sexta-feira, 14 de março de 2025

Festival das Migrações, Culturas e Cidadania

Vou no comboio a caminho do Luxemburgo, cidade onde fui tão feliz, tão sonhadora e tão nova.

Hoje e amanhã andarei pelas escolas a falar com os alunos de português. E no domingo há 2 sessões pour le grand public no Salão do Livro.

Por ocasião do «Festival das Migrações, Culturas e Cidadania», vamos falar, entre outras coisas, de liberdade. Ui ui!

Levo livros. 

E postais.








sábado, 8 de março de 2025

Com paus, conchas e pedras

No hemisfério norte, tudo muda. Mas enquanto umas coisas mudam de repente, outras avançam pé ante pé. No momento em que o multilateralismo acaba de forma quase abrupta, a primavera pousa devagar nos telhados.

Os chefes do mundo não ignoram os benefícios da meia-estação. Nada podem contra o pólen e as alergias, claro, mas em geral é mais prudente travar a guerra em dias longos e amenos. 

Por outro lado, os chefes do mundo também estão cientes de que, quando os pássaros piam mais alto, é francamente mais fácil ter esperança. Já se sabe que a primavera é propícia a motins e revoluções. A tirania depende menos dos opressores do que dos oprimidos.

No outro dia, dancei como uma louca no concerto do Branko, onde também estava Dino d’Santiago. Há anos que não dançava tanto, que não ria tanto, que não gritava tanto, os cabelos colados à nuca. 

Aquela música como um mantra: “Vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, vai dar tudo certo.”

Na semana passada aterrei em Lisboa e indignei-me um pouco com a barafunda de carros e luzes, não tanto por causa do trânsito, mas pela constatação óbvia de que a cidade vive bem sem mim. Há uns dias sublinhei duas frases da Leila Slimani que têm alguma coisa que ver com isto. No fundo ainda quero pertencer à cidade. Ainda quero que a cidade me queira.

Ouvi na rádio o novo single da Capicua. Dizia assim: “Por cada grunho, um punho em sentido contrário”. Aumentei o volume, cantei também. Eu ainda quero mudar o mundo.

O meu filho pede para ir à praia. Sim, sim, havemos de ir, disse-lhe eu, e depois expliquei-lhe que não podíamos mergulhar na água. Ele esclarece que quer “apanhar paus, conchas e pedras para construir uma casa muito grande”. Levo-o então a apanhar paus, conchas e pedras, e deixo-o trazer a sua colheita para casa. 

De regresso a Bruxelas, o meu filho pega na pasta de modelagem e apressa-se a construir uma casa muito pequenina, que rodeia de paus, conchas e pedras.

Entretanto, ainda no hemisfério norte, há edições estrangeiras dos meus livros. Um chegou à Turquia, outro à Catalunha, outro à Grécia. O título da karateca em catalão é qualquer coisa. Não percebo nenhum destes idiomas e isso emociona-me.

Não vai ser fácil atravessar estes tempos. Lemos a palavra “defesa” demasiadas vezes por dia e, enquanto os países se enchem de tanques e explosivos, vamos nós ficando sem defesas. Andamos todos doentes, cansados, stressados, distraídos.

Apesar disso - ou talvez por isso -, rego mais vezes as plantas, seguro a porta para os vizinhos, abraço os meus pais com mais força, esforço-me a fazer o jantar, vou a concertos, leio, escrevo. Por outras palavras, renuncio ao desespero. Por outras palavras, alimento ativamente o otimismo.

Aquele mantra cá dentro: Vai dar tudo certo. Vai dar tudo certo. Vai dar tudo certo.

Mais do que nunca, precisamos do nosso punho, da nossa presença, do nosso riso. Não podemos acabar com o sofrimento. Isso é certo e sabido. Mas podemos continuar a construir. 

Com paus, conchas e pedras. 

Com espírito de missão. 

Com esperança.









quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Argumento, menção honrosa e transição para noite






Há uns anos comecei a tentar escrever argumento para banda desenhada. Logo na primeira tentativa percebi que não ia ser pera doce. 


Nunca fui estruturada nem sintética. Ainda hoje não sei dividir cenas por páginas, não percebo nada de vinhetas. Ainda assim, tento. 


Em certos momentos, quando tenho de mudar a sequência das cenas, ando para ali a desenhar setas e asteriscos, e sinto uma pressão na cabeça, como se estivesse prestes a explodir.


Hoje em dia, se por alguma razão, volto a ler parte dos meus argumentos, tenho vontade de rir.


