quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A casinha dos livros - Parte I

Naquele domingo decidiu arrumar a casinha dos livros. A casinha dos livros não era uma casinha propriamente dita e muito menos uma casa, porque não tinha um telhado nem uma casa de banho nem uma cozinha nem uma lareira na sala de estar. De resto, a casinha dos livros tinha tudo o que as casas tinham, incluindo portas, janelas, divisões, uma despensa e um sótão e ainda um rés-do-chão, um primeiro andar, um segundo andar, um terceiro andar, um quarto andar, um quinto andar e um terraço com vista para a casa. Contudo, não era uma casinha propriamente dita e muito menos uma casa. Era, somente, um armário de madeira com dois metros de altura e um metro e sessenta de largura, e quatro portas de vidro, de onde se avistavam as vidas dos livros. Naquele domingo decidiu arrumar a casinha dos livros mas, na verdade, a sua motivação era outra, ficcional, anterior àquele domingo e a muitos outros. Essa motivação encolhia-se na prateleira mais profunda da sua cabeça, mas existia no seu corpo com a mesma intensidade que um coração ou um pulmão ou um fígado. Na verdade, não queria arrumar a casinha dos livros, mas apenas visitá-la, espreitar os seus livros nos seus quartos e deixar-se cair nas suas encadernações. Adormecer de exaustão nas folhas dos livros, com a cabeça em cima das palavras mais confortáveis. Esta era a sua motivação real e essa motivação era anterior a tudo o resto. Encarou a casinha dos livros de frente, primeiro à distância e depois ao perto, com o mesmo entusiasmo com que Gretel olhou para a casa de chocolate. O mesmo apetite, o mesmo impulso. Abriu as portas da casinha dos livros como quem abre um cofre ou um tesouro e, de início, percorreu a casinha dos livros com os olhos, de baixo para cima e depois de cima para baixo, e logo a seguir com as mãos, o nariz, o ventre e a boca. Tinha uma relação promíscua com os seus livros e nem sempre os tratava bem. Por norma, não os tratava bem. Nunca os tratava bem. Tinha, por exemplo, o hábito de dobrar os cantos de certas folhas, marcando-as para sempre como os homens faziam ao gado ou a outros homens. Sublinhava as frases mais curiosas, mais estranhas, mais profundas. Usava para o efeito um lápis qualquer ou uma caneta qualquer, incluindo as de feltro. Também assinava e datava os livros como se fossem obra sua. Por vezes introduzia comentários nas margens das folhas, à toa. Abria-os exageradamente para os ler melhor e quando terminava, atirava-os para o lado de qualquer maneira. Os livros ali ficavam muito tempo, ladeando a cama ou o sofá como cãezinhos ingénuos ou porquinhos-da-índia ou qualquer outro animal igualmente estúpido. Na maior parte das vezes, levava os seus livros para a cama. A páginas tantas, se não a satisfaziam, fartava-se deles, batia-lhes e devolvia-os à casinha dos livros. Enquanto pensa nesta sua relação com os livros, apercebe-se, agora mesmo, de que a sua cama é maior do que a casinha dos livros. A sua cama é maior do que muitas coisas porque tinha sido feita para um rei (king size). A sua cama é, exactamente, vinte centímetros maior do que a casinha dos livros. Dir-se-ia que, naquela casa, na sua vida, há mais espaço para dormir do que para ler. Este pensamento chegava novinho em folha à sua cabeça e surpreendia-a. Não tinha a certeza de que gostasse mais de dormir do que de ler, mas era provável que sim. Estava, agora, na casinha dos livros. E falou para eles da mesma maneira com que falava para as suas plantas, de cima para baixo, sorrindo sempre. Era mais carinhosa com as plantas do que com os livros. Muito mais carinhosa com as plantas do que com os livros. Não era carinhosa com os livros. No entanto, gostava mais deles do que das plantas.
A sua forma de amar era cruel.

(continua)

8 comentários:

Sara Bandarra disse...

