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sexta-feira, 8 de agosto de 2025

43

Tenho olhado mais para cima. Céu, nuvens, árvores, chaminés. 

Não vejo nada. Não sei nada. É muito chato estar presa ao chão. 

Atravesso a atmosfera dentro da cabeça. Lua, Marte, cinturão de asteróides, os últimos astros do sistema solar: Urano, Neptuno, Plutão. 

A Voyager 1 continua o seu percurso pelo Espaço. Começou a sua viagem há quase 47 anos. Eu faço hoje 43.

Olho para baixo, deslizo pelas notícias. Não há palavras para a catástrofe humana.

Vou buscar os meus filhos. Três projetos de homem. Levo-os ao parque. Um deles quer arrancar um ramo da árvore. Explico-lhe que todas aquelas árvores já cá estavam antes de nós.

Os outros dois fazem um castelo na areia. O terceiro aproxima-se e manda tudo abaixo. Zangam-se entre eles. O destruidor leva com areia na cara. Zango-me com todos. Pedem desculpa, vai cada um para seu lado.

Olho para cima. A distância atrai-me. Às vezes tiro fotografias. Não há nada de metafísico neste exercício. Não procuro o milagre nem o sobrenatural. Pelo contrário. 

Sinto o sol na pele. Apanho uma bolota.

No regresso a casa, o mais velho quer saber por que razão já não existem faraós. Falamos do fim das civilizações. Digo-lhe que, se fizermos um buraco, vamos encontrar um sarcófago. Ele ri-se de mim. “O Egito não é aqui, mamã!” Digo-lhe que, um dia, este prédio também vai deixar de existir, que haverá outros edifícios, outras pessoas. 

Está muito calor na sala. Fecho as cortinas. Um deles vem comigo regar as plantas. Um dos mais novos faz um desenho muito bonito do Sistema Solar.

Somos da Terra e do Sol. Não há volta a dar. 

É possível destruir. É possível construir. Ou seja, há vida depois da morte. Tudo importa. Absolutamente tudo. O chão, o céu, as árvores, os astros, os anos. 

Ainda estamos aqui.


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

saí de portugal há exatamente vinte anos

 


saí de portugal há exatamente vinte anos 

não atravessei o mar não passei por arame farpado não fui ilegal irregular clandestina requerente de asilo não fugi de nada nem de ninguém durante anos nem sequer percebi que estava a emigrar foi no tempo em que eu falava alemão e queria conhecer a alemanha beber vinho quente encher o bandulho de lebkuchen e então no dia 4 de novembro de 2004 se a memória não me engana apanhei um avião e cheguei ao meu destino onde passei algum frio os telhados eram negros e a floresta muito verde assim que pude comprei o passe de comboio e uma máquina fotográfica da kodak que tinha um zoom extremamente sôfrego viajei por todo o lado com ela ao pescoço berlim hamburgo colónia estugarda eu fotografava o rio a neve as praças e às vezes também era fotografada a fotografar como nesta fotografia em que eu sorria porque nessa época eu sorria bastante vivia nas águas-furtadas de um prédio de esquina a chuva batia com toda a força na janela e eu escrevia coisas extremamente más péssimas terríveis mas sorria na mesma a angela merkel ainda não era chanceler isso aliás era inconcebível em 2004 a angela merkel não tinha o carisma a robustez a pujança era até meio desengonçada vinha de leste não sabia comunicar ela nunca poderia substituir o schröder diziam eles e dizia eu também naquelas conversas de café os professores na escola tratavam-me por frau pessoa o que era bastante cómico eu era demasiado nova para estar na sala de professores era demasiado velha para estar entre os alunos e não sabia que no ano seguinte me iam roubar a kodak em paris e que angela merkel seria a primeira mulher a governar a alemanha e que o faria aliás durante mais de quinze anos amanhã há eleições nos estados unidos da américa e duas décadas depois dizemos de kamala harris o mesmo que dizíamos da merkel ela bem pode ter sido advogada senadora procuradora-geral mas não tem o carisma a robustez a pujança de um líder ou seja de um homem que parvoíce daqui a vinte anos ainda estaremos a falar disto porque a maior parte das coisas só as percebemos ao longe quando saímos de onde estamos e olhamos para outro país para uma língua para um determinado momento na história no mundo na vida como quem olha para uma fotografia ou seja quando estamos demasiado longe e quando o futuro que aguardávamos com vontade e esperança já ficou lá para trás e isso de repente duas décadas depois não nos dá vontade nenhuma de rir

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

42

42 anos. Lavei finalmente este cabelo. Pus uns brinquinhos. 


