terça-feira, 7 de setembro de 2021

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Fósforo

Isto de ter filhos, larvas, girinos, pintainhos, tanto faz. Isto de ser fêmea, mulher, mamífera, matrona, madame.

Cá está ele: “Fósforo”, o meu poema afogueado que brilha no escuro.

Obrigada ao João Pedro Azul pelo convite, apoio, esmero, revisão, edição, confiança e sensibilidade.

Um caderno poético da coleção “ElemeNTário”, com chancela da Flan de Tal.

https://www.flanzine.com/product/fosforo-ana-pessoa/

Estou em brasas.

sábado, 28 de agosto de 2021

Dois vezes dois


Marcámos o parto como quem marca uma consulta ou uma reunião. Quinta não dá. Sexta também não. Fica então para quarta-feira, às 8 da manhã. “Isto é só uma data indicativa”, disse o médico. “Indicativa, o tanas”, pensei eu. 

Numa consulta de monitorização, uma parteira preparou-nos para os diferentes cenários. Era comum os gémeos nascerem antes de tempo. Era possível que um precisasse de incumbadora, ou os dois até. Era possível que nenhum dos dois ficasse a dormir comigo na maternidade. 

Ai de vocês que me façam isso, disse eu para os meus botões e também para os meus bebés. Ai de vocês que nasçam antes de tempo. Levam já um estalo para perceberem como é a vida. 

Os bebés piaram fininho. Nasceram na data marcada, por cesariana. Faz hoje dois anos. Um pesava três quilos e o outro dois quilos e trezentos. Nenhum de nós precisou de assistência por aí além. Estávamos todos incrivelmente vivos da Silva, prontos para o destino.

Nos primeiros dias dormiam juntos num berço do hospital. Encostavam a cabeça um no outro, davam as mãos, entrelaçavam os dedos.

Depois viemos para casa. Eram bebés calmos. Quando começava a escurecer, choravam. Eu sentava-me na cama e, num movimento de precisão e equilíbrio, deitava os dois em cima de mim, um de um lado, outro do outro. Adormeciam assim, espalhados pelo meu peito. Por vezes começavam a resvalar pelos meus braços e eu devolvia-os à posição inicial. Ali ficávamos uma hora, duas horas. No escuro. Eles dormiam, eu também. 

Durante a noite era raro acordarem ao mesmo tempo. Ainda hoje é assim. Primeiro acorda um, depois acorda o outro. Há sempre alguém que vai parar ao sofá: mãe ou pai com um deles nos braços.

Ainda adormecem ao colo. Ainda não dormem a noite inteira.

Foi sempre mais difícil adormecer o mais pequeno. É o mais sensível, o mais dramático, o mais apegado à mãe. Está sempre a dar-me beijinhos, está sempre a dizer “dói-dói”. Até aos seis meses dormia com três elétrodos colados no torso, que o ligavam a um aparelho encarregue de monitorizar a sua respiração e batimento cardíaco. Esteve internado três vezes, sempre com infeções respiratórias.

O irmão gémeo também apanha as mesmas infeções, mas aguenta-se à bomboca. É maior e mais resistente. É também o mais compenetrado cá de casa. Concentra-se nos seus afazeres, inventa brincadeiras, não entra em grandes conflitos. Apesar disso, é o que chora mais alto, é o que morde com mais força, é o que põe toda a gente a rir. Tem os dentes tortos e é meio desajeitado, cai muitas vezes. Quando acaba de comer, atira o prato para o chão com toda a força. Os irmãos partem-se a rir.

São a nossa dupla maravilha. Brincam com o irmão mais velho. Brincam juntos. Brincam sozinhos. Quando um está a dormir, o outro faz tudo para o acordar. Se um estiver doente, ficam os dois em casa. Adoram saltar no sofá. Adoram andar de baloiço. Comem iogurte a mais. Têm muita cera nos ouvidos. Um é mais ponderado que o outro. Um é mais extrovertido que o outro. São completamente diferentes, mas quase ninguém os distingue.

