quarta-feira, 19 de março de 2014

O meu pai

Porque hoje é dia do pai.
E é Natal quando uma pessoa quiser.

O Pai Natal não existe. O Fernando Pessoa também não.
Eu sempre soube disso.
O Pai Natal é o meu pai. E o Fernando Pessoa também.
O meu pai tem barba e ri-se muito, porque a vida tem piada.
Um dia apareceu sem barba e ninguém gostou.
O meu pai ficou triste, mas depois riu-se. Nós também. A barba voltou a crescer.
O meu pai come uma laranja todas as manhãs.
E escreve direito em linhas tortas.
E conhece todos os caminhos.
O meu pai tem o cartão da FNAC e sabe mexer no iPad.
E também sabe nadar. E fazer o nó de gravata.
E contar histórias macabras sobre monarcas ingleses.
O meu pai é do Benfica.
E eu sou do meu pai.

terça-feira, 18 de março de 2014

Aeroporto de Bruxelas

Cheguei. Estou sempre a chegar. Aeroporto de Bruxelas, A 59, A 57, A 55. Welcome to Europe. Uma casa de banho, um bonequinho e uma bonequinha, tenho chichi. Faço chichi e lavo as mãos. O cabelo fora do sítio. Estou tão pálida. Como é que se diz isso em francês? Não há de ser palide. Um tapete rolante e depois outro. É pâle. Vi no dicionário. Vou sempre em frente com as minhas pernas e rodinhas. Dá jeito ter um dicionário no telefone inteligente. Neuhaus, Samsonite, Fine food, Gourmet. A 45. Malas, mochilas, sacos pela mão, carteiras, casacos. Andamos com tantas coisas às costas. Uitgang sortie ausgang exit. Uma seta para ali (Gates B) e outra para cima (One level up). Escadas rolantes. Eu rolo nas escadas rolantes. Feel inspired wallonia. Samsung galaxy - Design your life. Comprei o da concorrência. Terei feito bem? Claro que sim. O que faz aqui um Manneken Pis de chocolate? Um monstro-criança agarrado à pilinha. É horrível. Um cartaz da Calzedonia. Tenho as meias todas rotas. Nothing to declare. E.U. Leio EU e não E.U. Tiro o passe de metro. Sunglasses. Tenho de comprar uns. Para quê? Para nada. Currency exchange. Bus connections level 0. Vou para o nível 0. Sempre a descer até ao nível 0. Não gosto nada de descer. Autocarros Brussels City. Départ en 2 minutes. Acelero o passo. Vou atrás das minhas pernas e rodinhas. Em piloto automático. Num tapete rolante. Sempre em frente. Até à porta de embarque.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Joan As Police Woman - The magic

A Joan não apareceu vestida de polícia. Vinha com um par de calças cintilantes e um casaquinho muito composto, mas meio amarrotado. Disse que tinha medo de passar a ferro e que talvez as pessoas a respeitassem mais se aparecesse cheia de rugas. A Joan tem um tique qualquer na língua, lambe-se um bocado. Fica com um certo ar de cat woman. A Joan tem 43 anos e usa um risco ao meio com uns ganchos infantis de um lado e do outro. Quando canta, parece muito mais velha, não por causa das rugas, mas por causa da voz que entra dentro da pele como uma raiz.
No final do concerto, comprei o álbum novo. Chama-se Classic, é dourado e preto. Tem um autocolante em cima a dizer não sei quê. Depois fui ter com a Joan, que estava mesmo ali, do lado de lá do balcão. Ela disse Hello! Eu disse aquelas coisas de sempre, que o concerto isto e que o álbum aquilo. A Joan pegou no CD e disse que não gostava nada do autocolante em cima do álbum, mas que era muito difícil tirá-lo. Ai é? É. Vou tentar. Fiquei ali ao pé da Joan a tirar o autocolante enquanto ela dava outros autógrafos. As minhas unhas abrutalhadas não me deixaram mal: o autocolante morreu e a Joan ficou feliz. Até disse I love you e foi mesmo uma coisa sentida, porque eu lancei-lhe um truque de magia, zás! A Joan perguntou-me se queria que escrevesse alguma coisa especial no autógrafo. Eu disse que estava só à procura da magia. A Joan abriu muito os olhos e escreveu a dourado: Ana, For your magic! Depois fez um coraçãozinho e assinou por baixo.
Fiquei logo a magicar.
Sou mega fã.

quarta-feira, 5 de março de 2014

As prioridades segundo a Ryan Air

Diálogo entre mulher extremamente grávida e senhora da Ryan Air:

