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terça-feira, 2 de junho de 2026

A nossa querida mãe

 A nossa querida mãe. Guerreira, linda, viva até mais não. A rir muito alto. A dar ordens. A andar sempre em frente, mas sem saber o caminho. Decidida, rápida, impulsiva. Nós lá atrás, a chamá-la: “Mãe, não é por aí.” 


Às vezes dizia-nos: “Se não fosse eu, vocês morriam de tédio.” Também nos dizia: “Vocês cansam-me.” E ria-se. Ríamo-nos todos. Ríamo-nos bastante. À mesa. À hora de jantar.


Sempre penteada, sempre bonita. As mãos fortes e elegantes, a darem forma a todas as coisas. A alisarem a colcha, a polirem a prata, a fazerem flores de missangas.


A mãe a conduzir. A fumar. A chamar-nos para a mesa. A secar o cabelo. A entrar pela escola dentro. A partir um grande ovo de chocolate ao murro. A pedir ao pai que lhe servisse o vinho. Que lhe cortasse uma fatia de queijo. “Corta fininho”. 


A mãe a passear no CascaisShopping, a preparar o stand na Feira do Artesanato, a abrir a janela do carro para deixar entrar o ar. “Faz muito vento aí atrás?”


A mãe morena. De óculos escuros. A sacudir os nossos pés na praia da Cresmina. A dizer: “Isto tem de ser com força para sair a areia.”


Sempre a mania da limpeza. Da ordem. Da arrumação. Dizia: “Isto não tem jeito nenhum.” Ralhava. Limpava. Arrumava. Cosia. Soldava. Tudo formas de corrigir. 


Não nos podia ver tristes. Dizia: “Não podes estar assim.” A mãe zangada, forte, exigente, a afastar a tristeza. Odiava lamechices. “Não me digas essas coisas”. “Vocês não me façam chorar.” 


A mãe a lamber um gelado. A enfiar um Ferrero Rocher na boca. A dizer disparates. A rir-se dos seus próprios disparates. A dizer de si própria: “A tua mãe é louca.” Ou então: “A tua mãe é mesmo parva.” Ou então: “A tua mãe é mesmo bruta.” 


Não era louca. Não era parva. Mas conseguia ser bruta. Não era de falinhas mansas. Não fazia fretes. Não fazia elogios. Não andava com rodeios. Não tolerava a injustiça. Não tinha papas na língua. Dizia o que tinha a dizer. Por vezes dava um murro na mesa. Era implacável. Era progressista. Feminista. Justiceira.


A mãe e o pai de braço dado. Bem vestidos, bem dispostos. A rirem-se de qualquer coisa. A caminho de algum lado. A estrearem a pista de dança. Casaram-se com um cravo ao peito. A mãe a olhar para uma fotografia: “O teu pai era um homem lindo.”


A mãe a beber conhaque. A jogar à sueca. A cortar a jogada com um trunfo. Talvez um rei de espadas. Um ás de paus. Uma dama de copas. Dizia: “Yes” quando ganhava. Tinha mau perder, mau feitio. Tinha bom fundo, boas intenções.


A mãe a escolher o lenço para levar ao IPO. A dizer: “É assim: Se eu morrer, vou ficar muita chateada”. A mãe a rir-se da morte. A rir-se da vida. A rir-se de nós. A rir-se disto tudo.


A nossa mãe de bengala. Cheia de esperança. Cheia de graça. Cheia de estilo. A dizer à sua médica: “Eu quero morrer de pé”. 


Dona Lina. 

Impetuosa. Indomável. Alegre. 


A nossa mãe eterna.

A nossa dama de copas.


sexta-feira, 28 de novembro de 2025

8 anos

 


Saímos do dentista. Quase escuro, quase frio. Ele põe o gorro. “Não tenho frio, mas gosto do gorro”. Diz-me que não quer voltar já para casa. Ai não? “O que eu gostava mesmo era de ir a uma livraria.” Resisto à tentação. Digo-lhe que não lhe vou comprar mais livros. 


Atravessamos a rua, entramos na boca do metro. E ele: “Estás sempre a dizer que não.”As escadas rolantes a mandarem-nos para baixo e ele a olhar para cima. “Está ali um avião.” E também: “Já não via um avião há muito tempo porque o céu está sempre fechado.” Retomo a discussão. Digo-lhe que podemos ir à biblioteca, onde ele pode requisitar oito livros de uma vez. Ele nem me deixa acabar. Rejeita a ideia com a cabeça e com as mãos. Diz que os livros da biblioteca não valem um chavo, que a biblioteca cheira mal, que a biblioteca é feia e que só serve para devolver livros e que ele não quer devolver mais livros à biblioteca, que é só devolver, devolver e devolver. 


Estamos debaixo da terra. Ele passa o cartão dele, as portas abrem-se. A vida continua. Diz-me que quer comprar um livro com o seu dinheiro então. “Para ser meu para sempre”. Eu percebo-o e digo-lhe precisamente isso, que o percebo. Ele barafusta. Algo do género: percebes, mas não deixas. Estamos na encruzilhada. Se formos para a esquerda, voltamos para casa. Os olhos dele: grandes, cintilantes, lindos. “Por favor, podemos ir a uma livraria?” 


Viramos então à direita, descemos mais um lance de escadas. Há lá coisa melhor do que ir a uma livraria com este meu filho. Entusiasmo-me com o nosso plano. Digo-lhe que vamos à nova livraria da Filigranes, que a livraria é enorme, cintilante, linda, que ele vai adorar. Ele diz “Uau” e ri-se. Eu rio-me também.