Quando escrevi o Mar Negro, o Bernardo bem que se queixou. O texto era longo e demasiado descritivo, dizia ele. Tinha razão, claro, mas eu não conseguia ajudá-lo. O argumento incluía descrições deste tipo: “Inês abre gaveta, saca faca do pão e tábua do pão. Tira pão saloio de um saco, corta fatias. Põe duas fatias na torradeira. Abre frigorífico, tira manteiga, queijo e fiambre fatiado.”💤🥱


Ao longo do processo fui deixando espaço para o Bernardo fazer o que quisesse, mas até essas minhas indicações de liberdade eram extensas e mesmo nada libertadoras. Veja-se este exemplo: “Transição para noite, talvez Inês a fechar os estores ou prédio visto de fora no escuro. Uma sugestão qualquer de que já é de noite.” 


Credo! Apercebo-me agora de que podia ter escrito apenas as três palavras iniciais: “Transição para noite.” Ou só mesmo: “Noite.” Duh!


Resultado: o Bernardo andou com o Mar Negro ao colo durante um ano, desenhou que se fartou, ficou com uma tendinite e a novela virou um calhamaço.


Na reta final decidimos que tínhamos de encurtar o livro. Certo dia, juntámo-nos os três - eu, o Bernardo e a Isabel - e passamos mais de três horas a riscar diálogos, desenhos, duplas inteiras. Antes de darmos esse golpe, tirei uma fotografia a estes meus dois companheiros. Adoro a Isabel. Adoro o Bernardo. Adoro o Planeta Tangerina. E adoro esta nossa banda desenhada, não pensem!


O Mar Negro entrou na gráfica uns meses depois. Tinha (tem!) 320 páginas. Entretanto já saiu na Turquia (!) e em breve sairá a edição francesa (oh là là !).


Ora, há coisa de uma semana fiquei a saber que este nosso Mar Negro recebeu uma menção honrosa no Prémio Jorge Magalhães para Argumento de Banda Desenhada. Na notícia dizia que a menção tinha sido atribuída à minha pessoa, mas como se vê, o argumento não é só meu. É nosso!


Nesta altura do campeonato, o reconhecimento faz-nos bem. Já estou aqui cheia de vontade de tentar outra vez, de aprender mais, de fazer melhor. É que entretanto estamos todos mais crescidos e já aprendemos umas coisas. 


Nos últimos tempos, tanto no que toca à banda desenhada como no que toca à vida, tenho vindo a apreciar precisamente a concisão e também o silêncio, embora este texto não seja exemplo disso.


Seguem-se as legendas das cinco fotografias que acompanham este texto: a capa do Mar Negro, uma das duplas (que contém a tal “transição para noite”🙄), a foto da Isabel e do Bernardo antes do golpe, a maqueta do livro durante o golpe e uma selfie minha no dia em que o Mar Negro me chegou às mãos.


🏆O Prémio Jorge Magalhães para Argumento de Banda Desenhada - “o prémio a sério” - foi atribuído ao Mangusto da Joana Mosi. É um livro muito fixe. Sou fã da Joana Mosi. Se puderem e quiserem, assinem a newsletter dela. É só pérolas!



quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Crescer, viver, mergulhar e nadar


Tem natação ao domingo à tarde. Saímos de casa com tempo, mas ele apressa-se. “Não quero chegar atrasado.” Leva às costas a sua mochila vermelha onde traz uns óculos de mergulho, os calções dos tubarõezinhos, uma toalha, uma touca vermelha e umas crocs azuis. “Natação é o que eu mais gosto.”

O balneário está cheio de gente. Ajudo-o a despir a roupa e a vestir os calções dos tubarõezinhos. O professor abre a porta do balneário e chama os meninos pelo nome. Ele vai para a piscina e eu subo as escadas, fico a vê-lo lá de cima.

Ainda não sabe nadar, mas não deve faltar muito. Salta para a água, ri-se, pula, mergulha. De vez em quando só lhe vejo as pernas e depois não vejo nada e depois vejo a touca vermelha e os braços.

Faz meia piscina com a ajuda do professor. Bate os pés com entusiasmo. É ágil e rápido. Volta para trás. Chega à borda da piscina sem fôlego. Procura-me com os olhos. Encontra-me. Eu aceno, ele acena. “Estou aqui”, diz a mão dele no ar. “Estou aqui”, diz a minha mão. Estamos aqui. Ficamos a acenar mais tempo do que o habitual. Ele sempre a rir e aos pulos. 

