A narradora deste texto anda desfasada. Até o cabelo se desalinha, coitado. Não há maneira de ir ao sítio. Se o empurra para um lado, vai para o outro. Se o hidrata, fica oleoso. Se o ignora, fica encrespado.
É um cabelo carente.
A narradora deste texto sacode os ombros e sai de casa. Se espera pelo elevador, ele não arranca. Se vai pelas escadas, tropeça. Se calça sandálias, molha-se. Se vai a pé, atrasa-se. Se corre para o elétrico, não o apanha. Se o apanha, não encontra o passe. Se tem frio, não tem casaco. Se leva o guarda-chuva, está sol. Se vai de botas, tem calor. Se quer cantarolar, não tem música. Se quer café, não tem trocos. Se tem tempo, não tem ideias. Se tem ideias, não tem caneta. Se tem caneta, não tem caderno. Se quer pagar, não tem carteira. Se está cansada, não descansa. Se descansa, aborrece-se.
E tudo isto - pensa a narradora deste texto - é uma grande canseira.
Antes ficar na cama a ouvir os passarinhos lá fora. E os belgas a celebrar a vitória ou então a derrota.
O que vale é que a narradora deste texto não tem sono. Porque se tivesse sono, não dormia. E se quisesse ler, adormecia.
Antes ficar a escrever um texto fictício sobre um mundo paralelo. Diferente deste mundo.
Completamente desfasado.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
quarta-feira, 18 de junho de 2014
A estrofe redonda
A narradora deste texto pensou então que, se os seres humanos olhassem para um
poema com a mesma exaltação com que olham para uma bola de futebol, haveriam de andar por aí inspirados e sentimentais, a correr
atrás de uma estrofe redonda que nunca mais é real, a agarrar rimas pelo braço, a cabecear sonetos. Passariam os dias e as noites de lira ao colo a declamar poesia. E nunca perderiam a voz. Nem o Norte. Nem as estribeiras.
Seriam mulheres e homens românticos e desaforados como versos livres.
E, mais dia menos dia, haveriam de inventar o futebol para lhes passar o lirismo.
Seriam mulheres e homens românticos e desaforados como versos livres.
E, mais dia menos dia, haveriam de inventar o futebol para lhes passar o lirismo.
terça-feira, 17 de junho de 2014
O sangue na guelra
O jogo de ontem dá para pensar na vida e não em futebol.
Isto de termos sangue na guelra nem sempre joga a nosso favor, sobretudo quando estamos perante um contratempo.
Paciência. É mesmo assim.
Eu cá estou sempre a levar nas trombas com o meu sangue na guelra.
Perante um contratempo, ficamos indignados e desorientados. Dá logo vontade de agarrar na bola e anunciar o fim do jogo. Pronto, acabou-se.
Na melhor das hipóteses, desatamos aos berros. Não estamos a contar com adversidades. As adversidades são imprevisíveis e, além disso, adversas. Um árbitro rigoroso é uma adversidade. Um jogador mal-comportado também. Um alemão impiedoso também. E, no fundo, todos merecem ser vencedores, não é?
É.
Digamos que o nosso sentido de justiça é algo infantil e o mundo, infelizmente, é mesmo imprevisível e cheio como uma bola de futebol.
Independemente disso, admito que a eficiência alemã é mesmo de bradar aos céus. E de tanto gritarmos, perdemos a voz, o que é outra adversidade, mas não tão adversa assim. Quando perdemos o Norte, é bom que não nos ouçam, porque também só dizemos disparates.
A culpa, de facto, não foi do resto da humanidade nem da humidade nem do calor nem do árbitro cruel nem da falta de água. A culpa foi deste sangue na guelra.
Somos vivaços e expeditos, mas também ineficazes e obtusos.
Temos algo a aprender com a eficiência impiedosa dos alemães.
Em contrapartida, a Merkel festeja uma vitória como quem cumpre uma incumbência. Deve ter aprendido a bater palmas numa sala de aula, coitada. Aposto que não sabe sambar. Nem sapatear.
Nem perder as estribeiras.
Que grande tédio.
Antes dizer disparates.
E ficar rouca de tanto gritar.
Isto de termos sangue na guelra nem sempre joga a nosso favor, sobretudo quando estamos perante um contratempo.
Paciência. É mesmo assim.
Eu cá estou sempre a levar nas trombas com o meu sangue na guelra.
Perante um contratempo, ficamos indignados e desorientados. Dá logo vontade de agarrar na bola e anunciar o fim do jogo. Pronto, acabou-se.
Na melhor das hipóteses, desatamos aos berros. Não estamos a contar com adversidades. As adversidades são imprevisíveis e, além disso, adversas. Um árbitro rigoroso é uma adversidade. Um jogador mal-comportado também. Um alemão impiedoso também. E, no fundo, todos merecem ser vencedores, não é?
É.
Digamos que o nosso sentido de justiça é algo infantil e o mundo, infelizmente, é mesmo imprevisível e cheio como uma bola de futebol.
Independemente disso, admito que a eficiência alemã é mesmo de bradar aos céus. E de tanto gritarmos, perdemos a voz, o que é outra adversidade, mas não tão adversa assim. Quando perdemos o Norte, é bom que não nos ouçam, porque também só dizemos disparates.
A culpa, de facto, não foi do resto da humanidade nem da humidade nem do calor nem do árbitro cruel nem da falta de água. A culpa foi deste sangue na guelra.
Somos vivaços e expeditos, mas também ineficazes e obtusos.
Temos algo a aprender com a eficiência impiedosa dos alemães.
Em contrapartida, a Merkel festeja uma vitória como quem cumpre uma incumbência. Deve ter aprendido a bater palmas numa sala de aula, coitada. Aposto que não sabe sambar. Nem sapatear.
Nem perder as estribeiras.
Que grande tédio.
Antes dizer disparates.
E ficar rouca de tanto gritar.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Festa Supergigante ontem!
Ontem, em Bruxelas, aconteceu uma festa Supergigante!
Quem não esteve na livraria Orfeu ontem à tarde, é um ovo podre.
E perdeu a corrida do ano.
Quem não esteve na livraria Orfeu ontem à tarde, é um ovo podre.
E perdeu a corrida do ano.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Michael Cunnigham
Estive à frente do Michael Cunnigham. Era preciso esticar o pescoço para o ver como deve ser, mas o esforço fez-me bem à coluna. Acho que estou mais alta. A certa altura perdi a vergonha e agarrei no microfone. Fiz-lhe perguntas e ele respondeu.
No final pedi-lhe um autógrafo no meu exemplar fora de horas.
Ele perguntou: "E escrevo o quê?" Eu: "Um conselho para jovens escritores".
Ele escreveu:
Depois pedi-lhe outro autógrafo noutro livro. Ele escreveu:
No final pedi-lhe um autógrafo no meu exemplar fora de horas.
Ele perguntou: "E escrevo o quê?" Eu: "Um conselho para jovens escritores".
Ele escreveu:
To Ana,
Don't panic.
(really)
Michael Cunnigham
Depois pedi-lhe outro autógrafo noutro livro. Ele escreveu:
To Ana,
Never stop.
Michael Cunnigham
quinta-feira, 5 de junho de 2014
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Supergigante em Hamburgo!
A convite da Embaixada de Portugal em Berlim, o Supergigante vai a Hamburgo conhecer os estudantes portugueses na Alemanha e comemorar o "Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas".
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