Apanhamos o metro, saímos duas paragens depois. Ele pede-me um gauffre. Digo-lhe que não pode comer doces depois do dentista. Ele insiste. Lembro-o da nossa missão. Digo-lhe que a livraria fecha às 18:30. Ele pergunta-me que horas são. Digo-lhe: 17:48. Ele escancara os olhos: “Temos pouco tempo.”


Entramos na livraria de rompante, vamos diretos para o andar de cima, ele sobe as escadas a correr. Ficamos que tempos na secção “Jeunesse”. Pede-me para eu não me afastar. Não é que ele tenha medo de se perder. Também não tem medo que eu me perca. Quer só que eu veja os livros que ele está a ver. Eu fico e vejo o que ele vê. 


Enquanto folheia um livro da Adèle: “Eles não têm mangás aqui?” A secção das mangás está mesmo ao nosso lado, mas eu não lhe digo. Respondo: “Devem ter.” Ele olha em volta mas não vê o que eu vejo. Encaminho-o para a secção que ele procura. “Vamos espreitar ali.” Ele encontra a sua estante: kodomo, mangás para crianças. “Olha, são todos os livros de que eu gosto.” Hesita entre o Super Mário e o Doraemon. Escolhe um, depois escolhe o outro. Lê umas páginas de um e umas páginas do outro. Quando avista a série Minecraft, desiste dos outros dois. “Afinal quero levar três livros.” Pergunto-lhe se tem dinheiro para isso. Ele faz contas. Leva três livros da Minecraft. Na fila para a caixa constata que não vou comprar nenhum livro para mim. “Oh, que pena, mamã!” Eu digo-lhe que tenho muitos livros para ler. “Então tens sorte!” Sim, tenho.


A caminho do autocarro, vai admirando as três capas. Diz que gastou muito dinheiro nos livros, que preferia ter os livros e também o dinheiro. Eu digo que ele só pode ficar com o dinheiro se devolver os livros. Sugiro voltarmos para trás. Ele cede, mas logo a seguir revela que está a brincar. “Nem pensar.” Leu o primeiro livro no próprio dia, leu o segundo no fim de semana, acabou o terceiro ontem ou anteontem. Agora quer o quarto volume. Digo-lhe que a biblioteca deve ter. “Eu não quero o livro dos outros.”


Faz hoje oito anos. Vai receber piões e livros da mãe, do pai, dos tios, dos amigos, dos avós. 


Os irmãos chegam a casa com livros da biblioteca. Ele agarra logo nos livros, senta-se a ler uma das aventuras do Yakari. Digo-lhe que não faz sentido ele não ir à biblioteca. “Se gostas tanto de livros, tens de ir à biblioteca.” Ele não interrompe a leitura. Diz que não gosta da biblioteca precisamente por gostar de livros. Quero continuar aquela troca de ideias, mas ele diz que está ocupado a ler.


Acordaram tarde de manhã. Espetei uma vela num gauffre, cantamos os parabéns pouco antes das 8h, saímos de casa a correr.


Fiquei a vê-lo a entrar na escola. O cabelo despenteado, a mochila às costas, o bolo mármore na mão. Meu rico filho. 


Já tem cáries. Já tem vícios. Já tem opiniões. 


Um dia há de perceber que nem tudo é um produto, que nem tudo o que é valioso está à venda, que as livrarias são a montra de um mercado e não de tudo o que existe, que as bibliotecas são de quem aprecia o conhecimento.


Só espero que nessa altura não seja tarde demais. Que nunca lhe falte a vontade de ler. 


Que não nos faltem as bibliotecas. Nem as livrarias, já agora.


quinta-feira, 14 de novembro de 2024

O Babo


Faleceu Morreu o Carlos Grifo Babo. Era tradutor e revisor. 


Nunca o conheci, mas foi ele que reviu a maior parte dos meus textos. Alguém da equipa lhe levava a maquete (maqueta?) a casa e ele ali ficava (vírgula?) nos bastidores, a rever no papel. 


Foi ele que me ensinou a diferença entre “rebuliço” e “reboliço”, e a diferença entre “por que” e “porque”. Foi ele que me ensinou que “magicar” é um verbo intransitivo. Chegou a enviar-me cópias de uma gramática. 


No final das suas revisões, acrescentava uma página inicial a que chamava “Notas”. Eu lia essas “Notas” com entusiasmo e admiração. Procurei agora mesmo no meu arquivo e encontrei as notaspérolas que escreveu sobre Mary John. 


Adoro as suas considerações sobre os diálogos em itálico. Eu própria não sei bem por que (porque?) insisto nisso, mas nunca me senti à-vontade com aspas e travessões. A propósito deste uso abusivo do itálico, diz ele assim: “É fora do comum, quebra as regras, mas e então?” Isto ainda me faz rir. 


Que pena eu tenho de nunca ter conhecido o Babo (era assim que o chamávamos no Planeta). Sei que vou pensar magicar nele sempre que hesitar entre “porque” e “por que”. 


Na minha cabeça (imaginação?) achava que lá chegaria o dia em que iria a sua casa beber um chá e folhear as suas gramáticas e prontuários. Tenho a certeza de que ele teria gostado. Para mim, teria sido um encontro inesquecível.


E agora as notas do Babo:





segunda-feira, 27 de novembro de 2023

6 anos!


Come bastante. Esparguete à bolonhesa, bacalhau com grão, almôndegas da avó. Ri-se sozinho. Nem sempre explica por que razão se está a rir.

