Há um pássaro novo cá atrás. Acorda-me todas as manhãs aos gritos e eu rogo-lhe pragas. O pássaro canta como um despertador: um grasnar histérico e insistente, que se repete até à exaustão. Não deve ser um pássaro bonito. Se fosse, não precisava de grasnar assim. A culpa é da primavera, quiçá. Levanto-me e vou à casa de banho. O pássaro continua a grasnar mesmo em cima da cabeça. Deve estar a marcar território ou então a afugentar um inimigo. Em qualquer dos casos, deve estar a ter sucesso porque os outros pássaros piam fininho. Vou para a cozinha e corto fatias de pão com a minha faca serrilhada de aço inoxidável. Eu, se pudesse, voava para longe com o meu ninho debaixo do braço. O pássaro continua a grasnar toda a gente. Deve ser um corvo, porque os corvos são feios e também não cantam. Grasnam. Além disso, comem o que vier ao bico, incluindo cadáveres. Os corvos são nojentos. Bebo café com leite e penso neste pássaro recém-chegado. Se calhar está muito aflito. Todos os imigrantes se afligem no princípio. Deve estar com medo da vida ou da morta. Ou então não gosta de passarinhas e ainda não saiu do armário. Estou a comer pão com doce de amora e penso na pressão de ar, nos chumbinhos que moravam em latas redondas. Sempre gostei do barulho dos chumbinhos dentro da lata. Infelizmente, nunca tive pontaria.
Se tivesse, era já. PUM!
terça-feira, 20 de maio de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
O senhor Antónimo
Ninguém sabe de onde vem o senhor Antónimo. Se lhe perguntam, não responde. Se insistem, começa a guinchar. O senhor Antónimo não presta contas a ninguém. Não trabalha, não paga impostos, não recebe, não gasta. Não é eficiente, nem pontual, nem responsável. O senhor Antónimo não sabe ver as horas nem olhar para um mapa. Se calhar, anda sempre perdido. Além disso, tem uma estranha forma de caminhar. Quando avança com o pé direito, inclina-se para esquerda. Quando avança com o esquerdo, inclina-se para a direita. De vez em quando, tropeça e bate com a cabeça, escorrega em qualquer coisa, cai no meio do chão. Como está escuro, anda sempre aos tombos. É que o senhor Antónimo dorme durante o dia e só sai de casa à noite. Vai vivendo disto e daquilo, come o que os outros deitam para o lixo. O senhor Antónimo nunca foi ao jardim zoológico. Nunca comeu um gelado. Nunca comprou o jornal. É um homem muito velho, mas parece um menino pequenino. Se lhe dizem "Bom dia", deita a língua de fora. Se lhe dizem: "Faz isto", ele faz outra coisa qualquer. Se lhe dão um abraço, ele dá pontapés. Se lhe dão de comer, ele cospe. Se lhe oferecem qualquer coisa, ele recusa. O senhor Antónimo não quer ficar a dever nada a ninguém. Não tem um clube de futebol nem joga no Euromilhões, porque não acredita na sorte nem na Virgem Maria. O senhor Antónimo não gosta de pessoas nem de bichos nem de plantas nem de pedras nem de santos. Não bebe café com leite, não come torradas, não boceja nem se espreguiça. O senhor Antónimo está sempre do contra. Como se não bastasse, veste sempre a roupa do avesso e depois ri-se, porque as etiquetas lhe fazem cócegas no queixo. O senhor Antónimo não sabe ler nem escrever, está-se borrifando para o mundo. Quando o puxam de um lado, vai para o outro. Se o tratam bem, reage mal. Se lhe pedem um favor, diz uma asneira. Nunca toma banho. Nunca sorri. Nunca pisca os olhos. A única coisa que o senhor Antónimo gosta de fazer é correr atrás dos ratos e falar sozinho numa língua esquisita que ninguém entende. Se a rua vai para cima, ele vira para baixo. Se a seta aponta para a direita, ele vai para a esquerda. O senhor Antónimo não vai propriamente a lado nenhum. Anda por aí à deriva. Não sabe de onde vem nem para onde vai. É esgrouviado.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Lá fora
Fartinho de estar em casa a anhar?
