segunda-feira, 15 de abril de 2019

As casas abandonadas

Há uns anos escrevi um texto que se chamava “As Casas Abandonadas”. A Sara Bandarra agarrou nele para o ilustrar.
Durante meses não sabíamos onde ir com este projeto. Seria um livro? Uma instalação? Uma casa? Durante meses trocámos imagens de casas abandonadas. A Sara enviava-me as fachadas de Ílhavo, eu enviava-lhe os buracos de Bruxelas. Janelas partidas, guindastes, paredes esburacadas.
As casas foram surgindo devagar. De repente, percebemos que este livro era uma imagem só. Um livro-acordeão feito de casas e palavras.
Na semana passada imprimimos 20 exemplares, que estão agora à venda na livraria Gigões e Anantes. Obrigada, Sara, por nunca teres abandonado este projeto.


segunda-feira, 1 de abril de 2019

A revolução em Pontevedra!

Fui e voltei de Pontevedra. Entre ir e voltar, perdi um voo, passei uma noite em Madrid e cheguei ao Salón com um dia de atraso. Acelerei o passo, corri, transpirei. Não havia tempo a perder. 
Tudo começou e acabou à volta de uma mesa, numa amena cavaqueira com escritores, ilustradores, professores e leitores, ao sabor de empanadas e tartas de la abuela. No Salón do Livro Infantil e Xuvenil trocaram-se muitas palavras e emoções. 
Coisas que me vêm à memória: na conferência de José António Gomes cantou-se a Grândola Vila-Morena. No recital de poesia, o poeta brasileiro Henrique Rodrigues leu um poema lindo sobre a maternidade. No debate sobre revolução e escrita, o poeta galego Carlos Negro falou da inutilidade da poesia. Na sua conferência, Volnei Canonica, mediador de leitura no Brasil, falou da leitura como elemento transformador das sociedades.
No meu encontro com “A Sega”, um clube de leitura feminista, falámos de orientação sexual, sedução e menstruação a propósito da Mary John. 
Dei uma oficina de escrita criativa a um grupo de doze mulheres. Porquê só mulheres? Não sei. Talvez a revolução esteja finalmente nas mãos femininas.
Volto de Pontevedra com muita vontade de ler, escrever e revolucionar. 
Debaixo do braço trago, entre outras coisas, duas novelas xuvenis de Eva Mejuto e Rosa Aneiros e dois livros de poesia de Carlos Negro e Henrique Rodrigues. E no coração levo as conversas animadas com a Dora Batalim SottoMayor, a Ana Biscaia e o Henrique Rodrigues.
Obrigada, Eva Mejuto! Pelo convite, pelo entusiasmo, pelas boleias e por essa energia tão xuvenil. (Adoro este adjetivo assim, com o “x” galego. ¡Que chulo!)
Foi tão bom. Quero voltar!

Ao lado dos escritores galegos Rosa Aneiros e Carlos Negro a falar de literatura e revolução

quinta-feira, 28 de março de 2019

XX Salón do Livro Infantil e Xuvenil de Pontevedra

Estou a caminho da Galiza para fazer a REVOLUÇÃO. 
Por esta altura já está a decorrer o XX Salón do Livro Infantil e Xuvenil de Pontevedra, que tem como convidado de honra, não um país, mas uma língua: a portuguesa. 
"Revolução" é o tema desta edição do festival. 



Nos próximos dias andarei num revolucionário com poetas, romancistas, ilustradores, bibliotecários, professores, contadores de histórias, estudantes e leitores da Galiza, de Portugal, do Brasil e de Angola. 
Juntos daremos o golpe da literatura!

O programa completo do Salón está disponível aqui: http://www.salondolibro.gal/edicion2019/wp-content/uploads/2019/03/Programa_salon_2019-1.pdf

segunda-feira, 25 de março de 2019

O Público é um bom lugar!

“Aqui é um bom lugar” já anda por aí nas livrarias, à espera dos primeiros leitores. Falei no outro dia com a Sílvia Borges Silva (Lusa) sobre este livro e também sobre a adolescência, os diários e este misterioso regresso a casa que é, para mim, a escrita. Aqui fica o resultado desta conversa, numa edição do Público.


https://www.publico.pt/2019/03/25/p3/noticia/ana-pessoa-joana-estrela-editam-diario-grafico-aqui-bom-lugar-1866539


domingo, 24 de março de 2019

Mary Jo e o Papa Lector

No México, o blogger Papá Lector dá 5⭐️ à Mary Jo e recomenda a sua leitura às raparigas, aos rapazes e também aos pais. Crítica aqui: http://www.papalector.com/2019/03/resena-mary-jo-ana-pessoa.html?m=1
¡Muchas gracias, Papá Lector!

