A nossa querida mãe. Guerreira, linda, viva até mais não. A rir muito alto. A dar ordens. A andar sempre em frente, mas sem saber o caminho. Decidida, rápida, impulsiva. Nós lá atrás, a chamá-la: “Mãe, não é por aí.”
Às vezes dizia-nos: “Se não fosse eu, vocês morriam de tédio.” Também nos dizia: “Vocês cansam-me.” E ria-se. Ríamo-nos todos. Ríamo-nos bastante. À mesa. À hora de jantar.
Sempre penteada, sempre bonita. As mãos fortes e elegantes, a darem forma a todas as coisas. A alisarem a colcha, a polirem a prata, a fazerem flores de missangas.
A mãe a conduzir. A fumar. A chamar-nos para a mesa. A secar o cabelo. A entrar pela escola dentro. A partir um grande ovo de chocolate ao murro. A pedir ao pai que lhe servisse o vinho. Que lhe cortasse uma fatia de queijo. “Corta fininho”.
A mãe a passear no CascaisShopping, a preparar o stand na Feira do Artesanato, a abrir a janela do carro para deixar entrar o ar. “Faz muito vento aí atrás?”
A mãe morena. De óculos escuros. A sacudir os nossos pés na praia da Cresmina. A dizer: “Isto tem de ser com força para sair a areia.”
Sempre a mania da limpeza. Da ordem. Da arrumação. Dizia: “Isto não tem jeito nenhum.” Ralhava. Limpava. Arrumava. Cosia. Soldava. Tudo formas de corrigir.
Não nos podia ver tristes. Dizia: “Não podes estar assim.” A mãe zangada, forte, exigente, a afastar a tristeza. Odiava lamechices. “Não me digas essas coisas”. “Vocês não me façam chorar.”
A mãe a lamber um gelado. A enfiar um Ferrero Rocher na boca. A dizer disparates. A rir-se dos seus próprios disparates. A dizer de si própria: “A tua mãe é louca.” Ou então: “A tua mãe é mesmo parva.” Ou então: “A tua mãe é mesmo bruta.”
Não era louca. Não era parva. Mas conseguia ser bruta. Não era de falinhas mansas. Não fazia fretes. Não fazia elogios. Não andava com rodeios. Não tolerava a injustiça. Não tinha papas na língua. Dizia o que tinha a dizer. Por vezes dava um murro na mesa. Era implacável. Era progressista. Feminista. Justiceira.
A mãe e o pai de braço dado. Bem vestidos, bem dispostos. A rirem-se de qualquer coisa. A caminho de algum lado. A estrearem a pista de dança. Casaram-se com um cravo ao peito. A mãe a olhar para uma fotografia: “O teu pai era um homem lindo.”
A mãe a beber conhaque. A jogar à sueca. A cortar a jogada com um trunfo. Talvez um rei de espadas. Um ás de paus. Uma dama de copas. Dizia: “Yes” quando ganhava. Tinha mau perder, mau feitio. Tinha bom fundo, boas intenções.
A mãe a escolher o lenço para levar ao IPO. A dizer: “É assim: Se eu morrer, vou ficar muita chateada”. A mãe a rir-se da morte. A rir-se da vida. A rir-se de nós. A rir-se disto tudo.
A nossa mãe de bengala. Cheia de esperança. Cheia de graça. Cheia de estilo. A dizer à sua médica: “Eu quero morrer de pé”.
Dona Lina.
Impetuosa. Indomável. Alegre.
A nossa mãe eterna.
A nossa dama de copas.