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sábado, 8 de março de 2025

Com paus, conchas e pedras

No hemisfério norte, tudo muda. Mas enquanto umas coisas mudam de repente, outras avançam pé ante pé. No momento em que o multilateralismo acaba de forma quase abrupta, a primavera pousa devagar nos telhados.

Os chefes do mundo não ignoram os benefícios da meia-estação. Nada podem contra o pólen e as alergias, claro, mas em geral é mais prudente travar a guerra em dias longos e amenos. 

Por outro lado, os chefes do mundo também estão cientes de que, quando os pássaros piam mais alto, é francamente mais fácil ter esperança. Já se sabe que a primavera é propícia a motins e revoluções. A tirania depende menos dos opressores do que dos oprimidos.

No outro dia, dancei como uma louca no concerto do Branko, onde também estava Dino d’Santiago. Há anos que não dançava tanto, que não ria tanto, que não gritava tanto, os cabelos colados à nuca. 

Aquela música como um mantra: “Vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, vai dar tudo certo.”

Na semana passada aterrei em Lisboa e indignei-me um pouco com a barafunda de carros e luzes, não tanto por causa do trânsito, mas pela constatação óbvia de que a cidade vive bem sem mim. Há uns dias sublinhei duas frases da Leila Slimani que têm alguma coisa que ver com isto. No fundo ainda quero pertencer à cidade. Ainda quero que a cidade me queira.

Ouvi na rádio o novo single da Capicua. Dizia assim: “Por cada grunho, um punho em sentido contrário”. Aumentei o volume, cantei também. Eu ainda quero mudar o mundo.

O meu filho pede para ir à praia. Sim, sim, havemos de ir, disse-lhe eu, e depois expliquei-lhe que não podíamos mergulhar na água. Ele esclarece que quer “apanhar paus, conchas e pedras para construir uma casa muito grande”. Levo-o então a apanhar paus, conchas e pedras, e deixo-o trazer a sua colheita para casa. 

De regresso a Bruxelas, o meu filho pega na pasta de modelagem e apressa-se a construir uma casa muito pequenina, que rodeia de paus, conchas e pedras.

Entretanto, ainda no hemisfério norte, há edições estrangeiras dos meus livros. Um chegou à Turquia, outro à Catalunha, outro à Grécia. O título da karateca em catalão é qualquer coisa. Não percebo nenhum destes idiomas e isso emociona-me.

Não vai ser fácil atravessar estes tempos. Lemos a palavra “defesa” demasiadas vezes por dia e, enquanto os países se enchem de tanques e explosivos, vamos nós ficando sem defesas. Andamos todos doentes, cansados, stressados, distraídos.

Apesar disso - ou talvez por isso -, rego mais vezes as plantas, seguro a porta para os vizinhos, abraço os meus pais com mais força, esforço-me a fazer o jantar, vou a concertos, leio, escrevo. Por outras palavras, renuncio ao desespero. Por outras palavras, alimento ativamente o otimismo.

Aquele mantra cá dentro: Vai dar tudo certo. Vai dar tudo certo. Vai dar tudo certo.

Mais do que nunca, precisamos do nosso punho, da nossa presença, do nosso riso. Não podemos acabar com o sofrimento. Isso é certo e sabido. Mas podemos continuar a construir. 

Com paus, conchas e pedras. 

Com espírito de missão. 

Com esperança.









quinta-feira, 30 de junho de 2022

A boca que não fala

Um dos minorcas abriu a porta da casa de banho no momento em que eu saía do meu merecido duche. Apontou para o meu corpo nu. Disse “maminhas”. Disse “umbigo”. Disse “pilinha”. 

Perguntei-lhe se tinha certeza em relação à pilinha. Ele olhou melhor e respondeu em tom de pergunta: “Boca?!”

Chocou-me que não conhecesse o termo correto, mas subscrevi rapidamente a sua interpretação e acrescentei que sim, era uma boca, mas não falava. Depois tirei nota desta minha descrição, que me pareceu adequada para os tempos que correm. 

Eis uma boa frase para escrever numa parede ou para bordar num lenço dos namorados: “A vagina é uma boca, mas não fala.”

A propósito de vaginas: um dos meus livros acaba de ser traduzido para inglês. A editora pediu-me com esmero e preocupação para retirar um curtíssimo diálogo em que se fala sobre o período, sobre tampões a incharem dentro da vagina, sobre pensos higiénicos com e sem alas, sobre dedos cheios de sangue, sobre o nojo dos rapazes perante a ideia de uma vagina a sangrar e sobre a vontade incontrolável que sentem, ainda assim, de enfiarem os dedos pela vagina dentro. 

Fiz uma contraproposta, em que mantinha os tampões, os pensos higiénicos, os dedos cheios de sangue, o nojo dos rapazes, mas suprimia o desejo. A editora aceitou e a minha vagina conformou-se em silêncio.

No outro dia comi um hamburguer num restaurante americano. Enquanto mastigava a minha sandes, beberiquei uma coca-cola e ruminei a canção do Sinatra que pairava no ar. Às tantas topei um cartaz atrás da minha mesa e engasguei-me. O cartaz dizia assim: “There is a new yorker in every city”. 



Praguejei em português e não em inglês ou francês, o que diz muito mais sobre mim do que o Sinatra ou a coca-cola que estava a beber.

Fomos a Nova Iorque há uns anos. Como todo o dedicado turista, tiramos fotos à estátua da liberdade, passeamos no Central Park, subimos ao Empire State Building. Vimos muita arte, muito arranha-céu, muito teatro. Tive um ataque de riso num stand up como nunca jamais na minha vida, chorei baba e ranho num musical da Broadway. Mas vimos acima de tudo muita pobreza e miséria, muita gente suja, perdida, louca. Pessoas deitadas no chão, a falarem sozinhas, um homem a defecar no meio do asfalto. Vi dois tipos aos gritos num parque infantil. “You shut the fuck up”, gritava um deles. 

