Um medo qualquer ao pescoço.
Um sufoco que nem sequer é meu.
Um grito dentro da garganta.
Dentro das mãos.
Dentro do corpo.
O medo como uma trela.
Como uma gargatilha, como uma guilhotina.
O meu pescoço dentro do frio.
Dentro do cachecol.
Eu e o meu pescoço.
Um medo qualquer atravessado na garganta.
Entre a cabeça e as mãos.
Uma dor no pescoço quando leio, quando durmo, quando acordo.
Um nó na garganta muito antigo, que nem sequer é meu.
Um estrangulamento. Uma decapitação.
Perdemos qualquer coisa na semana passada.
Entre a cabeça e as mãos.
Um medo qualquer ao pescoço.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
O último narrador
Esta folha está em contagem decrescente.
É a última folha do último caderno do último dia do ano.
O narrador deste texto também é o último narrador do ano, por isso poupa no papel, encolhe as asas e as letras. Tem poucas linhas, poucas palavras, pouca terra, pouca terra.
O narrador deste texto está num comboio.
Vem sentado à janela, claro. É um narrador contemplativo e sensível. Observa os pinheiros que passam, as casas que passam e pensa precisamente nisso: que tudo passa, todas as coisas de todos os dias, incluindo aquele avião ao longe, estas duas galinhas ao perto, certas dores por dentro. As dores também passam, o corpo passa, a alma passa. Somos passageiros do tempo. Andamos sobre rodas sobre carris sobre terra. O narrador decide dedicar a última folha do último dia a esta sua reflexão medíocre, mas felizmente um homem interrompe-lhe o texto. Pergunta-lhe: Deseja tomar alguma coisa? O narrador abana a cabeça antes de perceber a pergunta. Não, não deseja tomar nada, deseja só narrar o seu texto, mas este seu desejo também passa. O narrador passageiro está sem palavras na ponta da língua nem na ponta dos dedos. Tudo passa, a literatura passa, as palavras passam. A última folha do último dia suspira. O narrador busca inspiração na sua garrafa de água mineral natural Luso e regressa à janela pendular. Uma família de oliveiras passa ao longe e ao perto. São oliveiras muito bem comportadas, parecem militares camuflados. De vez em quando, o sol lança raios e coriscos à cabeça do narrador.
A ponta dos dedos aponta para a folha.
Próxima estação: Coimbra B. As pessoas estão muito alinhadas na estação, muito quietas. Parecem bonecos disfarçados de pessoas.
A nuvem de um cigarro passa, a nuvem do céu também passa.
O narrador boceja e logo a seguir apressa-se para chegar ao fim da última folha do último dia.
Apetece-lhe fazer outra coisa qualquer.
Por exemplo, ler.
Por exemplo, dormir.
Ler e depois dormir.
O narrador deste texto não é um narrador a sério.
É um narrador a fingir. Está só de passagem por aqui.
A última folha do último caderno chegou ao fim.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
The summer without men
Para combater o inverno, ando a enfiar a carapuça e a ler o The summer without men (Verão sem homens) da Siri Hustvedt.
A páginas tantas, a narradora cobriu-me de beijos.
Gostei.
But before I get to that, I want to tell you, Gentle Person out there, that if you are here with me now, on the page, I mean, if you have come to this paragraph, if you have not given up and sent me, Mia, flying across the room or even if you have, but you got to wondering whether something might not happen soon and picked me up again and are reading still, then I want to reach out for you and take your face in both my hands and cover you with kisses, kisses on your cheeks and chin and all over your forehead and one on the bridge of your (variously shaped) nose, because I am yours, all yours.
I just wanted you to know.
A páginas tantas, a narradora cobriu-me de beijos.
Gostei.
But before I get to that, I want to tell you, Gentle Person out there, that if you are here with me now, on the page, I mean, if you have come to this paragraph, if you have not given up and sent me, Mia, flying across the room or even if you have, but you got to wondering whether something might not happen soon and picked me up again and are reading still, then I want to reach out for you and take your face in both my hands and cover you with kisses, kisses on your cheeks and chin and all over your forehead and one on the bridge of your (variously shaped) nose, because I am yours, all yours.
I just wanted you to know.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
Festa do Planeta Tangerina
Olha, olha. No sábado, vai haver festa do Planeta Tangerina.
Dá logo vontade de fazer clap, clap!
Eu vou ficar por Bruxelas a bocejar na festa do São Nicolau.
