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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Notas sobre livros, livrarias e outras coisas essenciais

Na Bélgica estamos confinadinhos desde o início de novembro. O teletrabalho passou a ser obrigatório. O uso de máscara também. À noite ficamos fechados em casa e não podemos receber visitas. Os restaurantes e os cafés estão fechados, os cabeleireiros estão fechados. As lojas “não essenciais” estão fechadas. Sapatarias, perfumarias, lojas de decoração, lojas de fotografia: tudo fechado. Neste cenário, seria previsível que as livrarias fechassem também. 

Pois, o que há de essencial na literatura? Nada. 

Felizmente o governo belga decidiu considerar as livrarias “essenciais” para apoiar o setor e levantar a moral das pessoas. As chocolatarias e as cervejarias estão fechadas. Mas as livrarias cá estarão de portas abertas para salvar os nossos dias.

Ler durante o confinamento é essencial. Fugir deste silêncio, imaginar outras vidas, mergulhar num poema: essencial. De repente, quando precisamos de inspiração, apercebemo-nos da importância dos livros e das casas onde moram os livros.

Vou com regularidade às livrarias do bairro arejar a psique. Às vezes vejo só a vitrine. Mas quase sempre entro. Quase sempre compro qualquer coisa. Um livro para os bebés, uma BD para o mais velho, uma novela gráfica para mim.

Muitos portugueses aqui em Bruxelas me perguntam como e onde compro livros portugueses. A verdade é que não posso ir às livrarias em Portugal. Por mais essenciais que elas sejam: eu estou aqui e elas acolá.

Há sempre La petite portugaise, a livraria portuguesa em Bruxelas, com quem falho continuamente porque nunca lá vou. Há também a livraria europeia Librebook - Bruxelles, onde também nunca ponho os pés. Vou arder no inferno.

A verdade é que, ao longe ou ao perto, é muito mais fácil comprar tudo através de um clique. Sobretudo nas grandes cadeias de livrarias ou nas livrarias online, que até já conhecem os nossos hábitos de leitura e o número do nosso cartão de crédito. Além disso, passam a vida a oferecer-nos coisas: descontos imbatíveis, entregas gratuitas, cartões de fidelidade, cupões, pontos, livros, etc.

Reconheço a utilidade de comprar tudo através de um clique, mas também nos cabe a nós - leitores, clientes, consumidores, cidadãos do mundo - fazermos um outro clique. 

Que tipo de serviço queremos? Será que queremos realmente ser um nome de utilizador e uma palavra-passe? Será que queremos viver de facto sentados em frente a um ecrã? Será que os descontos, os pontos e os cupões servem realmente o nosso interesse? Será que queremos contribuir para que os maiores fiquem cada vez maiores? O que acontecerá aos mais pequenos? O que acontecerá ao serviço de cliente? O que acontecerá às livrarias de bairro? E aos livreiros? O que acontecerá àqueles livros que não são os mais aguardados ou procurados ou destacados? O que acontecerá aos autores que não são tão célebres ou comerciais? O que acontecerá aos editores que arriscam em projetos alternativos? O que acontecerá à oferta de livros?

Porque acredito na diversificação e porque gosto de projetos de autor, de livros com tiragens pequenas, de nichos literários, de editoras com tomates, de autores-artistas, porque quero ter acesso a tudo o que vende e rende mas também a tudo o que surpreende e transcende, não quero ceder às grandes cadeias e livrarias online. Falho continuamente com livrarias e editoras em que acredito, mas esforço-me por melhorar e cumprir.

Em Portugal ou no estrangeiro é possível ir ao encontro das livrarias independentes. Podemos sempre escolher a nossa livraria de eleição. Há também uma rede que representa as livrarias independentes: RELI - Rede de Livrarias Independentes.

Há livrarias para todos os gostos e feitios. Adotem uma ou duas ou três.

Muitas vezes encomendo diretamente às editoras. Algumas editoras têm lojas online bastante fáceis de usar. Outras nem por isso. Umas só aceitam pay pal, outras só enviam os livros depois de receberem comprovativo de pagamento.

É chato, claro. Cabe-nos a nós - leitores, clientes, consumidores, cidadãos do mundo - exigir às livrarias e editoras que se atualizem. Mas entrementes o esforço de usarmos os seus serviços não é apenas louvável. É essencial. Para salvar este setor e também a nossa alma.

Se não queremos que as livrarias e as editoras fechem as portas, então não podemos ficar à porta.

Agora que vem aí o Natal e vós quererdes oferecer livros para cacete, temos de fazer esse esforço (e esse clique).

Interrompo este desabafo para puxar a brasa à minha tangerina: Planeta Tangerina. Portes grátis para compras acima dos 30 euros e livros que são uma maravilha. Vão lá ver. E nem estou a falar dos meus. O que tinha a receber em direitos de autor recebi no adiantamento, independentemente de os livros resultarem. E para que não haja equívocos: o que recebo em direitos de autor não dá sequer para pagar as contas de um mês. É mesmo verdade. Nunca hei de viver dos livros. Escrevo por paixão. Leio por paixão. Compro livros por paixão. Na época em que trabalhei numa livraria ficava a dever dinheiro aos patrões porque gastava tudo em livros.

Obrigada à Bélgica por manter as livrarias abertas.

Obrigada aos livreiros que estão nas livrarias.

Obrigada ao Planeta Tangerina por ser uma editora que arrisca.

Obrigada a vocês por lerem estes meus desabafos.

E já agora, obrigada às pessoas que elegeram o Joe Biden.

E obrigada também àquele pessoal que descobriu uma vacina contra a maleita. 

Viva a ciência, viva a democracia, viva a literatura! Ho ho ho!

Isto está tudo ligado. Não parece, mas está. Ler, procurar, investigar, estudar, apoiar, votar. 

Vem aí o inverno. Agasalhem-se. Comprem livros. Leiam. Desabafem. 

Desculpem lá. Estou um bocado chata hoje.

(Para ilustrar este post fui buscar esta foto da Filigranes Corner)



domingo, 25 de outubro de 2020

O quê? O quê? O quê?


 As mãos sempre tão secas. Os dias tão iguais, que mais parecem o mesmo dia. 

Um único dia repetido. Com ligeiras diferenças. Num dia chove, no outro não. Num dia dói-me a garganta, no outro a tristeza. Mas os dias são essencialmente iguais aos anteriores e aos que hão de vir.

Espero que este não seja o meu castigo. Um ciclo eterno de dias sempre iguais. Coloco hipóteses: talvez tenha caído num buraco temporal. Talvez os deuses me estejam a dar uma lição. Talvez eu tenha de aprender qualquer coisa fundamental sobre a vida antes de poder avançar no tempo. 

Imagino-os no Olimpo, muito bem sentados na sua sala de professores, desiludidos com tudo isto e, em particular, com a minha existência.