Não conheço mais nada nos Estados Unidos, mas sei muito mais sobre Los Angeles, Las Vegas, Texas e Alasca do que sei sobre as Astúrias, a Bretanha, a Toscânia, os países bálticos, os balcãs, os escandinavos, já para não falar da Ucrânia e da Rússia. 

Algo em mim se revolta com a enorme intromissão deste hamburguer americano na minha existência. Talvez o meu estômago. Talvez o meu coração. Talvez a minha vagina.

Estranho país os Estados Unidos. Todos podem e devem acumular propriedade, dinheiro, fundos, produtos em abundância: granadas, espingardas, cosméticos, drones, ativos, ações, calças de ganga, banha da cobra. Os mais oportunistas poderão crescer à custa dos outros, contratando-os, explorando-os, controlando-os. Os mercados são livres, assim como os preços e a concorrência. O Estado regulamenta o mínimo possível. A bem da economia, do crescimento e da escolha, claro.

Mas no que toca ao corpo de uma mulher já não é bem assim. No que toca ao corpo de uma mulher, já não é de todo assim. 

És dona da tua casa, do teu empreendimento, do teu capital, mas de súbito já não és dona do teu corpo. O corpo de uma mulher, no país das oportunidades, é agora altamente legislável, altamente controverso. O corpo de uma mulher é propriedade pública.

Nos Estados Unidos da América o que deveria ser público é privado. O que deveria ser privado é público. 

Eu não sou nova-iorquina. Vivo em Bruxelas há anos e não sou belga. Saí de Portugal demasiado nova e também já não sou bem portuguesa. Ainda assim, prefiro mil vezes um prego a um hamburguer.

Para que interessam as fronteiras, as bandeiras, as nações? Raios partam o imperialismo americano, o imperialismo russo e todos os demais imperialismos com os seus ideais muito retrógradas de expansão, domínio, conquista e progresso.

Sou europeia, sou carnívora, sou fadista até mais não. Sou mulher. Tenho uma boca calada e outra tagarela.


O que se passou nos Estados Unidos é uma afronta à democracia, à humanidade e à liberdade.

As vaginas não falam, mas sentem. Não há um nova-iorquino em todas as cidades, mas há uma mulher em todos nós.

A luta continua. Ainda temos muito para andar.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Vermelho em Belém

amanhã não tenho planos

mas no próximo sábado

se o vírus deixar

e isto não acabar

hei de ir à embaixada

muito aperaltada

com uns brinquinhos 

e os lábios vermelhos

hei de entrar aos saltinhos

e votar com um beijo💋


#vermelhoembelem


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Pensar europeiamente

Hoje de manhã, depois de deixar os minorcas na creche, enfiei a máscara no focinho e os auscultadores nos ouvidos, e vim pela rua fora a perscrutar o último episódio do Governo Sombra. 

Logo a abrir o programa, a propósito de uma situação clássica das redes sociais em que uma frase ofensiva é tirada do seu contexto, ouvi o Ricardo Araújo Pereira dizer uma frase que eu também vou tirar do contexto:

“Nós aqui no Governo Sombra temos sido muitas vezes acusados de, em matéria de liberdades de expressão, pensar europeiamente.”

E de seguida discursa sobre a liberdade de expressão, definindo-a como sendo, por um lado, o direito de dizermos "coisas que objetivamente têm o potencial para ofender outras" e, por outro, o direito de as outras pessoas "se sentirem ofendidas”, advertindo logo a seguir que, no espírito dessa mesma liberdade de expressão, as pessoas ofendidas “não têm o direito de não ser ofendidas e também não têm o direito de, por uma interpretação, seja ela correta ou errada, por má fé ou ingenuidade, mandar calar" quem as ofendeu.

Continuei rua fora a auscultar o Governo Sombra enquanto pensava europeiamente que “pensar europeiamente” é de facto isso mesmo. É reconhecer que ninguém manda calar ninguém, que ninguém está acima dos direitos e liberdades do outro. 

Por outras palavras, pensar europeiamente é admitir que somos todos iguais perante a lei. É acreditar nessa igualdade e também na liberdade de expressão e em todos os outros direitos e liberdades que parecem tão evidentes, mas afinal são tão frágeis.

Numa altura em que estamos tão fartos disto tudo e tão cheios de medos e dúvidas, a tentação de ceder à fúria, à repulsa e à divisão é grande. Numa altura em que o mundo inteiro se vê a braços com uma pandemia sem precedentes e um capitalismo indomável, não é demais falar da Europa e de tudo o que ela significa cá dentro e lá fora. A extrema direita é uma ameaça real a tudo o que se construiu na União que, embora imperfeita, é o que há de melhor no mundo.

Hoje faltam-nos os beijos e os abraços, mas não é difícil imaginar um futuro mais ou menos próximo em que nos falte muito mais do que isso: água, comida, produtos de higiene, medicamentos, combustíveis, transportes públicos, oxigénio.

Pensar europeiamente é defender a Europa, e eu cá sou europeia até à medula.

Quero viver num espaço feito de liberdade, solidariedade, diversidade e justiça. Onde todos temos direito à vida, à dignidade, à segurança, à educação. Onde o trabalho infantil, a tortura e a escravidão não são tolerados. Onde temos direitos como trabalhadores, como pacientes, como consumidores, como passageiros, como turistas, como contribuintes, como arguidos. Onde os mais vulneráveis são protegidos: os mais velhos, os mais novos, as pessoas com deficiência. Onde a arte e a ciência são livres. Onde a diversidade cultural e étnica é respeitada. Onde cada um tem a orientação sexual, partidária e religiosa que quiser. Onde nos tribunais todo e qualquer cidadão é considerado inocente até prova em contrário. Onde todos os dias se luta contra a discriminação, o racismo, a xenofobia, a violência. Onde todos os dias se luta pela igualdade, pela sustentabilidade, pelo ambiente. Onde os nossos dados são protegidos. Onde todos nós podemos atuar, acedendo a informação, tomando iniciativa, assinando petições, recorrendo a tribunais, e também elegendo e sendo eleitos.

