Este blogue foi ao gabinete de estética. Fez uma drenagem linfática, esticou o cabelo e a barriga, fez uma extensão de pestanas, pôs unhas de gel.
Depois deu-lhe na maquilhagem e talvez tenha exagerado no blush. As bochechas parecem dois pêssegos!
Este blogue está igual, mas diferente.
Uma
personagem passa por mim e eu pergunto-me que idade terá, de onde vem, para
onde vai. Se gosta de caramelo, se usa desodorizante, se bebe café com
açúcar ou com leite ou então com cheirinho, se tem animais domésticos, se já roubou a alguém, se já foi amada. E depois pergunto-me por que carga de água fico a
pensar numa personagem que nem sequer existe, quando a Europa pondera novas
sanções contra a Rússia e o Iraque pede ajuda à NATO. É como se eu preferisse a
ficção à realidade. Eu prefiro a ficção à
realidade. Mil vezes a ficção.
Os meus livros são meus.
Às vezes deixam de ser meus porque os ofereço a alguém, mas depois tenho pena.
Fazem-me falta. Quero-os de volta. Também não sou de
requisitar livros. Não gosto do protocolo das bibliotecas, dos
números esquisitos nas lombadas, das bibliotecárias mandonas, dos prazos. E, no entanto, fui muito feliz nas bibliotecas,
gostava de apreciar as lombadas, de
decifrar o que traziam lá dentro, de ouvir o cochichar das páginas, de cheirar o papel. Mas não levava os livros para
casa. Despedia-me deles para sempre. (Ficas aqui e eu vou para ali. Xau.) Sou
uma leitora fria e também bastante preguiçosa. Se levasse os livros para casa,
teria de os devolver e eu não gosto de ter um prazo para ler, não gosto de ir e
voltar, não me apetece. Além disso, os livros que levo para casa são quase
meus. Sabem onde vivo, estiveram na minha cama. E eu conheço-os na intimidade. Folheei
todas as páginas, li todas as palavras e dei-lhes qualquer coisa minha. Um
postal, um marcador, uma dobra no canto da folha. Os meus livros são meus. Não
são de mais ninguém. Acresce a isto que não gosto de ler livros emprestados.
E acho que o desgosto é mútuo. Eles olham para mim muito direitinhos e olho-os de soslaio. É preciso tratá-los com
cuidado e memorizar que aquilo não é nosso. É chato.
Fico com sentimentos de culpa sempre que
caem ao chão. Estraga-me logo o prazer da leitura. Prefiro que me ofereçam livros ou que mos recomendem. Olha,
gostei disto. Lê também. Tomo nota na cabeça ou
então numa lista muito antiga que anda sempre comigo. Por acaso já não anda,
coitada… Perdi-a. Não, por acaso não perdi. Roubaram-ma. Estava dentro do
telemóvel. É por isso que não gosto que me emprestem livros. Posso perdê-los. Ou então
estragá-los. Ou pior: roubá-los. Um livro meu é só meu. Enrolo os cantos, dobro
as folhas, anoto as gralhas. Depois passo para outro e sou capaz de o oferecer
a alguém. Mas nunca me esqueço do meu exemplar.
Os meus livros são meus.
Uma espreguiçadela
prolongada no espaço e no tempo. Onze e meia da manhã. O sol através das cortinas. Vários livros
à cabeceira. Um, dois, três. Muito longe das mãos. Lá fora tudo fechado. As lojas, os bancos, os supermercados. Meia vontade de fome. Cozinha com sol nas pontas dos pés. Uma
revista qualquer. Não
sei quê do ego. A obsessão pelo sentido das coisas, pelo
terceiro olho, bladiblá. Um bocejo. Pequeno-almoço
na varanda. Ovos mexidos, torradas, café com leite. O eco das torradas nas
traseiras. O eco das vozes. O nosso ego na varanda. O prédio da frente, sem
flores nos parapeitos. Um prédio feio quase bonito. A máquina da roupa contra o silêncio. Cinco quilos de roupa interior. Cuecas e meias. Meia vontade de caneta e papel. Um texto de domingo em pantufas. Sem verbos sequer. E
um livro vazio no sofá.
Não, não está sol, mas hoje é sexta-feira e estou rodeada de cores quentes. Por exemplo, o meu iPod é cor de laranja e os guindastes na rua também. Hoje não vi nenhum, mas sei que os elétricos são amarelos. E este autocarro tem uma risca cor de laranja em baixo. Aquelas barreiras de proteção são amarelas. As bananas da mercearia também. Aquele guarda-chuva ali à frente também. E os telhados desta rua são laranjas ou então vermelhos. O interior da minha carteira nova também é vermelho e o meu cartão multibanco é laranja. E hoje estou com uma bandolete cor de laranja que me aperta a cabeça e trago uma saia às bolinhas amarelas e o meu bálsamo para os lábios tem sabor a laranja, o meu creme das mãos cheira a limão e em casa tenho uma caneta fluorescente amarela, um lápis HB vermelho e um caderno cor de laranja. Por isso é verão na mesma. É verão quando eu quiser.
Chove praí que eu gosto.
Da esquina do
corredor emerge um ser humano do sexo masculino que vem finalmente assentar a poeira cósmica dos dias. Leva as mãos atadas a uma pasta azul que ostenta as estrelinhas da
União Europeia, mas os meus olhos miópes e imaginativos não veem nada disso. Os meus olhos veem um homem profundo que traz ao peito um
céu estrelado. Um homem com um céu por dentro, que afinal não veio assentar poeira cósmica nenhuma. É um homem como outros, a resvalar nos corredores sem metafísica nem transcedência. Tem um metro e oitenta, mais coisa menos coisa, e o sexo masculino possivelmente entediado. Adivinho olhinhos igualmente míopes, sem grandes voos, já que passam os dias trancados
num edifício aos quadradinhos com vista para outro edifício aos quadradinhos,
ambos pertencentes à União Europeia. Ora, isto permite-nos concluir que, a bloquear
a vista dos eurocratas, está precisamente o céu estrelado da
burocracia.