Visto os meus filhos, alimento-os, empurro o carrinho para fora de casa. Presto atenção.

Vem aí o inverno. Folhas no chão, nuvens no céu. 

A sensação de que falhei em tudo. De que vou falhar sempre. De que ainda não aprendi qualquer coisa fundamental. Mas o quê? 

Imagino os meus pensamentos a fazerem eco no Monte do Olimpo. 

O quê? O quê? O quê?

Há muito tempo que não vejo nada ao longe. Há sempre um prédio à frente, um carro, um guindaste. É difícil pensar sem ver. 

É difícil pensar sem respirar também. Estou farta destas máscaras.

Imagino a praia do Guincho. Imagino o vento. Imagino que entro na água e fico para ali a boiar. A boiar. A boiar.

Tenho saudades das gaivotas. Tenho saudades do mar. Imagino o eco de tudo isto no Monte do Olimpo.

Mar mar mar. Guincho Guincho Guincho.

Não sei falar com os deuses. Não tenho jeito para a fé. Não tenho jeito para a oração.

Voltei a ouvir podcasts. Os outros fazem-me muita falta. 

E ainda quero aprender qualquer coisa fundamental. 

O quê? O quê? O quê?

Por Zeus, o quê?


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Subir o escorrega ao contrário

Dormi 3 horas e depois mais 3 horas, nada mau.
Pelas 7h e pouco, estou com os três na sala. O mais velho bebe biberão ao meu colo. O mais novo está na cadeira de baloiço e brinca com o meu pé direito. De vez em quando morde-me os dedos. (Au!) O do meio bate palmas. Está na cadeirinha alta.
Faço café. Ouço o mais velho dizer ao robô verde: “Eu quero ser grande e pequenino.”
Vou cortar o cabelo ao meio-dia e meia. Andava tudo tão preocupado com os cabelos, que também marquei. Mas na verdade sinto-me bem assim. Desgrenhada. Desbocada. Desgovernada. 
A verdade é que quase nunca vou ao cabeleireiro.
Uma vez um amigo manifestou o seu desagrado por eu ter dado um belo corte na trunfa. Olhou para mim, tentou explicar: “É que o teu cabelo fazia parte da tua personalidade”.
Entro no cabeleireiro, desinfeto as mãos, ponho a máscara das cornucópias.
Estou agora em frente ao espelho e acho que as minhas fuças também fazem parte da minha personalidade. Cada vez que ponho a máscara das cornucópias, penso na minha personalidade e acho que não me fica nada mal perder caráter. 
Nunca é demais ter menos.
A estagiária lava-me o cabelo. Os dedos da mocinha a arranhar a minha cabeça e o meu ego, a dedilhar o meu cabelo. Massaja-me as têmporas e a nuca. Há que tempos que ninguém tocava na minha cabeça. Neste momento não sou mãe de ninguém. Sou grande e pequenina.
A cabeleireira está grávida. O bebé nasce daqui a seis semanas, coitada. É um rapaz. Que bom, parabéns. Explica-me que tem muita sorte porque o marido vai poder assistir ao parto. “Antes não podia.” Credo. Agora já pode, mas depois não pode sair. Como assim, não pode sair?
Entra com a mulher e sai com a mulher e com o filho. Não pode sair a meio, nem sequer para ir a casa. A cabeleireira explica melhor: Poder, pode, mas já não o deixam voltar. 
Fico a pensar que em quase tudo na vida é assim. Podes sair, mas já não podes voltar.
A cabeleireira pergunta-me. “Você tem imensos filhos, não é?” Eu digo: “Três rapazes.” A pergunta do costume: “E não vai tentar a menina?”
Quando anunciei que os gémeos eram rapazes, um amigo disse-me: “Andas a reforçar a sociedade patriarcal.”
Ri-me bué.
Entro no parque. Está quase vazio. Uma miúda tenta subir o escorrega ao contrário. Corre pelo escorrega acima. Nunca consegue chegar ao topo, mas não desiste. Escorrega até ao chão, dá uns passos atrás para ganhar balanço, atira-se ao escorrega, sobe sobe sobe, mas lá em cima começa a deslizar, cai para a frente e escorrega toda esparramada até cá abaixo. Sobe outra vez. Tem oito ou nove anos. Não vejo nenhum adulto com ela. Olho para a miúda a subir o escorrega ao contrário e penso nesta pandemia, penso na sociedade patriarcal, penso no pedregulho do Sísifo a rolar montanha abaixo, penso naquelas coisas da eternidade e do absurdo, e aceito o castigo.



Começo a trabalhar amanhã. Estou tão gorda, tão farta, tão desorientada. 
Os gémeos fazem hoje nove meses. As pessoas dão-me os parabéns. Penso nessa manhã de agosto. O médico entrou na sala à hora marcada. Disse “Bom dia” e cortou-me a barriga. Não foi assim um grande feito. 
Sou uma autêntica fraude. A escrever. A traduzir. A amar. A viver. Até a parir. Não dou uma para a caixa.
Felizmente cortei uns centímetros à minha personalidade. Estou ligeiramente mais leve. Existo menos. Durmo menos. Vivo menos. Mas lá vou subindo o escorrega.
Vou rematar este texto com uma frase do meu querido sogro: “Até aqui chegámos nós.”

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Estou a ouvir

No outro dia encontrei um amigo na rua. Ele ia para cá, eu ia para lá. Um metro e meio de distância. Então, como vai isso? Eu disse: “Estou tão farta.” E ele disse: “Estou tão bem”. A sério? A sério. Ele disse: “Eu gosto é do silêncio e das ruas desertas, não se vêem carros, não se vê vivalma, uma maravilha”.
Explica-me que as pessoas o cansam, que a vidinha o cansa, marcações, roupa, conversas, reuniões, pessoas, pessoas, pessoas.
Se há coisa que esta epidemia me deu de mão beijada e desinfetada é a constatação cruel de que eu preciso muito mais dos meus amigos do que eles precisam de mim. Sou esta figurinha espaçosa e expansiva, mas faço amizade com egos solitários e confinados. É pena.



