quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Cor de pele: Mel

Acabei de ler o segundo livro da banda desenhada Couleur de Peau: Miel.
Ainda não percebi se gosto desta trilogia. Às vezes acho que não, outras vezes acho que sim, outras ainda mais ou menos. Isto acontece-me com frequência: não perceber se gosto de uma camisola que estou a usar, de um livro que estou a ler, de uma canção que estou a ouvir, de um sabor novo, de uma cor.
Sou um bocado pim-pam-pum. Leio isto e aquilo, hoje apetece-me, amanhã logo se vê. E não sou de colecionar coleções e ler os livros por ordem, que grande maçada. Mas esta novela autobiográfica de Jung, autor sul-coreano que faz bande dessinée à belga, começa com um grande empurrão e eu caí dentro de uma lixeira em Seul, onde um polícia encontrou um menino de cinco anos. E pronto, uma pessoa põe-se logo a ler.
Para salvar a criança.
E salva mesmo. A páginas tantas a criança é adotada por uma família numerosa algures na Bélgica, por isso continuei. O segundo livro fala disso mesmo, de ser igual e diferente, de crescer num país chamado Bélgica e de cortar a identidade pela raiz. "Je savais bien que je n'étais pas japonais. Mais quand je me regardais dans un miroir, je ne me sentais pas belge non plus ! Je voyais un coréen. C'était inéluctable."
Ando preocupada com este moço fora do sítio porque, do alto da sua adolescência, decidiu nunca mais dizer palavra à hora de jantar. Come e cala.
É um bocado desconcertante.
Hoje vou passar na livraria e pedir o terceiro volume do Couleur de Peau. O senhor da livraria não vai perceber e eu vou repetir: Couleur de Peau. Se o senhor não perceber, vou dizer a palavra-chave: Jung.
 
Às vezes não gosto de crescer em Bruxelas. Outras vezes sim, gosto muito.
É lixado dizer Couleur de Peau.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Bow ties are cool

Eu gostava de saber quantos homens passaram a usar laço por causa do Eleventh Doctor. Não devem ter sido poucos, mas por acaso ainda não vi nenhum.



Quando vi a fatiota do novo Doctor Who, senti um certo vazio.
É que o novo Doctor parece mesmo um doutor. Não tem um ar desajeitado e o cabelinho para a frente. E acima de tudo, não tem aquela falta de classe com tanta classe.
Acho que estava à espera de um acessório equiparável ao laço. Bow ties are cool. Uma coisa foleira e inesperada. Por exemplo, um Doctor Who de Crocs ou de sandálias Birkenstock ou com aqueles acessórios pirosos a fingir que são outra coisa. Umas leggings a fazer de calças, por exemplo. Uns óculos de sol a fazer de bandoleta. Umas argolas de cortinado a fazer de brincos. Chapéus a fazer de inteligência. Roupa a imitar pele de leopardo. Botas à cowboy. Uma t-shirt do Hard Rock Cafe. Algo assim sem estilo mas com estilo.
Mas pronto...
O novo Doctor Who não é o Matt Smith.  É por isso.
 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A narradora ressequida

A narradora ressequida decidiu hidratar as suas mãos murchas e a boca árida. Vai daí, entrou na Body Shop. Nada como saciar a sede dos lábios e das mãos na Loja do Corpo, sobretudo em esperançosa época de saldos, poupando dinheiro a gastar. Por três euros, um gel duche Love Etc 60 ml. Não estava nada mal para quem precisasse de amor e também de um banho. Não era o caso da narradora ressequida, que se mantinha mais ou menos asseada e tinha muito Love Etc para dar.
Dirigiu-se à secção Mãos & Pés, porque tinha mais pena das mãos murchas que da boca árida. Passou os olhos enxutos pelas prateleiras.
Creme hidratante, loção de limpeza, sabão líquido, leite apaziguador, óleo para as unhas, não sei quê intenso, manteiga purificadora com sabor a absinto. Como?
Sabor, não. Cheiro.
Aaaah, que giro.
A narradora ressequida pegou na manteiga purificadora ao colo e refletiu enquanto farejava.
Em que momento se devem amanteigar as mãos? À noite? A menina da loja devia saber. O creme de absinto cheirava bem. De manhã? O creme de amêndoa também não era nada mau. Ia esborratar os auscultadores e o passe de metro. À noite não era grande ideia. O de cacau cheirava melhor ainda. Os livros iam escorregar-lhe das mãos. Noz de côco, délice de cannerberg. Iam ficar a cheirar a rosas silvestres ou a gengibre, a baunilha gourmande. E isso era mau? O que significa canneberg? No trabalho? Só se fosse para hidratar o teclado.
A narradora desidratou-se de ideias porque, além de ressequida, era impaciente.
À saída, passou por um castelo de boiões pequeninos. Leu: Lèvres à croquer. Que expressão fofinha. Com sabor a manga ou a mel. Ou a manteiga de karaté. Perdão?
Não.
Beurre de karité. Não de karaté.
O que significa karité? Para quê sujar o dedo indicador para meter bâton nos lábios?
A narradora mirrou um pouco mais e saiu da loja. Ia de mãos a abanar e espírito gretado. Pensou: Que se lixe a securaTinha mãos secas e um coração hidratado.
No nariz levava uma memória engraçada.
A manteiga purificadora com sabor a absinto.
Sabor, não.
Cheiro.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O nevoeiro parado no tempo

