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terça-feira, 5 de março de 2024

Leva-me ao teu líder!



Acabei o serão a falar de eleições com o mais velho. 

Estávamos a ler um livro sobre um extraterrestre recém-chegado ao nosso planeta que quer falar com o dono disto tudo. 

“Leva-me ao teu líder!”, diz o ET a um menino. Segue-se então um diálogo de perguntas e respostas, em que o menino vai explicando ao alien que não há propriamente um chefe, que “o nosso líder é toda a gente junta”. 

O ET acha isto muito esquisito, claro. Como assim, toda a gente junta? 

Às páginas tantas, fica espantado com o desfile de eleitores empunhando boletins de voto.

“- Porque estão em fila?”, pergunta o extraterrestre. 

O meu filho aponta para a página ao lado, onde está uma urna aguardando os votos. Diz: “Eles vão pôr os papéis no lixo”.

Isto deu-me muita vontade de rir, de votar, de reciclar, de fazer campanha eleitoral e também de explicar ao meu filho que a democracia não é coisa para deitar no lixo. É uma coisa muito valiosa, muito frágil e absolutamente essencial.

Ele ficou a olhar para mim com aquele ar perplexo das crianças (e dos extraterrestres, imagino).

Queridos eleitores terrestres, ide votar. 

Pela nossa saúde, ide votar. Pelo nosso futuro. Pelo planeta. Pela igualdade. Pela democracia.



sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Annie Ernaux


Senti uma vertigem quando soube. Como se a Annie Ernaux fizesse parte do meu corpo. Como se a Annie Ernaux circulasse no meu sistema nervoso.

Acabei há poucos dias de ler “L’écriture comme un couteau”. Foi um amigo que me ofereceu o livro há coisa de um mês, pelos meus 40 anos. Sublinhei-o todo, dobrei cantos, reli certas frases, certos parágrafos. 

A propósito do seu processo criativo, diz Annie Ernaux que não gosta da chamada “escrita feminina”. Que ela não é uma mulher que escreve para mulheres. Que ela trouxe para a literatura a sua vivência como mulher, mas que a sua vida não era bem singular, que ela não se considerava um ser único. Que a escrita era a transformação das suas experiências pessoais numa entidade exterior a ela. Que escrever era o seu dom, o seu ato político. Que a sua forma de escrever era dura e violenta, que as frases estavam impregnadas de realidade, que o seu objetivo na literatura era que as palavras deixassem de ser palavras, que passassem a ser sensações e imagens. 

Que escrever era difícil. Que durante muito tempo - anos, décadas - não podia viver nesse outro universo que era a escrita. Que trabalhava como professora, tratava dos filhos, ia ao supermercado e cozinhava. Que essa vida lhe trazia sofrimento. Que lhe faltava sempre o tempo ou a força para escrever. Que nessa fase pensava em desistir de escrever. Que sentia estar a estragar a vida do marido e dos filhos. Que nunca se perguntava o contrário: se seriam eles que estragavam a vida dela.

Que viveu sempre em dois universos ao mesmo tempo: no universo da vida e no universo da escrita. Que o seu objetivo na escrita ou na literatura era sentir e pensar nos outros como outros tinham sentido e pensado nela.

O amigo que me ofereceu o livro escreveu-me a dizer: “Por uma vez, um nobel para alguém que amo”.

É mesmo isso!

Ganhamos todos hoje. Os que escrevem. Os que sofrem por não conseguirem escrever. Os que, mesmo assim, escrevem aos bochechos. Os que não dormem para escrever. Os que querem sentir, existir, pensar, sonhar nos outros como outros têm sentido, existido, pensado e sonhado neles.

Como não sentir uma vertigem?

Eu sou a Annie e a Annie sou eu.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Estantes, livros, nomes, letras


 20 coisas que me ocorreram enquanto reorganizava uma das estantes de livros lá em casa:

1. Há muitos escritores lusófonos com apelidos a começar por A. Jorge Amado, Lobo Antunes, Germano Almeida, Ricardo Adolfo, Djaimilia Pereira de Almeida, Bruno Vieira Amaral.

2. O mesmo com C e P. Couto, Campilho, Cardoso, Cruz, Carvalho, Pessoa, Peixoto, Portela, Pereira, Pires.

3. Há letras sem ninguém. No J só tenho a Lídia Jorge.

4. Há escritores que tratamos pelo nome próprio e outros que tratamos pelo apelido. Mia, Agustina, Camilo, Sophia. Pessoa, Saramago, Camões, Agualusa.

5. A Agustina deve ter sido sempre a número 1 da turma. Devia ser a primeira a ser chamada ao quadro, a primeira a receber as notas. 

6. Não é fácil vir em primeiro mas também não é fácil vir em último.

7. Por exemplo, o Zink deve estar no finalzinho de muitas estantes de livros. “A instalação do medo” enfiada a um canto, na fila de baixo. Parece uma conspiração do próprio livro.