É verdade que a Europa não é (ainda?) esse espaço de que falei, mas se olharmos para o resto do mundo, a União Europeia é a que está mais próxima dessa realidade.

Pensar europeiamente é partilhar desses valores e é sobretudo defendê-los quando alguém os infringe ou ameaça.

E por isso vos digo que, enquanto eu tiver o direito a eleger, não hei de votar em quem não partilha dos valores europeus. Não hei de votar em quem incita ao ódio e à divisão. Em quem usa a violência verbal  no lugar da diplomacia. Em quem discrimina em vez de acolher. Em quem mete o dedo na ferida e identifica inimigos sem apresentar um único plano de resposta.

Se há coisa que esta pandemia veio demonstrar é que devemos ter um plano. E é este o meu plano: Europa forever.

Claro que há coisas (tantas coisas!) a melhorar. Todos os dias assistimos à miséria, à violência, à imoralidade, à injustiça, à desigualdade, à fraude. Se calhar já vamos tarde para travar as alterações climáticas e o apocalipse.

Mesmo assim. 

Mesmo que isto dê tudo errado e um dia destes não haja água nem comida nem oxigénio para todos, quero ser representada por alguém que opte pela cooperação e pelo diálogo.

Acredito numa mudança construtiva. Acredito que, em vez da fúria e do ataque, precisamos de ponderação. Acredito numa mudança positiva feita por cada um de nós. Quando pensamos nas consequências políticas, económicas, sociais e ambientais das nossas escolhas. Quando optamos por certos serviços e produtos, quando resistimos ao facilitismo, ao consumismo, ao populismo. Quando lemos, questionamos, elegemos e exigimos.



Tenho sempre a sensação de que não sabemos muito sobre a União Europeia. Não acompanhamos o dia a dia nem sequer os grandes feitos. Somos tão autocríticos e europeus, que nem falamos das nossas conquistas.

Mas ao contrário do que pensamos, com todos os solavancos e incoerências, indícios de corrupção e indecência, a Europa tem avançado na boa direção. Só em 2020 foram assinados vários contratos para a aquisição de dois mil milhões de doses de uma potencial vacina contra o coronavírus; foi apresentado um pacto ecológico que pretende, entre muitas outras coisas, tornar o nosso sistema alimentar sustentável e eliminar completamente as emissões de gases com efeito de estufa até 2050; está a ser negociada uma diretiva que tenciona assegurar salários mínimos adequados para todos os trabalhadores europeus; foram aprovados vários documentos estratégicos sobre igualdade de género, migração e asilo, e luta contra o racismo; e provavelmente não estou a referir realizações tão ou mais importantes porque não acompanho assim muito a máquina europeia.

Bem sei que a Europa é lenta e burocrática. Mas quando falamos, por exemplo, de um instrumento de recuperação na ordem dos 700 mil milhões de euros para relançar a economia depois do vírus, é difícil pensar num acordo que não envolva muitas conversações e muita papelada.

O planeta é a prova concreta de que a vida não é uma corrida de velocidade, é um trabalho de resistência.

Há coisas vergonhosas a passarem-se na Europa. No mar Mediterrâneo, na Hungria, na Polónia, em todo o lado.

Mas quem vai gerar a mudança não são são os extremistas e arruaceiros. São os que resistem, os que acreditam, os que cooperam.

Os que pensam europeiamente.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Escola e cidadania

 O mais velho começou a ir à escola. 

Tem quase três anos e agora também tem uma mochila e uma marmita.

Conheci a educadora à porta da sala de aula, ela de máscara, eu de máscara. Não sei nada sobre ela além do primeiro nome e ela não sabe nada sobre mim, nem sequer o meu primeiro nome. Na perspetiva da educadora, eu sou mãe de alguém. Mais nada.

O mais velho lá fica, com a sua mochila, a sua marmita e o seu primeiro nome. Eu fico a vê-lo, muito pequeno e perdido no meio de outras crianças igualmente pequenas e perdidas, e penso que talvez isto não esteja lá muito certo, que a escola se calhar não devia ser assim tão brusca.

Na verdade não sei como é que estas crianças pequenas e perdidas passam o dia; se riem, brincam, cantam e escutam, se a educadora as trata bem e lhes conta histórias, mas tenho esperança de que assim seja, espero bem que a educadora lhes conte histórias, que saiba imitar as vozes dos animais, que seja criativa, paciente e responsável. Que os miúdos se divirtam uns com os outros, que aprendam uns com os outros.

O que fazer senão ter esperança?

Tenho esperança na escola pública e no ensino obrigatório. Tenho esperança na progressão por etapas, desde a pré-primária até ao nível superior. Tenho esperança também nesta educadora de quem não sei nada além do primeiro nome.

Pode ser uma ilusão minha, uma fantasia, um delírio até, mas o que é a esperança senão um sonho, uma quimera, uma orientação inventada?



Bem ou mal aí está ele, o meu filho em sociedade. 

