Faço hoje 44. A minha mãe faria 77 daqui a uns dias.
Partilhávamos capicuas. Só há pouco me apercebi disto.
Quando fiz 11 anos, fazia a minha mãe 44. Eu a lidar com as primeiras menstruações e a minha mãe a recuperar de um burn out.
Sangue e exaustão. Duas fêmeas a definhar.
Saí de Portugal aos 22 anos. A minha mãe tinha então 55. Abraçámo-nos no aeroporto. Eu chorei, ela não. A minha mãe assim: “Não precisas de ir”. Hein? Como assim, não preciso de ir? Eu quero ir. Pensei que não querias. Porquê? Estás a chorar. Porra, que nervos. Ali nos separámos. A história de todas as filhas, de todas as mães. As duas a tremer nas canetas. Ela a lidar com o fim e eu a começar qualquer coisa.
A minha mãe aos 66 anos: “Às vezes olho para o espelho e assusto-me. Esqueço-me da idade que tenho. Dá para perceber isto?” e eu: “Claro que dá. Tu não tens a tua idade.” E era verdade. Falávamos da idade e do corpo. Falávamos da condição feminina. Falávamos dos homens, cambada de incompetentes que mandava nisto tudo. Tínhamos longas conversas. Tínhamos grandes ataques de riso. Nem sempre nos entendíamos.
Ponho o anel e penso na minha mãe. Sinto o vento e penso na minha mãe. O mar, a minha mãe. Borboleta, a minha mãe. Em tudo a minha mãe. Mas não daquela maneira nebulosa e sobrenatural. A minha mãe não é o anel nem o vento nem o mar nem a borboleta. A minha mãe está dentro de mim como a bílis, o muco e o sangue.
A minha mãe sou eu.
Eu faço 44 e a minha mãe 77. Às vezes olho para o espelho e assusto-me. O meu corpo não é bem o meu corpo. A minha tia assim: “Nós não somos só matéria.”
Nos últimos tempos encontro mães em tudo o que leio. A minha mãe, as nossas mães, todas as mães. Giovana Madalosso, J. Rentes de Carvalho, Arundhati Roy, Irene Solà, Marcello Quintanilha, Delphine de Vigan, António Lobo Antunes.
Até dá para escrever um texto com estas frases:
A mulher é antes mãe do que ela mesma, eu disse,
porque afinal quem diz mãe diz monumento.
A minha mãe diz sempre não, claro que não, e faz aquilo que lhe apetece.
A gente, que é mãe, não se dá conta.
A minha mãe era um campo demasiado vasto, demasiado sombrio, demasiado desesperado: em suma, era um terreno demasiado escorregadio.
visto que no fundo de mim não me sentia com direito a ter mãe e de resto para que serve uma mãe, o que se faz com uma mãe, como se agradece, o que se diz.
Minha querida mãe, esta ausência sempre presente.