8. Tenho bastantes livros do Valter Hugo Mãe. Li-os quase todos. 

9. Tenho bastantes livros do Gonçalo M Tavares. Não li a maior parte. 

10. É preciso um certo lirismo para ler Valter Hugo Mãe. 

11. É preciso uma certa dureza para ler Gonçalo M Tavares. 

12. Sou bastante lírica.

13. Sou bastante mole.

14. A maior parte dos livros canónicos sobre escrita foram escritos por homens. James Wood, Ray Bradbury, David Lodge, John Gardner, Murakami, Cortázar, Rilke, Vargas Llosa.

15. Ou as mulheres escritoras não percebem muito do ofício ou não têm por hábito dar palpites. Ou até dão, mas ninguém lhes liga nenhuma.

16. Há livros que procuro muitas vezes nas estantes e nunca encontro.

17. Criei uma secção de livros muito procurados. Agora hei de encontrá-los sempre.

18. Exemplos de livros muito procurados e quase nunca encontrados: As tisanas da Ana Hatherly, a Poética de Aristóteles, os cadernos do Camus, todos os livros que o Sendak ilustrou com textos da Ruth Krauss.

19. Um destes livros da parelha Krauss e Sendak chama-se “Uma cova é para escavar”. Desconfio que o próprio livro ande a escavar covas nas estantes para não ser encontrado.

20. Exemplos de frases muito procuradas neste livro: “Uma cara é para fazer caretas.” “Uma porta é para abrir.” “Um livro é para ser lido.”


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Juan José Millás

 “De facto, já morri várias vezes
ao longo da minha vida
e ressuscitei outras tantas.
Morro e ressuscito com tanta facilidade
que por vezes creio estar vivo
quando estou morto,
e vice-versa.”

Juan José Millás, “La vida a ratos”
(citação traduzida por mim)

Hei de sofrer muito quando Juan José Millás morrer de vez. Se tudo correr conforme previsto, há de morrer antes de mim e eu hei de chorar. 

Não conheço Juan José Millás, mas gosto dele como se gosta de um tio, de um professor, de um mentor.

Poderia ler Juan José Millás durante horas. Poderia ouvi-lo também durante horas. Sempre que o leio, sinto precisamente isto: que estive a lê-lo e também a ouvi-lo. Sinto aliás que o conheço, que frequento a sua casa, o seu escritório, que aprecio muito a sua maneira de gesticular e caminhar, que ele me dá livros e recortes de jornais, que nos abraçamos nas despedidas. “Adiós, Anita de mi corazón!”, diz-me Juan José. Só ele me trata por Anita. Mais ninguém.

Ando há meses a ler o seu diário ficcionado. Não é bem sobre o dia-a-dia do Juan José, mas é certamente sobre o dia-a-dia do Juan José. Chama-se “La vida a ratos”, mas o título nada tem a ver com ratos nem ratazanas. “La vida a ratos” poderia ser traduzido por “A vida às vezes” (É mesmo verdade que não existe uma edição portuguesa deste livro?)

Não leio este diário todos os dias. Leio-o às vezes, aos pedaços. E tudo nele me emociona até às lágrimas. Os gin tónicos que Juan José bebe nos cafés, as suas aulas de escrita criativa, as suas conversas com a psicanalista, as suas fobias e paranoias, aquela mania de tomar ansioliticos a torto e a direito, as suas ponderações culinárias. “Na vida tudo se pode fazer depressa, menos um refogado”, diz ele a páginas tantas. 

Aquela reflexão linda sobre a sua infância: de que ele era uma criança muito triste, a mais triste de toda a sua geração. A sua obsessão pela mãe. A convicção de que ainda ouve a mãe pigarrear na sala, anos depois de ela ter morrido. Aquele pressentimento de que tudo isto pode ser uma farsa, de que nada é verdadeiramente real. De que o mundo por vezes mostra o seu verdadeiro (falso!) rosto. Por exemplo, quando damos com um relógio parado ou com um copo virado para baixo, quando abrimos um livro ao contrário, quando um ovo traz duas gemas, quando qualquer coisa parece não estar no seu devido lugar. A ideia de que a escrita pode ter essa missão: desconfiar sempre da realidade.

A certa altura diz uma coisa memorável sobre a adolescência. A propósito de viagens e da impossibilidade de explorarmos ingenuamente um lugar. Já conhecemos todos os lugares, mesmo que não os tenhamos visitado. Tudo nos é familiar. Mas há um mundo por explorar: a adolescência, diz ele. “A adolescência é como Marte. (…) Chegamos à adolescência como Colombo chegou à América: sem sabermos nada sobre a sua vegetação, o seu clima, os seus habitantes, a sua geografia.”

Que pessoa linda é Juan José. Pessoa frágil, forte, real, ficcionada, única. Talvez o que mais me emocione em Juan José seja a vulnerabilidade que ele assume e expõe. Os seus medos, as suas frustrações, os seus ataques de pânico e de choro. Não é o que se espera de um homem ocidental com 75 anos. Ou é?

