terça-feira, 22 de abril de 2014

Karateca no Brasil

BREAKING NEWS: A karateca chegou ao Brasil.
Alegadamente, a travessia teve lugar numa caravela.
Fontes próximas garantem que a karateca trazia na cabeça um chapéu de pirata e debaixo do braço O caderno vermelho da menina karateca.
Quando chegou, a menina karateca gritou: Yáááá!
A seguir, tirou o pé do chão e começou a sambar.

 
A propósito destes contactos com o Brasil, provas documentais mostram a karateca em ameno bato-papo com as fenomenais Garatujas Fantásticas.

Do catálogo da SESI-SP editora para os mais novos constam outras obras catitas do Planeta Tangerina, porque Quem lê sabe porquê.

Yáááá!

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Gabriel García Márquez

«¡La estación!», exclamó mi madre. «Cómo habrá cambiado el mundo que ya nadie espera el tren». Entonces la locomotora acabó de pitar, disminuyó la marcha y se detuvo con un lamento largo. 
Lo primero que me impresionó fue el silencio. Un silencio material que hubiera podido identificar con los ojos vendados entre los otros silencios del mundo. La reverberación del calor era tan intensa que todo se veía como a través de un vidrio ondulante. No había memoria alguna de la vida humana hasta donde alcanzaba la vista, ni nada que no estuviera cubierto por un rocío tenue de polvo ardiente. Mi madre permaneció todavía unos minutos en el asiento, mirando el pueblo muerto y tendido en las calles desiertas, y por fin exclamó aterrada: «¡Dios mío!». Fue lo único que dijo antes de bajar. Mientras el tren permaneció allí tuve la sensación de que no estábamos solos por completo. Pero cuando arrancó, con una pitada instantánea y desgarradora, mi madre y yo nos quedamos desamparados bajo el sol infernal y toda la pesadumbre del pueblo se nos vino encima. Pero no nos dijimos nada.

Vivir para contarla, Gabriel García Márquez

quarta-feira, 26 de março de 2014

Os que não têm

Os que não têm, pedem ou então pedincham, suplicam, imploram. Passam os dias num degrau, na boca do metro, e dizem ladainhas que ninguém entende. Alguns trazem cartazes ao peito: Tenho fome, tenho SIDA. Outros andam de carruagem em carruagem com uma viola ao ombro, ou ficam num canto a soprar numa flauta ou num clarinete ou numa harmónica. Também há os que cantam ou os que falam sozinhos, os que olham em frente mas não nos vêem porque entretanto enlouqueceram e já não moram aqui. Também há os que vendem revistas ou porta-chaves ou peluches e trazem um cão pela trela ou uma criança pela mão e uma lata ou um chapéu ou um mealheiro.
Se forem bons tocadores, recebem moeda; se não forem, não recebem. Se forem criativos ou agressivos, safam-se melhor. Se roubarem, safam-se melhor ainda. Roubar compensa mais do que pedir, claro, claro.
Algumas pessoas dão moeda. Mas a maioria não. Por uma questão de princípio, naturalmente. Os europeus também têm sentimentos. E sobretudo convicções.
As convicções são mais importantes do que os sentimentos.
Não se pode encorajar a imigração ilegal.
Não se pode, pois não?
Não.
Os europeus têm convicções, mas vacilam. Eu, pelo menos, vacilo.
Mas não dou.
Os que pedem não são daqui.
Eu também não sou daqui.
Ninguém é daqui. Nem os que pedem, nem os que dão.
Os ingleses querem acabar com a livre circulação dos europeus. O melhor é ficar cada um na sua terra, é mais fácil assim.
E os que não têm terra?
Pois, não sei.
A história é feita destes ciclos que também vacilam.
De boas intenções está o incerto cheio.
Os europeus também foram imigrantes ilegais.
Foram, não foram?
Foram.
Atravessaram fronteiras descalços.
E agora baixam os olhos quando lhes pedem uma moeda. O que fazer?
Antes acertávamos as contas com Deus. Pagávamos o dízimo à Igreja. Agora apaziguamos a alma com atividades de voluntariado ou transferências automáticas para organizações que apoiam crianças ou imigrantes ilegais ou pessoas deficientes ou ex-toxicodependentes ou outros grupos a dar para o desfavorecido e marginal.
Já fizemos a nossa parte.
Já, não já?
Já.
Os mais sentimentalistas apadrinham crianças africanas que aprendem a pedinchar logo de pequeninas. A Europa é a que mais ajuda.
É, não é?
É.
Ajudar é preciso. Desde que não venham para cá pedir esmola. Estamos melhor sozinhos do que mal acompanhados.
Ai, sim?
Não, não estamos.
Os que não têm imploram com os olhos, mas já ninguém os vê.
É muito melhor olhar para o chão.
A Europa não é um bom sítio para pedir esmola. E os europeus também já não moram aqui.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Banana Chips

No outro dia, descobri as banana chips. No México não querem outra coisa. Parecem batatas fritas, mas não são batatas nem fritas. São fatias de banana. Estavam à venda no café. Diziam: Go bananas with these chips! e eu achei piada, porque joguei Bananoid até tarde e sou Ana Banana. Comprei um pacote: 120 gramas de banana frita e crocante, que amolece na boca. Comi o pacote em 24 horas. 120 g de um grande enjoo de banana com leite de côco. De castigo, fiquei a marear, numa naúsea de marinheiro que anda para cima e para baixo, para cima e para baixo.
Olha, se calhar, entrei num barco e fui a balançar nas ondas. Nem disse adeus a ninguém. Entrei e fui. Nem sequer comprei bilhete. Se me apanham, ainda me lançam ao mar. Neste momento, estou a subir e a descer, a subir e a descer.
Tudo por causa das banana chips.
120 gramas de parvoíce.
Se calhar, gosto de estar enjoada.

