quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A narradora ressequida

A narradora ressequida decidiu hidratar as suas mãos murchas e a boca árida. Vai daí, entrou na Body Shop. Nada como saciar a sede dos lábios e das mãos na Loja do Corpo, sobretudo em esperançosa época de saldos, poupando dinheiro a gastar. Por três euros, um gel duche Love Etc 60 ml. Não estava nada mal para quem precisasse de amor e também de um banho. Não era o caso da narradora ressequida, que se mantinha mais ou menos asseada e tinha muito Love Etc para dar.
Dirigiu-se à secção Mãos & Pés, porque tinha mais pena das mãos murchas que da boca árida. Passou os olhos enxutos pelas prateleiras.
Creme hidratante, loção de limpeza, sabão líquido, leite apaziguador, óleo para as unhas, não sei quê intenso, manteiga purificadora com sabor a absinto. Como?
Sabor, não. Cheiro.
Aaaah, que giro.
A narradora ressequida pegou na manteiga purificadora ao colo e refletiu enquanto farejava.
Em que momento se devem amanteigar as mãos? À noite? A menina da loja devia saber. O creme de absinto cheirava bem. De manhã? O creme de amêndoa também não era nada mau. Ia esborratar os auscultadores e o passe de metro. À noite não era grande ideia. O de cacau cheirava melhor ainda. Os livros iam escorregar-lhe das mãos. Noz de côco, délice de cannerberg. Iam ficar a cheirar a rosas silvestres ou a gengibre, a baunilha gourmande. E isso era mau? O que significa canneberg? No trabalho? Só se fosse para hidratar o teclado.
A narradora desidratou-se de ideias porque, além de ressequida, era impaciente.
À saída, passou por um castelo de boiões pequeninos. Leu: Lèvres à croquer. Que expressão fofinha. Com sabor a manga ou a mel. Ou a manteiga de karaté. Perdão?
Não.
Beurre de karité. Não de karaté.
O que significa karité? Para quê sujar o dedo indicador para meter bâton nos lábios?
A narradora mirrou um pouco mais e saiu da loja. Ia de mãos a abanar e espírito gretado. Pensou: Que se lixe a securaTinha mãos secas e um coração hidratado.
No nariz levava uma memória engraçada.
A manteiga purificadora com sabor a absinto.
Sabor, não.
Cheiro.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O nevoeiro parado no tempo

Se eu fosse uma pessoa dada a números, frações e percentagens, diria que são 11 e 11 da manhã, que o mês de janeiro já vai a dois terços e que 5% de 2014 já foi com os porcos. Também diria que não tarda faço 7 anos de Bruxelas e isso até deve ser um motivo para soprar as velas e desejar qualquer coisa, mas felizmente sou dada a palavras e não tenho apetência para o desejo, por isso digo só que as pessoas já pararam de me desejar "Bom ano!", porque o ano já começou há bué e a vida nunca está quieta, vai por aí fora de saltos altos num passo nervosinho, o que é bastante esquisito, porque eu ia jurar que o dia de hoje nunca mais passa e este nevoeiro ficou parado no tempo. Mas, em rigor algébrico, a verdade verdadinha é que este dia já vai quase a 50%, o que quer dizer que tenho de concluir os meus afazeres em metade do tempo. Isto também quer dizer que passo o tempo a perder tempo. Humidade: 93%.
Deve ser um grande stress pensar em números.
Olha-me para este nevoeiro.
Nunca mais passa.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Calçadeira

A narradora deste texto chegou a casa e foi dar com uma calçadeira no quarto. Estava refastelada em cima da cómoda e a narradora ficou uns bons segundos a olhar para ela. A calçadeira: Nunca viste, ó? E realmente não, a narradora nunca tinha visto uma calçadeira assim, a puxar o pé para a chinela. Além disso, não gostava que lhe pisassem os calcanhares, portanto descalçou a bota. Gritou-lhe: Calça-me. E a calçadeira obedeceu.
Aaaaaah, maravilha! Há mais ingratos que sapatos, de facto.
Como foi possível perder tantos anos a calçar botas sozinha, a esmagar o dedo indicador contra a bota? Que vida triste, aquela.
Agora, com a sua calçadeira, até dava gosto calçar-se. E quem calça por gosto, não descalça.
O dedo indicador também ficou logo mais solto. Olha para isto: até se pôs a escrever. Coitado, é que andava mesmo condoído.
 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O carrossel dos dias