Eu cá odeio este silêncio. É um silêncio falso. É um silêncio de abandono e desânimo. É o silêncio das coisas mortas. Não é um silêncio bonito das serras e das florestas. O silêncio da natureza é um silêncio habitado, é um silêncio de rios e pássaros e brisa, e pedras e folhas, e cães e sapos.
Onde há vida, há som. Li isso no outro dia num livro lindo sobre a paisagem. Fiquei a saber que tudo isto é paisagem, eu, esta janela, este prédio, aquele pinheiro gigante, a praceta lá em baixo, a rotunda. Tudo o que vemos e também tudo o que ouvimos.
Às seis da manhã, os pássaros não se calam e eu fico a ouvi-los. 
Eu gosto de sons e de vozes. Gosto de chinfrim, de chilreio, de murmúrios. Eu sou toda ouvidos. Eu sou toda garganta.
Ultimamente tenho-me especializado em sirenes e motores. O meu filho mais velho grita: “É a polícia!” E eu corrijo-o: “É uma ambulância.” Ele vai até à janela aos gritos: ti-nó-ni, ti-nó-ni. Eu explico-lhe que o som está a ficar cada vez mais baixo, que a ambulância está muito longe. Ele repete: “Está loooooooonge”. Sem querer, ensinei-o a escutar. Um carro passa, um camião, uma mota. Ele pergunta: “O que é?” e eu encosto a mão ao ouvido. Digo: “Estou a ouvir” e fico a ouvir. O meu filho faz igual: mão no ouvido, ar compenetrado, “Estou a ouvir”. Os dois quietos e calados, a ouvir.
Por esta altura sabemos distinguir os camiões das carrinhas. Conhecemos as diferentes sirenes. Sabemos dizer se estão longe ou perto, se estão a aproximar-se, se vão passar nesta rua.
Às sete da manhã passa o camião do lixo. Ele corre para a janela. Ficamos a ver os homens a empurrar os caixotes. Depois o camião vai-se embora e lá vem novamente o silêncio. Um ou outro carro ao longe. O meu filho a ver a rua. Diz: “Não há ninguém!”. Encostamos a mão ao ouvido. O meu filho: “Não ouve nada”.
Não tenho saudades dos carros, mas tenho muitas saudades da vida. Estou tão farta.
Acabou-se o silêncio. Que bom.
Venha daí a Covid.
“Estou a ouvir.”

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O meu acessório essencial

Amanhã é quinta, hoje é quarta, ontem foi terça-feira, 28 de Abril de 2020. A Penélope Cruz fez 46 anos. Os gémeos fizeram oito meses. E eu fiz uma salada de quinoa e feta que ficou bem boa.
O mais velho espetou-se de bicicleta. Foi numa descida do parque. Contra uma cerca.
No regresso a casa apanhámos uma molha daquelas. Constatei que o meu filho tinha vivido duas primeiras vezes de seguida: primeira espeta e primeira molha.
Chegou-me o período. Lavei o cabelo. Escrevi um texto.
Senti um amor carnal pelos meus filhos. Tive necessidade de os morder e apertar. O leitãozinho mais novo riu-se às gargalhadas com as minhas dentadas.
Abri “O livro do ano” do Afonso Cruz. Dei com esta entrada no dia 28 de abril:

“Não é preciso ser cientista para compreender as árvores. É só preciso ser pássaro. Ou Abril.”


O mais velho andou à solta no nosso quarto. Descobriu os meus fios e colares. E também as minhas pulseiras e pregadeiras. Já não me lembrava de nenhum destes acessórios.
Uma vez no cabeleireiro dei com uma revista de moda que dizia na capa: “acessórios essenciais”. Nunca mais me esqueci desta antítese. Não há nada essencial num acessório. O acessório é, por definição, acessório. Mas percebo a ideia de acessórios essenciais.
Li um post muito fixe da Matilde Campilho. Era sobre dois artigos de jornal. 
Nunca escrevo sobre jornais. Nunca escrevo sobre o mundo. Nunca escrevo sobre os outros.
Se calhar devia dar um passeio fora da minha cabeça, fora da minha vida. 
Não vai ser hoje. Não vai ser ontem, terça-feira, 28 de Abril.
Comi chocolate “caramel au beurre salé”. Pus um dos fios que o meu filho descobriu na gaveta. Olhei-me ao espelho, não senti nada.
No fim do dia, o mais velho deu-me uma cabeçada na boca. Foi um acidente. Sangrei e vi estrelas.
O peixe congelado que comemos ao jantar estava passado.
À noite estive a ver o livro das cores e dos cheiros com o mais velho. Na página verde inventei uma história muito fixe com os vários elementos: era um crocodilo que gostava muito de ervilhas, uma tartaruga que gostava muito de pepino e uma árvore que gostava muito de alface.
O biberão da noite derramou-se no pijama do mais velho. Coitado. Teve mesmo um dia péssimo.
À hora de dormir escrevi este texto sobre o dia terrível na vida do meu filho. Mas afinal não é bem um texto sobre o dia terrível na vida do meu filho. É só um texto sobre um dia. E não é sobre o meu filho, é sobre mim. Que chato.
Nada a fazer. Eu escrevo sobre mim. Para mim. Por mim. Contra mim.
Escrever é viver outra vez. É existir de um lado e do outro. 
É apanhar duas molhas. É levar duas cabeçadas.
Escrever é dar um passeio dentro da cabeça. É ser pássaro e cientista. É ser o dia de ontem: 28 de Abril de 2020.
Escrever é o meu refúgio, o meu abrigo. O meu acessório essencial.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Os três porquinhos

Herdámos dos vizinhos do sétimo uns livros com histórias e canções em francês. Gostamos tanto desses livros que já adquirimos mais uns quantos. 



O mais velho deve andar com saudades da língua francesa. Volta e meia senta-se no chão e ouve as canções em silêncio. Ultimamente não larga os três porquinhos. O livro tem uns botõezinhos em baixo para ouvir os vários capítulos. Ele carrega no primeiro botão e a história começa: 

“Il était une fois
trois petits cochons
bien roses et bien ronds...”