Vejo-o ao longe e espero que se dê bem na escola, espero que aprenda a ler e a escrever, claro, e também a somar e a dividir, espero que ache importante saber umas coisas sobre rochas vulcânicas, recursos naturais e circuitos elétricos, que se interesse minimamente pelo Império Romano e pela União Europeia, que aprenda a fazer cambalhotas e dê uns toques de voleibol, que adquira noções básicas de Geometria Descritiva, mas acima de tudo a minha maior esperança é a de que a escola faça do meu filho um bom cidadão. Espero sinceramente que a escola seja um espaço de diálogo, reflexão e crescimento. E que nos próximos anos o meu filho aprenda na sala de aula e também no recreio, no refeitório, no ginásio, na biblioteca, no bar e nos corredores da escola que vale a pena acreditarmos em alguma coisa, que a liberdade nem sempre é livre, que a sociedade não é pêra doce, que a lei existe e deve ser cumprida, que ele se deve indignar perante a injustiça, que ele é dono do seu corpo e da sua vontade, que a escola determina muita coisa na vida e o Estado também, que nem sempre vamos concordar com os nossos professores, que nem sempre estaremos à altura do desafio, que nem tudo é consensual nem opcional, que fazemos parte de um momento na história da humanidade, que temos direitos e deveres, que a cidadania hoje é assim e amanhã há de ser outra coisa, que é mais fácil destruir do que construir e que, de vez em quando, convém pôr em causa isto tudo: a escola, a cidadania, a obrigatoriedade. Vejo o meu filho ao longe e penso que se calhar não andamos a fazer isto muito bem. Que se calhar também os adultos deviam ir à escola aprender a ser pais e cuidadores, porque só um bom cidadão pode ser um bom pai, só um bom cidadão pode ser um bom profissional e um bom amigo, um bom artista, um bom condutor, um bom parceiro. 

No emprego, na escola, no café, na fila do supermercado, nos transportes públicos, e até na cama, o que está em causa é sempre a dignidade humana. 

A cidadania não é uma disciplina. É isto tudo. É a nossa quimera. É a nossa esperança. 

É a escola da vida.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Poema à duração

Do Peter Handke li o Poema à Duração. Era um livro fino de capa branca, acho. Se bem me lembro, trazia na contracapa ou na página de rosto uma fotografia a preto e branco do autor. Era um homem com charme, achei eu na altura.
O que me levou a esse livro foi, em primeiro lugar, o título (e que belo título), depois a espessura (sempre li livros pequenos em alemão) e, por último, aquele homem que, além de trovador, era lindo.
Li e reli o Poema à Duração. Era longo e vinha carregado de sentido e de existência, achei eu naquela época. Tinha 22 ou 23 anos. Fiquei impressionada com o poema e também comigo própria, porque li o Poema à Duração em alemão numa edição alemã que comprei numa livraria alemã numa cidade alemã. Na altura achei que aquele encontro sentimental entre mim e aquele poema era o resultado de toda a minha vida, de toda a duração de todas as escolhas que me tinham levado à língua alemã e depois à Alemanha e depois àquela prateleira no fundo de uma livraria minúscula numa cidade alemã. O meu percurso até àquele encontro era longo e lírico como o poema do Peter Handke.



Anos mais tarde li outro livro do Peter Handke e não gostei muito. Acho que nem o acabei.
Agora, ao ler a notícia do Nobel, sinto que este encontro foi antes um desencontro. Ao contrário do que pensava, o Peter Handke nem sequer é alemão. E está longe de ser um homem bonito. 
Quanto a esse poema que tanto me impressionou, não me lembro sequer de um único verso. Sei que incluía substantivos abstratos e difíceis como este: duração.
Quanto tempo dura um poema?
Não sei.
Mas a literatura tem muito disto: palavras esquecidas que prosseguem algures, num outro tempo, numa outra duração.

sábado, 25 de maio de 2019

A Europa continua

Só nos últimos tempos:
Foi no Parlamento Europeu que se decidiu banir os plásticos de utilização única. Foi no Parlamento Europeu que se pôs fim ao roaming. Foi no Parlamento Europeu que se aprovou o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados. Foi no Parlamento Europeu que se avançou com a ratificação do Acordo de Paris.



A União Europeia existe e funciona. A Europa continua. E olhando para a nossa história recente, estamos muito melhor juntos do que separados.
Esta é a Europa que temos. Quem gosta, deve votar. Quem não gosta, também deve votar.
Amanhã lá estarei para fazer a minha cruz.

terça-feira, 16 de abril de 2019

As gárgulas de Notre Dame

A Notre Dame arde e eu penso nas gárgulas. Gosto delas como outros gostarão de santos, anjinhos e amuletos.
Os meus diabretes grotescos. A exibir ao mundo a natureza má.
Li uma adaptação do Corcunda de Notre Dame quando tinha 13 anos. O filme da Disney acabara de estrear.
Durante dias também eu era uma existência desfigurada e solitária. Vivia lá no alto da Notre Dame. E era eu quem tocava os sinos. Era eu quem vagueava pelas escadas da catedral. Os meus únicos amigos eram as gárgulas traquinas, que me segredavam coisas ao ouvido. Falavam-me de aventuras e de amor. Encorajavam-me a ver o mundo.
Segui o conselho desses pequenos demónios assim que pude. Fui a Paris pela primeira vez quando tinha 22 anos. Andava feliz e ampliada com a minha primeira máquina fotográfica. Era uma Kodak digital. Tinha um zoom bem bom.
Quando cheguei à Notre Dame, apontei a máquina às gárgulas e fiquei a vê-las. Os meus amigos malandros, diabinhos mais feios do meu coração.
A Notre Dame arde e eu penso nas gárgulas do Quasimodo. Hão de resistir ao fogo com os seus corações de pedra. Se calhar até se riem das chamas e ficam para ali a desviar a água lançada pelos bombeiros. É que as gárgulas, além de monstros travessos, também são desaguadouros. É esta a ironia do seu destino.
O tempo passa, a água corre, o fogo acaba. As gárgulas lá continuarão na sua vigília, no cocuruto da Notre Dame, a dizerem-nos que o mal existe, que o mal persiste e prossegue e avança.
Hoje vou sonhar com os meus monstros de pedra e medo. Com o seu sarcasmo lúcido e os olhos perversos.
Sempre à espreita e à espera da natureza má.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Tempestade de areia


