sábado, 8 de agosto de 2026

44

 Faço hoje 44. A minha mãe faria 77 daqui a uns dias. 


Partilhávamos capicuas. Só há pouco me apercebi disto.


Quando fiz 11 anos, fazia a minha mãe 44. Eu a lidar com as primeiras menstruações e a minha mãe a recuperar de um burn out. 


Sangue e exaustão. Duas fêmeas a definhar.


Saí de Portugal aos 22 anos. A minha mãe tinha então 55. Abraçámo-nos no aeroporto. Eu chorei, ela não. A minha mãe assim: “Não precisas de ir”. Hein? Como assim, não preciso de ir? Eu quero ir. Pensei que não querias. Porquê? Estás a chorar. Porra, que nervos. Ali nos separámos. A história de todas as filhas, de todas as mães. As duas a tremer nas canetas. Ela a lidar com o fim e eu a começar qualquer coisa.


A minha mãe aos 66 anos: “Às vezes olho para o espelho e assusto-me. Esqueço-me da idade que tenho. Dá para perceber isto?” e eu: “Claro que dá. Tu não tens a tua idade.” E era verdade. Falávamos da idade e do corpo. Falávamos da condição feminina. Falávamos dos homens, cambada de incompetentes que mandava nisto tudo. Tínhamos longas conversas. Tínhamos grandes ataques de riso. Nem sempre nos entendíamos.


Ponho o anel e penso na minha mãe. Sinto o vento e penso na minha mãe. O mar, a minha mãe. Borboleta, a minha mãe. Em tudo a minha mãe. Mas não daquela maneira nebulosa e sobrenatural. A minha mãe não é o anel nem o vento nem o mar nem a borboleta. A minha mãe está dentro de mim como a bílis, o muco e o sangue. 


A minha mãe sou eu. 


Eu faço 44 e a minha mãe 77. Às vezes olho para o espelho e assusto-me. O meu corpo não é bem o meu corpo. A minha tia assim: “Nós não somos só matéria.” 


Nos últimos tempos encontro mães em tudo o que leio. A minha mãe, as nossas mães, todas as mães. Giovana Madalosso, J. Rentes de Carvalho, Arundhati Roy, Irene Solà, Marcello Quintanilha, Delphine de Vigan, António Lobo Antunes. 


Até dá para escrever um texto com estas frases:


A mulher é antes mãe do que ela mesma, eu disse, 

porque afinal quem diz mãe diz monumento. 

A minha mãe diz sempre não, claro que não, e faz aquilo que lhe apetece. 

A gente, que é mãe, não se dá conta. 

A minha mãe era um campo demasiado vasto, demasiado sombrio, demasiado desesperado: em suma, era um terreno demasiado escorregadio.

visto que no fundo de mim não me sentia com direito a ter mãe e de resto para que serve uma mãe, o que se faz com uma mãe, como se agradece, o que se diz.


Minha querida mãe, esta ausência sempre presente. 



terça-feira, 2 de junho de 2026

A nossa querida mãe

 A nossa querida mãe. Guerreira, linda, viva até mais não. A rir muito alto. A dar ordens. A andar sempre em frente, mas sem saber o caminho. Decidida, rápida, impulsiva. Nós lá atrás, a chamá-la: “Mãe, não é por aí.” 


Às vezes dizia-nos: “Se não fosse eu, vocês morriam de tédio.” Também nos dizia: “Vocês cansam-me.” E ria-se. Ríamo-nos todos. Ríamo-nos bastante. À mesa. À hora de jantar.


Sempre penteada, sempre bonita. As mãos fortes e elegantes, a darem forma a todas as coisas. A alisarem a colcha, a polirem a prata, a fazerem flores de missangas.


A mãe a conduzir. A fumar. A chamar-nos para a mesa. A secar o cabelo. A entrar pela escola dentro. A partir um grande ovo de chocolate ao murro. A pedir ao pai que lhe servisse o vinho. Que lhe cortasse uma fatia de queijo. “Corta fininho”. 


A mãe a passear no CascaisShopping, a preparar o stand na Feira do Artesanato, a abrir a janela do carro para deixar entrar o ar. “Faz muito vento aí atrás?”


A mãe morena. De óculos escuros. A sacudir os nossos pés na praia da Cresmina. A dizer: “Isto tem de ser com força para sair a areia.”


Sempre a mania da limpeza. Da ordem. Da arrumação. Dizia: “Isto não tem jeito nenhum.” Ralhava. Limpava. Arrumava. Cosia. Soldava. Tudo formas de corrigir. 


Não nos podia ver tristes. Dizia: “Não podes estar assim.” A mãe zangada, forte, exigente, a afastar a tristeza. Odiava lamechices. “Não me digas essas coisas”. “Vocês não me façam chorar.” 


A mãe a lamber um gelado. A enfiar um Ferrero Rocher na boca. A dizer disparates. A rir-se dos seus próprios disparates. A dizer de si própria: “A tua mãe é louca.” Ou então: “A tua mãe é mesmo parva.” Ou então: “A tua mãe é mesmo bruta.” 


Não era louca. Não era parva. Mas conseguia ser bruta. Não era de falinhas mansas. Não fazia fretes. Não fazia elogios. Não andava com rodeios. Não tolerava a injustiça. Não tinha papas na língua. Dizia o que tinha a dizer. Por vezes dava um murro na mesa. Era implacável. Era progressista. Feminista. Justiceira.


A mãe e o pai de braço dado. Bem vestidos, bem dispostos. A rirem-se de qualquer coisa. A caminho de algum lado. A estrearem a pista de dança. Casaram-se com um cravo ao peito. A mãe a olhar para uma fotografia: “O teu pai era um homem lindo.”


A mãe a beber conhaque. A jogar à sueca. A cortar a jogada com um trunfo. Talvez um rei de espadas. Um ás de paus. Uma dama de copas. Dizia: “Yes” quando ganhava. Tinha mau perder, mau feitio. Tinha bom fundo, boas intenções.


A mãe a escolher o lenço para levar ao IPO. A dizer: “É assim: Se eu morrer, vou ficar muita chateada”. A mãe a rir-se da morte. A rir-se da vida. A rir-se de nós. A rir-se disto tudo.


A nossa mãe de bengala. Cheia de esperança. Cheia de graça. Cheia de estilo. A dizer à sua médica: “Eu quero morrer de pé”. 


Dona Lina. 

Impetuosa. Indomável. Alegre. 


A nossa mãe eterna.

A nossa dama de copas.


sexta-feira, 1 de maio de 2026

A Luz É Grande

Fazer livros é mesmo todo um filme! Há uma história antes do livro e depois há a história depois do livro.

✨A Luz é Grande✨ passou para o grande ecrã! Depois da estreia no IndieJúnior Porto, em janeiro, esta curta-metragem vai passar aqui:

No IndieLisboa, sábado, 2 de maio, às 16h00, e domingo, 10, às 11h30, no Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira: Curtas +3).

No Leiria Film Fest, sábado, 9 de maio, às 11h, no Teatro Miguel Franco. O filme faz parte da seleção oficial na competição "Films for Children".

No FEST, em Espinho, o filme vai integrar a competição do FESTinha Sub6. A 22.ª edição do festival decorre de 20 a 28 de junho.

Obrigada ao Markus e à sua equipa, que pegaram neste livro e o transformaram numa curta-metragem. 


A luz é grande. Mas o filme é curto.😅