Já não uso biquini. Uso fato de banho. Tenho praí uns cinco. São todos azuis. Nenhum me fica propriamente bem. 


Celulite, varizes, pelo na venta. Uma pessoa perde beleza e candura. Mas ganha frontalidade e clareza. Já não ando com rodeios. Já não evito conflitos. 


Aos 42 anos, a minha mãe teve um esgotamento e nunca mais foi a mesma. 


Num livro de ficção científica que não li mas talvez venha a ler, 42 é a resposta à pergunta fundamental sobre o universo e a vida. À noite, se me ponho a pensar no universo e na vida, já não durmo. Desde há uns anos, tudo me tira o sono: os filhos, as eleições, o clima, o Donald Trump. Muitas vezes acordo a meio da noite e não volto a adormecer. 


Levanto-me, espreito os meninos, endireito-os, tapo-os, fico a ouvir a sua respiração. Que lindos são os meus filhos. Deito-me ao lado do homem da minha vida. Só ali estou segura. Não durmo, mas sossego.


O ser humano sobrevive duas semanas sem água nem comida, mas não consegue sobreviver sem dormir. Um facto conhecido: Há muito mais mulheres a sofrer de insónias do que homens. 


A privação de sono afeta a nossa memória, a nossa capacidade de decisão, a nossa criatividade, o metabolismo, o sistema cardiovascular, o sistema imunológico, o sistema hormonal e o sistema nervoso.

Ou seja, quem dorme mal, lixa-se, e bem! 

O cansaço das mulheres poderá ser a pergunta fundamental sobre a vida e o universo.


Suspiro bastante. Bebo menos café. Bebo menos álcool. Choro à frente de qualquer um.


Felizmente há livros a dar com pau. A noite avança e eu leio. Às vezes também escrevo. Why not? As pessoas perguntam-me: Quando escreves? Como escreves? Não estás cansada?


Eu cá estou cansada, meus amigos, e também estou inquieta. Por isso mesmo, leio. Por isso mesmo, escrevo. Li bons livros este verão. Não escrevi nada de jeito.


No fundo, eu leio e escrevo para me tranquilizar. Para me abstrair. Para descansar.


Umas fotos deste verão: bolinhos, sardinhas, uma rede, um vício e eu.








 


terça-feira, 26 de dezembro de 2023

More amor por favor


 

Na montra da papelaria do bairro: “more amor por favor”.

Entro. Compro vários postais, compro uma última prenda e compro também uma recarga para a minha caneta. Escrevi pouco com a minha caneta este ano. Por um lado, não tinha tempo. Por outro, não tinha tinta.

De quando em quando a sensação de que isto já deu o que tinha a dar. 

Isto: a literatura, o ser humano, o planeta.

Cinco livros na mesa de cabeceira. Um deles ainda não comecei a ler, outro vai a meio, outro a dois terços, outro a três quartos, outro quase no fim; e nenhum deles me entusiasma por aí além. Ainda assim, leio. Para quê?

Vi a Annie Ernaux em março. Ela de microfone na mão, aos 82 anos, a dar-me respostas. “A literatura é ter uma frase para nós próprios, que possamos ler em silêncio.” Acrescenta: “E essa frase ajuda-nos a viver”.

Viemos ontem para Portugal. Eu, a minha caneta, o homem da minha vida, os nossos três filhos e as malas cheias de roupa e chocolates e um livro qualquer para ler nos intervalos. 

2023 quase no fim. Último capítulo.

Comecei a fazer bolos. Bolo de iogurte, bolo de chocolate, bolo mármore. O milagre da levedura, uma ideia a aumentar de volume. 

E de novo a sensação de que afinal sempre vamos dar a volta a isto. Cessar-fogo, eleições, energias renováveis.

Apercebi-me este ano de que os meus pais são fortes pra caneco. Sorte a minha, andar assim no mundo, rodeada de força. Os meus pais são a minha frase.

Os meus filhos deram um pulo. Já ninguém usa fralda nem chucha. Já ninguém faz sestas. Todos tão diferentes. Os meus queridos três porquinhos. 

Vi o Djavan em junho. O Caetano em setembro. A Madonna em outubro. A Mayra Andrade em dezembro.