Faz planos para o futuro. Se hoje é segunda, amanhã é terça e depois é quarta. Quer saber em que dia vamos para Portugal. Digo-lhe, por exemplo: “Faltam 40 dias.” Ele diz: “Isso é muito tempo.” 


Conto-lhe tudo o que vai acontecer ao longo dos 40 dias. Primeiro vamos ao cabeleireiro, depois são as férias de outono, depois é o teu aniversário, depois montamos o pinheiro de Natal e depois vamos para Portugal. Ele decora: cabeleireiro, férias, aniversário, pinheiro, Portugal. 


Desenha que eu sei lá. Folhas e mais folhas. Carros, sapatos, pistas, mapas, monstros, super heróis e também este menino dentro de um coração no meio da chuva. 



Diz muitas vezes: “Vou pensar”. Ou então: “Estou a pensar”. E também: “Não faz mal.”

No outro dia, ao entrar no elevador, perguntou-me: “Eu sou fofinho?” Sim, sim, és muito fofinho, disse-lhe eu. Subimos no elevador, felizes com a sua fofura.


Fala muito alto. Peço-lhe que fale mais baixo. Ele diz: “Não consigo.” Pergunta-me se quero brincar com ele. Digo-lhe muitas vezes que não posso. Vou dar banho ao mano, digo-lhe eu, ou vou fazer a sopa, ou ainda estou a trabalhar. 


Por vezes lá me sento. “Vamos jogar ao jogo da glória!”, diz ele. Bora lá, então. Ele lança os dados e explica as regras, antecipa os movimentos. Diz: “Se calhas aqui, desces. Se calhas aqui, sobes.” Vai comentando o jogo. “Mamã, tiveste muita sorte.” Ou então: “Não tiveste sorte.” Quer ser ele a ganhar mas não gosta que eu perca. “Vamos ganhar os dois.” 


Gosta de ir à escola. Tem uma grupeta de amigos, todos rapazes. Nasceram em Bruxelas, mas são todos estrangeiros. O pai de um deles é sírio, a mãe de um deles é alemã. Falam todos francês. 


Gosta de ser o irmão mais velho. Muitas vezes é ele que põe fim às brigas dos irmãos. “Olha o meu umbigo”, diz ele. Os irmãos param de chorar, começam a rir. 


No outro dia, a caminho do cabeleireiro, disse-me que não queria o cabelo muito curto. Que gostava da franja mais comprida. Explicamos o seu pedido à cabeleireira. Ficou satisfeito com o resultado.


Há umas semanas sonhou que toda a gente andava na rua de cuecas. Cada vez que fala neste sonho, farta-se de rir. Diz coisas assim: Eu vou comer 10 vezes este arroz. Eu gosto tanto de ti para sempre. Eu quero secar o cabelo todos os dias.


Faz aviões de papel. Salta à corda. Constipa-se. Arrota. Pede desculpa. Ainda não perdeu nenhum dente. Ainda me pede colo. Adormece sozinho. Distrai-se facilmente. Diz coisas que o fazem rir: pum do rabo, sanita velha, mamã cocó. 


Adora pepino. Adora o Pikachu. Adora carros: carros de corrida, carros antigos, carros elétricos, telecomandados. Está a aprender a ler e a escrever. Tem uns olhos grandes, lindos, cintilantes. 


É dos mais novos da turma, é o mais velho dos irmãos. Faz hoje 6 anos. Já soprou uma vela ontem, já soprou essa mesma vela de manhã. Vai soprar outra vela na escola e depois em casa outra vez e depois há de soprar na sua festa, no próximo sábado. 


Isto é celebrar até cansar. 


Uma salva de palmas. Uma salva de palmas. Uma salva de palmas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Annie Ernaux


Senti uma vertigem quando soube. Como se a Annie Ernaux fizesse parte do meu corpo. Como se a Annie Ernaux circulasse no meu sistema nervoso.

Acabei há poucos dias de ler “L’écriture comme un couteau”. Foi um amigo que me ofereceu o livro há coisa de um mês, pelos meus 40 anos. Sublinhei-o todo, dobrei cantos, reli certas frases, certos parágrafos. 

A propósito do seu processo criativo, diz Annie Ernaux que não gosta da chamada “escrita feminina”. Que ela não é uma mulher que escreve para mulheres. Que ela trouxe para a literatura a sua vivência como mulher, mas que a sua vida não era bem singular, que ela não se considerava um ser único. Que a escrita era a transformação das suas experiências pessoais numa entidade exterior a ela. Que escrever era o seu dom, o seu ato político. Que a sua forma de escrever era dura e violenta, que as frases estavam impregnadas de realidade, que o seu objetivo na literatura era que as palavras deixassem de ser palavras, que passassem a ser sensações e imagens. 

Que escrever era difícil. Que durante muito tempo - anos, décadas - não podia viver nesse outro universo que era a escrita. Que trabalhava como professora, tratava dos filhos, ia ao supermercado e cozinhava. Que essa vida lhe trazia sofrimento. Que lhe faltava sempre o tempo ou a força para escrever. Que nessa fase pensava em desistir de escrever. Que sentia estar a estragar a vida do marido e dos filhos. Que nunca se perguntava o contrário: se seriam eles que estragavam a vida dela.

Que viveu sempre em dois universos ao mesmo tempo: no universo da vida e no universo da escrita. Que o seu objetivo na escrita ou na literatura era sentir e pensar nos outros como outros tinham sentido e pensado nela.

O amigo que me ofereceu o livro escreveu-me a dizer: “Por uma vez, um nobel para alguém que amo”.