Guardo esta imagem na cabeça: este meu filho na piscina, a sua touca vermelha, a alegria dele a salpicar tudo, a saltar cá para fora, a alegria como uma salamandra, como um crocodilo, como um desses animais que vivem dentro e fora de água.

Registo a euforia do meu filho e também registo a minha angústia, que é a angústia de todas as mães. O medo indizível de tudo o que está por vir: tristeza, humilhação, sofrimento, desilusão. E a certeza de que vamos falhar, de que já estamos a falhar. Apesar de levantarmos a mão e acenarmos, apesar de estarmos aqui.

Encontramo-nos no balneário. Ele enrola-se na toalha, cheio de frio, os olhos enormes, admirados, vermelhos. “Viste que eu mergulhei e toquei com a mão no fundo da piscina? Como é que eu fiz aquilo? Eu estava a imaginar que eu era uma baleia e mergulhava assim fundo.” Interrompo-o. “As tuas crocs?” Ele fica a pensar. “Esqueci-me.” Corre até à piscina para ir buscar as crocs. Regressa logo a seguir com elas nos pés. “Eu sou o pior.” Explico-lhe que ninguém é pior nem melhor por se esquecer de umas crocs. Sempre este medo de falharmos, de não estarmos à altura.

Vamos à zona dos secadores de cabelo. Ele vai pelo corredor a trautear e a assobiar. Ainda me quer dar a mão. Enquanto seca o cabelo, faz caretas ao espelho. Quando saímos do balneário, apercebo-me de que deixei o telemóvel lá em cima. Ele fica admirado. “Também te esqueceste!” “Pois foi!” “Não faz mal.” “Pois não.”

Subimos as escadas em direção à saída. Ele ri-se. “Mamã, hoje é o dia de perder. Eu perdi as crocs, tu perdeste o telemóvel. É o dia da piscina perdida.” Digo-lhe que é um bom título para uma história. Ele fica contente.

No regresso a casa vamos pelo parque, onde há passagens secretas entre as árvores. Caminha decidido à minha frente, por cima das folhas, por baixo dos ramos, por entre as árvores. A mochila vermelha às costas, as mãos nos bolsos. Vira-se para trás para ver se consigo passar por baixo de certos ramos. A dada altura não encontramos logo o trilho certo. Mas depois passamos por cima de um tronco, escorregamos no musgo e reencontramos o nosso caminho. “Ufa!”

Quando chegarmos a casa, vai querer brincar com a pista de comboios ou fazer um desenho ou uma construção de legos. 

Faz hoje 7 anos. Às vezes parece mais velho. Às vezes parece mais pequeno. Não me chama durante a noite mas fala-me de pesadelos.

No fundo e à superfície, o medo das mães não é diferente do medo dos filhos. Este eterno medo tubarãozinho de nos perdermos, o medo do escuro, do falhanço, do desconhecido, da morte, do abandono, da solidão. 

Talvez crescer, viver, mergulhar e nadar se resuma a isto: por mais que queiramos controlar o nosso destino, sabemos que controlamos muito pouco.

Ai de quem se meta com este meu filho, digo-vos. Ai de quem lhe faça mal, de quem o desiluda, de quem o parta. Rebento-lhe a boca. 

O amor das mães e dos filhos também é isto. Um mergulho muito baleia num mar feito de afeto, medo e escuridão.


segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Nuvens







 - Vou fazer um bolo de mármore.

- O que é mármore?

- É uma rocha.

- Vais fazer bolo de rocha?

- Mais ou menos.


Os mais novos entusiasmam-se, querem ajudar. Pesamos a farinha e o açúcar, partimos os ovos. 


- E agora atenção -, digo-lhes eu, - as claras vão transformar-se numa nuvem.

Um deles muito atento, o outro impaciente. - Demora muito tempo, mamã.


No fim, as claras transformam-se numa nuvem. 

- Magia! 


Um deles feliz, o outro desiludido. 

- Isso não é uma nuvem, mamã. 

- Ai não? Então as nuvens não são brancas e fofinhas? 

- As nuvens não são brancas, são pretas.

O outro minorca: 

- Também podem ser brancas.

O irmão insiste: - São pretas!


Coitados dos meus filhos. Tiro uma fotografia às nuvens pretas lá fora e vou à cloud (outra nuvem!) procurar imagens de nuvens brancas. 


Nessa pesquisa encontro a tisana 87 da Ana Hatherly, que fala de “uma paisagem onde nunca havia nuvens”. 