Esta frase da Sheila Heti. “Only when a woman is no longer attractive to men, can she be left alone for enough moments to actually think.”

Este sambinha do Caetano: “Sem samba não dá.”

Pus finalmente o dispositivo intrauterino. Não quero mais filhos. Chiça. A ginecologista para mim. “Posso dizer-lhe uma coisa?” Pode, pode, claro. “O seu útero é muito bonito.” Eu e a médica na amena cavaqueira, duas mulheres, duas pessoas.

Uma reflexão da Djaimilia Pereira de Almeida: Pode uma escritora negra falar sobre outros assuntos que não o racismo? “Se eu falar sobre outras coisas, sobre a vista da minha janela ou uma futilidade qualquer que me apareça à frente… Posso fazer isso? Será que há espaço para isso, sendo eu uma mulher negra?”

O privilégio da escritora branca: escrever sobre futilidades, não escrever sobre raça, não escrever sobre privilégio, não pensar nisso sequer.

Ganhar consciência disso. A importância da ideia, da levedura.

Uma pessoa faz a diferença. Annie Ernaux, Caetano, Djaimilia, Mayra Andrade. Uma pessoa, uma voz, uma montra, uma frase.

Para quê? Para isto.

Boas entradas, amigos! Para o ano há eleições. 

More amor por favor.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

41

Na escola dos miúdos sou sempre a mamã de não sei quem. Os emails das professoras começam assim: “Chère maman de …” 

Para os vizinhos e para o farmacêutico, a cabeleireira, o oculista, etc., sou Madame para aqui e para ali. Aos poucos vou deixando de ter um nome.


Os meus filhos correm para mim quando os vou buscar à escola. Gritam: “Mamã, mamã, mamã”. É possível que também eles não conheçam o meu nome próprio, o que é bastante freak e chocante e absolutamente normal. 


Estou feita uma mãezinha. Nunca pensei. 


Levo os meus filhos ao parque, à gelataria, ao dentista. Ralho com eles na passadeira. Queimo o braço a escorrer esparguete. Como os restos do jantar. Aprecio os raros minutos de silêncio. Faço notas mentais que não cumpro: marcar otorrino, comprar meias, cortar as unhas.


Volta e meia dormem a noite toda. Nas manhãs seguintes, amo-os um pouco mais. Depois um deles dá uma cabeçada noutro e lá se vai o amor pelo ralo. Incondicional, o tanas. 


Zango-me com o agressor. Repito certas frases. “Não batas no mano”. A melhor frase é dita aos gritos: “Pára de gritar.” Muito bem, Ana Pessoa.


Por vezes, o mais velho diz-me: “Tu és a mais bonita das mamãs”. Grande peta. Sou tipo a mais feia. Escovo o cabelo: continuo despenteada. Prendo o cabelo: continuo despenteada. Olho-me ao espelho. Vem-me à cabeça o título de um dos meus livros. “O que é isto?”


Uma prima disse-me que os meus filhos parecem três patinhos sempre atrás da mamã. É capaz. Nos dias bons acho que dou conta do recado. Nos dias maus tudo me enerva. 


Por vezes, o mais velho também me diz: “Estás sempre zangada”. Dou por mim ainda mais zangada a dizer-lhe: “Isso não é verdade!” Mas claramente é. Quá, quá, quá.


Tento distrair-me da vida doméstica. Leio um bocadinho. Escrevo um bocadinho. Rezo um bocadinho. 


Isto de rezar é mentira. Não rezo, mas já rezei embora nunca tenha tido um terço. Às vezes imagino essa vida paralela em que eu teria um terço e rezaria dez Avé Marias de seguida. Há versos bonitos nessa oração. “Bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre”.


Voltei a jogar sudoku. Saquei uma app. Abri conta no TikTok. Vi aquela série portuguesa de que toda a gente fala. Gostei muito de uns episódios, detestei outros. Enfim. Esforço-me por continuar a ser profundamente medíocre. Nesses intervalos volto a ter um nome.


O homem da minha vida não é o papa Francisco nem Jesus de Nazaré. É um primata, herege, engenheiro, comum mortal e também ele profeta e justiceiro, com vocação para a retórica, a carpintaria e o milagre. A voz dele. As frases, os gestos, a barba, as pernas. A maneira como brinca com os rapazes. A maneira como entra no mar. “Agora e na hora da nossa morte”.


