quinta-feira, 26 de março de 2015

The Voyage Out

O livro "The voyage out", primeiro romance de Virginia Woolf, faz hoje 100 anos.

"That was the strange thing, that one did not know where one was going, or what one wanted, and followed blindly, suffering so much in secret, always unprepared and amazed and knowing nothing; but one thing led to another and by degrees something had formed itself out of nothing, and so one reached at last this calm, this quiet, this certainty, and it was this process that people called living."

terça-feira, 17 de março de 2015

Eu e tu na floresta

Eu e tu na floresta.
Há muito tempo.
Tínhamos pernas e braços.
Os nossos pés pisavam raízes, escorregavam no musgo.
Às vezes, eu caminhava à tua frente. Outras vezes, caminhava atrás de ti.
Trazíamos paus de bambu na mão. Passávamos por baixo de troncos caídos. 
Passávamos por cima de troncos caídos. 
Tocávamos nas árvores e no chão, mergulhávamos os dedos na água. 
Um veado olhou para mim, eu olhei para ele.
Eu e tu no cimo da montanha. 
Uma floresta em cima de outra floresta.
Montanhas por cima de montanhas, árvores por cima de outras árvores. 
Tu deste um grito. Eu não.
Da minha boca saíam pequenas nuvens que se juntavam às outras nuvens.
Os nossos pés sobre folhas e pinhas. Eu e tu a magoar o silêncio. As pedras diziam: Shiu, mas nós não sabíamos calar os pés.
A certa altura atravessámos uma ponte suspensa e ficámos a ouvir o rio.
Eu e tu suspensos.
Os nossos pés na floresta. 
As árvores muito compridas, de tronco torcido. Raízes por cima de árvores caídas e ocas, por cima de outras raízes, por cima de pedras. 
Raízes como mãos. 
Árvores que carregavam outras árvores aos ombros, ramos enlaçados noutros ramos.
De repente fiquei sozinha. Eu e as pequenas nuvens que saíam da minha boca. 
A floresta mexia-se nas minhas costas, as árvores rastejavam atrás de mim. Como crocodilos.
Um ramo tocou na minha nuca. Um ramo que não existia antes.
Eu chamei por ti, mas tu não ouviste.
A floresta engolia as palavras e também as pequenas nuvens que saíam da minha boca, os meus passos, os teus passos.
A floresta como um monstro.
As minhas mãos muito velhas e ásperas. Como raízes.
Eu e tu a ganhar raízes.
E éramos verdes como o musgo, frios como as rochas, longos como cedros.
Eu e tu na floresta. 
Os mais antigos de todos.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Os dias em Nagasaki

Certos dias, nada evolui, nada se transforma. 
As noites são longas e a chuva perdura. O futuro é certo. A vida desacelera.
Uma pessoa espera pelo elétrico, outra pessoa escova o cabelo em frente ao espelho, outra bebe um café ao balcão.
E a vida, afinal, não é curta. É extremamente longa. Nunca mais acaba. 
Em certos dias, somos imortais.
O dia de amanhã será um dia igual a hoje, que é igual a ontem.
Há um certo conforto na previsibilidade dos dias. 
Tudo é imutável.
Noutros dias, a vida acontece. Nada é igual. Tudo muda. Onde não havia coisa alguma passa a existir tudo e o contrário também. Onde existia tudo, passa a haver coisa nenhuma.
Passear por Nagasaki tem esse efeito sobre os dias.
Nada é igual, nada é imutável.
Num dia, o carteiro passa a correr na rua, a distribuir cartas a toda a velocidade, e amanhã talvez não seja assim. Os corvos sobrevoam o parque, mas amanhã não se sabe. É uma incógnita. As crianças atravessam a rua com as educadoras, uma rapariga compra um bolo numa pastelaria, um homem ri-se sozinho no elétrico, duas adolescentes descem a rua a comer batatas fritas, e amanhã talvez não seja assim.
Certos dias não são iguais nem previsíveis. 
Em Nagasaki deve ser assim. 
Tudo é diferente 70 anos depois.
O desconforto da incerteza, a dúvida constante.
Talvez por isso o carteiro corra de casa em casa e as educadoras sorriam tanto.
Não temos controlo sobre quase nada. Não sabemos nada sobre quase tudo. E a vida, afinal, não é longa. É extremamente curta.
Tudo muda, tudo evolui.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Rapariga em Osaka