Gostava de estar com o José Juan Millás num café. Não haveríamos de falar de literatura. Não lhe pediria um autógrafo. Juro. Beberíamos um gin tónico. Só isso.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

A lagartinha muito comilona

 O nosso exemplar da lagartinha muito comilona está todo desconchavado. Há páginas rasgadas e riscadas. Há uma que tem uns autocolantes. A folha das três ameixas desapareceu. Pensava que ela ia reaparecer um dia, mas isso não aconteceu. É possível que tenha sido comida pelos três rapazes ou que se tenha transformado numa borboleta.



O livro tem mais de 50 anos e vendeu, segundo a BBC, mais de 50 milhões de exemplares em todo o mundo. Foi publicado em 62 países.

Cá em casa temos um exemplar da 13.a edição da editora francesa Mijade. 

Curiosamente, o título em francês não é “A lagartinha muito comilona”, mas sim “A lagartinha que faz buracos”. Hoje aproveitei para ver outras versões de línguas que conheço: em espanhol é uma pequena lagarta glutona; em alemão é uma lagartinha que nunca está cheia; em neerlandês é uma lagartinha nunca demais, algo como “never enough”. 

Nunca é demais recordar (“never enough”) que um tradutor é também criador. Isto para o caso de ainda haver gente entre vós que pense que um tradutor se limita a encontrar termos e expressões correspondentes na sua língua.

Como todos os livros de formatos não convencionais que impliquem páginas com tamanhos diferentes e furos, o meu exemplar foi impresso na China.

Novamente segundo a BBC, estima-se que no mundo seja vendida uma lagartinha de 15 em 15 segundos.

Eu cá gosto muito da lagartinha que fez de todos nós cá em casa uns grandes comilões de livros. Mas sempre que dou por mim a comprar livros impressos na China (quase tudo o que é livro pop-up basicamente), penso que estou a apostar num modelo económico onde os interesses da criança não estão de todo protegidos. 

A culpa não é da lagartinha nem do Eric Carle, claro. Mas esta ideia faz sempre pop-up na minha cabeça quando pego em livros tridimensionais.

Obrigada, Eric Carle. 

Aposto que abriste as asas e voaste.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Notas sobre livros, livrarias e outras coisas essenciais

Na Bélgica estamos confinadinhos desde o início de novembro. O teletrabalho passou a ser obrigatório. O uso de máscara também. À noite ficamos fechados em casa e não podemos receber visitas. Os restaurantes e os cafés estão fechados, os cabeleireiros estão fechados. As lojas “não essenciais” estão fechadas. Sapatarias, perfumarias, lojas de decoração, lojas de fotografia: tudo fechado. Neste cenário, seria previsível que as livrarias fechassem também. 

Pois, o que há de essencial na literatura? Nada. 

Felizmente o governo belga decidiu considerar as livrarias “essenciais” para apoiar o setor e levantar a moral das pessoas. As chocolatarias e as cervejarias estão fechadas. Mas as livrarias cá estarão de portas abertas para salvar os nossos dias.

Ler durante o confinamento é essencial. Fugir deste silêncio, imaginar outras vidas, mergulhar num poema: essencial. De repente, quando precisamos de inspiração, apercebemo-nos da importância dos livros e das casas onde moram os livros.

Vou com regularidade às livrarias do bairro arejar a psique. Às vezes vejo só a vitrine. Mas quase sempre entro. Quase sempre compro qualquer coisa. Um livro para os bebés, uma BD para o mais velho, uma novela gráfica para mim.

Muitos portugueses aqui em Bruxelas me perguntam como e onde compro livros portugueses. A verdade é que não posso ir às livrarias em Portugal. Por mais essenciais que elas sejam: eu estou aqui e elas acolá.

Há sempre La petite portugaise, a livraria portuguesa em Bruxelas, com quem falho continuamente porque nunca lá vou. Há também a livraria europeia Librebook - Bruxelles, onde também nunca ponho os pés. Vou arder no inferno.

A verdade é que, ao longe ou ao perto, é muito mais fácil comprar tudo através de um clique. Sobretudo nas grandes cadeias de livrarias ou nas livrarias online, que até já conhecem os nossos hábitos de leitura e o número do nosso cartão de crédito. Além disso, passam a vida a oferecer-nos coisas: descontos imbatíveis, entregas gratuitas, cartões de fidelidade, cupões, pontos, livros, etc.

Reconheço a utilidade de comprar tudo através de um clique, mas também nos cabe a nós - leitores, clientes, consumidores, cidadãos do mundo - fazermos um outro clique. 