Um dia destes, passou na Vagos FM um hit dos anos 90. Aquele assim: “Ó mãe, aquele moço bateu-me.” Eu vinha ao volante e os três patinhos atrás. 



Aumentei o volume: “Deu-me um pontapé no cu.” Os miúdos barafustaram porque um deles queria outra música, o outro não queria música e o terceiro queria silêncio absoluto, ninguém podia cantar nem falar nem rir nem ouvir nem pensar. Mandei-os calar. Um pontapé no cu, era o que eles mereciam.  As crianças são egoístas, mesquinhas, cruéis. Iguaizinhas aos adultos. Cantei bem alto: “E tu não dizes nada. Mas que raio de mãe és tu?” 


Depois ri-me sozinha porque ainda há pouco era eu que dava - e levava - pontapés no cu e agora sou a mãe que não diz nada. 


Depois parei de rir porque isso afinal não tinha piada nenhuma. Ainda há pouco eu tinha uma voz e agora não digo nada. Ainda há pouco eu tinha um nome e agora sou mãe de não sei quem. Ainda há pouco eu rezava e agora não acredito. 


Ultimamente tenho reparado que me falha de vez o quando o otimismo, aquela confiança no outro e no futuro. Não é fácil carregar com o mundo às costas. Daí este fascínio pelo terço.


Mas depois uma pessoa olha, por exemplo, para a Ria Formosa e só pode comungar com as dunas, as lagoas, as matas e todos os peixes e moluscos e aves raras e não raras. Com o tempo perdi a fé no divino, mas abracei os seres vivos e não vivos e profundamente terrestres. 


Ou seja, sou ateia mas não descrente. 


De resto, olhem. Num dia temos 14 e no dia seguinte 41. 

terça-feira, 9 de maio de 2023

Dia da Europa

9 de maio, Dia da Europa🇪🇺

Já disse isto antes, mas volto a dizer. Sou europeia até à pontinha dos meus cabelos espigados. Nasci em Portugal, estudei literatura alemã, fui bolseira do programa Comenius, trabalhei no Luxemburgo, morei na Alemanha, vivo há que tempos em Bruxelas, trabalho numa instituição da UE, leio em várias línguas europeias. Além disso, pago impostos, separo o lixo, tiro a senha, ando de transportes públicos. Penso, falo, voto. Também isto é Europa. A ideia de que há um coletivo, de que somos parte do todo, de que cada pessoa faz a diferença, de que ninguém está acima de ninguém, de que todos temos direitos, deveres, oportunidades, de que não estamos melhor sozinhos. 

A União Europeia é o lugar onde todos e todas podem ser quem são. Onde as crianças vão à escola, onde as mulheres se podem vestir como quiserem e podem amar homens ou mulheres ou ambos ou nenhum dos dois e trabalhar, viajar, casar-se, divorciar-se. Onde as pessoas podem mudar de sexo, de religião, de opinião. Onde todos e todas podem tomar a iniciativa, assinar uma petição, participar numa greve, fazer uma reclamação, eleger e ser eleitos.

Onde todos e todas temos direitos como titulares de dados, como pais de filhos, como filhos de pais, como trabalhadores, pacientes, artistas, cientistas, consumidores, passageiros, turistas, contribuintes e até como arguidos. Onde se luta pelo ambiente e pela sustentabilidade. Onde a discriminação, o racismo e a xenofobia são crime. Onde os mais vulneráveis são protegidos: os mais velhos, os mais novos, as pessoas com deficiência.

A União Europeia pode não ser assim tão unida nem tão livre como eu acabo de a pintar, mas também já foi bem menos unida e bem menos livre. A ver pela amostra do resto do mundo, a União Europeia é a que está mais próxima dessa realidade. 

É verdade que não tem tratado nada bem os refugiados nem os imigrantes. É verdade que não se portou bem com os países do Sul. É verdade que não cumpre as suas próprias regras e metas. Verdade, verdadinha.

Mas é um lugar onde representantes de interesses diferentes, de ideologias opostas, se sentam à volta de uma mesa e conseguem chegar a compromissos. E isso, nestes tempos em que tudo parece estar em causa, não é coisa pouca.

sábado, 31 de dezembro de 2022

2022

Cartoon do Hugo van der Ding


Não tirei tantas fotografias aos meus filhos. Não li muito. 

Os mais novos largaram as fraldas. Fizeram 3 anos. Começaram a ir à escola.

Voltei a cozinhar. Voltei a ir ao ginásio.