O meu filho ri-se porque eu digo esta frase ao mesmo tempo que o narrador. Depois o narrador conta que chegou a hora de os três porquinhos saírem de casa dos pais e de construírem, cada um deles, a sua própria casa. “Au revoir, papa! Au revoir, maman !”, dizem os três porquinhos e lá vão eles à sua vidinha. O meu filho acena para mim, diz “Au revoir” e explica-me: “É francês”.
Olho para os meus três filhos, todos eles “bien roses et bien ronds”, e pergunto-me qual destes três leitões vai construir a casa de palha. A de madeira ainda vá, mas uma cabana de palha é de uma enorme irresponsabilidade. O mais velho escuta a história com imensa atenção, o segundo concentra-se nas palmas das mãos, o terceiro sacode as pernas e dá gritinhos.
Decidi que o infeliz idiota da casa de palha será este mesmo, o mais novo porque é o mais aluado. Grande otário, disse-lhe, devias levar já um par de estalos por antecipação para não seres tão preguiçoso.
Depois pensei nessa cabana feita às três pancadas e enterneci-me. Imaginei-o deitado numa cama de palha a tocar harmónica, sem grandes planos, sem grandes medos. Os olhos vivos e o riso fácil, uma certa infância ainda. Parece distraído, mas não está. Observa com atenção o movimento das nuvens e das árvores, qualquer coisa nele está em harmonia com o mundo. Hesito com o par de estalos. Se vier o lobo, há de ser devorado, mas a sua vida será mais intensa que a dos outros porquinhos, tão esforçados e cautelosos. Na verdade talvez seja ele a chave da história. Nem sempre o esforço compensa. Por vezes é preciso perder tempo para ganhar tempo. Para que interessa perder anos de vida a construir uma casa de pedra cheios de cuidados e de medos, se não compreendermos absolutamente nada sobre a vida e o mundo?
A bem dizer, talvez seja o porquinho da casa de palha o verdadeiro herói da história. Quando o lobo vier só ele vai prestar atenção. Só o porquinho da casa de palha vai antecipar a sua chegada. Vai parar de tocar harmónica, vai observar os rolos de palha, vai prestar atenção à mudança do vento e colocar hipóteses sobre o futuro. Só ele estará a olhar para o horizonte quando o lobo aparecer ao longe e vai ser ele a avisar os irmãos, que estarão nessa altura confortavelmente instalados nas suas casas.
Retirei então o par de estalos que tinha reservado para o mais novo. É ele que nos vai salvar. Com a sua harmónica e o seu poder de observação.
Olhei para ele emocionada. As pernas a dar a dar, aquele ar de quem não mora aqui. Tanto idealismo e expressividade.
Este mundo não precisa de mais gente acomodada e receosa. Este mundo precisa de pessoas sonhadoras e contemplativas.
Entretanto o mais velho já não está a ouvir a história dos três porquinhos. Está de roda dos legos, a construir uma torre muito direitinha.
Dou um caldo na cabeça do mais velho e mando abaixo a torre de legos com um pontapé. Grande otário, digo-lhe, vais ser tu o que vai construir a casa de pedra. Não percebeste nada de nada. Falhei em tudo.

sábado, 25 de abril de 2020

Livre em casa

Livre em casa
Livre confinada
Livre e casada
Livre e cansada
Livre desgrenhada
Livre desinfetada
Livre e maternal

Liberdade condicional 


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Para que serve?

Hoje é dia mundial do livro. Coitados dos livros. Há meses que não leio a ponta de um corno. Vou lendo às mijinhas, fico sempre a meio de uma frase. Volto atrás. Releio o parágrafo, a página anterior. Não me lembro de absolutamente nada. Adormeço. As livrarias do bairro estão todas fechadas. Têm folhas à porta a dizer que podemos encomendar livros por email. Ah, boa. Bela ideia. Não encomendei nenhum. O melhor que fiz foi encomendar livros diretamente a algumas editoras. Chegam pacotes às pinguinhas. Se morrerem as editoras independentes, estamos feitos. Ouviram? Acaba-se esta coisa dos livros e da literatura. Se fecharem as livrarias do bairro, corto os pulsos ou então faço uma tatuagem a dizer: mea culpa. Porque a culpa será minha. A culpa será nossa. Ouviram?
Estes tempos não são para livros, né?
Ou são?


Pois tenho a dizer que hoje, dia mundial do livro, chegou por correio um livro lindo, rosa choque. Por favor, agarrem-no. Encomendem-no. Chama-se Para que serve?, é do José Maria Vieira Mendes e da Madalena Matoso, e não serve para nada. Nadica de nada. Não ensina a fazer máscaras de tecido, não dá conselhos amigos, não conta uma história sequer. E é um livro lindo e tão necessário em tempos de confinamento social, económico e cultural. Que bem me fizeram estas perguntas fluorescentes. E que pena não podermos ver as estantes das livrarias repletas de exemplares deste livro. Todos a perguntar em rosa choque: Para que serve? Para que serve? Para que serve?
No dia mundial do livro ocorre perguntar: Para que serve um livro? 
Para nada, claro.
E para absolutamente tudo.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

O trono de porcelana

Hoje, enquanto, ajoelhada em frente à retrete, lavava o tampo da sanita com o pano rosa embebido em spray lava-tudo, fui surpreendida pela beleza deste extraordinário trono de porcelana. 
Abri o tampo de plástico e considerei a potencialidade estética do objeto branco com dobradiças delicadas. Constatei que o assento, com o seu formato oval e o amplo buraco no meio, constituía uma elegante moldura. Na minha imaginação, questionei-me sobre quantos artistas teriam já usado tampos de sanita para expor as suas obras. Certamente dezenas, possivelmente centenas. 


The toilet, John Bratby, 1955

Debrucei-me então na sanita e apliquei wc pato no tanque. Enquanto observava a queda do produto pela sanita abaixo, projetei no meu espírito uma exposição interativa para toda a família que incluiria um percurso livre por várias salas envolvendo a abertura de tampos de sanita. O conteúdo atrás desses tampos teria de ser, claro está, invulgar e desafiador. Haveria tampos de sanita espalhados pelo chão e pendurados nas paredes. Alguns tampos esconderiam objetos, outros mostrariam túneis escuros com passagem para outras salas, outros emitiriam sons, outros exibiriam apenas um buraco na parede, possibilitando a observação de outros visitantes a circular na sala ao lado, saltitando de sanita em sanita. 
Contemplei a retrete, satisfeita com a minha ideia. 
De seguida substituí o disco de gel no rebordo da sanita e pensei nesse grupo de visitantes a abrir e a fechar tampos, a mergulharem nos buracos, a assustarem-se porventura com outros visitantes que estariam à espreita atrás de uma das molduras. Cucu!, diriam os mais atrevidos. Alguns talvez dessem início a uma conversa. O tampo seria neste caso uma porta ou uma janela. 
Quando peguei no piaçaba, apercebi-me finalmente de que nenhum corpo adulto está em condições de atravessar um tampo de sanita. Por essa razão não costumamos cair na retrete. Corrigi assim a minha ideia original e imaginei um itinerário de sanitas dirigido exclusivamente a crianças de dois ou três anos. Afinal não seria bem uma exposição, mas sim um parque infantil de sanitas e abarcaria igualmente vários sistemas de autoclismos que fariam descargas de gomas e chocolates. Voltei a imaginar esse espaço e vi na minha mente um monte de crianças felizes a gritarem “chichi, cocó” e a abrirem os tampos de sanita com enorme expectativa e emoção.
Por fim, fechei o tampo da minha sanita com brandura e intenção, congratulei-me com o brilho e a brancura da retrete, e decidi que aquela tarefa doméstica tinha chegado ao fim.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Sexta-feira santa

