quarta-feira, 18 de maio de 2022

O globo

O mais velho começou a fazer perguntas sobre os países e as cidades. Se estão longe ou perto, se são grandes, se podemos lá ir de comboio ou de avião, se as pessoas desse lugar falam português, francês ou inglês.

Vai daí, há umas semanas compramos um globo terrestre para os três rapazes. É um globo pequeno, não muito bonito, os países todos encavalitados por baixo de uns animais nada a ver. 

Os miúdos gostam do globo, não por causa dos continentes ou dos oceanos, mas porque ele roda muito rápido e durante bastante tempo. O mundo parece um pião, mas não é um pião. Um dos rapazes diz que é uma máquina, outro diz que é uma bola azul. Só o mais velho chama mundo ao mundo.

O pai não os deixa brincar com o globo. Por um lado, sinto pena deles, por outro, acho bem aprenderem quanto antes que este mundo não é para brincadeiras.



Mostro-lhes a Bélgica e Portugal, o Japão, o Brasil. Digo-lhes aquelas coisas parvas: que há cangurus na Austrália e pinguins no Pólo Sul. Eles fingem que se interessam. Pousam as mãos na bola azul. Sempre que podem, dão-lhe uma lambada e a bola gira. Riem-se à gargalhada, babam-se para cima do mundo.

Estão-se nas tintas para o mapa, claro. As crianças querem lá saber de geografia. Eu, para falar a verdade, também pouco apreço tenho pela disciplina. A expressão “crosta terrestre” sempre me deu vontade de rir e continuo sem saber para que lado é o Norte. 

No outro dia lá arranjaram maneira de atirar o mundo ao ar. Deram cabo dele, como é óbvio. O globo partiu-se ao meio, já não se aguenta nas canetas. Os três olharam para o mundo pesarosos e partiram para outra.

Penso em Deus, com a Terra nas mãos. Coloco então a hipótese de este Nosso Senhor ser afinal uma criança a brincar com uma bola azul, as unhas muito sujas, o nariz cheio de ranho. 

A ideia dá-me algum alento. Não serve certamente para explicar a condição estapafúrdia da nossa existência, mas por um momento ajuda-me a aceitar o absurdo estado do mundo. Talvez uma divindade pouco experiente nos tenha dado um pontapé. Só isso. Talvez nos caiba a nós perdoar o tal Salvador, e não o contrário.

Na minha infância também tive um globo terrestre, mas o meu era bem grande e dava luz. Era um globo a sério. Recebi-o quando tinha uns nove anos. A ver pela sucessão dos acontecimentos, há de ter sido em 1991, talvez no Natal. Mal o desembrulhei, o meu pai disse-me que o mundo entretanto tinha mudado. Que aquele país chamado URSS já não existia. 

Que estranho esse conceito de um país deixar de ser. Ainda hoje, quando penso na URSS, lembro-me dessa enorme mancha no meu globo terrestre, de súbito extinta, inexistente. Na minha cabeça sonhadora de menina, a URSS parecia ser um país imaginado, impossível, inacessível, ao estilo Terra do Nunca ou Terra de Oz, habitado quiçá por fadas, feiticeiros, elfos, bruxas, coelhos, monarcas, chapeleiros, crianças, piratas, gnomos.

Vejo o nosso globo terrestre atirado ao chão, partido, estragado, estilhaçado. Penso em Peter Pan e no Capitão Gancho, penso num Deus imaturo com a sua bola azul e de repente já não sei de que lado estou. Talvez este mundo de verdade seja afinal a Terra do Nunca e, nesse caso, todos nós sejamos os meninos perdidos sem salvação à vista.

Pelo sim, pelo não, apanhei os cacos do globo terrestre e guardei-os. Apesar da pandemia e da guerra, apesar da inflação e da crise económica, energética e humanitária que se agrava, devo confessar que me custa bastante pôr o mundo no lixo.

domingo, 15 de maio de 2022

Mary John finalista dos Premi Llibreter

A edição catalã da “Mary John” (tradução de Mercè Ubach; edição de L’Altra Tribu) é finalista do Premi Llibreter na categoria Literatura infantil e juvenil - outras literaturas.

Estou feliz, encantada, enternecida com esta nomeação porque esta seleção é feita pelos próprios livreiros!