Compramos uma figueira e uma laranjeira. Morreram as duas.

Fui às urgências com dificuldades respiratórias. Não era covid. Era uma pneumonia. 

Li Ana Margarida de Carvalho, Manuel Vilas, Jane Lazarre, Adília Lopes.

Fiz 40 anos. O Gilberto Gil fez 80. A Gertrude Stein morreu há mais de 70. Este verso dela: “Sugar is not a vegetable”. Adoro a Gertrude Stein e adoro açúcar e adoro alguns vegetais, sobretudo os subterrâneos e obscuros. Batata, alho, cebola, rabanete.

O autoclismo deu o berro.

Perdi os meus óculos escuros, que eram redondos e graduados. Perdi o cartão do cidadão. Comecei a usar batom. 

Tirei uma selfie com a Capicua. Descobri o trabalho do Hugo van der Ding.

Tive uma quebra de tensão num dia de calor. Deitei-me na calçada. Várias pessoas ofereceram ajuda.

Regressei às urgências com dificuldades respiratórias. Já não era pneumonia. Era covid.

Compramos um beliche para o quarto dos rapazes. 

Um dos meus filhos partiu o candeeiro da sala. Arranjamos outro. Partiu esse também. Não arranjamos outro.

Tomei nota de algumas frases dos meus filhos:

A boca tem um buraco. O fogo é dos bombeiros. Eu gosto de ti todos os dias. Isto é um planeta e nós estamos no espaço.

Li um conto do Sandro William Junqueira, em que um homem pesaroso parece andar sempre com uma jiboia aos ombros. Esta imagem tem-me acompanhado estes tempos. Andamos todos com uma jiboia aos ombros. 

Em 2023 só espero que ela não se enrole à volta do nosso pescoço. 

Mais amor, menos guerra. Mais poesia, menos futebol. Aquelas coisas.

Bom ano, amigos! A esperança é sempre a última.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Are you crazy

 Como é que diz o provérbio? Que errar é humano? Que os erros se pagam caros? Mas como evitar o erro? Como determinar quem errou? como corrigir o incorrigível?

Ontem, ao final do dia, optei por não ir buscar os meus filhos de bicicleta. Chovia, estava escuro e eu sentia-me cansada pra chuchu. Além disso, tinha tempo. Fui então buscar os meus três filhos de autocarro. Talvez fosse mais prudente.


Cheguei à escola pouco depois das 16h. Os miúdos estavam bem. Não tinha havido acidentes com chichi, todos tinham comido ao almoço. Um deles trazia um enorme saco com um presépio de plasticina lá dentro.


Enquanto seguíamos pela rua, fui explicando - com os poucos conhecimentos que tenho sobre o assunto - que hoje (ontem) era o dia mais curto do ano, que a partir daqui os dias seriam cada vez mais longos, cada vez mais luminosos, cada vez mais quentes. O mais velho ficou feliz com essa perspetiva. Os mais novos não reagiram. Para eles, talvez os dias fossem sempre longos e luminosos, não sei.


Atravessamos a primeira passadeira em rebanho. Não havia carros nem bicicletas, éramos só nós. Na segunda passadeira, parei-os na berma da estrada. Continuava a chover e já era noite total, era preciso cautela. Além disso, estávamos numa rua movimentada e meia inclinada, o que também afeta o campo de visão.


Um carro que vinha a descer a rua parou na passadeira. Começamos então a atravessar, eu ligeiramente à frente, a dar indicações aos três meninos que vinham imediatamente atrás. 


Na direção oposta, o carro que subia a rua parecia vir demasiado depressa. Apercebi-me a tempo e parei a nossa turminha no meio da passadeira, eu à frente das crianças, ao estilo polícia sinaleiro, mas sempre na expectativa razoável de que o condutor veloz nos visse e parasse. Ia dizendo aquelas coisas: cuidado com o carro, venham sempre com a mamã, vamos esperar. De súbito, o mais velho, distraído do mundo nas suas fantasias de carros de corrida, atravessou-se à minha frente e já não o consegui agarrar. Só então percebi a tragédia que se avizinhava: o carro que subia depressa não só não abrandava, como não fazia mesmo tenções de parar. O mais provável é que não nos estivesse a ver.


Felizmente o outro condutor, parado na passadeira, buzinou com afinco e o carro largado estacou bruscamente, a tempo de se evitar a maior tragédia da minha vida. Estávamos todos em choque: eu, os meus três filhos, o condutor estacado mesmo à nossa frente, o condutor parado na passadeira e algumas pessoas que observavam a cena nos passeios.