Isto está a descambar mas não muito. Substituí a mala por um saco de pano. Quase nunca me penteio. Saio de casa de cabelo molhado. 
Leio no telemóvel. Falo no telemóvel. Escrevo no telemóvel. Emails, textos, mensagens.
Deixei de usar óculos porque enfim, não há nada para ver. 
Visto uma roupa híbrida, que não é pijama mas também não é roupa de rua. Ando sempre com um casaco de malha muito velho e amarrotado. São vários casacos de malha, todos velhos e amarrotados. Um amarelo, outro rosa, outro cinza, outro azul, outro preto.
Continuo a usar brincos. Continuo a tomar as vitaminas. Continuo a embalar os bebés.
Durmo aos bochechos. Gosto muito desta expressão: aos bochechos. E também desta: às pinguinhas. Às mijinhas. Aos pedaços.
Bebo cerveja todos os dias. Como chocolate todos os dias. Tomo banho todos os dias.
Tenho sonhos muito estranhos. Hoje sonhei com um barco enorme. Aconteciam muitas coisas nesse barco, mas já não sei bem o quê. Havia uma tempestade a certa altura e também um lençol muito branco e muito grande.
Estou sempre com pouca bateria no telemóvel. 20%. 10%. Nunca sei do carregador.
Já não posso com o corona nem com as piadas sobre o corona. Os vídeos, as fotos.
O Instagram diz-me que esta semana gostei de vários posts com a hashtag #staythefuckhome. Gosto mais da hashtag portuguesa #euficoemcasa, mas toda a gente usa a outra.
Por acaso hoje não fico em casa. É sexta-feira santa. Fomos andar de bicicleta. 


Há quatro anos que não andava de bicicleta. 
Primeiro foi o inverno, depois foi a gravidez, depois foi o bebé, depois foi o inverno outra vez, depois foi a outra gravidez, depois mais dois bebés, e depois por aí fora até hoje, sexta-feira santa. 
Jesus Cristo na cruz e eu na bicicleta.
Gorda, feia e feliz na bicicleta.
Jesus a morrer por mim. Coitado. E eu naquelas descidas sempre em frente. Uma pessoa nem precisa de pedalar. Vento, sol e liberdade. 
E aquele vislumbre muito breve e fugidio da nossa própria infância.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Hoje sonhei com portais para outras dimensões

Um dos gémeos parece-me quente. Tiro-lhe a febre. Não tem.
Nas últimas 24 horas morreram 183 pessoas na Bélgica. 93% das vítimas tinham mais de 65 anos.
Hoje é dia internacional do livro infantil. Parabéns ao livro infantil.
Dói-me a cabeça. Às vezes parece que me dói a garganta, mas depois passa.
O meu filho mais velho quer fazer desenhos. Faço um acordeão. Fico contente com o resultado. Ele também.
Hoje sonhei com portais para outras dimensões. Os portais não eram portas nem portões. Eram objetos absolutamente normais: um par de óculos, um guarda-chuva, um colar. Uma pessoa abria o guarda-chuva e mudava de cenário.
Um dos minorcas tosse e o outro espirra três vezes seguidas. O mais velho imita-o. Atchim atchim atchim.
A ONU considera esta pandemia a crise mais difícil desde a Segunda Guerra Mundial.
O meu filho mais velho adora o Into the Mood do Glenn Miller.


Recebo fotografias de uma amiga que fez anos ontem. Está a nevar na Bulgária.
No meu sonho há tantos portais para outras dimensões que chega a ser irritante. A certa altura estou a discutir com um velho a propósito de não sei quê, visto o casaco e pim!, vou parar a outro lugar, com a discussão a meio.
Consulto os dados oficiais. Neste momento já são 49160 as vítimas mortais.
O meu filho mais velho aponta para as flores da minha blusa. Diz: “Tanta flor”.
A convite da professora Ana Margarida Ramos, participo numa aula sobre literatura para a infância através do Instagram.

Composição da Ana Margarida Ramos. Aula através do Instagram com os vários participantes.

O meu filho enterra o nariz na minha blusa. Diz: “Cheira bem.”
Adoro o Nick Cave. Não ouço Nick Cave há meses, mas tenho lido as cartas que ele escreve aos fãs.
No meu sonho apercebo-me de que o casaco foi o portal para a nova dimensão. Volto a vestir o casaco para voltar atrás, mas o portal já não funciona.
Parece que os vizinhos de cima têm Covid ou estiveram com alguém que tinha. Estão em quarentena há quase duas semanas.
A vizinha de baixo ligou-me no outro dia. Tem 84 anos. Disse-me que nos devíamos concentrar nas coisas boas. Que a qualidade do ar estava a melhorar e que se calhar os meus filhos não iam ter bronquites no inverno.
Os gémeos já têm dentes. Ou melhor: cada um deles tem um dente.
Na última carta aos fãs, o Nick Cave diz que este não é um momento para criar. É um momento para prestar atenção.
No meu sonho, encontro uma caixa de biscoitos num comboio. Tenho a certeza de que a caixa é um portal, por isso vou direitinha a ela.
Os dentinhos dos meus filhos emocionam-me. Brotam das gengivas como plantas.
Segundo um especialista em doenças infecciosas, devemos usar máscara na rua. Mas no outro dia um perito qualquer em epidemias dizia que a máscara não fazia grande diferença. Opto por esta segunda opinião porque não me ajeito com a máscara.
No sonho, abro a caixa de biscoitos e acordo. Fico desiludida porque não queria acordar, mas comprovo que a minha intuição estava correta: a caixa era um portal para outra dimensão.
Gostava de saber se o Nick Cave usa máscara. Imagino-o em casa, sentado numa enorme poltrona. A prestar atenção.
No meu sonho, as máscaras poderiam ser portais, mas não me lembrei disso enquanto estava a sonhar.
O meu filho mais velho está a olhar para uma fotografia da creche. Fica nisto durante vários minutos. Olha para todas as caras. Não diz o nome de ninguém, não diz absolutamente nada. Fica só a olhar para a fotografia.
Leio num jornal belga que o número de doentes nos cuidados intensivos diminuiu ligeiramente.
Vou ao dicionário ver como se chamam os peritos que andam a falar deste vírus. Descubro que os especialistas em epidemias são epidemiólogos ou epidemiologistas, que os sabedores de viroses são virólogos ou virologistas e que os tipos das doenças infecciosas são infectologistas ou infecciologistas.
Saio de casa. Chamo o elevador. Imagino o vírus no meu dedo indicador. Uma bolinha a subir pelo meu braço como um inseto. Tenho comichão no nariz, mas não coço o nariz.
Na Bélgica os peritos dizem que o pico da epidemia ainda não está à vista. Olho para os gráficos no telemóvel. A curva parece sempre igual: é uma curva. Sinto-me sempre muito burra quando olho para estes gráficos.
Uma vizinha segura-me a porta do prédio para eu passar. Não quero quebrar as regras da boa educação, mas também não quero quebrar a regra do distanciamento social. Ficamos num impasse. A vizinha insiste. Quer dar-me passagem. Quebro a regra do distanciamento social e atravesso o portal.
Estou na rua. Tento prestar atenção, mas não consigo. Não há quase ninguém cá fora. Só eu, a minha sombra e meia dúzia de gatos pingados.
Na praça da igreja, ao verem-me chegar, os pombos estalam no ar. Encolho-me, mas não muito. Antes uma caganita de pombo que de covid.
Uma mulher passa por mim e tosse. Não lhe dou um sopapo por causa do distanciamento social.
Tiro uma fotografia à minha sombra.
Nunca percebi muito bem aquela expressão: “Não és sombra do que eras”.