Que texto fantástico!!!!!!!!!!!!!!
Tu és uma excelente escritora.
Um dia muitas pessoas vão mal tratar os teus livros como tu, adorando-os, deixando que eles façam parte das suas vidas. Vão ser importantes para as suas vidas.
Um abraço

Magui disse...

Revejo-me neste texto! Como gosto de maltratar os meus livros! Maltrato-os com muita ternura! À noite encho a cama de livros. Já deitada decido qual ou quais vou ler.
Depende do estado de espírito, do sono ou da falta dele, do grau de cansaço que sinto. Posso nem ler nenhum, o que é raro, mas eles têm que estar ali à mão de semear.
De vez em quando "catrapuz". Lá vai um ou outro para o chão.
A meu lado,alguém me censura com frequência por eu os maltratar tanto, mas, como dizia um colega meu, mais vale perder um livro do que um bom leitor. Isto era a propósito de os pequenos alunos os poderem levar para casa naqueles tempos em que, na melhor das hipóteses,eram lidos em cima da toalha de plático ainda com restos de gordura e de nódoas de vinho.

Miuxa disse...

Eu penso que trato bem os meus livros. Colecciono-os de tal forma que já são como que o 'screen-saver' de parte da minha casa.
Mas houve duas excepções: um livro de Susana Tamaro, de quem tinha lido um outro muito giro. Mas desta vez descobri no fim do primeiro conto que o tema era abuso de crianças; fiquei tão chocada que fui pôr o livro no lixo. Um comportamento de tal maneira descabido que o André ficou surpreendido e tirou o livro do lixo dizendo - "ò Mãe, não se deitam livros no lixo !...?".
A segunda excepção é um livro de um escritor português que no final do primeiro conto, a propósito de uma morte acidental de uma criança, fala de automutilação por sentimentos de culpa. Um pavor !
Livros negros para mim são como se me tratassem mal, fazem-me mal, e não gosto deles.
Os teus contos não, os teus contos são um doce, podia continuar a forrar a minha casa com lombadas de livros de contos teus.

pessoana disse...

Uau! A casinha dos livros trouxe uma série de visitas simpáticas a este blogue. Obrigada por estes vossos contributos.

Miúxa, eu até gosto de livros negros. De resto, estou com o André, não consigo deitar livros fora. Mas vejo-me livre deles por outras vias.

Quanto ao (possível) livro, Sara, se ele tiver ilustrações tuas, tenho a certeza de que ninguém o maltratará, porque ninguém fará mal às tuas personagens.

Estou a ver que o homem ilimitado saiu à Magui. Tem, à vontadinha, uma dúzia de livros na mesinha de cabeceira.

buba disse...

Tem graça, eu normalmente leio um livro só, do princípio ao fim... Só me acontece andar a ler em paralelo um livro menos interessante, nos "intervalos", quando não tive tempo ou inspiração para comprar o seguinte (sim, porque tem de haver sempre um ou vários, mas "em fila"). Porque, é engraçado, tenho de ler sempre o livro até ao fim, nem que leve um ano, nos intervalos!

Magui disse...

Compreendo a atitude de Buba, mas devo referir que os livros a que me referi são de diferentes categorias: uns são romances, romances, bons romances com um enredo e ou considerações que me fazem pensar, que exigem maior concentração. Outros são contos. Mais levezinhos! Mas também há aqueles de que gosto muito que tratam temas científicos. E, para aquelas noites de maior cansaço, ainda há as revistas...

Antes de deitar não me esqueço nunca é de ver o teu blogue.

Sara Bandarra disse...

Já agora também quero dizer que tenho sempre muitos livros na minha mesa de cabeceira. Às vezes também caem no chão.
Por vezes fico a olhar para o livro, com ele, ou sem ele, na mão, quero ler, mas o sono vem mais depressa e adormeço.
Também não gosto de livros deprimentes, apesar de gostar de histórias que fiquem perto do ser humano, da terra.
A minha escolha varia conforme eu vario.
Gosto de ler, apesar de ler pouco.
Um abraço!

heretico disse...

espreme-os! que deitem tudo...

excelente, claro!