Foto do Papá Lector

terça-feira, 19 de março de 2019

O meu pai

O meu pai foi sempre o Pai Natal. Eu sabia que o meu pai era o Pai Natal. Eu acreditava no Pai Natal precisamente porque o Pai Natal era o meu pai. Ho ho ho!
O meu pai ri-se bastante. Da vida. Das pessoas. Das piadas secas. 
Às vezes fica a rir-se sozinho. 
O meu pai come uma laranja todas as manhãs. Lê o Expresso todas as semanas. Ouve jazz a toda a hora. 
Tem um certo fascínio por atrocidades e tragédias. Reis ingleses passados da cabeça, naufrágios marítimos. Compra livros. Lê. Conta os pormenores.
O meu pai não usa risco ao meio nem risco ao lado. Penteia o cabelo para trás. Usa barba desde sempre. Antes era quase preta, agora é quase branca. 
Uma vez cortou a barba no Algarve. A minha mãe quase teve um fanico. Lembro-me disso. E lembro-me de ter achado que o meu pai parecia uma pessoa diferente sem barba. Foi estranho.
O meu pai nasceu em Angola, viveu no Porto, cresceu na Parede.
Estava a fazer a tropa quando se deu o 25 de abril. Nessa altura não usava barba. 
É sempre o meu pai que me vai buscar ao aeroporto. Quando me vê, tira-me uma fotografia. Quer levar ele a mala.
Envia-me mensagens quando o Benfica joga. Envia-me fotografias da praia e da minha mãe. Compra-me revistas. Guarda-me artigos que talvez me interessem.
Faz as vontadinhas todas à minha mãe. Faz as vontadinhas todas aos filhos e também aos netos.
Quase nunca comenta os meus livros. Deste último achou que um dos textos era sobre ele. É capaz.
O meu pai é fixe. Eu gosto dele e ele gosta de mim.

Fim.
Ilustração da Joana Estrela para o “Aqui é um bom lugar”

segunda-feira, 18 de março de 2019

Que granda mega bom lugar!

Aaaaaaaaah! Já chegou. Estou aqui na minha varanda, numa ardência que eu sei lá. Que granda mega bom lugar!





segunda-feira, 11 de março de 2019

Aqui é um bom lugar

Cá está ele. O novo livro! Um caderno que é um diário. Um diário que é um lugar. Um lugar que é um encontro de textos meus com as incríveis mãos da Joana Estrela.



Este livro vem das nossas entranhas, ou seja, dos nossos cadernos. É um diário gráfico a quatro mãos, feito de desenhos espontâneos, de fotografias e de colagens que retratam pessoas, prédios, sofás, candeeiros, animais, plantas. A acompanharem reflexões curtas de uma tal Teresa Tristeza sobre tudo isto: o sol, a chuva, a noite e o vento. A família, a infância e a escola. Os livros, os sonhos e os pássaros. A liberdade, a saudade, a virgindade. As frases que ouvimos na rua, as frases que ouvimos em casa.
Este diário é um caderno a sério. Com cantos redondos e frases rasuradas.
Espero que gostem dele. Eu e a Joana divertimo-nos à farta. E também transpirámos barés. Tivemos grandes ataques de soluços. Felizmente pudemos sempre contar com o apoio, a fé, o entusiasmo, a paciência e os conselhos preciosos da nossa mega editora Isabel Minhós Martins. E também com a boa onda e o profissionalismo de toda a equipa do Planeta Tangerina, em especial da Joana Pardal, que pôs este livro na ordem. Cá vai ele, o diário gráfico dos meus sonhos, à procura do seu lugar no mundo. Frase da minha avozinha: “Para a frente é que é o caminho!”
Tudo sobre o livro: https://www.planetatangerina.com/pt/livros/aqui-e-um-bom-lugar

terça-feira, 5 de março de 2019

É Carnaval.

Novidades fresquinhas! Vem aí um livro mascarado de caderno. Ou um caderno mascarado de livro.

Ilustração da rainha Joana Estrela.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A noite das ideias

Imaginem uma noite chamada Noite das Ideias. Uma noite de pensadores, cientistas, economistas e artistas para refletir sobre este nosso tempo. É o que vai acontecer já na próxima quinta, 31 de janeiro, nos cincos continentes. 
Em Lisboa, a Noite das Ideias ocorre na Gulbenkian. Vai falar-se de democracia, populismo, alterações climáticas, oceanos, robótica, família, amor e muitos outros temas dos dias de hoje. 


Eu, que passo tão pouco tempo neste nosso tempo, lá estarei toda nervosinha e desajeitada, a ler um texto sobre contemplação, atenção e tempo que tem como título “Manifesto da imaginação”.

