terça-feira, 20 de julho de 2021

Prosa e poesia

Acudam-me: escrevi um poema. É um poema relativamente longo, especialmente para quem não percebe nada de versos.

Nunca antes tinha escrito um poema, acho. Nem mesmo na adolescência.

Pouco me dedico a pensar na questão arcaica da prosa e poesia, mas se um dia a literatura virar desporto, eu serei sempre da equipa prosa. Adoro intrigas. Adoro histórias, diálogos, personagens. Não sei partir frases aos bocados, não sei dizer mais do que quero dizer. Escrevo sem rima, sem voo, sem pausas. 

Talvez seja uma questão de personalidade, sei lá eu. Na vida, como na escrita, sou bastante terra a terra. Esforço-me por dizer o que quero dizer, sem abstrações, sem subtilezas, sem artifícios.

Não tenho metafísica basicamente. Sou até um bocado bronca. Rio-me alto. Falo de boca cheia. Nunca me penteio. Sou prosaica na expressão e nos trejeitos. 

Acresce a isto que não sei viver nem escrever sem enredo. A passagem do tempo mexe comigo: primavera, verão, outono, inverno; um mês, um ano, uma década; as coisas que surgem e as que desaparecem. Tudo o que vamos construindo, tudo o que se vai desmoronando, a maneira como as coisas nos afetam e transformam.

Apetece-me mais escrever sobre a atuação do tempo do que sobre a espuma das ondas ou o raio de sol a pousar na esquina, por exemplo. Talvez por isso me tenha sempre esquivado à poesia. 

Interessa-me mais narrar do que focalizar. Interessa-me mais captar um movimento lento do que um momento propriamente dito.

Claro que a poesia não fala só de revelações momentâneas. E também não tem de ser complicada nem sentimentaloide. Há poemas claros como água, coloquiais, explícitos, resolutos. Os melhores poemas (e poetas) olham-nos de frente e conseguem ser bastante bruscos, viram-nos do avesso, deixam-nos assim em carne viva, com os ossos de fora. Não andam com pezinhos de lã, não recorrem a artimanhas nem a subterfúgios. E há poemas deveras prosaicos, claro, assim como há prosa bastante poética. E o que dizer das epopeias, que são verdadeiros romances em verso?

Seja como for, há algo fundamental que distingue a poesia. Uma certa disposição anímica para a dor, para a reflexão, para a ternura. Uma atenção ao mais ínfimo pormenor.

E há ainda a questão formal. A poesia, apesar de comunicar, regra geral, em verso, é um lirismo de liberdade gramatical. Aprecio bastante o regabofe sintático, semântico e fonológico da composição em verso, mas eu cá sou bastante convencional numas coisas. Gosto da ortografia, da pontuação, da sintaxe. Não sei viver nem escrever sem estrutura. Cabeça, tronco e membros. Princípio, meio e fim. Sujeito, verbo e objeto. Sou grande adepta de frases longas também, que vão da esquerda para a direita e seguem por ali fora a ziguezaguear pela página, cheias de vírgulas e complementos. Tudo isto para dizer que não tenho temperamento de poeta.

Mas eis se não quando se levantou uma nortada na minha afetividade e eu me pus a escrever um poema. É o que ando a fazer há meses: a tricotar um poema.

Descubro agora na vida e na escrita que nem sempre é possível narrar. Nem sempre o enredo cativa. Por vezes o que importa é só mesmo o silêncio para captar, na melhor das hipóteses, um instante: um raio de sol, uma nuvem, a espuma das ondas. 

Vai daí escrevi um poema com centenas de versos e olhem que gosto dele como se gosta de um filho. Talvez porque ele fale disso mesmo: de parir um filho; de ser mamífera, mulher, mãe. Ainda assim, é um poema cheio de intriga que também inclui diálogos.

Espero que o encontrem um dia. Foi para isso que o escrevi: para que fosse encontrado.

Será publicado em breve sob a forma de caderno poético, e mais não digo. 

Estou para aqui a cintilar de entusiasmo e angústia, como convém aos autores mais inseguros e a qualquer mãezinha que se preze.

domingo, 18 de julho de 2021

Los Mejores 2021: Banco del libro

Xina pá! 

A edição mexicana do “Aqui é um bom lugar” está entre “Los Mejores Libros 2021” selecionados pelo Banco Del Libro (Venezuela).





A seleção é feita por um grupo interdisciplinar de profissionais do livro oriundos de várias partes do mundo de língua espanhola.

Texto do júri (tradução minha a partir do espanhol):

“Uma voz dos nossos tempos dá conta do que muito bem compreende qualquer jovem: que ele não está nos nossos tempos, que ele está num tempo seu, feito de assincronias e selfies; de adultos perdidos e jovens que querem encontrar-se; de busca de beleza e descoberta dos próprios contrastes que existem em todo e qualquer bom lugar.”