É mesmo isso!

Ganhamos todos hoje. Os que escrevem. Os que sofrem por não conseguirem escrever. Os que, mesmo assim, escrevem aos bochechos. Os que não dormem para escrever. Os que querem sentir, existir, pensar, sonhar nos outros como outros têm sentido, existido, pensado e sonhado neles.

Como não sentir uma vertigem?

Eu sou a Annie e a Annie sou eu.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Mulher Cão


Não há muito tempo ouvi um podcast com a Paula Rego. Era uma conversa já antiga, conduzida pela Inês Meneses para o Fala com Ela, em setembro de 2010. 

Depois de falar do medo, da infância, da morte, dos contos populares portugueses, dos seus professores e da sua ida para Londres, Paula Rego falava do marido, Victor Willing, que - vejo agora - falecera 22 anos antes, em 1988. Contava ela que os quadros de Willing, por terem tanta presença, a lembravam da sua vida com ele e que isso a emocionava, porque essa vida - “a nossa vida”, dizia ela - continuava viva nesses quadros. Acrescentava: “Viva, viva, viva, como uma lagosta”. E explicava de seguida a necessidade de atar as lagostas antes de as enfiar na panela, “senão elas saltam para fora”. Concluía: “Assim são os quadros dele. Estão ali como se estivessem amarrados” e “por um triz” não pulam para fora. 


Ao longo deste ano, por várias razões que não interessam agora, tenho voltado a essa ideia do pulo iminente e desesperado, a essa possibilidade de a vida pular para fora da arte, de a arte pular para dentro do real, de o sonho pular para fora do espelho. A ideia bela e aterradora de tudo estar a um quase-nada de ser outra coisa.


Hei de voltar à sua Casa das Histórias, para ver outra vez esta Mulher Cão, na esperança de que ela ladre e continue louca, feroz, combativa. E viva, viva, viva, como uma lagosta.



terça-feira, 8 de março de 2022

Jeremias Bandarra


O meu sogro usava chapéu. Assobiava. Abraçava as árvores.

Nasceu em 1936. Morreu ontem.

Não fumava, não bebia café, raramente bebia álcool. O seu único vício era a pintura. 

Desenhar, pintar, sentir, voar.

Quantos pássaros terá desenhado? Centenas. Milhares.

Nos murais, nos vitrais, nos cadernos, nas telas. Incontáveis pássaros em pleno voo.

“A natureza cuida”, dizia ele, mas não estava a falar das plantas, nem sequer dos pássaros que nascem e voam, estava a falar da arte, de tudo o que fazemos com as mãos, com a alma, com os olhos.

Falava de arte como quem fala da vida, o mistério das coisas invisíveis que ganham raízes e brotam, crescem, dão frutos. 

Leu tudo o que escrevi. Lia, relia, comentava, empolgava-se. Queria saber se já estava a escrever alguma coisa nova. Sim, dizia-lhe eu, estava a escrever uma novela gráfica, um poema, um conto. Ele ria-se, cúmplice do meu vício.

Disse-me algumas vezes que eu era parecida com a sua mãe. Dizia-o sem hesitação, como se estivesse a dizer a verdade. Talvez por sermos mães de rapazes. Talvez por sermos mães de meninos Bandarra. 

Olho para os meus meninos Bandarra. O mais velho constrói uma pista de comboios, o mais pequeno toca piano, o do meio salta do sofá para o chão. Quantos pássaros não desenharam com o avô? Quantas conversas não tiveram?

Era muito chato ir com o meu sogro ao centro de Aveiro. Toda a gente o conhecia, toda a gente o acarinhava. Parávamos em todas as esquinas para cumprimentar alguém. Podia acontecer que não chegássemos ao nosso destino. Ficávamos a meio do caminho. Não era grave. Voltávamos para trás.

Entre ir e vir conversávamos. Falava-nos da sua infância nos anos 40. Os quatro Bandarras, sempre à solta, inventivos, aventureiros. Saíam porta fora, corriam, mergulhavam, jogavam com uma bola de trapos. Voltavam tarde, com fome. 

A mãe, sempre a mãe, que se preocupava com eles, que os alimentava, que recortava coelhinhos num pedaço de papel. Os chocolates que o pai lhes oferecia no dia de Natal. Um chocolate a cada um, enfiado numa meia, a felicidade pura. 

A sua juventude só e melancólica. Os três irmãos fora e ele ali, numa cidade parada. “Não havia nada disto. Era só campos”.

As leituras que lhe fizeram companhia. Os romances de Émile Zola. A religião, o misticismo. Os quadros do Picasso. Os versos que escrevia. O teatro aveirense. A Margarida “muito alegre, muito alegre, muito alegre”, dizia ele, luz da sua vida, com quem viria a casar. Os pais doentes, os filhos pequenos, o emprego estável na Portucel, a pintura, sempre a pintura, seu único e terrível vício, “uma doença”, dizia.

Viajámos juntos. Bruxelas, Paris, Londres, Lisboa, Gerês, Tavira. Vimos exposições. Quantas exposições? Chagall, Picasso, Matisse. Pompidou, Tate Modern, Bozar. Sabia tudo sobre os cubistas, os surrealistas. Parava em frente a uma tela, as mãos atrás das costas. Falava-nos da importância do branco num quadro, do foco de luz.

Saíamos para a rua em êxtase, cheios de arte e de vida. Comentávamos os quadros do Lucien Freud, fortes, reais, permanentes, como se estivessem vivos. 