Por vezes, nos dias maus, penso naquele último episódio da Tieta do Agreste. Naquela tempestade de areia absolutamente assombrosa que engole a cidade e as pessoas. Eu cá vi a telenovela, não li o livro. E lembro-me bem desse momento: um deserto inteiro a entrar pela minha vida dentro, a derrubar a minha infância. Um pedaço de nada a surgir do nada. E a verdade é que no final tudo acaba. O bom e o mau. O melhor e o pior. Fica só a areia e o vento. Nos dias maus, penso que o bom do aquecimento global é que isto vai acabar depressa. Numa tempestade de areia ou algo assim. Entrementes, enquanto por aqui andar, vou continuar a ouvir Caetano Veloso e a ler Daniel Galera. Espero ainda ir a tempo de pôr os pés num deserto e ler a Tieta do Agreste. Ler, acreditar, resistir. Por esta altura, a minha esperança mais esperançosa é que, um dia destes, algum artista brasileiro escreva um sambinha bem gostoso e democrático sobre o Bolsonaro. Sempre rima com aquela expressão: o barato sai caro. Eu quero dançar esse sambinha em homenagem ao nordeste brasileiro e a todas as terras a leste e a oeste em todas as regiões do mundo que vão ser engolidas, grão a grão, passo a passo, por esta impressionante tempestade de areia.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O nosso lifestyle newly revamped

Atenção: este blogue estreia-se finalmente nas últimas tendências do lifestyle. Espero que gostem deste espaço newly revamped, que brilha no escuro.

No comboio para Lille, folheio em alta-velocidade a revista da Eurostar, o gigante ferroviário que atravessa em regime de exclusividade o canal da Mancha e liga Londres às principais cidades dos Países Baixos, da Bélgica e da França. A revista chama-se Metropolitan, assume-se como publicação de lifestyle e é distribuída gratuitamente nos comboios que transportam mensalmente cerca de 800 mil passageiros. Na capa, a declaração de intenções: Food Culture Design & glow-in-the-dark ice-cream. A receita de sempre: futilidade ao mais baixo nível mascarada de requinte e sofisticação.
Passo os olhos pelos artigos. No início divirto-me com as expressões complicadas cheias de cores e texturas: sow cool, white hot, blue steal, cold comfort. Depois passa-me o conforto e instala-se de súbito o desconsolo da insatisfação, a angústia nervosa do consumismo.
É este o efeito das revistas lifestyle. A sensação de que algures na urban jungle há uma vida paralela muito melhor do que esta, com preocupações e necessidades muito mais refinadas. Os artigos publicitários e artificiosos vêm disfarçados de reportagens sobre as fashion boutiques e as concept stores. Gritam-me aos sentidos, dão-me ordens. Party like a Parisian, dizem-me. Grab a quick bite, smell the roses, join the locals. Don't miss. Don't let. Get ready. Pull up a deckchair. Uma pessoa apanha o comboio e sente-se logo em falta com a sua própria vida, porque não trouxe a manta de piquenique e não sabe onde ficam as culinary trends nem a vibrant nightlife. Além do modo Imperativo, os autores narram as suas descobertas fúteis quase sempre na primeira pessoa do plural. We love. We are crazy about. We kick up our heels. Nós: aquela entidade coletiva a que todos queremos pertencer, mas que ninguém sabe ao certo quem é. A experiência é comum a um grupo e, por isso, impõe-se. E é esta entidade coletiva não identificada que nos diz onde fica o buzz-worthy restaurant, onde devemos tomar um whisky-infused cocktail e onde podemos comprar statement socks, cool-kid jewellery e hipster-friendly gifts. Produtos disfarçados de conceitos. Conceitos disfarçados de coisas. Até as pessoas não são bem pessoas. São gourmet aficionados. São uma arty crowd. É difícil perceber a fronteira entre os artigos e a publicidade. Uma das secções chama-se Promotion e outra chama-se Publi-reportage. A linguagem é dazzling e cosmopolitan. Está repleta de hotspots, pit stops, pop-ups, start-ups, top-shops. Necessidades novas, soluções para problemas que desconhecíamos. Tudo isto pulverizado de vibrações e sensações. Um fresh spin, uma festive feel, uma viral sensation, um laid-back family vibe, etc.
Avanço pela revista vibrando de irritação e desânimo.
Em Amesterdão há uma professora de ioga que junta nas suas aulas uma manada de alunos e uma grupeta de cabras. A professora, inicialmente apreensiva em relação a este método, rapidamente percebeu os benefícios que resultam de abraçarmos uma cabra. Fica assim lançado o convite para hit the hay.
E tudo é cheerful, newly revamped, cosmopolitan, inspiring, outstanding, breath-taking e unforgettable.
Assim vai a sociedade ocidental. Caminhando elegantemente em sapatos de salto alto e com óculos escuros da Miu Miu para o precipício da superficialidade. Tudo going gaga com a latest craze. Cada vez mais obcecados com tendências e experiências. Todos tão sedentos de humanidade e pureza, mas cada vez mais sozinhos e infelizes. Afastados da vida, da natureza, dos outros e até de nós próprios.
No meio desta superficialidade a dar ares industrial-chic, o que importa perceber, julgo eu, é que a malta com dinheiro e poder nos media quer precisamente isso. Que nós, a entidade coletiva não identificada, continuemos a alta-velocidade, sentadinhos de preferência na classe turística, a sonhar com uma vida artificial cheia de brilhos e salamaleques, e a investir todo o nosso dinheiro e energia em coisinhas e eventos cheios de formas e sem qualquer conteúdo. Chego a Lille a sentir-me enganada e vazia de ideias.
Mas nem tudo é mau. Spice up your life, malta! Acabo de ler nesta revista que as Spice Girls poderão vir a juntar-se novamente. Zig-a-zig-ah! Eu não sou hipster-friendly nem gourmet aficionada, mas também não sou imune aos artifícios das tendências.