Vai lá fora passear!
Pentear macacos.
Rir como uma hiena.
Vai até Sesimbra!
Dar uma volta ao bilhar grande. Ou a uma lagoa pequena.
Escorrega na lama. Cai que nem um pato. Faz uma cena.
Não te esqueças de levar um chapéu. E uma canção alegre.
E, já agora, o Lá Fora!
Para aprenderes qualquer coisinha.
E não levares gato por lebre.
(clicar na imagem para ficar mais maior grande)
domingo, 4 de maio de 2014
Marguerite Duras
"Elle avait aimé démesurément la vie et c’était son espérance infatigable, incurable, qui en avait fait ce qu’elle était devenue, une désespérée de l’espoir même."
Marguerite Duras, Un barrage contre le Pacifique
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Um homem emoldurado no dia 25 de abril
Aquele homem traz uma
moldura enfiada na cabeça. É uma moldura de madeira com uns ornamentos floridos.
As outras pessoas evitam olhar para este quadro, porque o homem não é um quadro, é um homem a sério com uma moldura enfiada na cabeça. Neste momento, está
a falar sozinho e ri-se das suas próprias piadas. A moldura não lhe prende os
movimentos, porque vem pendurada ao pescoço como um colar. O homem vive num outro mundo e parece bastante satisfeito.
É assumidamente um retrato de si próprio.
E parece mais solto do que nós.
Mais espontâneo. Mais real.
Mais livre.
É assumidamente um retrato de si próprio.
E parece mais solto do que nós.
Mais espontâneo. Mais real.
Mais livre.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Um livro qualquer
O narrador deste texto decidiu celebrar o dia mundial do livro comprando um livro
qualquer. E quando dizemos qualquer, é mesmo qualquer: um livro desconhecido com
um título bonito ou uma capa que apetecesse apertar. O narrador deste texto tinha saudades disso, de
comprar um livro só porque lhe apetecia e não porque alguém lhe falara dele ou
porque lera um artigo sobre o dito ou porque andava empolgado com um determinado autor
ou porque a Amazon definira que o narrador também ia gostar disto se gostou daquilo. Todos diziam ao narrador que tinha de ler isto ou aquilo, era muito aborrecido. No entender do narrador, o pior da vida eram mesmo as listas de
livros. As 5 autobiografias para mudar a sua vida. Os 10 livros policiais
mais policiados. Os 100 livros sem limites. Os 40 livros para ler antes dos 40.
Os narradores mais apetecidos. Os mais proibidos. Os mais amorosos. Os mais
saborosos. Os mais risíveis. Os mais enervantes.
O narrador deste texto andava farto dos livros dos outros. Gostava de entrar nas livrarias e namorar com os livros que lhe caíssem no goto. Dava uma beijoca neste porque gostava da capa, apalpava a contracapa de outro, abraçava-se à lombada daquele, não havia mal nenhum nisso. E portanto, hoje decidira fazer isso mesmo: comprar um livro qualquer por um motivo qualquer. E quando saiu de casa decidiu ser ainda mais perverso: não só iria comprar um livro qualquer, como a seguir o iria ler.
O narrador deste texto andava farto dos livros dos outros. Gostava de entrar nas livrarias e namorar com os livros que lhe caíssem no goto. Dava uma beijoca neste porque gostava da capa, apalpava a contracapa de outro, abraçava-se à lombada daquele, não havia mal nenhum nisso. E portanto, hoje decidira fazer isso mesmo: comprar um livro qualquer por um motivo qualquer. E quando saiu de casa decidiu ser ainda mais perverso: não só iria comprar um livro qualquer, como a seguir o iria ler.
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