lhe dá um abracinho, pessoas insensíveis. Os turistas escarlates em Lissabon ainda não sabem de nada, porque não falam português, continuam felizes e ridículos. Aí vem a versão em inglês, ladies and gentlemen, mega suspense. Fico a olhar para os turistas, I see you baby, a ver o pôr-do-sol nos seus rostos, sou cruel. Os passageiros frequentes vão logo para a filinha indiana, têm direito a um voucher de 16 euros para comerem uma pizza ou um hambúrguer enquanto esperam, bem bom. Olha, sempre dá para ver a final. Espanha ou Itália? Não consigo escolher, é aborrecido não torcer por ninguém. Atiro mentalmente uma moeda ao ar, Espanha cara, Itália coroa, e sai-me Itália, o que até faz sentido, porque inventaram o tagliolini e o fettuccine e eu gosto das duas coisas. Também quero comer e ver o jogo, mas a fila dos índios nunca mais anda, é sempre assim. Já não há lugares em frente às televisões e não me apetece ficar de pé. Fico então de costas e peço um hambúrguer com molho à café ou lá como se chama, come-se. As pessoas aplaudem cada vez que os espanhóis marcam golo, parecem contentes. Os portugueses contentam-se com pouco. Misteriosa alma lusa. Levanto-me, vou à casa de banho. A utilizadora anterior da sanita que me calha na rifa não puxou o autoclismo, primorosa menina. Lavo as mãos e saio. O ecrã diz-me que afinal o voo é só às vinte e três horas. Uma senhora atrás de mim repete umas vinte e três vezes: Vingt-trois heures, vingt-trois heures, vingt-trois heures. Não tarda, leva uma lambada. Concentro-me, faço contas: um pacote de maltesers deve ter praí uns 10 maltesers. Se eu comer uma bolinha de 12 em 12 minutos, tenho maltesers para duas horas, pensei, nada mau. Vou então comprar maltesers na máquina, sento-me algures e ponho-me a escrever este texto da treta. Também compro um café para não me dar o sono antes de entrar no avião. Entretanto reparo que já não tenho maltesers. Devo ter comido um malteser por segundo, não faz mal, estava distraída. Os espanhóis ganharam 4-0, surreal. O resultado lembra-me as cabazadas que eu levava do meu irmão naqueles jogos de computador. O ecrã diz-me que o voo vai sair a horas, salvo seja. Finalmente, o embarque começa, é a aviar. Entro no avião e sento-me no meu cantinho à janela: 13 A. Bem-vindos a bordo. A sua segurança é muito importante para a TAP. Continuo a escrever este texto da treta, porque não me apetece inventar coisas novas, estou muito bem assim, nesta história de verdade, eu gosto. Neste avião, existem 8 saídas de emergência, dá sempre jeito saber. De repente, apagam-se as luzes, fico às escuras com o meu caderninho. Eu bem queria escrever este texto da treta, mas assim não dá. Nos lavabos também existem máscaras de oxigénio, também é bom saber. Descolamos a horas, quer dizer, às vingt-trois heures. Lá em baixo, a cidade com luzinhas. Lá em baixo, dava para escrever, penso. Cá em cima, não dá. Isto de estar às escuras dá-me um sono incrível. Aviei.

2 comentários:

Sara Bandarra disse...

EHEH... Até breve... (snif)

Rita disse...

Este post é tão bom que me dá vontade de citar tudo. Alguém que menciona a piscina do Tio Patinhas terá sempre o meu maior respeito. Eu gostava daquele cabeleireiro em Flagey. Uma vez também chorei quando o voo atrasou, nem sei bem porquê. Mas bom, para mim era sempre ir.