quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Poema à duração

Do Peter Handke li o Poema à Duração. Era um livro fino de capa branca, acho. Se bem me lembro, trazia na contracapa ou na página de rosto uma fotografia a preto e branco do autor. Era um homem com charme, achei eu na altura.
O que me levou a esse livro foi, em primeiro lugar, o título (e que belo título), depois a espessura (sempre li livros pequenos em alemão) e, por último, aquele homem que, além de trovador, era lindo.
Li e reli o Poema à Duração. Era longo e vinha carregado de sentido e de existência, achei eu naquela época. Tinha 22 ou 23 anos. Fiquei impressionada com o poema e também comigo própria, porque li o Poema à Duração em alemão numa edição alemã que comprei numa livraria alemã numa cidade alemã. Na altura achei que aquele encontro sentimental entre mim e aquele poema era o resultado de toda a minha vida, de toda a duração de todas as escolhas que me tinham levado à língua alemã e depois à Alemanha e depois àquela prateleira no fundo de uma livraria minúscula numa cidade alemã. O meu percurso até àquele encontro era longo e lírico como o poema do Peter Handke.



Anos mais tarde li outro livro do Peter Handke e não gostei muito. Acho que nem o acabei.
Agora, ao ler a notícia do Nobel, sinto que este encontro foi antes um desencontro. Ao contrário do que pensava, o Peter Handke nem sequer é alemão. E está longe de ser um homem bonito. 
Quanto a esse poema que tanto me impressionou, não me lembro sequer de um único verso. Sei que incluía substantivos abstratos e difíceis como este: duração.
Quanto tempo dura um poema?
Não sei.
Mas a literatura tem muito disto: palavras esquecidas que prosseguem algures, num outro tempo, numa outra duração.