terça-feira, 25 de abril de 2017

A liberdade a subir a rua

A liberdade a subir a rua. Com as suas ancas visionárias, os pés intensos. A mascar pastilha. À escuta. A dobrar a esquina. Sem pressa. Sem frio. Talvez com fome. A liberdade de mochila às costas. De auscultadores nos ouvidos. Com aquele seu ar afogueado de pessoa enlouquecida. A ouvir música. A devorar medos e angústias. A pensar em queijo parmesão. Em manjericão. A liberdade a passar em frente às lojas. Em frente aos bancos e aos pedintes. Em frente às putas. A liberdade parada em frente a uma vitrine. Estática e inteira. Como um manequim. Como uma pessoa de verdade. A liberdade a ver-se ao espelho. A hesitar num pensamento. A tropeçar no passeio. Num sentimento de culpa. A liberdade à espera. A espreitar o horizonte com os seus olhos em chamas. A liberdade a entrar no autocarro. A enviar mensagens no WhatsApp. A ouvir um podcast. A rir sozinha. Às dez da manhã. Ao meio dia. A toda a hora. Permanentemente. A liberdade sempre. Em qualquer caso. Em qualquer lado. A qualquer custo. A liberdade flamejante. Obstinada. Omnisciente. Frágil. Cheia de soltura e de graça. A andar pela vida como se fosse a verdade. Permanente. Constante. Sozinha. Total. Livre.

terça-feira, 21 de março de 2017

Crianças com soldadinho

Está vento no mundo e também em Bruxelas. Uma fúria invisível a soprar a existência. Está tudo tão emaranhado. Não dá para ler nem escrever. Eu cá pareço uma planta enfiada na terra e não é nada mau ser uma planta enfiada na terra. As plantas estão tão bonitas agora. Olha para elas. Neste momento não vejo nenhuma planta, porque estou precisamente debaixo da terra. À espera do metro. Hoje é dia 21 de março.
Dei o meu primeiro beijo no dia 21 de março, por acaso. É mesmo verdade. Tenho jeito para datas. Sempre tive jeito para datas. Uma vez plantei uma árvore no dia 21 de março, Dia Mundial das Florestas.
O metro chega abespinhado. Gosto deste adjetivo: abespinhado.
Entro numa carruagem que vem cheia de crianças. Falam muito alto. Não percebo o que dizem, mas rio-me na mesma. Toda a gente se ri, menos a professora, coitada. A professora é macambúzia a dar com um pau. Dá ordens o tempo todo. Senta-te. Vira-te. Agarra-te. De vez em quando exalta-se. Grita: Michel, calme-toi!
As portas abrem-se. No dia 21 de março, Dia Universal do Teatro.
Um soldado entra. Vem muito bem armado e apessoado, a farda verde e castanha, uma boina no toutiço. As crianças param de falar e olham para ele, até mesmo o tal Michel, que agora só tem olhos para o militar. Na perspetiva das crianças, o soldado é enorme. Parece um penedo visto de baixo. As crianças sorriem para o soldado gigante e o soldado sorri para elas. Um momento de silêncio para a professora, que agora também sorri e agita a cabeça para endireitar o cabelo. Uma criança pergunta: O que tem dentro desse bolso? O soldado balbucia qualquer coisa, mas eu não percebo o que diz. Talvez diga: Neste bolso trago munições para a minha metralhadora. Uma criança pergunta: E naquele bolso? Não percebo a resposta, mas imagino: Neste aqui trago umas granadas. Uma das meninas toca no soldado com a ponta dos dedos. A professora diz: Deixa o senhor em paz. A menina sorri, o soldado sorri. Uma criança pergunta: E isso aí pendurado no cinto? É outra arma? O soldado explica: É um bastão. A professora acrescenta: Como o dos polícias de verdade. Uma criança pergunta: O senhor não é um polícia de verdade? O soldado diz: Não. Sou um soldado. Uma criança pergunta: Quem é que vale mais: um polícia ou um soldado? O soldado ri-se. Uma criança tenta adivinhar: É um polícia! E outra diz: É um soldado! Os adultos ficam atentos, porque também querem saber a resposta. Mas o soldado não responde e a professora também não, porque também não devem saber a resposta. As crianças fazem mais perguntas. O que é essa coisa esquisita em cima da arma? O soldado mexe na coisa esquisita. Diz: É um apoio para o ombro, para ser mais confortável. Uma criança pergunta: Para ser mais fácil transportar? Ele diz: Para ser mais fácil disparar. Uma criança finge disparar com o dedo indicador. Pum!
De repente uma travagem brusca. As pessoas abanam, mas não caem. As crianças gritam, como se estivessem na montanha-russa. Os adultos riem-se muito, à exceção do militar. Está muito concentrado na sua missão ao serviço do exército. No dia 21 de março de 2017, véspera do aniversário dos atentados em Bruxelas.
A professora diz: Meninos, temos de sair aqui. Os meninos dizem bem alto: Ooooooooooooh! A professora diz: Digam adeus ao soldado. Os meninos dizem adeus ao soldado. Eu também digo adeus ao soldado.
As crianças saem da carruagem e fazem uma fila indiana. Vão duas a duas, de mão dada. Estão muito concentradas e bem comportadas. Parecem soldadinhos de chumbo.
Hoje é dia 21 de março, Dia Mundial da Poesia. E não há nada de poético nisto. Acho eu.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O que é que o cu tem a ver com as calças?

"O nosso reino" deixou de estar recomendado para adolescentes porque inclui palavras como "puta", "racha", "foder", "pila" e "cu".

Ocorre-me perguntar: O que é que o cu tem a ver com as calças?

O Plano Nacional de Leitura, "que tem como objetivo central elevar os níveis de literacia dos portugueses", decidiu que não se deve estimular a capacidade de leitura e escrita dos adolescentes com palavrões.