Mas, se estivesse para os lados da Parede, passava pela SMUP para dar um pezinho de dança.
Dá logo vontade de fazer clap, clap!
Eu vou ficar por Bruxelas a bocejar na festa do São Nicolau.
Mas, se estivesse para os lados da Parede, passava pela SMUP para dar um pezinho de dança.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Supergigante em Cascais
Notícias bombásticas:
No próximo sábado, 29 de novembro, pelas 16 horas, o Supergigante vai rebentar com a Biblioteca Casa da Horta em Cascais, uma casa cor de rosa como os meus sonhos.
Se quiserem ver o fogo de artifício, apareçam por lá. É que o Supergigante, além de gigante, é uma explosão contínua.
Mais informações sobre esta conversa explosiva aqui e aqui.
No próximo sábado, 29 de novembro, pelas 16 horas, o Supergigante vai rebentar com a Biblioteca Casa da Horta em Cascais, uma casa cor de rosa como os meus sonhos.
Se quiserem ver o fogo de artifício, apareçam por lá. É que o Supergigante, além de gigante, é uma explosão contínua.
Mais informações sobre esta conversa explosiva aqui e aqui.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Anonanimal
Em novembro o meu cabelo cai com as folhas das árvores e só me apetece ter o pássaro Andrew Bird enfiado nas orelhas. As mãos doem-me em tons de amarelo e vermelho. Os ouvidos também. Fico um bocado Anonanimal.
Vale a pena ler a letra da canção.
É outra queda outonal.
Vale a pena ler a letra da canção.
É outra queda outonal.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
10 anos
Saí de Portugal há 10 anos. Foi no dia 4 de novembro de 2004.
Tinha um bilhete de ida e volta, mas afinal não voltei. Emigrei para o inverno. Trazia comigo uma mala e uma cabeça cheia de coisas lá dentro.
Na Alemanha comecei a ler o que me apetecia e não o que me mandavam ler.
Comprei A Carta ao Pai numa livraria pequenina que vendia livros pequeninos.
Eu tropeçava na língua alemã e também na neve e no vinho quente. O meu primeiro gorro tinha trancinhas.
Os meus amigos alemães tinham convicções. Eu tinha cada vez mais dúvidas.
Eu vivia nas águas-furtadas de um prédio de esquina. A chuva fazia muito barulho contra a janela e eu escrevia longas cartas ao som da chuva. A minha escrivaninha abanava com a força da minha caneta. A minha caneta fazia barulho contra o mundo.
Quando vou a Portugal, regresso ao passado. O meu país é a casa dos meus pais.
Talvez por isso as minhas histórias morem na adolescência.
Em 10 anos, aprendi mais sobre mim do que sobre os outros. Sei cada vez mais sobre cada vez menos.
Uma década depois, continuo com saudades do meu país e da casa dos meus pais.
Eu gosto de ter saudades do meu país e da casa dos meus pais.
Gosto de ser um bicho estranho e sofredor.
Estou cada vez mais nostálgica. Cada vez mais portuguesa.
Tinha um bilhete de ida e volta, mas afinal não voltei. Emigrei para o inverno. Trazia comigo uma mala e uma cabeça cheia de coisas lá dentro.
Na Alemanha comecei a ler o que me apetecia e não o que me mandavam ler.
Comprei A Carta ao Pai numa livraria pequenina que vendia livros pequeninos.
Eu tropeçava na língua alemã e também na neve e no vinho quente. O meu primeiro gorro tinha trancinhas.
Os meus amigos alemães tinham convicções. Eu tinha cada vez mais dúvidas.
Eu vivia nas águas-furtadas de um prédio de esquina. A chuva fazia muito barulho contra a janela e eu escrevia longas cartas ao som da chuva. A minha escrivaninha abanava com a força da minha caneta. A minha caneta fazia barulho contra o mundo.
Quando vou a Portugal, regresso ao passado. O meu país é a casa dos meus pais.
Talvez por isso as minhas histórias morem na adolescência.
Em 10 anos, aprendi mais sobre mim do que sobre os outros. Sei cada vez mais sobre cada vez menos.
Uma década depois, continuo com saudades do meu país e da casa dos meus pais.
Eu gosto de ter saudades do meu país e da casa dos meus pais.
Gosto de ser um bicho estranho e sofredor.
Estou cada vez mais nostálgica. Cada vez mais portuguesa.
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