Sinto alguém atrás de mim na rua, mas não olho para trás. Acelero o passo e toco na sobrancelha.
No sonho as pessoas andam muito afogueadas, de portal em portal. Parecem estar à procura de uma dimensão que ficou há muito para trás. Eu também ando afogueada e não sei porquê.
Um homem aproxima-se. Tem mesmo tromba de Covid. Pede-me uma moeda e eu acelero ainda mais o passo. Penso: “Coitado do homem”. Penso: “Coitada de mim”.
Apercebo-me de que toquei no nariz.
Recebo um email de uma amiga que diz no assunto “long email”. Nesse longo email conta-me que ensinou o avô a usar o Skype. Imagino-a a falar com o avô através do Skype.
Chego a casa e começo a tossir. Uma tosse seca. Toco na boca antes de lavar as mãos.
Tenho falado com os meus pais quase todos os dias. Antes da pandemia não falávamos tanto.
As palavras pandemia e epidemia rimam. As palavras confinamento e isolamento também.
Lavo as mãos e penso na falta de precisão terminológica. As pessoas falam de isolamento, de quarentena e de confinamento como se fossem a mesma coisa, mas não são a mesma coisa.
Olho para a água a correr e penso que a torneira também podia ser um portal. Fecho a torneira, mas nada acontece. Não mudo de cenário, não acordo, não nada.

segunda-feira, 30 de março de 2020

O horizonte temporal

Isto continua a parecer um episódio do Twilight Zone (não vi o Black Mirror). Ou uma temporada mesmo.
Pena não dar para avançar rapidamente até ao fim do último episódio. Não que eu queira saber exatamente como é que isto acaba. Não quero saber se vamos morrer, enlouquecer, embrutecer ou despertar para uma nova humanidade. Isso depois logo se vê. Mas gostava muito de saber ao certo quando é que isto acaba. Em que mês. Mais precisamente em que dia. Se vai ser antes do verão, depois do verão, no inverno ou para o ano que vem. Na verdade acho que estou um pouco obcecada com este horizonte temporal.
No meu círculo ninguém parece muito incomodado com isto. Dizem-me que esta temporada há de chegar ao fim, que há de durar o tempo que durar. O melhor talvez seja não pensar muito nisso. É ir vivendo o dia a dia. Não é melhor assim? Se pensarmos bem, talvez não chegue a haver propriamente um fim. É possível que seja tudo muito gradual. Se calhar as escolas abrem, mas a malta continua a trabalhar em casa. Se calhar os cafés abrem, mas a regra do distanciamento social mantém-se. Se calhar vamos passar a andar de luvas e de máscara. Se calhar vira moda andarmos por aí todos desinfetados e distantes. Possivelmente vamos deixar de dar beijinhos e abraços, qual é o mal? Mas ainda é muito cedo para saber, não vale a pena especular. Um dia de cada vez. 
Algumas pessoas arriscam uma data: lá para junho ou julho. Talvez setembro. Talvez 2021. Uma coisa é certa: isto vai demorar.
A mim ajudava-me barés ter um prazo em vista, uma meta. O tal horizonte temporal.
Sempre dava para ir riscando os dias num calendário, contar os dias que faltam. Sempre dava para ver se estamos no início ou já a meio.
Reparo agora que sou uma pessoa que olha bastante para o calendário. Não só para saber dos compromissos do dia ou da semana. Mas para antecipar as cenas dos próximos episódios. Neste momento estamos no final de março. Ora, deixa cá ver o que vai acontecer em abril e em maio.
Reparo também que, em quase todas as fases da minha vida, me orientei pelo fim de cada uma dessas fases. O fim de um ano letivo, por exemplo. O fim de um estágio. O fim da bolsa de estudos.
Não que aguardasse esse final com entusiasmo ou impaciência. Às vezes sim, porque esse futuro próximo seria melhor do que o presente. O fim da época de exames, por exemplo. O final de um dia de trabalho. O fim de semana. Mas outras vezes, não. Não queria nada chegar ao fim das férias do verão, não queria nada voltar da Eurodisney. Mas a noção de que esse fim haveria de chegar ajudava-me a apreciar o presente, a aproveitar todos os minutos.
Em qualquer dos casos, há sempre uma contagem decrescente a acontecer na minha cabeça, nem que seja no meu inconsciente. 
Quantas horas até ao nascer do sol. Quantas semanas até ao fim da gravidez.
Quantas páginas até ao final do livro.
O fim é sempre o resultado de um esforço, de uma espera, de uma experiência.
A noção de que tudo acaba é o que me ajuda a valorizar o presente. No extremo, aprecio a vida por saber que ela acaba e que é feita de muitos fins. (Ia escrever “A vida passa a vida a acabar”, mas depois arrependi-me.)
Ora, neste caso em concreto, é impossível prever um desfecho, um final feliz, uma data-limite. Quando vamos voltar a ver os nossos amigos e familiares? Quando vamos poder entrar num café? Quando vamos voltar a viajar? Quando vamos regressar ao nosso local de trabalho? Quando vão abrir as escolas?
Eu olho para o calendário e sinto falta desse horizonte temporal. Se soubesse em que dia acaba este pesadelo, conseguia olhar para esta clausura de outra maneira. Isto não passaria de uma fase, de uma etapa, de um período. Talvez conseguisse até tirar algum partido disto. No entanto, sem essa luz ao fundo do túnel, fica só mesmo o túnel e a escuridão. Sinto-me um pouco à deriva. Eu olho para o calendário e não sei dizer se esta temporada ainda vai durar muito tempo. Desconfio que sim, mas gostava de saber ao certo. Para ficar a aguardar esse fim com enorme expectativa.
Se eu não fizesse parte desta série, não ia perder tempo com ela. É tipo um Lost com toque de Desperate Housewives sem Office nem Friends nem Prison Break à vista.
Pensando bem, o Twilight Zone era exatamente isto. Se calhar estamos mesmo na tal quinta dimensão. Se calhar ainda estamos no primeiro episódio.


Por curiosidade e nostalgia, andei na net à procura da primeira temporada do Twilight Zone. O primeiro episódio chama-se “Where is everybody?” (“Onde está toda a gente?”) e começa com aquela mítica narração que passo a citar e a traduzir para terminar este texto:

“There is a fifth dimension beyond that which is known to man. It is a dimension as vast as space and timeless as infinity. It is the middle ground between light and shadow, between science and superstition, and it lies between the pit of man's fears and the summit of his knowledge. This is the dimension of imagination. It is an area we call the Twilight Zone.”