Receio que o resultado desta decisão seja precisamente esse: estimular os adolescentes devassos rumo a esse grande deboche que é a leitura.

Receio também que o Plano Nacional de Leitura esteja perfeitamente ciente deste efeito perverso.
Ora, isto permite-me concluir que o Plano Nacional de Leitura é um grande depravado.

Eu, pelo menos, já estou para aqui bastante estimulada.


Durante as últimas 24 horas estava convencida de que não tinha o livro cá em casa, mas agora olhei ali para a estante e afinal tenho, caralho!

O meu pipi arde de entusiasmo.

Vai ser a puta da leitura.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Losing on a Tuesday

Estou a ver a CNN há horas, mas não estou a ouvir nada. Tirei-lhe o som.
A CNN está para ali muda e calada.
Estou a assistir às eleições americanas ao som de Adam Green, americano de ginja.
Há pouco aconteceu uma coisa engraçada aqui nesta sala: o Trump estava ali a votar algures em Manhattan e o Adam Green cantou assim:


Losing on a Tuesday filled with purposeful disasters
Tell her I'm losing on a Tuesday afternoon



Pareceu-me premonitório.
De resto é uma bela canção.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Os papagaios miúdos

Hoje passei pelos papagaios.
Estavam aninhados numa árvore a papaguear.
Eu vivo no terceiro andar de um prédio de esquina e eles vivem no segundo andar de uma árvore, que fica mesmo no meio da rotunda.
São papagaios miúdos, de cauda comprida.
Na verdade, não são bem papagaios. São periquitos-de-colar.
Hoje tirei-lhes uma fotografia.


Estavam a arrumar o ninho numa grande algazarra.
Um ia buscar pauzinhos e os outros gritavam com ele.
Esse pau, não, dizia um. Aquele ali é mais flexível.
Era um grande chinfrim no meio da rotunda, no meio da estrada, no meio da cidade.
Mas as pessoas não se zangam com os periquitos que parecem papagaios.
Riem-se para eles.
São tão exóticos. Tão pequeninos. Tão coloridos.
Uma pessoa pergunta: Não terão frio?
Alguém responde: Se vieram cá parar, é porque gostam de estar aqui.
Se calhar devíamos olhar para os imigrantes como olhamos para os periquitos.
Com alguma curiosidade. Com um pouco de ternura. E um certo espanto.
Talvez então parássemos de papaguear discursos provincianos com tiques nacionalistas.
Arre!

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A providência divina

Entro na boca do metro. Sinto-lhe o sopro pestilento.
Vejo o chão aos quadradinhos, umas botas de senhora, duas pernas nuas, saltos altos, sapatilhas velhas.

De súbito, um livro.

Está pousado no chão, mas não propriamente tombado. Aterrou em cima das patas, como os gatos. O lombo apontado para o teto. As patas sólidas e resolutas.
Não caiu do céu. Não sucumbiu. Este livro está de pé.
Penso: Aqui há gato.
Talvez seja uma obra de arte. Uma provocação. Ou então uma bomba.
Para estourar com a rotina.
É um livro com caráter. Uma presença mística.
Está ali porque quer.
Abrando o passo, mas não chego a parar. Passo os olhos pela lombada: 

God's creative power.

Penso: Eis um livro miraculoso.
Com ambições celestiais.
Decido passar por cima do pequeno deus. O meu pé todo-poderoso, a sobrevoar o poder criativo, a desafiar a divindade. Pouso o pé do outro lado e rio-me da minha proeza.
A vida continua. Sem prodígios. Sem espanto.
Desço as escadas. 
Eu no esófago do metro, a pensar no livro misterioso. 
Talvez trouxesse um pequeno génio lá dentro. Um santo milagreiro. Um homem bom.
Jesus. Ou então Maomé. Um desses.
Penso: Quero aquele livro só para mim.
Um pequeno génio só para mim. Um pouco de Deus. Um pouco de Alá.
Volto para trás.
Corro pelas escadas acima, o poder criativo a acelerar as pernas.
No chão vejo apenas as pernas das pessoas que passam. Sapatos, botas.
O livro sumiu. Ascendeu ao céu. Desceu ao inferno. Entrou no metro. 
Ou então alguém o levou.
Seja como for, aquele livro não é meu.
Nunca foi meu.
Jamais será meu.

Assim era a Sua vontade.
A Sua escolha.

Não me benzi. Não me queixei.
Pensei: Eis a decisão do Criador.
A providência divina.

sábado, 28 de maio de 2016

Tu t'imagines

Vejo duas raparigas ao longe. Vêm a cochichar divertidas. Com a boca e com as mãos.
Estão vestidas de preto da cabeça aos pés. Vestidos largos e uns lenços muito bem apertados à volta da cabeça. Os rostos bonitos, perfeitamente emoldurados. Nem um cabelo à vista.
Tenho um certo fascínio por estes lenços. Pela arte de os atar à volta da cabeça. As dobras muito bem dobradas. Dois alfinetes nas têmporas.
Estou cada vez mais perto das raparigas. Elas caminham de lá para cá e eu de cá para lá. Os olhos grandes e vivos. Um pedaço de frase: Tu t'imagines. Risinhos.
Param no meio da rua e tiram uma selfie.
As duas raparigas paradas no tempo e no espaço. Abraçadas uma à outra, as cabeças muito próximas. O telemóvel em cima e elas em baixo. Apertam os lábios carnudos, a simular um beijo uma na outra.
Passo por elas. Olhos grandes e vivos.
Só então reparo que trazem os lábios pintados. Um vermelho inflamado. Radiante. 
Tu t'imagines? 
Eu cá imagino. 
Há qualquer coisa arrebatadora no contraste.
Por um lado, a sobriedade. Por outro, a irreverência.
Por um lado, a pureza. Por outro, a luxúria.
Por um lado, o recato. Por outro, a sensualidade.
O cumprimento e a transgressão.
O preto e o vermelho.
A submissão e a independência.
Não haja dúvida: uma rapariga de lenço aprumado na cabeça está muito mais sujeita à fantasia. 
Ao devaneio.
À depravação.

