quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A narradora entrevada

A narradora entrevada foi ao osteopata. Gabinete amplo, secretária ao fundo, uma cadeira importante que afinal eram duas, maca a meio caminho com uma toalha deitada, jardim empoleirado na janela, homem robusto. Um aperto de mão, patas de osteopata.
O senhor disse: Deite-se e a narradora deitou-se.
As patinhas dedilharam as costas da narradora entrevada.
Primeira vértebra. Ao longe, toalhas enroladas numa prateleira.
Segunda vértebra. Um armário ali à frente, enorme, que estranho.
Terceira vértebra. Não há um único cartaz com ossos neste gabinete. Só um quadro assim-assim. Quarta vértebra. A vida seria diferente se não fossemos vertebrados.
As patas do osteopata dedilhavam contentes. Eram patas boas e justiceiras, e as vértebras da narradora eram más, mereciam ser castigadas.
O osteopata disse: Deixe-se ir e a narradora deixou-se ir.
Um braço para ali, o outro para acolá e, de súbito, a narradora estalou.
Estalou mesmo, eu ouvi. PUM!
A narradora desbloqueada endireitou as costas e saiu destravada para a rua.
A meio caminho abrandou o passo. Trazia uma desconfiança qualquer dentro do crânio.
Alguém se ria nas suas costas. Sim, alguém se ria. Ouvia-se bem. HAHAHA!
Eu também ouvia.
E não eram as pessoas que passavam. Não eram as patas do osteopata.
Eram as vértebras da narradora. Escondidas atrás das costas.
Eram vértebras más e velhacas.
A narradora caminhou direita, mas não segura.
Nada podia contra si própria. Mas às vezes não gostava nada dos seus bloqueios.
Nem da sua coluna vertebral.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Cor de pele: Mel

Acabei de ler o segundo livro da banda desenhada Couleur de Peau: Miel.
Ainda não percebi se gosto desta trilogia. Às vezes acho que não, outras vezes acho que sim, outras ainda mais ou menos. Isto acontece-me com frequência: não perceber se gosto de uma camisola que estou a usar, de um livro que estou a ler, de uma canção que estou a ouvir, de um sabor novo, de uma cor.
Sou um bocado pim-pam-pum. Leio isto e aquilo, hoje apetece-me, amanhã logo se vê. E não sou de colecionar coleções e ler os livros por ordem, que grande maçada. Mas esta novela autobiográfica de Jung, autor sul-coreano que faz bande dessinée à belga, começa com um grande empurrão e eu caí dentro de uma lixeira em Seul, onde um polícia encontrou um menino de cinco anos. E pronto, uma pessoa põe-se logo a ler.
Para salvar a criança.
E salva mesmo. A páginas tantas a criança é adotada por uma família numerosa algures na Bélgica, por isso continuei. O segundo livro fala disso mesmo, de ser igual e diferente, de crescer num país chamado Bélgica e de cortar a identidade pela raiz. "Je savais bien que je n'étais pas japonais. Mais quand je me regardais dans un miroir, je ne me sentais pas belge non plus ! Je voyais un coréen. C'était inéluctable."
Ando preocupada com este moço fora do sítio porque, do alto da sua adolescência, decidiu nunca mais dizer palavra à hora de jantar. Come e cala.
É um bocado desconcertante.
Hoje vou passar na livraria e pedir o terceiro volume do Couleur de Peau. O senhor da livraria não vai perceber e eu vou repetir: Couleur de Peau. Se o senhor não perceber, vou dizer a palavra-chave: Jung.
 
Às vezes não gosto de crescer em Bruxelas. Outras vezes sim, gosto muito.
É lixado dizer Couleur de Peau.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Bow ties are cool

Eu gostava de saber quantos homens passaram a usar laço por causa do Eleventh Doctor. Não devem ter sido poucos, mas por acaso ainda não vi nenhum.



Quando vi a fatiota do novo Doctor Who, senti um certo vazio.
É que o novo Doctor parece mesmo um doutor. Não tem um ar desajeitado e o cabelinho para a frente. E acima de tudo, não tem aquela falta de classe com tanta classe.
Acho que estava à espera de um acessório equiparável ao laço. Bow ties are cool. Uma coisa foleira e inesperada. Por exemplo, um Doctor Who de Crocs ou de sandálias Birkenstock ou com aqueles acessórios pirosos a fingir que são outra coisa. Umas leggings a fazer de calças, por exemplo. Uns óculos de sol a fazer de bandoleta. Umas argolas de cortinado a fazer de brincos. Chapéus a fazer de inteligência. Roupa a imitar pele de leopardo. Botas à cowboy. Uma t-shirt do Hard Rock Cafe. Algo assim sem estilo mas com estilo.
Mas pronto...
O novo Doctor Who não é o Matt Smith.  É por isso.
 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A narradora ressequida