[Há uma quinta dimensão para lá do que é conhecido pelo ser humano. É uma dimensão vasta como o espaço e intemporal como o infinito. Fica a meio caminho entre a luz e a escuridão, entre a ciência e a superstição, e situa-se entre o abismo dos medos do ser humano e o cume do seu conhecimento. Esta é a dimensão da imaginação. É uma área a que chamamos zona do crepúsculo.]

sábado, 28 de março de 2020

Arco-íris

O que dá cabo de mim não é bem este distanciamento surreal. Não é a minha casa. Não é a minha família. Não é a minha vidinha com os seus mini dramas. O que dá cabo de mim é ver o número de mortes aumentar e a solidariedade diminuir. É olhar para os gráficos e já não sentir grande coisa. É ver aqueles arco-irís que as famílias andam a pôr nas janelas e pensar que não, não vamos todos ficar bem. É ver a União Europeia cada vez mais desunida. É ver a discussão acabar sempre no dinheiro. É não me sentir inspirada por um nenhum dirigente. É perceber que isto nos vai transformar para sempre. É pensar que vamos sair deste isolamento ainda mais isolados. 
É acima de tudo não ter um fim em vista. Não saber em que momento este pesadelo vai acabar. Não saber se este pesadelo vai acabar de facto.
É não me reconhecer no meio deste negrume. É sentir que eu já não sou bem a mesma pessoa. É olhar para as árvores e achar que elas andam contentes. É pensar que o Covid-19 pode ser o herói do ambiente. É pensar que nós somos o inimigo.
Mas depois às oito da noite ouço as palmas lá fora e isso salva-me. Largo o que estiver a fazer. Abro a persiana à bruta, abro a janela e grito, urro, bato palmas. O meu marido vai buscar o xilofone, o nosso mais velho guincha de entusiasmo. Diz: “palminhas”. Ficamos os três à janela a fazer barulho. Vejo a vizinha do lado que é italiana. Vejo a família do quarto andar, ele espanhol, ela italiana, os dois filhos a bater nas pandeiretas. Vejo mais uns vizinhos à frente, em baixo e em cima, não sei quem eles são. Acenamos uns aos outros. A vizinha do lado diz qualquer coisa que eu não percebo. Ela repete, eu não percebo. Rimo-nos, batemos palmas. A nossa ovação é uma oração. Eu bato palmas para os profissionais da saúde, claro, mas também para os que recolhem o lixo, para os que asseguram que os supermercados continuam a funcionar, para os polícias, para os bombeiros, para os professores. Eu bato palmas para os teletrabalhadores, para os independentes que não sabem como vão pagar a renda no próximo mês, para os artistas que andam a disponibilizar a sua arte para nos salvarem e para se salvarem a eles. Eu bato palmas para todos os doentes que estão no hospital, para os que morreram, para os que sobreviveram e também bato palmas para todos os que batem palmas, para os que ficam em casa e não perdem o Norte. Eu bato palmas para os meus filhos, para as crianças de todo o lado, para os pais, para os avós, para os que estão sozinhos, para todos os homens e mulheres e todos os que não estão nesta lista e deviam estar. 
Eu bato palmas e tenho vontade de abraçar os meus vizinhos, de abraçar o mundo inteiro. Eu bato palmas e tenho vontade de desenhar um arco-íris e de escrever por baixo desse arco-íris “vamos todos ficar bem”. Porque de repente também acredito nisso e não há nada mais humano do que esta esperança, esta vontade. Esta salva de palmas.

O arco-íris dos meus sobrinhos.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Mãe e filho

Se calhar não devia dar tantos beijos aos meus filhos. Não sei. Se eu tiver o bicharoco, hão de estar todos infetadinhos. 
Penso nisto sempre que lhes beijo as bochechas e as pernocas e as covinhas das mãos e o duplo queixo e aquelas cabecinhas mornas, mas o meu instinto é burro que nem uma porta, a minha boca vai direitinha a eles e beija-os não sei quantas vezes seguidas, xuac xuac, xuac xuac, grande estúpida. Eu beijo-os e penso que este poderá ser o beijo fatal, por isso apresso-me a dar mais um e mais este e este ainda. Muitas vezes mordo-os também. Mas eles não se ficam. Puxam-me o cabelo, dão-me unhadas e tabefes. Beliscam-me, arranham-me, mordem-me. 
Se o isolamento me der para a loucura, vou acabar por comer os meus filhos. Sempre fui um bom garfo. E não sou a única mãezinha doente.
Parece que a natureza está cheia de mães que ingerem as suas crias. Insetos, anfíbios, répteis, felinos, roedores.
Na mitologia grega há vários deuses que comem os filhos, mas também há filhos que matam os pais.


A bem dizer, se este isolamento durar muito tempo, é possível que venham a ser os meus filhos a devorar a progenitora. São fortes, ingratos e mais que as mães.
Também disto tem a natureza aos montes. Entre as aranhas, os escorpiões, as minhocas e novamente alguns insetos e anfíbios há muita cria que se alimenta das mamãs.
A relação entre mãe e filho está cheia de contrassensos. Afeto e sacrifício. Devoção e delírio.
Entre mãe e filho não há barreiras. Não há espaço. Não há etiqueta.
Entre mãe e filho não há cá distanciamento social.
É pena.
São eles que vão dar cabo disto tudo: as mãezinhas e os seus filhos. 
Amor e gula. Apego e desejo. 
Carícia e contágio.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Alguém conhece alguém

Nos últimos dias há sempre alguém que telefona a alguém e conta a esse alguém que conhece alguém que tem covid, mas felizmente não esteve em contacto com essa pessoa nas últimas semanas, mas esteve com alguém que esteve com essa pessoa, por acaso deram dois beijinhos, mas foi só uma reunião de trabalho, as pessoas não se tocaram mas no final comeram um bolo de amêndoa e beberam um sumo de maçã porque alguém fazia anos e até brindaram, que estupidez, brindar com sumo de maçã, mas seja como for só um grande azar poderia ditar o contágio por aí, e o alguém que ouve a história respira fundo e diz “vai correr tudo bem”, que é uma frase que as pessoas dizem precisamente quando tudo pode correr mal, e o primeiro alguém diz ao outro alguém que não é por ele nem por fulano nem sicrano, é mesmo pela sua mãe com quem esteve várias vezes nessa semana e a mãezinha, já se sabe, além de idosa e diabética, passa a vida com as amigas igualmente idosas e diabéticas, e nisto interrompe o discurso para tossir, uma tosse seca, cof cof, e os dois alguéns ouvem a tosse e não dizem nada, por um momento fica só a tosse e o silêncio, e depois despedem-se, “vai correr tudo bem”, “claro que vai”, que bom terem feito aquela chamada, era uma maneira de estarem próximos e seguros, cuida de ti, tu também, cof cof, o primeiro alguém desliga a chamada e decide que já nem vai à rua dar a volta ao quarteirão, cof cof, e não é bem pela saúde dele, é pela dos outros, e sente-se de repente bastante bem na sua pele, e decide que as coisas não lhe correram assim tão mal na vida, afinal apaixonara-se várias vezes, passara vários verões no Gerês, dera grandes mergulhos daquela rocha muito alta e escorregadia, a filha tinha casado bem, tantas vezes adormecera na praia a ler um livro, tinha dormido ao relento no pico do Pico, tinha ido a Veneza com a primeira mulher e a Paris com a segunda, já para não falar naquelas tardadas a jogar à bisca e a beber cerveja, agora apetecia-lhe mesmo era um prato de tremoços, mas só tinha amendoins, por isso bebe uma cerveja e come amendoins, que engraçado lembrar-se agora daquelas tardes a jogar à bisca, na altura nem pareciam tão importantes, e esse alguém por ali fica, na mesa da cozinha a tarde toda, cof cof, cof cof, a pensar que se ele morrer em breve, não vem daí grande mal ao mundo nem grande bem, a sua presença ou ausência era um bocado indiferente, e ainda bem, mas no fundo tinha sido uma parvoíce ter deixado de fumar, cof cof.