- Desculpe, esta é a fila do embarque prioritário?
- Sim... Mas é só para titulares de bilhete prioritário.
- Ah...
- Deixe-me ver o seu bilhete, por favor.
- Eu estou grávida!
- Pois, mas tem um bilhete normal, vê? Os bilhetes prioritários dizem "Priority" em cima. Não é o seu caso.
- As grávidas não têm prioridade?
- Não. Os bilhetes prioritários são mais caros.

terça-feira, 4 de março de 2014

Aperto no ombro

Beijinhos, abraços, apertos de mão.
Esta coisa de o corpo falar pelos cotovelos é mesmo assim e o meu corpo gosta. É tagarela.
Uma festinha ou um estalo na cara. Uma pessoa percebe logo.
Ora se está de trombas, ora se faz beicinho, agora pisca o olho, e logo a seguir revira. Um esgar, um aceno, um bater de palmas.
As pessoas falam sem falar. Voltam as costas, dão a mão, abanam a cabeça. E há gestos para todos os gostos. Os silenciosos e os que fazem barulho. Os previsíveis e os inovadores. Os íntimos e os afastados. Um polegar para cima e outro para baixo, um sobrolho a franzir, o dedo médio a levantar, ups! 
O corpo também dá pontapés na gramática.
De todos os gestos e contactos físicos formais, semiformais e informais, ainda estou para compreender o aperto no ombro.
É preciso imaginar este contacto inesperado: uma mãozinha semiformal a comprimir a nossa pele.
E não é uma mão conhecida. É uma mão estrangeira: cinco dedinhos misteriosos e, possivelmente, sapudos.
Nunca é um amigo que nos aperta o ombro. É sempre um conhecido disfarçado de outra coisa. (É Carnaval, ninguém leva a mal.)
Dá-me logo vontade de relinchar e distribuir coices, até porque hoje vim mascarada de égua.
O aperto de ombro vem disfarçado de sensibilidade e bom senso. Olha, estou aqui, diz a mãozinha misteriosa. Quero ser teu amigo, insiste ela. Cinco dedinhos a comprimir a minha pele, uma tarântula de estimação.
Quando me apertam o ombro, apetece-me sair a galope e fazer um cocó assustado.

Tenho um temperamento de égua indomável.
E sou dose para cavalo.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Os lugares imaginários

Diz que o Alberto Manguel passou grande parte da vida a colecionar lugares imaginários.
Até escreveu um livro a fingir sobre isso. E não é um homem inventado, é um homem a sério. Vive num convento fantasiado algures em França, num grande regabofe utópico com milhares de livros inimagináveis.
Vi-o uma vez em Bruxelas, cidade fictícia de nuvens falsas, e gostei de o ouvir. Até comprei um livro irreal do senhor. Infelizmente, não cheguei a lê-lo. Distraí-me.
Às vezes acontece-me.

Passo os dias em lugares imaginários. No monte dos vendavais. Na minha varanda idealizada. A beber um café ilusionista em casa do Sherlock.
Quando saio da minha cabeça inventiva, fico logo com sono, com frio e com fome, porque as coisas a sério cansam-me. Os diplomatas que aparentam diplomacia cansam-me e os deputados tagarelas também e as cimeiras criativas, os líderes liderados e os lobistas avatares, o ilusionismo fiscal, o fecundo futebol, a NSA, o Facebook, os likes, as selfies, as negociações quiméricas, os dados pessoais, as infrações, a fraude, os incumprimentos, as violações, as guerras concebidas, o fabuloso Big Brother, todo este admirável mundo a sério que é tão a fingir, tão inconcebível, tão efabulado, que qualquer dia damos mesmo um grande passo de humanidade ficcional e vamos parar a Marte.

Já estou cheia de sono e frio e fome.
Antes viver no meu Kindle surpresa a engendrar outra coisa qualquer.

Hoje queimei a língua. Distraí-me.
Estava na Catedral com o Vargas Llosa e escorreguei nas palavras.
Parece uma dor inventada, mas não é. É uma dor a sério.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

To the lighthouse

So that is marriage, Lily thought, a man and a woman looking at a girl throwing a ball. That is what Mrs. Ramsay tried to tell me the other night, she thought. For she was wearing a green shawl, and they were standing close together watching Prue and Jasper throwing catches. And suddenly the meaning which, for no reason at all, as perhaps they are stepping out of the Tube or ringing a doorbell, descends on people, making them symbolical, making them representative, came upon them, and made them in the dusk standing, looking, the symbols of marriage, husband and wife. Then, after an instant, the symbolical outline which transcended the real figures sank down again, and they became, as they met them, Mr. and Mrs. Ramsay watching the children throwing catches.
 
Virginia Woolf, To the lighthouse (Rumo ao farol)