E agora, onde vamos? Alguém perguntava. O Jeremias dizia: “Quero ver pessoas”, e lá íamos vê-las nas suas vidas, nos seus afazeres. Em Oxford Street, nos Campos Elísios, na Grand Place. 

Sentávamo-nos numa esplanada. Pedia uma cerveja sem álcool. E então aí, sentado num café em Antuérpia ou numa rocha no Gerês, a lanchar no Perroquet, a jantar na sua casa, dizia: “Isto já ninguém nos tira!” Isto: a esplanada, o pôr do sol, a família, a cerveja, a arte nova, os quadros do Picasso, as pessoas na rua, tudo o que vimos, pensámos e sentimos até então, o delírio da arte e da vida. Bebia um gole entusiasmado da sua cerveja sem álcool, os olhos aguados. Acrescentava: “Até aqui chegámos nós”. Assim era. 

Sempre a consciência da finitude. A ideia de que não estaremos aqui para sempre. De que qualquer coisa nos liga uns aos outros, de que há uma verdade acima de nós, acima de tudo, de que nada começa e acaba verdadeiramente, de que todos somos permanência, continuação, universo, natureza, vida, focos de luz. 

A beleza das horas que passam, das pessoas que passam, o presente que era futuro e se transforma em passado. Tudo o que vimos, pensámos, sentimos. Todos os rios, todas as serras. Todos os quadros.

Todos os voos de todos os pássaros.


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Juan José Millás

 “De facto, já morri várias vezes
ao longo da minha vida
e ressuscitei outras tantas.
Morro e ressuscito com tanta facilidade
que por vezes creio estar vivo
quando estou morto,
e vice-versa.”

Juan José Millás, “La vida a ratos”
(citação traduzida por mim)

Hei de sofrer muito quando Juan José Millás morrer de vez. Se tudo correr conforme previsto, há de morrer antes de mim e eu hei de chorar. 

Não conheço Juan José Millás, mas gosto dele como se gosta de um tio, de um professor, de um mentor.

Poderia ler Juan José Millás durante horas. Poderia ouvi-lo também durante horas. Sempre que o leio, sinto precisamente isto: que estive a lê-lo e também a ouvi-lo. Sinto aliás que o conheço, que frequento a sua casa, o seu escritório, que aprecio muito a sua maneira de gesticular e caminhar, que ele me dá livros e recortes de jornais, que nos abraçamos nas despedidas. “Adiós, Anita de mi corazón!”, diz-me Juan José. Só ele me trata por Anita. Mais ninguém.

Ando há meses a ler o seu diário ficcionado. Não é bem sobre o dia-a-dia do Juan José, mas é certamente sobre o dia-a-dia do Juan José. Chama-se “La vida a ratos”, mas o título nada tem a ver com ratos nem ratazanas. “La vida a ratos” poderia ser traduzido por “A vida às vezes” (É mesmo verdade que não existe uma edição portuguesa deste livro?)

Não leio este diário todos os dias. Leio-o às vezes, aos pedaços. E tudo nele me emociona até às lágrimas. Os gin tónicos que Juan José bebe nos cafés, as suas aulas de escrita criativa, as suas conversas com a psicanalista, as suas fobias e paranoias, aquela mania de tomar ansioliticos a torto e a direito, as suas ponderações culinárias. “Na vida tudo se pode fazer depressa, menos um refogado”, diz ele a páginas tantas. 

Aquela reflexão linda sobre a sua infância: de que ele era uma criança muito triste, a mais triste de toda a sua geração. A sua obsessão pela mãe. A convicção de que ainda ouve a mãe pigarrear na sala, anos depois de ela ter morrido. Aquele pressentimento de que tudo isto pode ser uma farsa, de que nada é verdadeiramente real. De que o mundo por vezes mostra o seu verdadeiro (falso!) rosto. Por exemplo, quando damos com um relógio parado ou com um copo virado para baixo, quando abrimos um livro ao contrário, quando um ovo traz duas gemas, quando qualquer coisa parece não estar no seu devido lugar. A ideia de que a escrita pode ter essa missão: desconfiar sempre da realidade.

A certa altura diz uma coisa memorável sobre a adolescência. A propósito de viagens e da impossibilidade de explorarmos ingenuamente um lugar. Já conhecemos todos os lugares, mesmo que não os tenhamos visitado. Tudo nos é familiar. Mas há um mundo por explorar: a adolescência, diz ele. “A adolescência é como Marte. (…) Chegamos à adolescência como Colombo chegou à América: sem sabermos nada sobre a sua vegetação, o seu clima, os seus habitantes, a sua geografia.”

Que pessoa linda é Juan José. Pessoa frágil, forte, real, ficcionada, única. Talvez o que mais me emocione em Juan José seja a vulnerabilidade que ele assume e expõe. Os seus medos, as suas frustrações, os seus ataques de pânico e de choro. Não é o que se espera de um homem ocidental com 75 anos. Ou é?

Gostava de estar com o José Juan Millás num café. Não haveríamos de falar de literatura. Não lhe pediria um autógrafo. Juro. Beberíamos um gin tónico. Só isso.

domingo, 1 de novembro de 2020

Sean Connery

 Uma vez perguntei a uma amiga búlgara se, na sua infância, também via o 007. 

Ela olhou para mim em choque: “Claro que não. O James Bond era o inimigo!” 

Nesse momento apercebi-me de uma forma bastante óbvia de que estamos sempre de um lado da história e que esse lado implica forçosamente a existência de pelo menos um outro lado. 