Que tipo de serviço queremos? Será que queremos realmente ser um nome de utilizador e uma palavra-passe? Será que queremos viver de facto sentados em frente a um ecrã? Será que os descontos, os pontos e os cupões servem realmente o nosso interesse? Será que queremos contribuir para que os maiores fiquem cada vez maiores? O que acontecerá aos mais pequenos? O que acontecerá ao serviço de cliente? O que acontecerá às livrarias de bairro? E aos livreiros? O que acontecerá àqueles livros que não são os mais aguardados ou procurados ou destacados? O que acontecerá aos autores que não são tão célebres ou comerciais? O que acontecerá aos editores que arriscam em projetos alternativos? O que acontecerá à oferta de livros?

Porque acredito na diversificação e porque gosto de projetos de autor, de livros com tiragens pequenas, de nichos literários, de editoras com tomates, de autores-artistas, porque quero ter acesso a tudo o que vende e rende mas também a tudo o que surpreende e transcende, não quero ceder às grandes cadeias e livrarias online. Falho continuamente com livrarias e editoras em que acredito, mas esforço-me por melhorar e cumprir.

Em Portugal ou no estrangeiro é possível ir ao encontro das livrarias independentes. Podemos sempre escolher a nossa livraria de eleição. Há também uma rede que representa as livrarias independentes: RELI - Rede de Livrarias Independentes.

Há livrarias para todos os gostos e feitios. Adotem uma ou duas ou três.

Muitas vezes encomendo diretamente às editoras. Algumas editoras têm lojas online bastante fáceis de usar. Outras nem por isso. Umas só aceitam pay pal, outras só enviam os livros depois de receberem comprovativo de pagamento.

É chato, claro. Cabe-nos a nós - leitores, clientes, consumidores, cidadãos do mundo - exigir às livrarias e editoras que se atualizem. Mas entrementes o esforço de usarmos os seus serviços não é apenas louvável. É essencial. Para salvar este setor e também a nossa alma.

Se não queremos que as livrarias e as editoras fechem as portas, então não podemos ficar à porta.

Agora que vem aí o Natal e vós quererdes oferecer livros para cacete, temos de fazer esse esforço (e esse clique).

Interrompo este desabafo para puxar a brasa à minha tangerina: Planeta Tangerina. Portes grátis para compras acima dos 30 euros e livros que são uma maravilha. Vão lá ver. E nem estou a falar dos meus. O que tinha a receber em direitos de autor recebi no adiantamento, independentemente de os livros resultarem. E para que não haja equívocos: o que recebo em direitos de autor não dá sequer para pagar as contas de um mês. É mesmo verdade. Nunca hei de viver dos livros. Escrevo por paixão. Leio por paixão. Compro livros por paixão. Na época em que trabalhei numa livraria ficava a dever dinheiro aos patrões porque gastava tudo em livros.

Obrigada à Bélgica por manter as livrarias abertas.

Obrigada aos livreiros que estão nas livrarias.

Obrigada ao Planeta Tangerina por ser uma editora que arrisca.

Obrigada a vocês por lerem estes meus desabafos.

E já agora, obrigada às pessoas que elegeram o Joe Biden.

E obrigada também àquele pessoal que descobriu uma vacina contra a maleita. 

Viva a ciência, viva a democracia, viva a literatura! Ho ho ho!

Isto está tudo ligado. Não parece, mas está. Ler, procurar, investigar, estudar, apoiar, votar. 

Vem aí o inverno. Agasalhem-se. Comprem livros. Leiam. Desabafem. 

Desculpem lá. Estou um bocado chata hoje.

(Para ilustrar este post fui buscar esta foto da Filigranes Corner)



quinta-feira, 23 de abril de 2020

Para que serve?

Hoje é dia mundial do livro. Coitados dos livros. Há meses que não leio a ponta de um corno. Vou lendo às mijinhas, fico sempre a meio de uma frase. Volto atrás. Releio o parágrafo, a página anterior. Não me lembro de absolutamente nada. Adormeço. As livrarias do bairro estão todas fechadas. Têm folhas à porta a dizer que podemos encomendar livros por email. Ah, boa. Bela ideia. Não encomendei nenhum. O melhor que fiz foi encomendar livros diretamente a algumas editoras. Chegam pacotes às pinguinhas. Se morrerem as editoras independentes, estamos feitos. Ouviram? Acaba-se esta coisa dos livros e da literatura. Se fecharem as livrarias do bairro, corto os pulsos ou então faço uma tatuagem a dizer: mea culpa. Porque a culpa será minha. A culpa será nossa. Ouviram?
Estes tempos não são para livros, né?
Ou são?