quinta-feira, 19 de março de 2020

Tu aproveita agora

E portanto, quando vos passar pela cabeça dizer a uma mulher prestes a entrar em licença de maternidade para ela usufruir dessas férias, quem me dera, tu aproveita agora, que sempre mudas de ares, que sorte poderes ficar tanto tempo em casa, vais adorar ser mãe, mordam a língua e lembrem-se deste período de isolamento. A licença de maternidade é tipo isto, mas sem dormir à noite e com um corpo irreconhecível.
É verdade que não implica horas a fio em frente a um computador, mas cuidar de um bebé que chora, mama, faz cocó e nunca agradece também faz mal às costas e à cabeça.
Não estou a fazer queixinhas. Estou só a dizer.
E a comer bolachas.


segunda-feira, 16 de março de 2020

A vida em reclusão

Estou aqui encarcerada a pensar sobre outros momentos de encarceramento. 

É que eu sempre passei tempo fechada em casa. E nem sequer sou introvertida. Falo pelos cotovelos, rio-me muito alto e preciso tanto dos outros, amo os outros. Não há nada que me dê mais pujança do que um jantar romântico ou um copo com amigos ou um almoço de família. Adoro estar à mesa. Não me esqueço das frases nem dos abraços, dos gestos, dos pratos, dos debates. Faz-me tão bem pensar com os outros, existir com os outros.

Mas sempre fiz por passar tempo sozinha e em casa. Não propriamente para me desligar ou para fugir. Pelo contrário. Eu gosto de estar sozinha precisamente para me ligar ao mundo, para pensar sobre ele, para prestar atenção e escrever sobre isso, ler sobre isso. E são esses momentos aparentemente vazios que mais preenchem os meus dias. 

Acontecem-me muitas coisas quando estou em casa. Deito-me no sofá e leio qualquer coisa. Escrevo qualquer coisa. Sinto qualquer coisa. Aprendo qualquer coisa. Anoto. Percebo. Ouço. Vejo. Penso. Lembro-me. Emociono-me. Tenho uma ideia. Tenho uma dúvida. Tomo uma decisão. Em casa os minutos podem durar horas e é tudo mais intenso, mais concentrado. 

Depois fui mãe e a maternidade trouxe outra espécie de confinamento. É uma solidão acompanhada, que é talvez a pior solidão de todas. No início ficava em casa com os meus rebentos porque eram muito pequenos, depois porque ainda não estavam vacinados. Agora fico em casa quando estão doentes ou porque a creche fecha ou porque a babysitter não vem.

Em qualquer dos casos, ontem ou hoje, a ler no sofá ou a dar banhos aos minorcas, o isolamento vem sempre acompanhado de hesitação e ambiguidade. Para quê ficar em casa se podia estar na rua? Para quê estar sozinha se podia estar acompanhada? 

Mais cedo ou mais tarde chega o momento de contraste com a vida lá fora. E é tudo tão melhor lá fora. Pessoas nos cafés, nas esplanadas, nos bares, nos restaurantes. De certeza que eu não preferia estar a beber uma caneca de cerveja? Para quê escrever um livro, se o sol estava tão bem instalado na esquina? Para quê perder anos com a infância destes bebés, se a felicidade mora claramente naquele bar com luzinhas nas janelas?

A vida em reclusão parece exigir uma determinação que eu nem sempre tenho.

Houve ainda outro tipo de isolamento. Foi no final de 2015, com os atentados em Paris. Nessa altura andámos todos mais recolhidos. A sensação nas ruas era a de ansiedade e medo. Qualquer coisa poderia explodir a qualquer momento, poderíamos morrer naquela loja, naquela esquina. As ruas estavam despidas de gente e de vida. O cenário era triste. Depois uma bomba explodiu em Bruxelas e depois outra e, com elas, explodiu também esse medo. O que mais temíamos acontecera por fim e afinal estávamos vivos, embora não iguais. A primeira coisa que fiz foi andar a pé. A segunda foi comprar um livro. E a terceira foi comer chocolate.

Agora estamos todos fechados em casa outra vez. Mas a sensação é bastante diferente. O que nos move (ou o que não nos move) não é bem o terror. É um medo mais positivo. É uma firmeza na vontade. Estamos conscientes e seguros. Estamos numa importante missão antivírus apesar de estarmos em casa. Temos em mente não a morte, mas a vida, porque o futuro está nas nossas mãos (lavadas). Além disso, não há alternativa. Os cafés estão fechados, as lojas também. Há esse consolo no castigo. 

É certo que nenhum de nós escolheu este triste fado, mas sinto-me hoje unida a todos os que estão em clausura. Podemos estar sozinhos, mas não estamos sozinhos nisto.

Queremos proteger os nossos, é certo. Mas acima de tudo queremos proteger os outros: os mais velhos, os diabéticos, os hipertensos, os doentes cardíacos, etc.

Ontem saí de casa, vi as ruas despovoadas, lojas e cafés fechados, elétricos vazios, e não me bateu a ansiedade. Talvez tenha respirado um pouco menos do que o habitual, é verdade, talvez tenha estado mais alerta, as mãos enfiadas nos bolsos. Mas não senti pânico nem tristeza. Senti contentamento e gratidão.

Obrigada, vizinhos. Obrigada a todos os que cuidam. Não é só o pessoal do setor da saúde (que merece obviamente todos os aplausos e louvores). Somos todos nós. Os que ficam em casa. Os que não correm riscos. Os que não têm medo da solidão. Os que atuam, mesmo que isto implique não fazer nada.

Palminhas a nós.