No meu mundo, o 007 será sempre o herói.

Vi e revi com o meu irmão e com os meus pais muitos filmes do James Bond, sobretudo os que tinham o escocês ao serviço de Sua Majestade. 

Sean Connery será sempre o pai do Indiana Jones, o frade detetive em “O Nome da Rosa”, mas acima de tudo o 007.

De todos os filmes gosto em particular do Doctor No por causa daquela ilha misteriosa. O meu pai também gosta do Doctor No, mas é por causa da Ursula Andress. Inesquecível aquele encontro na praia, ela a cantar “Underneath the mango tree”.




Morreu um dos meus heróis. Espero que ele esteja algures nesse além desconhecido ao som de uma bela banda sonora, deitado com a sua elegância eterna à sombra de uma árvore qualquer.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Um grande peso

O Luís Sepúlveda mora no meu imaginário, no meu ânimo e nos meus livros.


Em “Aqui é um bom lugar”, ilust. Joana Estrela

sábado, 23 de novembro de 2019

Tio Tuca

O Tuca morreu. Era o meu tio mais desatinado, meu vizinho de cima, meu padrinho alcoólico, um homem muito lúcido e ao mesmo tempo destravado. Tinha um tom de voz incomum: muito baixo, sem nuances. Um riso seco e implacável, sarcástico. Mexia as mãos quando falava. Mãos pequenas e subversivas, que se esfregavam uma na outra, que se agitavam no ar, que apontavam o dedo indicador. 
Durante grande parte da vida adulta viveu do whisky e do seu humor negro, das suas ideias frenéticas sobre o mundo e a condição humana.
Nos últimos anos não saía de casa. Primeiro não lhe apetecia, depois continuou a não lhe apetecer. Passava os dias a fumar. Há anos e anos que não bebia. Deixou-se disso de repente, de um dia para o outro.
Sempre que vínhamos a Portugal, íamos lá a casa. Eu e o maridão. Telefonávamos antes para saber se podíamos aparecer. A minha tia atendia, dizia-me que sim, venham. Ele ficava feliz de nos ver, cheio de vontade de conversar. “Sentem-se aí.” Acendia um cigarro, lançava uma pergunta, que podia ser sobre a nossa vida ou sobre o estado do mundo. Podia ser só: “Como estão?” 
Trazíamos-lhe chocolate belga. Ele dizia: “Oh, obrigado, não era preciso”, mas depois corrigia-se: “Era, era, era”. Nunca nos oferecia dos chocolates que trazíamos. Dizia que aqueles chocolates eram só para ele e que não nos dava nem um. E realmente não dava. Nem um.
Nesses encontros, durante umas horas, falávamos da vida e do mundo. O meu tio, sempre tão fechado em casa, tinha uma cabeça voadora, aberta ao mundo. Comentava coisas que via na televisão. Um debate, uma notícia, um anúncio. Tinha sempre uma observação peculiar a acrescentar. Fazia perguntas sobre a Bélgica, sobre as nossas viagens, sobre as minhas idas a escolas secundárias, sobre a Europa, sobre esta coisa de estarmos por aqui a existir. Entusiasmava-se com a conversa, falava de tudo e mais alguma coisa, as mãos pequenas e exaltadas. 
Ultimamente, quando nos despedíamos, trocávamos um olhar no corredor. Um olhar cheio de reconhecimento e admiração. O meu tio desejava-me uma boa viagem, eu dizia para ele cuidar de si. E depois trocávamos esse olhar, que era um olhar de despedida. Um olhar que dizia: esta poderá ser a última vez, este poderá ser o último olhar. Era isto que eu pensava e sei que era isto que o meu tio pensava e sei que ele sabia que eu também pensava.
Não posava para as fotos, não me telefonava nos anos, não me dava prendas de Natal. Nunca quis saber das minhas notas. Não era esse tio. Era um outro tio. Sentava-se comigo a conversar, fazia-me perguntas, ria-se de mim e ouvia-me de olhos e ouvidos muito abertos. Sempre atento aos pormenores. Só ele reparou na mãozinha do meu filho quando dormia ao meu colo. A mãozinha agarrada à minha blusa, a dizer-me: “Não me deixes”. Só ele reparou que o meu pai me passou a mão pelos ombros no dia do meu casamento. “Aquilo era um pai a despedir-se da filha”, dizia ele. “Que coisa tão bonita, aquela festinha nos ombros. Boa sorte, minha filha.”
Uma vez, perguntou-me com um certo fascínio nos olhos: quando começa a vida? Já pensaste nisso? Sim, pensei, pensamos todos, não é verdade? Não, mas aquele momento em que passamos a existir. Em que momento se faz faísca? E nisto estalou os dedos a exemplificar o fósforo que se acendia, a vida a começar. Era um mistério extraordinário, não era? Era, pois.
Durante a minha adolescência, mostrava-lhe os meus textos e ele emocionava-se. Uma vez, chorou tanto para cima do papel que eu lhe interrompi a leitura para lhe dizer que aquele texto não era triste. Ele continuou a ler e a chorar.
Passava a vida a provocar-me com os direitos das mulheres. Que a igualdade era uma parvoíce. Que eu não devia jogar futebol. Que nenhum homem queria uma mulher com pernas de futebolista. Que um homem devia abrir a porta a uma mulher, que um homem devia levar os sacos das compras. E eu muito irritada e confusa. A pensar que os direitos das mulheres não tinham nada a ver com portas nem com sacos de compras. A igualdade era a igualdade. O meu tio ria-se de mim. Que grande seca passarmos a ser iguais, termos os mesmos interesses, querermos as mesmas coisas. Vamos passar a vida à bulha. Uma mulher igual a mim não me ia dar pica nenhuma. O lugar da mulher era na cozinha e era um belo lugar, um lugar feliz. Que mal tinha a cozinha? Havia muito conhecimento numa receita. O dedo indicador apontado para mim: “Podes dar voltas e mais voltas, querida sobrinha, mas vais parar à cozinha.” Depois ria-se, inquieto, desafiador. 
Quando publiquei o meu segundo livro, perguntou-me se eu não tinha vontade de escrever um livro a sério, a dizer quem sou. Eu respondi que o Supergigante era um livro a sério e ele encolheu os ombros. Não era nada. Era um livro para miúdos. Leste? Não. Então lê. Não vou ler.
Que eu saiba nunca leu esse livro nem nenhum dos outros. 
Uma vez, depois de citar um escritor qualquer que falava sobre a duração da vida, o meu tio anuiu que realmente era uma estupidez as pessoas dizerem que a vida era curta. Que na nossa perceção do mundo, nada ia durar tanto tempo como a nossa própria vida. Absolutamente nada. E insistiu: Nada nada nada. Depois o meu tio riu-se e eu ri-me com ele. Era uma frase verdadeira e bonita. Nunca me esqueci dela e já a disse várias vezes: nada dura tanto tempo como a nossa própria vida.
Certa vez, na Bertrand do CascaisShoppingg, o meu tio decidiu oferecer-me os livros todos que eu quisesse. Eu escolhi três ou quatro. Talvez Laura Esquivel e Isabel Allende, mais “Os Cisnes Selvagens”, coisas assim. O meu tio disse: “Está bem. Primeiro lês essas pachachadas, depois lês este.” Eram “As Regras da Atração” do Bret Easton Ellis. “Não li, mas deve ser um deboche completo”. Eu li e confirmo: era um deboche completo.
Quando fiz 18 anos, o tio Tuca ofereceu-me um quadro feito por ele. Era o número 18 rodeado de frases. Assim:

Uma das frases dizia (e diz): “Os dezoito anos são tão bonitos como os setenta e quatro e contudo os dezoito anos são mais bonitos”. 
O meu tio Tuca não chegou aos setenta e quatro. Chegou aos setenta e um. Mas nada durou tanto tempo como a vida do meu tio Tuca. Absolutamente nada. Nada nada nada.
O tio Tuca morreu pelas 5h da manhã. Eram 6h da manhã em Bruxelas. Os meus três filhos acordavam ao mesmo tempo e eu acordava com eles. O maridão na cozinha a tirar cafés. Um dos meus filhos a ler um livro, outro ao meu colo, outro na cadeirinha. 
Tantas saudades vou ter do meu tio Tuca. Que homem tão desassossegado, tão ele próprio. Era tanto do que sou e quero ser, e tanto do que não sou nem quero ser. 
Olho para os meus filhos e penso: Quando acaba a vida? Em que momento se apaga o fósforo e passamos a não existir? 
No quadro que o meu tio fez para mim há uma frase que diz assim: “Para falar com franqueza os rios estão sempre a nascer”.
Nunca uma sobrinha gostou tanto de um tio. E nunca um tio gostou tanto de uma sobrinha.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A minha mãe aos 70

A minha mãe faz hoje 70 anos. Não tem rugas nem botox. É uma mulher natural.
Toda a gente acha que é 20 anos mais nova. Eu cá tenho a certeza que a minha mãe é 20 anos mais nova.
Quase nunca está doente. Raramente se cala. Quase nunca se cansa. Quase sempre estrebucha, refila, parte a loiça toda e depois parte-se a rir. Não gosta de cozinhar nem de passar a ferro. Diz muitas vezes que se esquece da idade que tem. Eu também me esqueço da idade da minha mãe.
A minha mãe, aos 70, tem energia e paixão para dar e vender. Dança sempre que pode. Estica o seu próprio cabelo, arranja as próprias unhas. Não é de lamúrias nem de queixumes.
Nunca recusa um chocolate. Nunca recusa um copinho. Dantes bebia whisky. Agora só bebe vinho. E talvez conhaque. E também ginjinha. E cerveja, claro. Come queijo da serra, alheiras de caça, Magnum de amêndoas. Fumou durante décadas. Passou horas ao sol.
Numas coisas somos muito parecidas. Noutras somos o total oposto.
A minha mãe, aos 70, é muito mais nova do que muita gente nova que por aí anda. Parabéns, mãezinha! És uma inspiração.