Mas eis que o condutor desatento que circulava em excesso de velocidade e que estava prestes a atropelar uma criança numa passadeira em frente a uma escola, sai do carro, aponta o dedo indicador ao meu rosto e grita-me em inglês: “Are you crazy? What are you doing?” 


Está de noite, está a chover, uma mãe atravessa a rua na passadeira com os seus três filhos pequenos. Respondi-lhe incrédula: “You’re driving in front of a school. Isto é uma passadeira.” Respondeu-me irritado: “Não há semáforos aqui!” E depois voltou a entrar no seu carro, bateu com a porta e zarpou. Eu e os meus três filhos, utilizadores vulneráveis da rodovia, atravessamos a passadeira muito devagar, ainda em choque. 


Entretanto a fila de carros atrás do automóvel parado na passadeira já se alongava, era necessário avançar. Antes de seguir viagem, o condutor-herói baixou o vidro e disse-me em francês: “Tem de ter atenção. Eles andam muito rápido e não conseguem ver.”


Mais atrás, um jovem condutor perguntou-me se eu estava bem. Foi o único. Dos meus filhos ninguém quis saber.


As pessoas na paragem do autocarro olhavam-me desconfiados. Eu aflita e desfeita em lágrimas, rodeada de três crianças confusas. Nenhuma palavra de consolo ou preocupação. 


Apesar de a lei dizer repetidamente o contrário, no nosso sistema de crenças, a culpa pelos acidentes será sempre do peão indefeso, sobretudo das mães incapazes de controlarem os filhos. 


Ontem, nenhuma das testemunhas daquele incidente parece ter considerado a possibilidade de o peão - no caso a mãe, acompanhada pelos seus três filhos - ser a vítima e não a pessoa culpada. A mãe, prestes a perder um filho na passadeira, além de culpada, é louca. Não merece qualquer compaixão.


A nenhuma destas pessoas lhe ocorreu pôr em causa o condutor, que circulava em excesso de velocidade à noite e à chuva, distraído das passadeiras numa zona residencial onde abundam escolas. O peão, que corre evidentes riscos, é que deve velar sozinho pela sua segurança.


Assim vai o mundo, sozinho, avançando sobre rodas em piloto-automático e em evidente excesso de velocidade. Mães esgotadas, condutores enfurecidos, crianças indefesas, todos nós pressionados, atrasados, magoados, culpados, carentes, doentes, exaustos, esmagados, mas cada vez mais eficientes, cada vez mais rápidos, cada vez mais ágeis, versáteis, qualificados, conectados, sozinhos, deprimidos e nunca errados, sempre prontos a apontar o dedo, a acusar o próximo de todos os males, de todos os erros. “Are you crazy?”


O planeta aos gritos, sobrelotado, sem recursos, também ele carente, doente e exausto, mas ainda são poucas as pessoas que se questionam verdadeiramente sobre os malefícios de tudo isto: o nosso domínio sobre a natureza, sobre a tecnologia, sobre o tempo e o espaço, a começar pela omnipresença do automóvel no meio urbano, que veio criar esta constante sensação de urgência e de perigo, dominar o espaço público, mudar o comportamento das pessoas e alterar drasticamente a paisagem com rodovias muito feias de asfalto, já para não falar da inadmissível poluição sonora e atmosférica provocada por estas banheiras de metal e vidro. Para todos podermos chegar mais rápido e no maior dos confortos, para cumprirmos todos os marcos, todas as metas, todos os prazos que, passo a expressão natalícia, não interessam ao menino Jesus.


Não sei como vou lidar com este trauma, com esta fratura, com este erro, mas espero não cair de vez neste negrume, nesta loucura. Em 2023 espero continuar ligada às estações, a pensar nos dias que aí vêm, que hão de ser cada vez mais longos, cada vez mais luminosos, cada vez mais quentes. 


Por outras palavras, espero continuar a viver, a ler, a escrever, a amar, a brincar com os meus filhos e a agradecer todos os dias ser mãe deles, mesmo sabendo que nem sempre estarei à altura e que poderei não conseguir salvá-los.

domingo, 27 de novembro de 2022

E já está!