Querem vir trocar umas ideias sobre o assunto?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

2018

Cá estamos. 2019. Não comi doze passas, não bebi imenso, não vi o fogo de artifício. Fiquei para aqui assim, a enfardar bolo-rei e a pensar no ano que passou.
2018. 
Um inverno muito escuro, um verão muito quente. 
Aretha Franklin, fake news, Facebook. 
O meu filho de madrugada, ao fim do dia, a toda hora.
O Henrique. Meu alicerce, meu moinho de vento.
Andámos na roda gigante. Perdemos um avião. Fomos a Bordéus.
Li uns livros muita bons. Falei com alunos incríveis. De Miranda do Douro. Do Funchal. De Esposende. De Vila Nova de Gaia. Adorei todas as sessões. Adoro escolas. E alunos e professores. 
Estive nas Palavras Andarilhas. Fui picada por uma vespa. Escrevi um livro. Emagreci, mas depois engordei outra vez. Descobri Rachel Cusk. Emma Cline. Juan José Millás.
A Leïla morreu. O Francisco nasceu. O Seedz fechou.
Tive uma crise de costas no verão. Tive um ataque de choro no meio da rua. Tive um ataque de riso ontem à noite.
A torradeira deu o berro. A Živa foi-se embora. A Joana foi mãe. A Luísa também.
2018.
Um ano tão solitário e, ao mesmo tempo, tão habitado.
Tenho tanto sono.
Em 2019 espero dormir mais. 
Isto não é bem uma resolução. É uma intenção. Logo se vê.
Bom ano, malta!


Ilustração do livro “Eu Sou Eu Sei”, Madalena Matoso

sábado, 22 de dezembro de 2018

Os preferidos de 2018: Literatura Infantojuvenil

Não sei como correu 2018 para a viticultura, mas a colheita de literatura infantojuvenil foi bem boa. A seleção do Deus Me Livro começa num mega atlas e acaba num grande mergulho. O meu “Eu Sou Eu Sei” também lá está (eu ai, eu ui), todo muito encolhido e monossilábico, mas cheio de cor e traquinice, ao estilo da Madalena Matoso.



Ver a lista completa aqui: http://deusmelivro.com/mil-folhas/os-nossos-preferidos-de-2018-literatura-infanto-juvenil-21-12-2018/
Bom ano!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

As três Marias

A Mary John portuguesa, a Mary John brasileira e a Mary Jo mexicana finalmente juntas.



sábado, 15 de dezembro de 2018

Jovens Criadores no Plano Nacional de Leitura

Ho ho ho! Olha, que nice! “Como desenhar o corpo humano” é um dos livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura para leitores adolescentes e adultos.
Já vos disse que tenho uma relação emocional com os Jovens Criadores, né?



“A colectânea é bem o testemunho do início criativo de muitos autores que fazem hoje parte do panorama literário nacional (...). Em alguns destes textos, uns com carácter mais irreverente e/ou experimental, o leitor pode já delinear marcas de estilo que se irá descobrir mais tarde na obra editada destes escritores.”
Texto completo: http://catalogolx.cm-lisboa.pt/ipac20/ipac.jsp?session=&profile=pnl2027&source=~!rbml&view=subscriptionsummary&uri=full=3100024~!462843~!23&ri=5&aspect=subtab11&res=298&menu=search&ipp=1&spp=1&staffonly=&term=*&index=.GW&uindex=&menu=search&ri=5


terça-feira, 27 de novembro de 2018

Dez quilos de identidade

O meu filho com um ano de idade. Com os seus caracóis. Com aquele ar compenetrado de quem tem uma opinião sobre o assunto. O meu filho a franzir o sobrolho. A olhar para um livro. A comer pão. A pigarrear como um velhinho. Um entendimento qualquer nos olhos. Uma certa paz nos gestos. Como se já tivesse cá estado antes. O meu filho a esfregar o olho. A puxar os botões do casaco. A rasgar uma folha. A morder o sofá. A gatinhar. A estrebuchar. A rir. A dormir. A gritar. A chorar. A bater no espelho. A bater na máquina de lavar roupa. A enfiar-se no alguidar.
O meu filho cada vez mais real. A existir cada vez mais. Tão grande. Tão pequeno. Com ranho no nariz. Com a chupeta ao contrário. Com o macaquinho pela mão. Com cócegas nos pés.
O meu filho, com dez quilos de identidade. Que eu compreendo cada vez mais, mas não conheço nada bem. 
Tão íntimo. Tão nosso. Tão meu.
Tão daqui e dali. E ao mesmo tempo tão misterioso. Tão ele. Tão desconhecido.
O meu filho a existir neste mundo, mas ainda não completamente. Não anda, não desanda, não fala. 

E eu fico aqui assim, a vê-lo existir, com a certeza pasmada de que ainda não sei quem ele é, de que nunca vou saber. O meu filho ri-se e bate palmas. É um ser humano de carne e osso.