terça-feira, 15 de março de 2016

TEDx Brussels 2016

Ontem fui ao TEDx Brussels 2016. O tema era profundo e futurista. Assim: Deeper Future. Por que não? Ando com sede de ideias e pessoas pra frentex.
Sentei-me na terceira fila e tirei umas notas, comi uns chocolates. Não se esteve mal.
17 oradores, 1500 pessoas, 20 e tal nacionalidades.
Falou-se, claro está, do futuro. O futuro da alimentação, o futuro da segurança, da privacidade, o futuro da igualdade, da medicina, do sistema bancário. O futuro da arquitetura e das cidades. O futuro da cerveja e do amor.
Alguns conceitos novos: receitas climáticas, computadores alimentares, cidades inteligentes, masturdating, citizen lobbying, medicina participativa, casamentos a solo, roupa digital, economia para o bem comum.
Uma das oradoras pôs-se de cabeça para baixo. Em posição vertical invertida. Estava de saltos altos cor de rosa apontados para o teto. Disse: Pensem noutra perspetiva.
Algumas frases: Temos de modificar o ambiente e não as plantas. Temos de democratizar o clima para democratizarmos a alimentação. Temos de amplificar a voz dos doentes. Não há privacidade sem segurança. Precisamos de mais Europa. A diversidade é essencial para a inovação. As empresas privadas têm de cuidar do bem comum. Não precisamos dos homens para nada. Não podemos perder a fé na democracia. Quando as instituições políticas caem, há grandes transformações. Vimos isso com a Jugoslávia. As instituições europeias estão em crise. Um telefone protege muito mais do que uma mala de viagem. Imaginem cidades capazes de falar. Os semáforos vão desaparecer. Quanto mais a sociedade investe na profissionalização, menos beneficia das nossas capacidades. Estamos presos nas nossas profissões, nos nossos sistemas de ensino. Somos espectadores e não atores. Somos consumidores e não cidadãos. A participação cívica é um valor intrínseco. Não basta votar e assinar petições.  Vamos atingir o pico da cultura narcisista. Selfie é o produto do narcisismo. Algumas pessoas morrem a tirar selfies. Narciso também morreu porque se apaixonou por si próprio. If you outsource falling in love, you outsource the essence of love. Without the fall, there is no love. Quem controla o presente, controla o passado. Quem controla o passado, controla o futuro. As cervejarias artesanais estão de volta. Beer with more meaning, more taste, more fun. É possível fazer cerveja a partir de pão feito a partir de cerveja. Os bancos procuram o lucro à custa da sociedade. O dinheiro é um meio e não um fim. A atividade económica tem de servir o bem comum.
Fiquei a saber que uma chave mestre abre todos os elevadores e portões em Nova Iorque. Que os talibãs são muito ativos na sneackernet. Que mais de 4 mil milhões de pessoas não têm acesso à Internet. Que um dia vamos poder imprimir a nossa roupa em casa.
Fiquei a conhecer a Marble Machine. Fiquei com vontade de ler a obra do filósofo croata que tinha umas ideias larocas. Quero conhecer melhor o islandês que faz música a partir de sons de Bruxelas. Por exemplo, sirenes, elevadores, comboios, sinos.
Umas perguntas no ar: Qual é o nosso contributo? Quantas vezes já fizemos a diferença?
O que é a cidade ideal?
As escolas devem estar orientadas para o lucro? Os hospitais devem estar orientados para o lucro? E os bancos? Por que razão estão orientados para o lucro?
O que será o amor no futuro?
No final fiquei baralhada das ideias e andei aos saltinhos por Molenbeek, o bairro mais terrorista e aterrorizado de toda a Europa. Vi crianças a rir, mulheres a conversar. Vi fruta fresca nas mercearias de esquina, laranjas, toranjas, maçãs. Vi o sol a bater nas janelas. Vi pessoas de cá para lá. Vi vários homens carecas no cabeleireiro e isso deu-me vontade de rir. Não tive medo nenhum. Estava numa de participar na cidade. De fazer a diferença. Em total masturdating.
Até tirei uma selfie.

domingo, 24 de janeiro de 2016

A minha cruz

Pronto. Já fui votar. 
Livrei-me dessa cruz.
Saiu-me torta, por acaso. Deu-me um tremidinho na última perna e o risco atravessou o quadrado num solavanco.
Ups!
Ficou uma cruz esquisita.
A culpa não foi da caneta. Foi da minha mão direita. 
Grande pateta!
Deu-lhe uma hesitação qualquer, acho. Uma falta de vigor, talvez. 
Depois dobrei o papel em quatro. 
Vinquei as dobras com as unhas, também elas tortas.
Lá se foi mais um sufrágio universal.
Secreto.
Algo sofrido.
A tiritar de frio.
De entusiasmo.
Ou então de medo.
Não sei.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Um snack literário

Imagina isto: uma máquina de cuspir histórias.
Nem pequena nem grande.
Está encostada a uma esquina como certas mulheres a certas horas e parece um marco do correio, mas não é um marco de correio.
É uma máquina de cuspir histórias.
Uma pessoa carrega num botão e a máquina cospe um recibo lírico, uma história muito curta.
Seria uma máquina de snacks literários.
Um ou dois minutos ficcionais.
Cinco minutos, no máximo.
Quanto demora a literatura?
Muito.
Pouco.
Nada.
Certas histórias são assim.
Fugazes. Inesperadas. Crocantes.
Imitam a vida. Por vezes, mudam-na.
É, não é?
É.
Mas olha: esta história não é um snack literário.
Ai não?
Não.
Esta história é real.
Há para aí umas máquinas delirantes. A cuspir literatura.
É mesmo verdade.