quarta-feira, 5 de junho de 2019

Insultos com espargos

A propósito de nada, ocorre-me dizer que a Mary John está cheia de insultos.
Às vezes, num ajuste de contas, é preciso perder as estribeiras. Uma carta presta-se mesmo a isso.

Vai bugiar. Vai morrer longe. Vai dar uma curva.

Um livro também pode faltar ao respeito, ou não?

Os insultos da Mary John foram das coisas que mais prazer me deram escrever e das coisas que mais dores de cabeça deram na tradução para espanhol e na adaptação ao português do Brasil.



Num excerto da edição mexicana que apanhei no Facebook da editora, a Mary John diz assim: Vete al infierno.
Na edição brasileira: Vai pro inferno.
Na edição portuguesa: Vai pentear macacos.

Outros insultos que habitam estas três versões da Mary John:
Vai comer palha. Desampara-me a loja.
Sácate a volar. Esfúmate.
Vai ver se eu tô na esquina. Não encha o saco.

Prémio “Melhor Insulto com Legume da Época”: Vete a freír espárragos.

Adoro insultos. Adoro espargos. Adoro escrever. Adoro línguas.

Aproveito para elogiar a tradutora mexicana Paula Abramo que frita tão bem estes espargos linguísticos.

Agora vou à minha vidinha. Acho que vocês também deviam ir.
Por acaso acabei de comprar um molho de espargos no mercado.

Ide ver se chove.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O Parágrafo é um bom lugar

Esta foca é qualquer coisa!

“Aqui é um bom lugar” em destaque no Parágrafo.

Entrevista de Sara Figueiredo Costa.
Eu falei do texto. A Joana Estrela falou dos desenhos.
Bela conversa sobre o livro, sobre fragmentos e cadernos, sobre a adolescência, a infância e a memória.

Todo o Parágrafo: https://paragrafopontofinal.wordpress.com/2019/05/31/paragrafo-42/
Estou aqui a bater palminhas. Sou uma foca feliz.

sábado, 25 de maio de 2019

A Europa continua

Só nos últimos tempos:
Foi no Parlamento Europeu que se decidiu banir os plásticos de utilização única. Foi no Parlamento Europeu que se pôs fim ao roaming. Foi no Parlamento Europeu que se aprovou o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados. Foi no Parlamento Europeu que se avançou com a ratificação do Acordo de Paris.



A União Europeia existe e funciona. A Europa continua. E olhando para a nossa história recente, estamos muito melhor juntos do que separados.
Esta é a Europa que temos. Quem gosta, deve votar. Quem não gosta, também deve votar.
Amanhã lá estarei para fazer a minha cruz.

sábado, 18 de maio de 2019

“Aqui é um bom lugar” na Revista Blimunda

Que nice! “Aqui é um bom lugar” pousou na Revista Blimunda da Fundação José Saramago.

Crítica de Andreia Brites.

“Como se lê este livro? Fragmentário, com pouca progressão narrativa, avança no tempo, na cronologia e consequentemente na biografia da narradora, Teresa Tristeza (para rimar). Teresa escreve e ilustra, às vezes a si própria, às vezes quem a rodeia, e ainda o espaço. Será este um modelo de diário de uma adolescente no século XXI, quando os adolescentes deixaram de escrever diários? Tem ou não este objeto (aceitando o pacto ficcional) as condições para ser catalogado ou considerado um diário?

Teresa desabafa, comenta, parafraseia e reproduz ditos da mãe, muitos, e outros que ouve por aí. Logo no início do caderno esboça um conjunto de planos a cumprir até ao final do ano letivo, desejavelmente o último da escola secundária. Parece que, pela associação livre de ideias e estímulos que a levam ao texto, Teresa diz pouco. Ao contrário. Apenas o faz por um caminho obtuso, mordaz, irónico, carregado de perspicácia e humor. É aliás nesse tom escrutinador de si própria que se reconhece a voz de Ana Pessoa. 

Depois da torrente narrativa da carta de Mary John a Júlio Pirata, provavelmente o melhor livro juvenil português da década, a escritora tinha entre mãos a dura tarefa de manter a identidade, a qualidade literária, a frescura e originalidade. Conseguiu. Aqui há também o mérito da ilustração, da paginação e do próprio design que tornam todas as partes compósitas deste livro num corpo uno: o diário de Teresa Tristeza. 



Joana Estrela capta a ironia com que a protagonista se representa pelo texto e logo lhe confere espaços de conforto no sofá, ecrãs que lhe devolvem o reflexo e a nós nos oferecem um retrato. Mais, acrescenta-se-lhe uma voz da imagem, já que a adolescente escreve e desenha. A leitura deste diário segue à letra o sentido de diário gráfico. 

O puzzle não está completo, e o que existe basta para acompanhar o 12.o ano de Teresa, saber quem é a sua melhor amiga, descortinar ciúmes, atentar em insatisfações em relação ao seu corpo, comprovar tensões e afetos familiares, acompanhar novas descobertas e intuir, já no dealbar do ano letivo, que talvez paire um encantamento. A certeza da mudança também não fica por dizer.”

A Revista Blimunda #83/84 de abril/maio de 2019 está acessível aqui: 



quarta-feira, 15 de maio de 2019

nenhum nenhures algures ninguém

aqui aí adiante além
ali acolá atrás aquém
quase quem aquele alguém
nenhum nenhures algures ninguém
todo tarde tanto quanto
tudo aquilo abaixo quando
quão já qualquer então
tal qual essoutro não
ontem onde outro tão
ora fora agora embora
antes ambos isso outrora
sempre frente entre dentro
como cada nunca nada
logo hoje longe cujo
pouco algum muito fundo
acima ainda cedo assim
certo perto sim jamais
mesmo menos mais demais

sábado, 11 de maio de 2019

Aqui estou


Aponta em frente. Diz: “Aqui”.
Aponta para cima. Para baixo. Para o lado. “Aqui.”
Aponta com o dedo indicador.
Mão esquerda, mão direita, tanto faz.
Aqui.
Aqui, o pombo, o cão, o céu.
Aqui, campainha, árvore, quadro.
Aqui, teto, porta, pai.
Aqui, noite, colher, bolacha.
Aqui, colo. Aqui, mais. Aqui, água.
Aqui, silêncio, chuva, nada.
Aqui.
Primeira palavra. Primeiro tudo.
Mundo inteiro.
Aqui estou.