Pois tenho a dizer que hoje, dia mundial do livro, chegou por correio um livro lindo, rosa choque. Por favor, agarrem-no. Encomendem-no. Chama-se Para que serve?, é do José Maria Vieira Mendes e da Madalena Matoso, e não serve para nada. Nadica de nada. Não ensina a fazer máscaras de tecido, não dá conselhos amigos, não conta uma história sequer. E é um livro lindo e tão necessário em tempos de confinamento social, económico e cultural. Que bem me fizeram estas perguntas fluorescentes. E que pena não podermos ver as estantes das livrarias repletas de exemplares deste livro. Todos a perguntar em rosa choque: Para que serve? Para que serve? Para que serve?
No dia mundial do livro ocorre perguntar: Para que serve um livro? 
Para nada, claro.
E para absolutamente tudo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O génio da gargalhada

Era um bom dia para a tristeza. As nuvens largadas num pranto, o sol nem vê-lo, mas afinal ainda dei umas gargalhadas magníficas, porque me pus a ler o livro do Ricardo Araújo Pereira.

O riso espanta quase sempre o negrume. É o que nos vale.


Na sua espécie de manual de escrita humorística, Ricardo Araújo Pereira fala-nos precisamente disto: do humor que suaviza. Do riso que consola.

Somos quase todos uma cambada de tristes e, por acaso, isso tem bastante piada.

Aquelas pessoas felizes até são bonitas, mas não são nada cómicas. A bem dizer, são extremamente chatas. "As coisas boas", diz-nos Ricardo Araújo Pereira, "não dão vontade de rir".

Os hipócritas e os hipocondríacos têm muito mais graça. Os aldrabões e impostores também. Talvez por isso o Trump nos dê tanta vontade de rir. Nas palavras de Ricardo Araújo Pereira: "O humor pode ser, então, uma estratégia para reagir ao sofrimento". Nem mais.

Mas não só de lamúria se faz uma gargalhada.

De Aristóteles a Chico Buarque, passando por Shakespeare, Fernando Pessoa e Seinfeld, Ricardo Araújo Pereira vai ilustrando os vários tipos de humor: o riso provocado pelo escárnio, pela imitação, pela caricatura, pela repetição.

Também nos partimos a rir perante a morte, essa piadinha de mau gosto. Estamos condenados ao desaparecimento desde que nascemos. Ainda assim, é possível rir da tragédia. Rimo-nos da morte para não sentirmos miúfa, porque "o riso subverte o medo", nem que seja durante uns segundos.

Em todos estes casos, o génio da gargalhada será sempre o humorista. É ele que atraiçoa e dissimula. Brinca com as nossas expectativas. Surpreende-nos com graça precisamente porque nos engana. O humorista é o ilusionista intelectual. Vira o mundo do avesso, desafia a moral, provoca a desordem. Mostra-nos as nossas próprias incoerências e contradições, põe o dedo na ferida. O humorista é o observador privilegiado. É o revolucionário ligeiramente louco.

Mais do que um manual de escrita humorística, este livro parece ser uma declaração de intenções. "Talvez todas as manobras humorísticas tenham como objetivo introduzir um elemento de caos no mundo".

Venha a nós o Ricardo Araújo Pereira.

Nunca precisámos tanto de rir. Virando as coisas do avesso, talvez seja possível encontrar um sentido na falta de sentido.

A vida, por vezes, tem um humor um bocado negro. E já se sabe que rir é o melhor remédio.

domingo, 4 de dezembro de 2016

A culpa é da Adília Lopes

Está sol lá fora. Perguntaram-me se queria beber café às duas e meia e falar da vida. Eu disse que não me dava jeito. O meu frigorífico está vazio. Além disso, tenho de passar no oculista e na loja dos candeeiros.
Não posso continuar a escrever às escuras. E também tenho de mudar de cadeira. Doem-me as costas.
Às duas e meia não é uma boa hora para falar da vida. Toda a gente sabe isso.

Neste momento são duas e meia e ainda não saí de casa.
Podia estar a tratar da vida ou a falar da vida. Mas afinal estive para ali deitada a ler Adília Lopes.
A certa altura adormeci e depois acordei e continuei a ler Adília Lopes. No final do livro levantei-me e escrevi isto.
Não tenho sentimentos de culpa. Mas tenho alguma noção do ridículo.
Acho eu.

Tirei esta fotografia a um poema da Adília Lopes. Ficou um bocado cinzentona.
Paciência.
Isto sou eu a imitar a Adília Lopes.
Não resulta.



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Vergílio Ferreira

Era domingo. Eu estava a ler Vergílio Ferreira.
Um livro urgente. Entre a capela e o mar. Entre a vida e a morte. Até ao fim.
As páginas meio surradas, a esfarelar. Coitadas.
De repente, uma frase deslumbrante sobre o mar. E logo a seguir outra.
Eram frases gigantes, dramáticas. Poderosas.
Fiquei a vê-las chegar. Uma frase aqui, outra ali.
Lá vinha mais uma. Alta e cheia. Em estado líquido.
Rebentavam na cabeça uma e outra vez.
Como ondas.
A certa altura decidi agarrá-las. Eram frases reais. Tinham pele e cheiro. Poderiam morrer a qualquer momento. Estavam vivas.
Vai daí, copiei-as para um caderno com a minha letra ridícula. E elas ficaram dentro de uma página, a secar.
No final reli essas frases e achei que deviam existir assim. À toa e à solta.
Como poemas. Como mergulhos.
Como ondas. Assim:





















Ouço o mar, é tudo grande e terrível.