Yuhuuu!


terça-feira, 26 de abril de 2022

"Está a chover!" nos Hipopótamos na Lua

Olha, olha. O Gnu e o Texugo encontraram uns Hipopótamos na Lua.

Belo texto de análise da blogger, livreira e dinamizadora Nazaré de Sousa no seu blogue "Hipopótamos na Lua":

https://hipopomatosnalua.blogspot.com/2022/04/o-gnu-e-o-texugo-esta-chover.html

Copio para aqui este excerto muito vrim, vram, vrum:

"Tal como no primeiro livro, a simplicidade e o humor do texto de Pessoa voltam a encantar-nos. A dose de ingenuidade e até o seu quê de nonsense  desconcertam o leitor várias vezes. Gostamos dos vrim, vram, vrum, dos snif, snaf, snuf... Gostamos e precisamos de histórias que nos fazem rir. Só porque sim. Na esteira das anteriores, as ilustrações de Matoso são um regalo para os olhos de miúdos e graúdos. Mesmo à chuva, este é um livro que continua a poder virar-se de cabeça para baixo, permitindo ler a história ao contrário. E que história! Sic, sac, suc."





segunda-feira, 25 de abril de 2022

Porventura acaso talvez - 25 de abril sempre!

 25 de abril sempre!


"porventura acaso talvez

uma hipótese entre outras hipóteses”



no meu “Fósforo”, Flan de Tal, 2021

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Karateca - 5a edição!

Yáááa! 5.a edição!

A karateca está de volta. O meu absolute best-seller.

Ali estou eu, rapariga karateca, e ali estão os meus cadernos, os meus sonhos, as minhas angústias e as minhas perguntas sobre o amor, o futuro e a verdade. Ali estão também os meus pais, os meus professores, o meu irmão, os amigos, os primos, os tios, os avós.

É o meu primeiro livro, o mais ingénuo, o mais Ana.

Quando acabei de o escrever, não percebi se tinha realmente acabado de o escrever. Não percebi se aquilo era um livro ou a continuação dos meus cadernos.

Com ele ganhei o Prémio Branquinho da Fonseca. Soube da notícia num dia de chuva, depois de uma consulta de ortopedia por causa de uma lesão antiga no joelho, decorrente do Karaté. Lembro-me de entrar no táxi com as minhas canadianas, de rogar pragas à chuva e ao meu joelho, de pensar “Por que raio fiz Karaté? Por que raio não fiz antes natação ou ioga?” Nem sequer era grande karateca, nunca quis participar em campeonatos, não gostava muito de me ver com o kimono de Karaté.

No dia do lançamento do livro, estava tão nervosa que não conseguia segurar no copo de água pousado à minha frente.

Uma vez perguntaram-me que livro eu escolheria salvar, se só pudesse salvar um dos meus livros. Respondi sem hesitar que salvaria a karateca. 

Foi ela que me levou ao Planeta Tangerina, onde tenho sido tão feliz na tagarelice, na labuta e na partilha com a Isabel Minhós Martins, o Bernardo P. Carvalho, a Madalena Matoso, a Yara Kono, o João Gomes de Abreu, a Joana Estrela, a Cristina Lopes, a Carolina Cordeiro, a Mariana Vale e todos os demais habitantes desse astro.

“Eu não sou menina. Nem romântica.”

É que não sou mesmo. 

Topa-se, né?

terça-feira, 5 de abril de 2022

Penico e Putin

No final de fevereiro, enquanto a Rússia invadia a Ucrânia, eu lia um livro de 300 páginas sobre desfralde. As almas menos sensíveis poderão acusar-me de ser uma mãe desfasada das tendências do mundo, mas qualquer observador mais atento perceberá certamente que, às portas da guerra, uma mãe deve preparar os filhos para o autocontrolo e a dignidade, começando desde logo pelo domínio das fezes.

Em tempos de guerra, será ainda mais urgente, mais económico, mais ecológico, mais seguro e mais saudável os mais pequenos aprenderem a evacuar adequadamente.