Se eu fosse uma pessoa dada a números, frações e percentagens, diria que são 11 e 11 da manhã, que o mês de janeiro já vai a dois terços e que 5% de 2014 já foi com os porcos. Também diria que não tarda faço 7 anos de Bruxelas e isso até deve ser um motivo para soprar as velas e desejar qualquer coisa, mas felizmente sou dada a palavras e não tenho apetência para o desejo, por isso digo só que as pessoas já pararam de me desejar "Bom ano!", porque o ano já começou há bué e a vida nunca está quieta, vai por aí fora de saltos altos num passo nervosinho, o que é bastante esquisito, porque eu ia jurar que o dia de hoje nunca mais passa e este nevoeiro ficou parado no tempo. Mas, em rigor algébrico, a verdade verdadinha é que este dia já vai quase a 50%, o que quer dizer que tenho de concluir os meus afazeres em metade do tempo. Isto também quer dizer que passo o tempo a perder tempo. Humidade: 93%.
Deve ser um grande stress pensar em números.
Olha-me para este nevoeiro.
Nunca mais passa.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Calçadeira

A narradora deste texto chegou a casa e foi dar com uma calçadeira no quarto. Estava refastelada em cima da cómoda e a narradora ficou uns bons segundos a olhar para ela. A calçadeira: Nunca viste, ó? E realmente não, a narradora nunca tinha visto uma calçadeira assim, a puxar o pé para a chinela. Além disso, não gostava que lhe pisassem os calcanhares, portanto descalçou a bota. Gritou-lhe: Calça-me. E a calçadeira obedeceu.
Aaaaaah, maravilha! Há mais ingratos que sapatos, de facto.
Como foi possível perder tantos anos a calçar botas sozinha, a esmagar o dedo indicador contra a bota? Que vida triste, aquela.
Agora, com a sua calçadeira, até dava gosto calçar-se. E quem calça por gosto, não descalça.
O dedo indicador também ficou logo mais solto. Olha para isto: até se pôs a escrever. Coitado, é que andava mesmo condoído.
 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O carrossel dos dias

Está quase. Um passo em frente e não tarda já estamos do outro lado, nada mau. Gosto desta ideia de passar o ano, de ver os foguetes a estourar ao longe e gente em cima das cadeiras. Ou alemães a mergulhar no rio. Ou então só o Herman José na televisão. 10, 9, 8, uma excitação, 4, 3, 2, pára tudo, zeroooo. Uma rolha contra o teto, champanhe por todo o lado, borbulhinhas no céu-da-boca, beijinhos, abraços, bom ano! E, pronto, já estamos no ano seguinte, a começar qualquer coisa que ainda não se sabe ao certo o que é, mas, se for uma coisa boa, que dure para sempre. Se for má, que acabe logo. Gosto de estar no carrossel dos dias, cada um no seu cavalinho, para baixo e para cima, sempre em frente. No final, estamos todos tontos por causa dos pulos e do champanhe, bem bom. Também gosto de olhar para trás só para ver as coisas ao longe. E, se puder ser, ao sabor de doze passas de uva, diz que é tradição. Blaargh, não gosto nada de comer doze passas de seguida, mas como na mesma. Felizmente sou apoucada, não tenho doze desejos. Tenho só um e é sempre o mesmo. Digo-o doze vezes seguidas, tipo mantra. E depois fico por ali noite fora numa grande tontura, a dar no champanhe. Ou então não. A festa acaba cedo, dorme-se sobre o assunto, na madrugada do dia 1, o primeiro dia de todos. Também gosto desta expectativa, deste tempo de espera que passa mas não passa, nunca mais é hora. Fazer o check-in online, fazer a mala, imprimir o bilhete, apanhar o autocarro, descobrir que me esqueci disto e daquilo, que chato, ir para a fila do drop-off, tirar os sapatos, apitar no raio-X, desejar Bonnes fêtes aos seguranças, entrar no avião, adormecer no primeiro parágrafo do primeiro dia, acordar com as palavras: Senhores passageiros, estamos a descer para Lisboa. Atrasar o relógio. Olhar pela janelinha e ver as nuvens e depois as luzinhas e depois as casas. É tudo tão mais bonito em Lisboa, parece que até vejo melhor ao longe, que engraçado. Um passo em frente e não tarda já estou do outro lado.
Mas enfim.
Para variar, já estou com o carrossel à frente dos bois.
Ainda vou na parte de apanhar o autocarro. Que seca... O tempo passa, mas não passa.