Olho o mar ainda, fascinado pelo seu mistério, de que nasce o seu mistério?

Ouço-o na sua massa pesada e escura, retumba no oco do pavor.

E o rumor imenso do mar. Alargado a todo o espaço, mais intenso, exclusivo na solidão do amanhecer. Ouço-o. Pequeno eu face à sua imensidão.

Mas é preciso prestar atenção para o ouvir, no seu rumor implícito como o da harmonia das esferas.

Fresco de brisas o mar, estendo-o ao meu olhar difuso cansado. A verdade primeira. A verdade do início.

O sol vibra à superfície das águas. Um aroma a maresia. Um aroma a existir.

Gostava tanto do mar. Da força repousada do mar. Da música gigante do mar.

A verdade do mar.

O estrondo rouco do mar.

Absorver em nós a imensidão.

O mar deserto até ao limite do poente.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016



O que é isto da Literatura
infanto-juvenil?


Conversa com Ana Pessoa, Madalena Matoso e Miguel Gouveia
Moderação: José Mário Silva

 2 de Outubro / Domingo / 15h00 
 Livraria da Adega, Óbidos 


Mais informações:
Festival Literário Internacional de Óbidos

http://foliofestival.com

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Karl Ove Knausgård

Acabei de ler o primeiro volume daquele norueguês. 
Aquele da autobiografia.
Nunca me lembro do nome do senhor. Mas lembro-me do rosto.
Sim, lembro-me.
Vem na capa. Até lhe tirei uma fotografia.
Assim.

Um rosto impetuoso e desobediente. Com toques de insano. 
Uma pessoa olha para aquele rosto e tem vertigens. 
Eu, pelo menos, tenho. 
É um rosto à beira do desequilíbrio. 
Se o visse na rua diria: "Aquele é o escritor norueguês que mete medo aos leitores mais robustos."
O escritor papão.
Parece um homem bonito, mas não é um homem bonito. Olhem bem para ele. É tenebroso. O rosto cheio de fissuras. 
O Karl Ove - sim, é esse o nome - tem cara de fiorde. Espanta e assombra.
Acabei de o ler na praia. Sentei-me na toalha e fiquei a olhar para o mundo. Era tudo tão aborrecido. O mar sempre igual, a areia aos bocados. Um rabo muito feio ali à frente. Credo. O mundo é tão desengraçado. 
Nem as bolas de Berlim me devolveram o ânimo. 
Entrei na água e fiquei a boiar nas ondas medíocres. 
A culpa era do sol e também daquele norueguês papão.
O Karl Ove escreve de forma lenta e corrosiva. Fala-nos do pai e do irmão, da mulher e da ex-mulher, faz uns desvios por Rembrandt, escreve sobre a neve e as nuvens, sobre o alcoolismo, a incontinência, a imundície. Sobre a "insuportável banalidade" da vida. 
Sim, é disso que eles nos fala. Sublinhei esta expressão no livro, traduzido com minúcia por João Reis. A "insuportável banalidade".
A certa altura vamos com o Karl Ove ao supermercado. Compramos produtos de limpeza. Estamos com ele a lavar a casa com luvas amarelas. A esfregar o corrimão das escadas. Perguntamo-nos: Para que interessa a marca do produto de limpeza? Para que serve esta descrição detalhada do processo?
Não sabemos, mas não paramos de ler. 
Karl Ove cozinha salmão com batatas e couve-flor e nós cozinhamos com ele.
O livro avança devagar como certas horas. Como certos males.
A sua prosa parece enfastiada ou apática, mas não é. É uma prosa sinuosa, aterradora, perturbada.
Eu fico a pensar no rosto deste escritor papão. E também fico a pensar na couve-flor.
Neste volume o Karl Ove comeu couve-flor umas três vezes. 
É o legume mais enfadonho que conheço. 
Fiquei a pensar nisto.
Não sei porquê.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Esse cabelo

No outro dia vi um cato.
Eu disse: Alô. Ele disse: Aloe.
Era um cato Aloe Vera.
Gosto de plantas babosas com propriedades mágicas de regeneração, por isso trouxe-o para casa. O cato Aloe Vera, bonito e eriçado, num vaso verde.
Nesse mesmo dia acabei de ler Esse cabelo da Djaimilia Pereira de Almeida, um livro, também ele, bonito e eriçado. Baboso e regenerador. Para ler devagar.
E passar a pente fino.
A seguir lavei o cabelo. Disse-lhe: Senta-te. E ele sentou-se. Escovei-o, sequei-o, alisei-o. O meu cabelo muito bem comportado, quase liso. 
Fiquei a pensar na Djaimilia e na protagonista da Djaimilia. No seu cabelo crespo, indomável. 
Esse cabelo fala-nos de cabeleireiros, claro. De cabelo curto e comprido, com tranças ou então ganchos ou então lenços. Também nos fala de fotografias, de disfarces de Carnaval, de uma avó negra e de uma avó branca, de uma Angola ao longe, de um Portugal ao perto. E também nos sussurra uma infância, uma adolescência, a Tieta do Agreste, o vento nas ruas de Oeiras.
Na raiz do cabelo está a cabeça, a existência. E eu gostei de passear por aquele cabelo escuro e selvagem, dono do seu próprio destino.
Logo a abrir o livro:

A verdade é que a história do meu cabelo crespo cruza a história de pelo menos dois países e, panoramicamente, a história indirecta da relação entre vários continentes: uma geopolítica.

No final do dia tirei uma fotografia ao livro e ao cato Aloe Vera. 
Acho que foi uma homenagem às coisas babosas. À geopolítica. À literatura eriçada.
Ao seu poder regenerador.
Não sei.





segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

To kill a mockingbird

Atticus said to Jem one day, "I’d rather you shot at tin cans in the backyard, but I know you’ll go after birds. Shoot all the blue jays you want, if you can hit ‘em, but remember it’s a sin to kill a mockingbird." That was the only time I ever heard Atticus say it was a sin to do something, and I asked Miss Maudie about it. "Your father’s right," she said. "Mockingbirds don’t do one thing except make music for us to enjoy. They don’t eat up people’s gardens, don’t nest in corn cribs, they don’t do one thing but sing their hearts out for us. That’s why it’s a sin to kill a mockingbird.

To kill a mockingbird, Harper Lee

sábado, 20 de fevereiro de 2016

O Nome da Rosa

Li O Nome da Rosa quando ainda não tinha bem idade para ler O Nome da Rosa. 
Ou seja, foi na idade certa. Fiquei logo a perceber o poder da literatura errada. 
Demorei-me várias semanas no século XIV a percorrer o labirinto daquele mosteiro. 
Lembro-me bem dos monges copistas. Daquela moça na cozinha. E, acima de tudo, da biblioteca proibida, no último andar, onde moravam os livros mais perigosos de todos, que se riam sozinhos. 
Os monges diziam-me: Cuidado com a literatura, pequena. Os livros errados provocam o riso e também a morte. No riso está a perversão e o demónio. 
Não te rias, pequena.
Cedo compreendi que os livros também matam. Que a comicidade é uma arma perigosa. 
Com o Umberto Eco aprendi o prazer da leitura. 
Aprendi a cair em tentação.
E a morrer a rir.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Elena Ferrante

Saio de casa de mala com rodinhas. Aquela pergunta de sempre: esqueci-me de alguma coisa?
Escova de dentes?  Check.
Desodorizante? Check.
Entro no elevador. 3, 2, 1.
Sim, esqueci-me.
De quê?
Da Elena Ferrante. Largada no sofá.
Na verdade não me esqueci.
Deixei-a em casa de propósito. É bem feito.
Há comida no frigorífico. 
Desenrasque-se.
Eu também tenho uma vida. Faço mais ou menos o que quero. Sou mais ou menos livre.
Por exemplo: às vezes, não leio. Não me apetece. Não estou para isso. E a Elena Ferrante tira-me o sono, a segurança, o sossego. Fico a lê-la até às tantas, de coração atribulado. Chego atrasada ao trabalho.
Só mais um parágrafo, só mais uma página. Não me levanto, não me lavo. Não pode ser.
E leio-a de qualquer maneira. De pé, contra a parede, a rebolar pelo chão.
A culpa é da Lila. Não me quer bem. Qualquer dia, dou-lhe um estalo. É uma menina má.
De vez em quando tratam-na por Lina. É o nome da minha mãe, que engraçado. Fico a imaginar a Lila com o rosto da minha mãe.
Bolas! 
Esta caneta acaba de largar tinta. Em sinal de protesto, acho. 
É uma caneta má. Fiquei com as mãos manchadas de negro. Um pequeno crime.
Hesito: se calhar não devia ter deixado a Lila sozinha em casa.
Fico a pensar no livro. Sozinho e macambúzio. De castigo no sofá. 
Faltam-me umas 30 páginas. 
Não faz mal, leio-as noutro dia. Hoje não.
Tenho mais que fazer.
A Elena Ferrante não manda em mim.
Ouviste, ó?
Tu não mandas em mim.
Bom. Acho que vou voltar para trás. Nunca se sabe. 
Estou com receio.
E também saudades.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O dicionário do menino Andersen

Vejam só o que aí vem:

O lançamento deste belíssimo livro é já na sexta, 20 de novembro, às 21h.
Mais informações e cenas fixes aquiali e acolá.

Quem não for, leva com uma definição na cabeça.
Eu, por exemplo, levei com esta banheira.
E gostei.