A narradora ressequida decidiu hidratar as suas mãos murchas e a boca árida. Vai daí, entrou na Body Shop. Nada como saciar a sede dos lábios e das mãos na Loja do Corpo, sobretudo em esperançosa época de saldos, poupando dinheiro a gastar. Por três euros, um gel duche Love Etc 60 ml. Não estava nada mal para quem precisasse de amor e também de um banho. Não era o caso da narradora ressequida, que se mantinha mais ou menos asseada e tinha muito Love Etc para dar.
Dirigiu-se à secção Mãos & Pés, porque tinha mais pena das mãos murchas que da boca árida. Passou os olhos enxutos pelas prateleiras.
Creme hidratante, loção de limpeza, sabão líquido, leite apaziguador, óleo para as unhas, não sei quê intenso, manteiga purificadora com sabor a absinto. Como?
Sabor, não. Cheiro.
Aaaah, que giro.
A narradora ressequida pegou na manteiga purificadora ao colo e refletiu enquanto farejava.
Em que momento se devem amanteigar as mãos? À noite? A menina da loja devia saber. O creme de absinto cheirava bem. De manhã? O creme de amêndoa também não era nada mau. Ia esborratar os auscultadores e o passe de metro. À noite não era grande ideia. O de cacau cheirava melhor ainda. Os livros iam escorregar-lhe das mãos. Noz de côco, délice de cannerberg. Iam ficar a cheirar a rosas silvestres ou a gengibre, a baunilha gourmande. E isso era mau? O que significa canneberg? No trabalho? Só se fosse para hidratar o teclado.
A narradora desidratou-se de ideias porque, além de ressequida, era impaciente.
À saída, passou por um castelo de boiões pequeninos. Leu: Lèvres à croquer. Que expressão fofinha. Com sabor a manga ou a mel. Ou a manteiga de karaté. Perdão?
Não.
Beurre de karité. Não de karaté.
O que significa karité? Para quê sujar o dedo indicador para meter bâton nos lábios?
A narradora mirrou um pouco mais e saiu da loja. Ia de mãos a abanar e espírito gretado. Pensou: Que se lixe a securaTinha mãos secas e um coração hidratado.
No nariz levava uma memória engraçada.
A manteiga purificadora com sabor a absinto.
Sabor, não.
Cheiro.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O nevoeiro parado no tempo

Se eu fosse uma pessoa dada a números, frações e percentagens, diria que são 11 e 11 da manhã, que o mês de janeiro já vai a dois terços e que 5% de 2014 já foi com os porcos. Também diria que não tarda faço 7 anos de Bruxelas e isso até deve ser um motivo para soprar as velas e desejar qualquer coisa, mas felizmente sou dada a palavras e não tenho apetência para o desejo, por isso digo só que as pessoas já pararam de me desejar "Bom ano!", porque o ano já começou há bué e a vida nunca está quieta, vai por aí fora de saltos altos num passo nervosinho, o que é bastante esquisito, porque eu ia jurar que o dia de hoje nunca mais passa e este nevoeiro ficou parado no tempo. Mas, em rigor algébrico, a verdade verdadinha é que este dia já vai quase a 50%, o que quer dizer que tenho de concluir os meus afazeres em metade do tempo. Isto também quer dizer que passo o tempo a perder tempo. Humidade: 93%.
Deve ser um grande stress pensar em números.
Olha-me para este nevoeiro.
Nunca mais passa.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Calçadeira

A narradora deste texto chegou a casa e foi dar com uma calçadeira no quarto. Estava refastelada em cima da cómoda e a narradora ficou uns bons segundos a olhar para ela. A calçadeira: Nunca viste, ó? E realmente não, a narradora nunca tinha visto uma calçadeira assim, a puxar o pé para a chinela. Além disso, não gostava que lhe pisassem os calcanhares, portanto descalçou a bota. Gritou-lhe: Calça-me. E a calçadeira obedeceu.
Aaaaaah, maravilha! Há mais ingratos que sapatos, de facto.
Como foi possível perder tantos anos a calçar botas sozinha, a esmagar o dedo indicador contra a bota? Que vida triste, aquela.
Agora, com a sua calçadeira, até dava gosto calçar-se. E quem calça por gosto, não descalça.
O dedo indicador também ficou logo mais solto. Olha para isto: até se pôs a escrever. Coitado, é que andava mesmo condoído.