Passo-lhe uma fatia de pão com manteiga. Ele vai arrancando a côdea com as mãos. Pergunto-lhe pelos amigos da escola. Quem estava, quem não estava, se apanharam chuva no recreio. Diz-me: “Mamã, eu não quero falar” e durante uns minutos não fala. Os irmãos correm atrás um do outro pela casa e ele beberica o seu leite, come a fatia de pão. Agora olha em frente, contempla o quadro do avô na sala. Ri-se. Diz: “O avô estava sempre a desenhar.” E eu rio-me também. Vou comendo a côdea do pão. Digo-lhe: “Tu também gostas muito de desenhar”. Sim, diz ele. “Gosto de desenhar e gosto muito de carros de corrida azuis”. Depois lá conta uma história qualquer da escola. Que alguém caiu no recreio e fez um grande dói-dói. Termina as histórias quase sempre assim: “E foi assim. Acabou. E já está.” Digo-lhe: “No domingo vais fazer cinco anos.” Ele pergunta: “Porquê?” Eu digo: “Porque nasceste no dia 27 e no domingo é dia 27.” 

Daí a nada estamos a falar desse dia 27, há quase cinco anos. Desta vez conto-lhe mais pormenores. Que estava muito frio, que eu e o pai chamamos um táxi pouco antes da meia-noite, que o táxi nunca mais chegava. Que dormimos num quarto do hospital, a mamã deitada aqui e o papá ali. “E eu? Também estava deitado?”, pergunta ele. Sim, sim, digo-lhe eu. Estavas deitado na barriga da mamã e depois amanheceu e toda a gente passava pelo quarto para saber se o bebé queria nascer, mas o bebé ainda não queria nascer. A mamã à espera, o papá à espera e as enfermeiras e as parteiras e os médicos. Todos à espera e o bebé nada. Ele ri-se. 

Digo-lhe que a certa altura uma parteira anunciou: “Atenção! Vai nascer o bebé!” e que então o bebé lá saiu da barriga da mamã. Estava todo nu e a chorar porque estava cheio de frio. “Era eu”, diz ele. “Pois eras”, respondo eu. Conto-lhe que uma enfermeira lhe pôs um gorro branco na cabeça e que depois o bebé veio para o colo da mamã e ficou muito quentinho e parou de chorar. Que o papá estava muito feliz e tirou uma fotografia ao bebé, que o bebé era muito lindo. Que a mamã também estava muito feliz com o seu bebé que tinha acabado de nascer e tinha um gorro branco na cabeça. Ele insiste: “Era eu”. Eu digo: “Pois eras”. Ele ri-se e aponta para mim. Diz: “E tu eras uma nova mamã”. “Pois era”, respondo. “Eu era uma nova mamã”.

Foi há cinco anos. 

Que dia mais cruel e mais lindo.

Nascia o bebé. Nascia a mamã. Nascia o papá. 

E foi assim. Começou. E já está.


segunda-feira, 8 de agosto de 2022

40

Nunca pareci mais nova. Pelo contrário. 


Durante a infância e a adolescência, quando revelava a minha idade, as pessoas - geralmente adultas - reagiam com surpresa ou até indignação e acrescentavam sempre: “Pareces mais velha”. 


Quando tinha 10 anos, achavam que tinha 15. Quando tinha 15, achavam que tinha 20. E por aí fora até aos 30 e picos. Com o tempo, o choque foi dando lugar à aceitação, que deu lugar à absoluta indiferença.


Cheguei finalmente à minha idade: sou e pareço uma mulher com 40 anos.



No outro dia tirei esta selfie. Adoro o meu cabelo indomável. Adoro selfies ao vento.


Estou cada vez mais parecida com a minha mãe. Digo frases que ela dizia. Por exemplo: “Os meus filhos são tão lindos” e também “Vocês cansam-me”.


Começo a dar valor aos acessórios: anéis, bandoletes, écharpes. Tenho uma mochila de pele. Tenho brincos de esmalte. Tenho um marido. Temos três filhos.


Já fui mais nova. Já fui mais bonita. Já fui mais magra. Ocupo cada vez mais espaço. Acordo a meio da noite. Já não tenho medo do escuro. Já não ando sempre descalça.


Por vezes agarro num dos meus filhos e encho-o de beijos. Eles refilam, soltam-se como podem. Também ralho muito com eles. Beijar e ralhar: duas faces do mesmo amor.


Escrevo sempre que posso. Se tiver cinco minutos, escrevo cinco minutos. Se tiver quarenta, escrevo quarenta minutos. Não vou ao ginásio, não corro no parque, quase não vejo Netflix. 