terça-feira, 6 de agosto de 2019

Rui Gonçalves

O Rui Gonçalves morreu.
Era um homem muito alto e muito magro. Vivia sozinho num apartamento em Oeiras. Não tinha filhos nem cães nem gatos.
Era amigo dos meus pais e também meu amigo. Ligeiramente louco. Profundamente preconceituoso. Homofóbico. Racista. 
Andava sempre armado. De manhã à noite. Dormia com a pistola debaixo da almofada. Mas não era um homem violento. Era até doce na sua loucura varrida.
Fazia paraquedismo. Não comia queijo. Contava histórias incríveis do Ultramar, mas só as que davam para rir no fim. Nós ríamos sempre no fim.
Durante a minha infância trazia-me prendas a toda a hora. Coisas pequenas e banais, que ele apresentava com grande pompa. Fazia introduções enormes a esses pequenos tesouros. Podiam ser berlindes. Lápis de cor. Borrachas. Pouco importava. Tinham uma história. Eram valiosos. 
Sempre que me dava um desses tesouros, o Rui fazia questão de esclarecer que aquela prenda era uma exceção. Que não ia estar sempre a trazer-me prendas quando nos viesse visitar. Ora essa, comentavam os adultos, claro que não. Os miúdos depois habituam-se, já se sabe. Mas a verdade é que o Rui me trouxe sempre prendas. Sempre sempre sempre.
Uma vez, eu e a minha vizinha Aurora estávamos sentadas no chão da sala a rir às gargalhadas. Não me lembro por que razão nos ríamos, mas sei que nos ríamos muito. O Rui observava-nos em silêncio, com aquela alegria triste dos adultos que perderam a infância. A certa altura virou-se para a minha mãe e disse: “Se há coisa que estas miúdas vão poder dizer é que tiveram uma infância feliz”. E depois virou-se para mim e para a Aurora - que ele tratava por “Orora com O grande” - apontou o dedo e disse: “Nunca se esqueçam que tiveram uma infância feliz”. Eu e a Aurora parámos de rir. Um pedaço da nossa infância talvez tenha chegado ao fim naquele momento. E foi uma infância feliz realmente, graças também ao Rui Gonçalves, que me trazia prendas sempre que ia lá a casa e fazia umas entradas muito cómicas nas minhas festas de aniversário: primeiro chegava a voz dele e depois talvez um braço ou uma perna e só depois ele inteiro.
Conheci-lhe algumas namoradas e também uma esposa, com quem casou duas vezes. Se bem me lembro, ele dizia “esposa”. Não dizia “mulher”. Eu adorava esta história dos noivos que se casaram duas vezes.
O Rui nunca gostou de nenhum dos meus namorados. Tratava-os com frieza e desdém. A semanas de me casar, foi até bastante indelicado com o meu futuro “esposo”. Inquisidor, severo, desagradável. Na altura levei a mal, mas agora levo a bem.
É que o Rui Gonçalves gostava à brava de mim. Nunca tive dúvidas disso. E não há muita gente de quem se possa dizer isto assim, sem reservas: que gostam à brava de nós.
Durante a minha adolescência, dizia-me coisas espantosas. Por exemplo, que eu devia sentir gratidão por ser uma pessoa normal e saudável, que a normalidade e a saúde eram preciosas, que o melhor que me podia acontecer na vida era ter uma relação como os meus pais tinham, uma relação para toda a vida, com intimidade e amor e sexo e família como ele nunca tivera. Também me dizia: “Promete-me que não te vais casar com um preto” e eu ficava sempre muito envergonhada e indignada com aquele pedido. Não podia prometer tal coisa. Como não? Claro que não. Ele desafiava-me: “Eras capaz de casar com um preto?” Claro que era. Que disparate. O Rui muito desgostoso. A insistir: “Por favor, não te cases com um preto.” E eu com a certeza adolescente de que me ia casar com um preto lindo de morrer, porque o destino é mesmo assim: mete sempre a pata na poça.
Volta e meia, perguntava-me pela “Orora com O grande”. Eu respondia sempre a mesma coisa: que nos tínhamos afastado, que eu não sabia nada dela. E o Rui ficava sempre assim, com aquela alegria triste das pessoas sem infância, a pensar na vida.
Durante uma fase da adolescência interessei-me pela implantação da República. Não sei por que raio, mas queria escrever qualquer coisa sobre essa época. Até já tinha um protagonista: um rapaz que fumava beatas do chão e ganhava uns tostões a trabalhar como ardina.
O Rui entusiasmou-se muito com a ideia. Durante meses trouxe-me fotocópias de livros que ele encontrava nas bibliotecas: imagens de ardinas, páginas sobre a revolução de 5 de outubro, apontamentos sobre o Partido Republicano Português. Infelizmente, nunca escrevi nada sobre a implantação da República, mas lembro-me muitas vezes do rapaz ardina. Era uma boa personagem. Talvez venha a existir um dia. Talvez se venha a chamar Rui.
No meu aniversário, o Rui telefonava-me e dizia-me apenas isto: “Saúde saúde saúde”. Eu dizia obrigada e perguntava-lhe se estava bem. O Rui nunca me respondia. Repetia “Saúde saúde saúde” e eu ria-me. Gozava à farta com aquela frase: “Saúde saúde saúde”. Se ele estivesse em casa, talvez me dissesse que estava a olhar para as fotografias que tinha na parede, que eu estava em várias dessas fotografias e que só me desejava “Saúde saúde saúde”.
Nos últimos anos desfez-se de tudo. Vendeu o apartamento, ofereceu o conteúdo da casa a este e àquele. Depois zangou-se com toda a gente. Depois adoeceu. E depois morreu um pouco mais sozinho do que antes, parece-me.
Neste último ano, enviou-me algumas cartas e recortes de jornais, incluindo artigos sobre os meus livros que ele encontrava aqui e ali. Agrafava uma
folha em branco à capa da publicação e explicava tintim por tintim onde e quando encontrara o artigo. Sublinhava algumas palavras a vermelho. Da casa do Rui herdei uma saladeira de porcelana que era dos pais dele. Uso-a muitas vezes. Tem um bom tamanho para saladas de fruta.
Nunca me vou esquecer do mantra “Saúde saúde saúde”. 
Nunca me vou esquecer que tive uma infância feliz. 
Nunca me vou esquecer do meu amigo Rui, esse homem improvável, louco e racista que andava sempre armado.
Parecia uma personagem de ficção, mas era um homem de verdade.