segunda-feira, 5 de maio de 2014

Lá fora

Fartinho de estar em casa a anhar? 
Vai lá fora passear!
Pentear macacos. 
Rir como uma hiena.
Vai até Sesimbra! 
Dar uma volta ao bilhar grande. Ou a uma lagoa pequena. 
Escorrega na lama. Cai que nem um pato. Faz uma cena.
Não te esqueças de levar um chapéu. E uma canção alegre.
E, já agora, o Lá Fora!
Para aprenderes qualquer coisinha.
E não levares gato por lebre.


(clicar na imagem para ficar mais maior grande)

domingo, 4 de maio de 2014

Marguerite Duras


"Elle avait aimé démesurément la vie et c’était son espérance infatigable, incurable, qui en avait fait ce qu’elle était devenue, une désespérée de l’espoir même."

Marguerite Duras, Un barrage contre le Pacifique

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Um homem emoldurado no dia 25 de abril

Aquele homem traz uma moldura enfiada na cabeça. É uma moldura de madeira com uns ornamentos floridos. As outras pessoas evitam olhar para este quadro, porque o homem não é um quadro, é um homem a sério com uma moldura enfiada na cabeça. Neste momento, está a falar sozinho e ri-se das suas próprias piadas. A moldura não lhe prende os movimentos, porque vem pendurada ao pescoço como um colar. O homem vive num outro mundo e parece bastante satisfeito.
É assumidamente um retrato de si próprio.
E parece mais solto do que nós.
Mais espontâneo. Mais real.
Mais livre.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um livro qualquer

O narrador deste texto decidiu celebrar o dia mundial do livro comprando um livro qualquer. E quando dizemos qualquer, é mesmo qualquer: um livro desconhecido com um título bonito ou uma capa que apetecesse apertar. O narrador deste texto tinha saudades disso, de comprar um livro só porque lhe apetecia e não porque alguém lhe falara dele ou porque lera um artigo sobre o dito ou porque andava empolgado com um determinado autor ou porque a Amazon definira que o narrador também ia gostar disto se gostou daquilo. Todos diziam ao narrador que tinha de ler isto ou aquilo, era muito aborrecido. No entender do narrador, o pior da vida eram mesmo as listas de livros. As 5 autobiografias para mudar a sua vida. Os 10 livros policiais mais policiados. Os 100 livros sem limites. Os 40 livros para ler antes dos 40. Os narradores mais apetecidos. Os mais proibidos. Os mais amorosos. Os mais saborosos. Os mais risíveis. Os mais enervantes.
O narrador deste texto andava farto dos livros dos outros. Gostava de entrar nas livrarias e namorar com os livros que lhe caíssem no goto. Dava uma beijoca neste porque gostava da capa, apalpava a contracapa de outro, abraçava-se à lombada daquele, não havia mal nenhum nisso. E portanto, hoje decidira fazer isso mesmo: comprar um livro qualquer por um motivo qualquer. E quando saiu de casa decidiu ser ainda mais perverso: não só iria comprar um livro qualquer, como a seguir o iria ler.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Karateca no Brasil

BREAKING NEWS: A karateca chegou ao Brasil.
Alegadamente, a travessia teve lugar numa caravela.
Fontes próximas garantem que a karateca trazia na cabeça um chapéu de pirata e debaixo do braço O caderno vermelho da menina karateca.
Quando chegou, a menina karateca gritou: Yáááá!
A seguir, tirou o pé do chão e começou a sambar.

 
A propósito destes contactos com o Brasil, provas documentais mostram a karateca em ameno bato-papo com as fenomenais Garatujas Fantásticas.

Do catálogo da SESI-SP editora para os mais novos constam outras obras catitas do Planeta Tangerina, porque Quem lê sabe porquê.