É possível.

Ou então estou meia abananada.
Deve ser isso.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A boneca essencial

A primavera chegou a Bruxelas e, com ela, a Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo. E manifestações. À volta da rotunda, polícias e barreiras e também camionetas com repórteres e jornalistas. Ninguém passa em frente ao Conselho hoje, nem sequer os autocarros; vão dar uma granda volta. Já tive ataques de fúria por causa disso. Ia atrasada para um voo.
Os meus problemas são ridículos quando comparados com os problemas do mundo.
As transportadores aéreas não querem voar para a Venezuela. Israel bombardeou a Síria. Os Estados Unidos aprovaram mais sanções contra a Rússia.
Os líderes da UE chegam em carros pretos e compridos. Hoje não os vi, mas às vezes vejo-os. Os carros, não os líderes. Os líderes vão escondidos atrás dos vidros fumados.
Michelle Obama está em visita oficial na China.
Na ordem do dia da cimeira europeia: emprego, união bancária, Ucrânia, política energética, relações da UE com África.
Nas últimas 48 horas, mais de dois mil migrantes africanos foram resgatados na costa italiana.
Houve um atentado na Líbia e outro no Afeganistão.
As grandes questões do mundo estão dentro umas das outras. As grandes questões do mundo parecem Matryoshkas.
As palavras "cimeira" e "Crimeia" escrevem-se com as mesmas letras, que estranho.
Ninguém conhece ao certo os objetivos da Rússia a longo prazo.
A única boneca russa que não é oca por dentro é a mais pequena de todas. É a boneca essencial.
Os líderes da UE já devem ter tirado uma foto de família, todos alinhadinhos. Parecem soldadinhos de chumbo. O Presidente do Conselho tem cara de rato.
A UE vai aprovar mais sanções contra a Rússia.
O rato roeu a rolha da garrafa do Rei da Rússia.
Se calhar a guerra já começou e ainda não demos por ela.
Está sol na rua. Bendita primavera. Tenho mesmo de comprar uns óculos escuros.

quarta-feira, 19 de março de 2014

O meu pai

Porque hoje é dia do pai.
E é Natal quando uma pessoa quiser.

O Pai Natal não existe. O Fernando Pessoa também não.
Eu sempre soube disso.
O Pai Natal é o meu pai. E o Fernando Pessoa também.
O meu pai tem barba e ri-se muito, porque a vida tem piada.
Um dia apareceu sem barba e ninguém gostou.
O meu pai ficou triste, mas depois riu-se. Nós também. A barba voltou a crescer.
O meu pai come uma laranja todas as manhãs.
E escreve direito em linhas tortas.
E conhece todos os caminhos.
O meu pai tem o cartão da FNAC e sabe mexer no iPad.
E também sabe nadar. E fazer o nó de gravata.
E contar histórias macabras sobre monarcas ingleses.
O meu pai é do Benfica.
E eu sou do meu pai.

terça-feira, 18 de março de 2014

Aeroporto de Bruxelas

Cheguei. Estou sempre a chegar. Aeroporto de Bruxelas, A 59, A 57, A 55. Welcome to Europe. Uma casa de banho, um bonequinho e uma bonequinha, tenho chichi. Faço chichi e lavo as mãos. O cabelo fora do sítio. Estou tão pálida. Como é que se diz isso em francês? Não há de ser palide. Um tapete rolante e depois outro. É pâle. Vi no dicionário. Vou sempre em frente com as minhas pernas e rodinhas. Dá jeito ter um dicionário no telefone inteligente. Neuhaus, Samsonite, Fine food, Gourmet. A 45. Malas, mochilas, sacos pela mão, carteiras, casacos. Andamos com tantas coisas às costas. Uitgang sortie ausgang exit. Uma seta para ali (Gates B) e outra para cima (One level up). Escadas rolantes. Eu rolo nas escadas rolantes. Feel inspired wallonia. Samsung galaxy - Design your life. Comprei o da concorrência. Terei feito bem? Claro que sim. O que faz aqui um Manneken Pis de chocolate? Um monstro-criança agarrado à pilinha. É horrível. Um cartaz da Calzedonia. Tenho as meias todas rotas. Nothing to declare. E.U. Leio EU e não E.U. Tiro o passe de metro. Sunglasses. Tenho de comprar uns. Para quê? Para nada. Currency exchange. Bus connections level 0. Vou para o nível 0. Sempre a descer até ao nível 0. Não gosto nada de descer. Autocarros Brussels City. Départ en 2 minutes. Acelero o passo. Vou atrás das minhas pernas e rodinhas. Em piloto automático. Num tapete rolante. Sempre em frente. Até à porta de embarque.