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A claridade fugidia

Acabo de ser atingida por um raio místico. 
Estou no comboio, a agitar o corpo e a alma numa viagem para o Porto, a ler Uma Viagem à Índia.
De súbito, num momento de qualidade ascética, um raio de luz aterrou escancarado no livro. Era o único pedaço de sol na carruagem. 
Uma faísca certeira a iluminar uma estrofe do demoníaco Gonçalo M Tavares. Como se aquela página fosse a entidade eleita. 
Os meus olhos, depois da escuridão, habituaram-se à luz. Leram a estrofe 97 do Canto IV:

"E um homem não conhece a sua verdadeira ambição
até passar por uma tragédia forte, uma tragédia individual. Só se sabe olhar, depois
de se aprender. E olha-se melhor no primeiro momento
a seguir ao sono. Ter os olhos fechados é afinar a pontaria,
é preparar a íris negra para a rápida
claridade que nos foge."

Interrompi a leitura e escrevi isto. 
Para ultrapassar o assombro. E agarrar a claridade fugidia.


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A livraria PTYX é um livro aberto

Eu desço a rue Lesbroussart como se estivesse a descer a rua do Alecrim: a baloiçar os braços e sem travões nas pernas. Cá vai disto.
A meio da rua, mais para baixo do que para cima, vejo a livraria PTYX, uma casa branca com escritores pendurados nas janelas.
Eu leio a fachada da livraria como quem lê um livro.
É que o rosto da PTYX reproduz a página de um dicionário. De alto a baixo, letras pretas sobre a fachada branca.
Para meu regozijo, ao lado da montra, na porta imaculada, está a Virginia Woolf. Eu passo por ela e tiro-lhe o chapéu.
A livraria PTYX é um livro aberto. Eu entro e leio os títulos, ouço o murmúrio nas prateleiras. Um murmúrio contínuo, como um texto que passa. Abro os pequenos livros como se abrisse ostras ou pequenos tesouros. Com dedicada cautela e expectativa.
Regra geral, fico no cantinho das novelas gráficas. Descubro grandes pérolas ali. Uh là là!
A livraria PTYX é a minha livraria de eleição.
No entanto, a minha eleição não lhe serve de muito. Não sou grande cliente. Na verdade, sou uma porcaria de cliente. Por norma, só lá vou aos sábados e nem sempre é possível passar na PTYX aos sábados. Há outras coisas para fazer.
Que outras coisas, pá?
Sei lá. Outras coisas.
Quando desço a rua Lesbroussart, são mais as vezes em que passo na livraria sem entrar do que as vezes em que lá entro. Independemente disso, tiro sempre o chapéu à Virginia Woolf.
Como é que é possível não ter tempo para as livrarias?
Receio que a maior parte da clientela da PTYX seja como eu: uma clientela de sábado-à-tarde-quando-dá. Se assim for, a PTYX tem os dias contados. Não é possível manter uma livraria com clientes sem travões.
Infelizmente para mim e para outros, a PTYX não abre aos domingos. São os próprios livreiros que explicam: on n’est pas feignant, ON LIT! Aos domingos, estão a ler, claro. Eu também leio aos domingos. Compreendo e aprovo.
Sempre que passo em frente à PTYX a baloiçar os braços e sem travões nas pernas, sinto remorsos.
Se a PTYX fechar, a culpa é minha.
Os leitores têm de ir às livrarias. Têm de folhear os livros nas livrarias. Têm de comprar livros nas livrarias.
Por uma questão de respeito e gratidão.
Não basta tirar o chapéu.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Com a cabeça nas letras

Acontece-me com frequência.
Estou muito bem no sofá a ler um livro e a bebericar um chá, quando, às páginas tantas, uma página do livro abre a boca e eu caio lá para dentro.
Às vezes magoo-me na queda e fico confusa, não sei onde estou. Bato com a cabeça nas letras.
Eu grito, mas ninguém me ouve. Não há janelas nem portas dentro de uma página.

Ando de frase em frase durante horas e não encontro a saída, não entendo as palavras. São muito maiores do que eu.

Reparem: eu estou dentro da página. Não é possível ler por dentro.

Ando de um lado para o outro como uma barata tonta. Caminho pelas palavras de cima para baixo e de baixo para cima. Chego ao fim da página e volto para trás.
Tento rasgar o papel mas não consigo, não tenho força. Fico enclausurada entre as linhas.

E não há nada para fazer aqui além de ler e reler. Rastejo pelo chão da página e tento decifrar as letras. Leio e releio. Repetidamente. Insistentemente.
Primeiro em voz alta e depois com a ajuda das mãos e dos pés.
Da esquerda para a direita e da direita para a esquerda.

Infelizmente, não há palavra que me salve. A leitura não avança, não acontece.
As palavras ficam a repetir-se no tempo como máquinas avariadas.

A única solução é parar de ler.
Quando eu desisto, a página abre a boca e eu saio.

São páginas caprichosas.
Lidam mal com a rejeição.