E encontro também uma foto de um livro meu, onde me deparo novamente com esta pergunta: “Para que serve uma nuvem?”. 


Não tiro fotografias ao bolo, que desenformo e polvilho com açúcar em pó. Estava leve e fofo. Parecia uma nuvem e não uma rocha, para grande desilusão das crianças. 


A infância não acaba. Cresce. Tal como os bolos. E as nuvens. E o musgo. E as claras em castelo. E a escuridão.




quinta-feira, 14 de novembro de 2024

O Babo


Faleceu Morreu o Carlos Grifo Babo. Era tradutor e revisor. 


Nunca o conheci, mas foi ele que reviu a maior parte dos meus textos. Alguém da equipa lhe levava a maquete (maqueta?) a casa e ele ali ficava (vírgula?) nos bastidores, a rever no papel. 


Foi ele que me ensinou a diferença entre “rebuliço” e “reboliço”, e a diferença entre “por que” e “porque”. Foi ele que me ensinou que “magicar” é um verbo intransitivo. Chegou a enviar-me cópias de uma gramática. 


No final das suas revisões, acrescentava uma página inicial a que chamava “Notas”. Eu lia essas “Notas” com entusiasmo e admiração. Procurei agora mesmo no meu arquivo e encontrei as notaspérolas que escreveu sobre Mary John. 


Adoro as suas considerações sobre os diálogos em itálico. Eu própria não sei bem por que (porque?) insisto nisso, mas nunca me senti à-vontade com aspas e travessões. A propósito deste uso abusivo do itálico, diz ele assim: “É fora do comum, quebra as regras, mas e então?” Isto ainda me faz rir. 


Que pena eu tenho de nunca ter conhecido o Babo (era assim que o chamávamos no Planeta). Sei que vou pensar magicar nele sempre que hesitar entre “porque” e “por que”. 


Na minha cabeça (imaginação?) achava que lá chegaria o dia em que iria a sua casa beber um chá e folhear as suas gramáticas e prontuários. Tenho a certeza de que ele teria gostado. Para mim, teria sido um encontro inesquecível.


E agora as notas do Babo:





segunda-feira, 4 de novembro de 2024

saí de portugal há exatamente vinte anos

 


saí de portugal há exatamente vinte anos 

não atravessei o mar não passei por arame farpado não fui ilegal irregular clandestina requerente de asilo não fugi de nada nem de ninguém durante anos nem sequer percebi que estava a emigrar foi no tempo em que eu falava alemão e queria conhecer a alemanha beber vinho quente encher o bandulho de lebkuchen e então no dia 4 de novembro de 2004 se a memória não me engana apanhei um avião e cheguei ao meu destino onde passei algum frio os telhados eram negros e a floresta muito verde assim que pude comprei o passe de comboio e uma máquina fotográfica da kodak que tinha um zoom extremamente sôfrego viajei por todo o lado com ela ao pescoço berlim hamburgo colónia estugarda eu fotografava o rio a neve as praças e às vezes também era fotografada a fotografar como nesta fotografia em que eu sorria porque nessa época eu sorria bastante vivia nas águas-furtadas de um prédio de esquina a chuva batia com toda a força na janela e eu escrevia coisas extremamente más péssimas terríveis mas sorria na mesma a angela merkel ainda não era chanceler isso aliás era inconcebível em 2004 a angela merkel não tinha o carisma a robustez a pujança era até meio desengonçada vinha de leste não sabia comunicar ela nunca poderia substituir o schröder diziam eles e dizia eu também naquelas conversas de café os professores na escola tratavam-me por frau pessoa o que era bastante cómico eu era demasiado nova para estar na sala de professores era demasiado velha para estar entre os alunos e não sabia que no ano seguinte me iam roubar a kodak em paris e que angela merkel seria a primeira mulher a governar a alemanha e que o faria aliás durante mais de quinze anos amanhã há eleições nos estados unidos da américa e duas décadas depois dizemos de kamala harris o mesmo que dizíamos da merkel ela bem pode ter sido advogada senadora procuradora-geral mas não tem o carisma a robustez a pujança de um líder ou seja de um homem que parvoíce daqui a vinte anos ainda estaremos a falar disto porque a maior parte das coisas só as percebemos ao longe quando saímos de onde estamos e olhamos para outro país para uma língua para um determinado momento na história no mundo na vida como quem olha para uma fotografia ou seja quando estamos demasiado longe e quando o futuro que aguardávamos com vontade e esperança já ficou lá para trás e isso de repente duas décadas depois não nos dá vontade nenhuma de rir