Parabéns a nós, Joana Estrela e Paula Abramo, e a estes lugares incríveis que são as Ediciones El Naranjo e o Planeta Tangerina!

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Desvio no Observador

Observai: “Desvio” na seleção do Observador para este verão! 

“Uma novela gráfica dos 16 (ou menos) aos 66 (ou mais)”






segunda-feira, 7 de junho de 2021

Retrato inacabado de mulher dentro de casa

Euforia aos magotes! Junto-me ao pipilar da primavera para anunciar o novo livro. Chama-se “Retrato inacabado de mulher dentro de casa”. 

Não é um álbum ilustrado, não é uma novela juvenil, não é uma banda desenhada. 

É o quê? Não sabemos. Jamais saberemos. Mas imaginamos.


Há uns anos escrevi um texto sobre uma mulher muito quieta sentada no seu sofá e a Sara Bandarra, ilustradora esvoaçante, amiga, cunhada, mulher de avental, foi dando rosto, corpo e casa a essa mulher com histórias dentro.


Espero que gostem deste nosso retrato. Nós gostamos buereré.

Trata-se de uma singela edição de autor de 50 exemplares a 10 euros o quilo (+ portes). 

Encomendas através de mensagem privada.



sexta-feira, 28 de maio de 2021

A lagartinha muito comilona

 O nosso exemplar da lagartinha muito comilona está todo desconchavado. Há páginas rasgadas e riscadas. Há uma que tem uns autocolantes. A folha das três ameixas desapareceu. Pensava que ela ia reaparecer um dia, mas isso não aconteceu. É possível que tenha sido comida pelos três rapazes ou que se tenha transformado numa borboleta.



O livro tem mais de 50 anos e vendeu, segundo a BBC, mais de 50 milhões de exemplares em todo o mundo. Foi publicado em 62 países.

Cá em casa temos um exemplar da 13.a edição da editora francesa Mijade. 

Curiosamente, o título em francês não é “A lagartinha muito comilona”, mas sim “A lagartinha que faz buracos”. Hoje aproveitei para ver outras versões de línguas que conheço: em espanhol é uma pequena lagarta glutona; em alemão é uma lagartinha que nunca está cheia; em neerlandês é uma lagartinha nunca demais, algo como “never enough”. 

Nunca é demais recordar (“never enough”) que um tradutor é também criador. Isto para o caso de ainda haver gente entre vós que pense que um tradutor se limita a encontrar termos e expressões correspondentes na sua língua.

Como todos os livros de formatos não convencionais que impliquem páginas com tamanhos diferentes e furos, o meu exemplar foi impresso na China.

Novamente segundo a BBC, estima-se que no mundo seja vendida uma lagartinha de 15 em 15 segundos.

Eu cá gosto muito da lagartinha que fez de todos nós cá em casa uns grandes comilões de livros. Mas sempre que dou por mim a comprar livros impressos na China (quase tudo o que é livro pop-up basicamente), penso que estou a apostar num modelo económico onde os interesses da criança não estão de todo protegidos. 

A culpa não é da lagartinha nem do Eric Carle, claro. Mas esta ideia faz sempre pop-up na minha cabeça quando pego em livros tridimensionais.

Obrigada, Eric Carle. 

Aposto que abriste as asas e voaste.

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Contraconto: nenhum nenhures algures ninguém

ora fora agora embora antes ambos isso outrora 

O Contraconto (Antena 2) de hoje é assim meio aqui aí adiante além ali acolá atrás aquém quase quem aquele alguém nenhum nenhures algures ninguém.

Estou só a avisar. Este e outros episódios disponíveis a partir deste link:


https://www.rtp.pt/play/p8294/e545523/contraconto


Música de Bruno Santos, locução de Eva Barros e produção de Catarina Sobral.



sexta-feira, 23 de abril de 2021

ManiFESTA-te pela leitura!

O Plano Nacional de Leitura (PNL 2027) realizou uma série de vídeos no âmbito da sua iniciativa “ManiFESTA-te pela leitura”. 

Manifestemo-nos, pois!

Neste vídeo (link em baixo), Andreia Brites, mediadora de leitura, fala do seu encontro com Mary John e lê um excerto do livro. 

https://m.youtube.com/watch?fbclid=IwAR0A8BZmjr4KOR0LETt98fL83G8kFe64pzypmC238KwY_uj8t-ui9l-3UBw&v=LUp-byr22AA&feature=youtu.be

💫Sorte a minha e sorte a da Mary John cairmos assim no colo da Andreia Brites. Bolas!

O excerto inclui a expressão “Foste com os porcos”. 

Adoro esta expressão.🐷 Coitados dos porcos.

Acho que é a primeira vez que escrevo um post com emojis.🐽

Feliz Dia Mundial do Livro!📚

Oinc oinc.

#manifestatepelaleitura