Vieram de repente, em dose dupla. São o dobro do cansaço. O amor ao quadrado. Duas vezes tudo, tudo, e mais alguma coisa.



quinta-feira, 12 de agosto de 2021

FILbo 2021

Mañana lá estarei em formato virtual hablando portunhol na Feira Internacional do Livro de Bogotá (Filbo). Às 10h na Colômbia, 17h na Bélgica, 16h em Portugal.

#FILBo2021



segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Cache-cache


Cascais. Aqui estamos os cinco. 

Vento, sol e buganvílias. 

Uma gaivota guincha, um cão ladra e eu faço 39 anos. 

Perco-me a caminho do mini mercado. Perco-me a caminho do restaurante. Quando cá vivia também era assim: perdia-me facilmente. 

Desço a rua da Panisol e lembro-me. Eu a descer esta mesma rua quase sempre sozinha, quase sempre empolgada, a caminho da estação, do café, da praia, da casa de alguém. 

Passo pelo cabeleireiro onde, aos 13 anos, cortei o cabelo à rapaz. Passo pelo centro comercial onde furei as orelhas. 

Jardim Visconde da Luz, Galileu, Santini, McDonald’s, estação. Passo por todos estes lugares sem pertencer a nenhum deles. 

Caminho no espaço como se caminhasse no tempo. Primeiro ciclo, segundo ciclo, terceiro ciclo. Secundária, universidade.

O meu filho mais velho tenta dizer o nome da minha vila. Diz: “Cache-cache”. 

Ando pelas ruas com a sensação de que não vou inteira, de que ainda não cheguei completamente, apesar de ter chegado há mais de uma semana. 

Um comboio parte. Ficamos a vê-lo passar. 

Tiro os óculos escuros para ver melhor. Tiro a máscara para respirar melhor. Mas não chego a sentir qualquer coisa que devia estar a sentir. O alívio. A euforia. A consolação depois da saudade. 

O que se sente depois da saudade?

Chegamos à praia da Conceição.

Os meus filhos brincam na areia. O homem da minha vida também. Já ninguém joga vólei na praia. O bar Brisa ainda existe.

Vou até à água. A espuma das ondas toca nos meus pés e qualquer coisa desperta em mim. O frio. A pele. A existência. 

No momento em que mergulho apercebo-me de que uma parte de mim esteve sempre ali à minha espera, de que uma parte de mim afinal não vinha a caminho. Cache-cache.

Eu nunca hei de ser inteira, real, completa. Serei sempre a menina perdida. 

Estou de passagem. A mergulhar na água. A apanhar o comboio. A descer a rua.

Sou estrangeira. Vou a caminho de um lugar qualquer. E não sei de que terra sou.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Prosa e poesia

Acudam-me: escrevi um poema. É um poema relativamente longo, especialmente para quem não percebe nada de versos.

Nunca antes tinha escrito um poema, acho. Nem mesmo na adolescência.

Pouco me dedico a pensar na questão arcaica da prosa e poesia, mas se um dia a literatura virar desporto, eu serei sempre da equipa prosa. Adoro intrigas. Adoro histórias, diálogos, personagens. Não sei partir frases aos bocados, não sei dizer mais do que quero dizer. Escrevo sem rima, sem voo, sem pausas. 

Talvez seja uma questão de personalidade, sei lá eu. Na vida, como na escrita, sou bastante terra a terra. Esforço-me por dizer o que quero dizer, sem abstrações, sem subtilezas, sem artifícios.

Não tenho metafísica basicamente. Sou até um bocado bronca. Rio-me alto. Falo de boca cheia. Nunca me penteio. Sou prosaica na expressão e nos trejeitos. 