Uma rapariga caminha na minha direção.
Olha em frente, no vazio.
Entre mim e a rapariga há uma recta que é cada vez mais pequena.
Eu e a rapariga caminhamos na direção uma da outra.
A rapariga tem cabelos negros e uma franja rectilínea mesmo em cima dos olhos.
Os olhos também são rectilíneos.
Na franja da rapariga vem pendurado um gancho roxo, que também é uma recta.
É um gancho inútil, que não prende o cabelo a lado nenhum.
Vem só pendurado na franja, como um alfinete, como uma coisa qualquer.
A rapariga traz um desequilíbrio no rosto.
Não. Não é o rosto.
São as pernas.
A rapariga caminha de pernas tortas.
Enfia os pés para dentro.
Dobra ligeiramente os joelhos.
As pernas da rapariga parecem desajeitadas, mas não são.
A rapariga traz meias brancas pelo tornozelo e saltos altos que lhe estão demasiado grandes.
Quando a rapariga levanta o pé, o salto levanta voo e cai atabalhoado no chão.
O pé regressa ao sapato imediatamente.
A rapariga parece uma menina com os saltos altos da mãe, mas não é uma menina com os saltos altos da mãe.
É uma rapariga de saltos demasiado grandes e pés enfiados para dentro.
Caminha desajeitada por opção.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Uma lista de coisas

Ir de viagem. Contar os dias. Fazer uma lista. Não esquecer o guia. Nem sapatilhas. Pijama, passaporte. Kindle, caderno, guia. Máquina fotográfica, máquina do tempo. Ligar a este e àquele. Regar as plantas. Deixar as chaves. Falar com a porteira. Falar com os colegas. Ir ao banco. Ir à farmácia. Ir a casa. Reservar carro. Reservar hotel. Comprar bilhetes. Imprimir bilhetes. Confirmar horários. Enviar mails. Ler isto. Ler aquilo. Tripadvisor. Blogues. Lonely Planet. Tomar um copo. Almoçar com amigos. Lavar a roupa. Lavar a loiça. Lavar as ideias. Ver o mapa. Ver o plano. Fazer a mala. Escolher a mochila. Encher o saco. Fazer a cabeça. Desligar o frigorífico. Desligar o aquecimento. Desligar o mundo. Fechar a casa. Fechar a matraca. Ser uma lista. Uma enorme lista de coisas. Um bicho, uma casa. Um castelo de coisas em movimento. Aeroporto. Baggage drop off, segurança. Terminal A. Ver a porta de embarque, a hora de embarque. Esperar. Enfileirar. Embarcar. Sou uma lista de coisas. Uma enorme lista de coisas. Ir. Ver. Ser. Voltar.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Signe Baumane

Todos os anos vou animar para o Anima, o festival bruxelense (e bruxuleante) de filmes de animação.
Ontem descobri Signe Baumane, artista letã a viver em Nova Iorque que veio a Bruxelas apresentar o seu novo filme intitulado "Rocks in my Pockets", título sugestivo para uma história sobre três mulheres cheias de pedras nos bolsos numa Letónia em pleno desequilíbrio.
Aos 50 anos, Signe Baumane apareceu no palco de corpo são e mente vã numa versão dupla, de saia comprida por cima de um par de calças. Durante a conversa com o público, assumiu que passa a vida a pensar em sexo e também em suicídio. Logo a seguir esclareceu-nos que, felizmente para ela, pensa mais vezes em sexo do que em suicídio, o que lhe permite não só ter mais sexo, mas também sobreviver. O seu novo filme fala sobre isto e muito mais.
O trailer lança a primeira pedra, que aqui reproduzo em versão portuguesa: Neste mundo louco, de guerra, divórvio, política, sexo, negócios, educação, dinheiro, segredos, casamento, poder, maternidade e violência, como manter a sanidade? A resposta é difícil e também pouco saudável.
É Signe Baumane que dá vida - e também voz - a este filme autobiográfico sobre a sua avó, a sua mãe e também a própria Signe, numa história contada, narrada e ilustrada na primeira pessoa.
No final do filme, Signe Baumane atirou-nos pedras de papel, ofereceu ilustrações originais a uns quantos felizardos e falou-nos de tudo um pouco: da reação negativa de alguns familiares ao filme, dos ensaios intensivos para dar voz ao texto, do processo criativo.
Disse-nos que não faz filmes para si própria, mas sim para o público. Para nos entreter, para lançar perguntas (e também algumas pedras).
Deste encontro ressalta a ideia inquietante de que, apesar de tudo, há alguma esperança no pensamento suicida.
Nem que seja para ter a opção de escolha. E sobreviver.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Descascar batatas

Há um consolo subtil na atividade doméstica de descascar batatas.
A rotação da esfera imperfeita.
Um pedaço de terra nas mãos.
A pele rugosa e antiga.
Que pele?
A pele da batata. A pele das mãos.
A sensação ingénua de que, afinal, sempre dominamos algo.
Por exemplo, uma faca.
Por exemplo, o destino de um tubérculo.
Qualquer coisa cortada pela raiz.
Descasco uma batata e lembro-me.
De quê?
Não sei.
Uma recordação muito mais velha do que eu.
A minha mãe com uma batata na mão. A minha avó, a minha bisavó, a trisavó.
O gesto repetido desde o século XVI.
Uma esfera imperfeita de mulheres a descascarem esferas imperfeitas.
Eu igual a um tubérculo, cortada pela raiz.
A memória comum.
A lógica da batata.
O sentimento de pertença.
Qualquer coisa anterior a nós.
Impercetível.
Subterrânea.
Imperfeita.