Yáááá!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Gabriel García Márquez

«¡La estación!», exclamó mi madre. «Cómo habrá cambiado el mundo que ya nadie espera el tren». Entonces la locomotora acabó de pitar, disminuyó la marcha y se detuvo con un lamento largo. 
Lo primero que me impresionó fue el silencio. Un silencio material que hubiera podido identificar con los ojos vendados entre los otros silencios del mundo. La reverberación del calor era tan intensa que todo se veía como a través de un vidrio ondulante. No había memoria alguna de la vida humana hasta donde alcanzaba la vista, ni nada que no estuviera cubierto por un rocío tenue de polvo ardiente. Mi madre permaneció todavía unos minutos en el asiento, mirando el pueblo muerto y tendido en las calles desiertas, y por fin exclamó aterrada: «¡Dios mío!». Fue lo único que dijo antes de bajar. Mientras el tren permaneció allí tuve la sensación de que no estábamos solos por completo. Pero cuando arrancó, con una pitada instantánea y desgarradora, mi madre y yo nos quedamos desamparados bajo el sol infernal y toda la pesadumbre del pueblo se nos vino encima. Pero no nos dijimos nada.

Vivir para contarla, Gabriel García Márquez

quarta-feira, 26 de março de 2014

Os que não têm

Os que não têm, pedem ou então pedincham, suplicam, imploram. Passam os dias num degrau, na boca do metro, e dizem ladainhas que ninguém entende. Alguns trazem cartazes ao peito: Tenho fome, tenho SIDA. Outros andam de carruagem em carruagem com uma viola ao ombro, ou ficam num canto a soprar numa flauta ou num clarinete ou numa harmónica. Também há os que cantam ou os que falam sozinhos, os que olham em frente mas não nos vêem porque entretanto enlouqueceram e já não moram aqui. Também há os que vendem revistas ou porta-chaves ou peluches e trazem um cão pela trela ou uma criança pela mão e uma lata ou um chapéu ou um mealheiro.
Se forem bons tocadores, recebem moeda; se não forem, não recebem. Se forem criativos ou agressivos, safam-se melhor. Se roubarem, safam-se melhor ainda. Roubar compensa mais do que pedir, claro, claro.
Algumas pessoas dão moeda. Mas a maioria não. Por uma questão de princípio, naturalmente. Os europeus também têm sentimentos. E sobretudo convicções.
As convicções são mais importantes do que os sentimentos.
Não se pode encorajar a imigração ilegal.
Não se pode, pois não?
Não.
Os europeus têm convicções, mas vacilam. Eu, pelo menos, vacilo.
Mas não dou.
Os que pedem não são daqui.
Eu também não sou daqui.
Ninguém é daqui. Nem os que pedem, nem os que dão.
Os ingleses querem acabar com a livre circulação dos europeus. O melhor é ficar cada um na sua terra, é mais fácil assim.
E os que não têm terra?
Pois, não sei.
A história é feita destes ciclos que também vacilam.
De boas intenções está o incerto cheio.
Os europeus também foram imigrantes ilegais.
Foram, não foram?
Foram.
Atravessaram fronteiras descalços.
E agora baixam os olhos quando lhes pedem uma moeda. O que fazer?
Antes acertávamos as contas com Deus. Pagávamos o dízimo à Igreja. Agora apaziguamos a alma com atividades de voluntariado ou transferências automáticas para organizações que apoiam crianças ou imigrantes ilegais ou pessoas deficientes ou ex-toxicodependentes ou outros grupos a dar para o desfavorecido e marginal.
Já fizemos a nossa parte.
Já, não já?
Já.
Os mais sentimentalistas apadrinham crianças africanas que aprendem a pedinchar logo de pequeninas. A Europa é a que mais ajuda.
É, não é?
É.
Ajudar é preciso. Desde que não venham para cá pedir esmola. Estamos melhor sozinhos do que mal acompanhados.
Ai, sim?
Não, não estamos.
Os que não têm imploram com os olhos, mas já ninguém os vê.
É muito melhor olhar para o chão.
A Europa não é um bom sítio para pedir esmola. E os europeus também já não moram aqui.