Acresce a isto que não sei viver nem escrever sem enredo. A passagem do tempo mexe comigo: primavera, verão, outono, inverno; um mês, um ano, uma década; as coisas que surgem e as que desaparecem. Tudo o que vamos construindo, tudo o que se vai desmoronando, a maneira como as coisas nos afetam e transformam.

Apetece-me mais escrever sobre a atuação do tempo do que sobre a espuma das ondas ou o raio de sol a pousar na esquina, por exemplo. Talvez por isso me tenha sempre esquivado à poesia. 

Interessa-me mais narrar do que focalizar. Interessa-me mais captar um movimento lento do que um momento propriamente dito.

Claro que a poesia não fala só de revelações momentâneas. E também não tem de ser complicada nem sentimentaloide. Há poemas claros como água, coloquiais, explícitos, resolutos. Os melhores poemas (e poetas) olham-nos de frente e conseguem ser bastante bruscos, viram-nos do avesso, deixam-nos assim em carne viva, com os ossos de fora. Não andam com pezinhos de lã, não recorrem a artimanhas nem a subterfúgios. E há poemas deveras prosaicos, claro, assim como há prosa bastante poética. E o que dizer das epopeias, que são verdadeiros romances em verso?

Seja como for, há algo fundamental que distingue a poesia. Uma certa disposição anímica para a dor, para a reflexão, para a ternura. Uma atenção ao mais ínfimo pormenor.

E há ainda a questão formal. A poesia, apesar de comunicar, regra geral, em verso, é um lirismo de liberdade gramatical. Aprecio bastante o regabofe sintático, semântico e fonológico da composição em verso, mas eu cá sou bastante convencional numas coisas. Gosto da ortografia, da pontuação, da sintaxe. Não sei viver nem escrever sem estrutura. Cabeça, tronco e membros. Princípio, meio e fim. Sujeito, verbo e objeto. Sou grande adepta de frases longas também, que vão da esquerda para a direita e seguem por ali fora a ziguezaguear pela página, cheias de vírgulas e complementos. Tudo isto para dizer que não tenho temperamento de poeta.

Mas eis se não quando se levantou uma nortada na minha afetividade e eu me pus a escrever um poema. É o que ando a fazer há meses: a tricotar um poema.

Descubro agora na vida e na escrita que nem sempre é possível narrar. Nem sempre o enredo cativa. Por vezes o que importa é só mesmo o silêncio para captar, na melhor das hipóteses, um instante: um raio de sol, uma nuvem, a espuma das ondas. 

Vai daí escrevi um poema com centenas de versos e olhem que gosto dele como se gosta de um filho. Talvez porque ele fale disso mesmo: de parir um filho; de ser mamífera, mulher, mãe. Ainda assim, é um poema cheio de intriga que também inclui diálogos.

Espero que o encontrem um dia. Foi para isso que o escrevi: para que fosse encontrado.

Será publicado em breve sob a forma de caderno poético, e mais não digo. 

Estou para aqui a cintilar de entusiasmo e angústia, como convém aos autores mais inseguros e a qualquer mãezinha que se preze.

domingo, 18 de julho de 2021

Los Mejores 2021: Banco del libro

Xina pá! 

A edição mexicana do “Aqui é um bom lugar” está entre “Los Mejores Libros 2021” selecionados pelo Banco Del Libro (Venezuela).





A seleção é feita por um grupo interdisciplinar de profissionais do livro oriundos de várias partes do mundo de língua espanhola.

Texto do júri (tradução minha a partir do espanhol):

“Uma voz dos nossos tempos dá conta do que muito bem compreende qualquer jovem: que ele não está nos nossos tempos, que ele está num tempo seu, feito de assincronias e selfies; de adultos perdidos e jovens que querem encontrar-se; de busca de beleza e descoberta dos próprios contrastes que existem em todo e qualquer bom lugar.”

Parabéns a nós, Joana Estrela e Paula Abramo, e a estes lugares incríveis que são as Ediciones El Naranjo e o Planeta Tangerina!