Leio. Beijo. Ralho. Escrevo.


Em certos domínios não deixei de ser criança. Choro por tudo e por nada. Ainda me apetece fazer o pino. Preciso de muito colo. Não sei fazer uma lista de compras. Não tenho jeito para arrumar coisas. Não sei dobrar uma manta sequer.


Custa-me cada vez mais o inverno. Custa-me viver longe dos meus pais. Preocupa-me o futuro. Mesmo assim, acho que ainda não me bateu a crise de meia idade. Pelo menos não tenho planos para mudar de vida. 


Sou feliz quando bebo o café da manhã. Sou feliz quando as magnólias da rua florescem. Sou feliz quando faz sol, quando os meus filhos jantam bem e pedem mais, quando o homem da minha vida chega a casa, quando aterro em Portugal e o meu pai me tira uma foto à chegada, quando a minha mãe penteia o meu cabelo, quando me sento com uma amiga num café.


Gosto muito das minhas pessoas. Algumas dessas pessoas já morreram mas eu continuo a gostar muito delas. 


No fundo, aos 40 anos, tal como aos 10 e aos 80, só isto importa: a certeza de que amamos alguém e de que somos amados.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

2021


Li finalmente O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion. Começa assim: “A vida muda num instante. Sentamo-nos para jantar e a vida, como a conhecemos, acaba.”


A Joan Didion morreu na véspera da véspera de Natal. O João Paulo Cotrim morreu três dias depois. Não conheci a Joan nem o João, mas senti um pasmo cardíaco quando soube da morte de ambos.


Há uns meses apareceu um caracol numa alface cá em casa. Era um caracol muito pequenino. Fui mostrá-lo às crianças. O mais velho matou-o sem querer.


Reli a Mrs Dalloway e reli também As Horas. Aproveitei para rever também o filme. Fui então um pouco mais longe, e já agora, li o guião de cinema. Foi um exercício intrincado porque uma mulher real é personagem num livro onde uma outra personagem lê o livro que a mulher real escreveu. 


As Horas começam com a famosa carta que Virginia Woolf escreveu ao marido no dia em que se suicidou. A carta acaba assim: “Não acredito que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos”.


Não foi um ano lá muito feliz. Chorei algumas vezes. Não me ri muito. Mas por acaso no outro dia tive um ataque de riso que me tirou o fôlego.


Aconteceram coisas estranhas.

A invasão do Capitólio. Aquele navio encalhado algures no Egito. O voo da Ryan Air desviado para a Bielorrússia. Aquela louca que me seguiu até casa. As cheias na Alemanha e na Bélgica. A quantidade de roupa que já não me serve. A quantidade de pessoas que se foi embora de Bruxelas. Grandes amigos do peito. Os vizinhos do lado. O menino da creche. Um amigo do mais velho. 


Puxa. Parem lá de zarpar.


Perdi muito cabelo. Perdi umas luvas pretas. Fui multada por excesso de velocidade. Aprendi a letra de algumas canções tradicionais. A minha favorita é aquela assim: “Indo eu, indo eu, a caminho de Viseu”.


Demos muita coisa das crianças. Uma banheira, um carrinho, dois berços, muita roupa. Passamos férias em Portugal. Passamos duas noites no hospital.


Nevou em fevereiro. Nevou em abril. Nevou em novembro. Nevou em dezembro. Ainda não tenho um bom calçado para a neve.


Nasceu a Lua. A Salomé. A Sara.


Cortei um dedo a abrir uma lata de feijão. Cortei um dedo a abrir uma lata de atum. Cortei um dedo a ralar couve-flor. Foi sempre o mesmo dedo.


Senti-me muitas vezes exausta. Senti-me muitas vezes sozinha. 


Ainda assim, tentei fazer o que esperavam de mim. Tomei as vitaminas. Tomei a vacina. Cortei o cabelo. Lavei os dentes. Separei o lixo. Comprei finalmente um desodorizante. Montei a árvore de Natal.


O mais velho pede-me beijinhos. Os mais pequenos dão-me grandes abraços. Ainda me acontece olhar para o meu marido e sentir um sobressalto. É do caneco.


Em 2022 espero que o bicho amaine e que nos deixe rir um bocado. Rir mesmo. À toa. Às gargalhadas. Sem medo. Sem pudor. Sem máscara.


Esta vida anda tão séria. Arre.


Bom ano, malta!