E portanto, é como vos digo: a Rússia invadiu a Ucrânia - tanques, aeronaves, mísseis, vítimas mortais, refugiados - e eu lancei os meus filhos para esse estranho encontro com o seu próprio corpo. Ali estão eles, expostos, desarmados, como vieram ao mundo. Observam-me confusos talvez, ainda mais sós, ainda mais gémeos, ainda mais nus e indefesos. 

É preciso olhar para a existência humana através dos seus olhos. Na perspetiva dos meus filhos, largar as fraldas é como ir para o Espaço, como ir para a guerra, tudo é novo e assustador a partir do momento em que andam nus pela casa, à mercê da sua vontade urinária e fecal.

No tal livro de 300 páginas sobre este assunto, a autora americana, perita em desfralde, lembra-me que esta aprendizagem só vai ser prioritária para os meus filhos se ela for prioritária para mim. Ao longo da próxima semana, diz-me ela, não pensarei em mais nada além deste confronto com o bacio. Aceito o desafio e vou para a guerra. 

Passam-se dois ou três dias em que as fezes raramente vão parar ao penico. Limpamos o chão demasiadas vezes. Muito chichi, muito cocó, muitos escombros, muita frustração para os pais, para a ama e para os dois pequenos soldados.

Recordo os ensinamentos da perita americana: importa não perder a paciência e não entrar em contendas de poder. Firmeza, mas não dureza. Esta é, afinal de contas, a primeira vez que uma criança aprende a dominar o corpo. Convém que a experiência, apesar de exigir concentração e esforço, dê um resultado positivo.

Aprendemos por repetição, por mimese, por insistência e persistência. Se tudo correr bem, daqui a poucos dias a criança vai conseguir interpretar os impulsos musculares da bexiga e dos intestinos, e tomar a iniciativa de se sentar no penico. Essa será a sua primeira experiência de sucesso. E muito em breve será precisamente a mestria do penico que estará na base da sua auto-estima na sua relação com o seu corpo.

Penso em Vladimir Putin. Pergunto-me se tudo poderá ter corrido mal desde esta travessia de autoconhecimento, se Putin terá largado as fraldas num ambiente de segurança, se terá sido amado, abusado ou humilhado durante esta aprendizagem. Se um opressor pode começar aqui mesmo, numa criança oprimida sentada num penico.

Penso em todos os soldados atirados para a guerra, os russos, os ucranianos e os demais que se lhes juntaram, todos eles filhos de mães que lhes ensinaram a utilizar o bacio, a bem da sua autonomia e do seu bem-estar. Aqui estamos todos, pais e filhos, opressores e oprimidos, e basta uma criança sentada num penico para percebermos que o nosso caminho poderia ter sido tão diferente, a mãe a bater palmas, emocionada com a conquista do filho.

Um dos meus rapazes chora porque fez chichi nas calças. Vacilo entre a frustração e o amor. Ralho e refilo, cansada e, ao mesmo tempo, receosa de que ele venha um dia a perder o ânimo por minha causa, de que venha a invadir um país.

Se eles falharem, a culpa será sempre minha, claro, que ralhei com eles no momento em que precisavam de um abraço. Penso em Vladimir Putin e imagino-o assim, aos dois anos e meio, vulnerável, as calças molhadas com a sua própria urina e não posso deixar de sentir o peso da minha responsabilidade. 

Já sei que a tendência agora é não pressionar, é nunca dar um feedback negativo, é não fazer desfralde sequer, é esperar que as crianças decidam sozinhas que querem aderir às normas sanitárias de evacuação. De facto nada é mais pessoal e visceral do que as nossas próprias tripas.

Por outro lado, nada é mais ideológico do que educar, ensinar, formar. Estado e indivíduo parecem estar incompatibilizados. No que toca aos mais pequenos, a escola espera que as crianças saibam evacuar aos 3 anos, que aprendam a ler aos 6, que aprendam inglês aos 10, que entrem na universidade aos 18. A vida não está fácil para os que querem esperar até estarem preparados. 

Parto, pois, do princípio de que nunca ninguém está preparado para nada e nunca ninguém ficará à espera de que estejamos finalmente à altura do que quer que seja. Tudo será sempre imprevisível e excessivo e vai exigir esforço, adaptação, diálogo e aprendizagem.

Isto aplica-se à maternidade, à escola, à geopolítica, às operações militares, à cerimónia dos Óscares e também à arte de urinar e defecar.