Está quase. Um passo em frente e não tarda já estamos do outro lado, nada mau. Gosto desta ideia de passar o ano, de ver os foguetes a estourar ao longe e gente em cima das cadeiras. Ou alemães a mergulhar no rio. Ou então só o Herman José na televisão. 10, 9, 8, uma excitação, 4, 3, 2, pára tudo, zeroooo. Uma rolha contra o teto, champanhe por todo o lado, borbulhinhas no céu-da-boca, beijinhos, abraços, bom ano! E, pronto, já estamos no ano seguinte, a começar qualquer coisa que ainda não se sabe ao certo o que é, mas, se for uma coisa boa, que dure para sempre. Se for má, que acabe logo. Gosto de estar no carrossel dos dias, cada um no seu cavalinho, para baixo e para cima, sempre em frente. No final, estamos todos tontos por causa dos pulos e do champanhe, bem bom. Também gosto de olhar para trás só para ver as coisas ao longe. E, se puder ser, ao sabor de doze passas de uva, diz que é tradição. Blaargh, não gosto nada de comer doze passas de seguida, mas como na mesma. Felizmente sou apoucada, não tenho doze desejos. Tenho só um e é sempre o mesmo. Digo-o doze vezes seguidas, tipo mantra. E depois fico por ali noite fora numa grande tontura, a dar no champanhe. Ou então não. A festa acaba cedo, dorme-se sobre o assunto, na madrugada do dia 1, o primeiro dia de todos. Também gosto desta expectativa, deste tempo de espera que passa mas não passa, nunca mais é hora. Fazer o check-in online, fazer a mala, imprimir o bilhete, apanhar o autocarro, descobrir que me esqueci disto e daquilo, que chato, ir para a fila do drop-off, tirar os sapatos, apitar no raio-X, desejar Bonnes fêtes aos seguranças, entrar no avião, adormecer no primeiro parágrafo do primeiro dia, acordar com as palavras: Senhores passageiros, estamos a descer para Lisboa. Atrasar o relógio. Olhar pela janelinha e ver as nuvens e depois as luzinhas e depois as casas. É tudo tão mais bonito em Lisboa, parece que até vejo melhor ao longe, que engraçado. Um passo em frente e não tarda já estou do outro lado.
Mas enfim.
Para variar, já estou com o carrossel à frente dos bois.
Ainda vou na parte de apanhar o autocarro. Que seca... O tempo passa, mas não passa.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Emiliana Torrini

Se eu pudesse, também havia de cantar assim, a sacudir a cabeça, deve ser tão bom. A Emiliana tem nome de italiana, mas canta com sotaque islandês. Estive mesmo à frente dela um dia destes:


Emiliana Torrini, Botanique, Bruxelas

Dava para lhe agarrar as pernas, mas eu não lhe agarrei as pernas, não sou uma fã enlouquecida. 
Não sou, pois não? 
Claro que não. 
A Emiliana estava mesmo à minha frente e era muito mais alta do que eu, porque é maior do que os comuns mortais e também porque estava em cima de um palco. A Emiliana canta de olhos fechados e a sorrir, acho que está noutro lado qualquer. Eu gostava de ir a esse lugar secreto com a Emiliana Torrini, mas acho que ela não leva lá ninguém, precisamente porque é um lugar secreto.
Ainda não fui à Islândia, mas hei de ir.
Para já vou ler o último do Valter Hugo Mãe.
É o que há.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O que eu faço por chocolate à sexta-feira

Nada mau, a minha tradução já vai a meio. Esfrego as mãos porque tenho frio e também uma nova ideia. 
A ideia é: Acho que mereço um chocolate.
Abro o porta-moedas para contar as moedas.
Oh, que chato, afinal não tenho moedas para ir à máquina.
Penso: "Não faz mal, posso ir ao café e pagar com o multibanco".
Nice!
Vou aos pulinhos até ao elevador. 10, 9, 8 e por aí fora até ao chão.
Afinal esqueci-me do cartão de identificação. Sem cartão de identificação, não dá para sair do café, por isso volto para trás.
1, 2, 3 e por aí fora até ao 10.°. Onde é que ele está? Talvez no bolso do casaco.
Aaah, cá está ele. Agarro-o pelos colarinhos, regresso à cafetaria.
10, 9, 8 até ao chão.
Damm!
Afinal a cafetaria está fechada.
Penso: "Não faz mal, vou à papelaria." Na papelaria vendem-se papéis e também chocolates enrolados em papel. Estará fechada?
Suspense. Dobro a esquina.
Maravilha! A papelaria está aberta.
Fico 10 minutos indecisa. Este assim com noisettes ou aquele com pistaches fraîches? Mousse de café ou praliné croustillant? 
E se levar todos?
É melhor não.
Decido escolher os dois melhores e depois o melhor dos dois, sempre facilita a escolha. Fico com o de noisettes e o de praliné na mão.
Escolho o de noisettes.
Vou pagar, sorrisinho no canto da boca.
Aviso ao balcão: "Multibanco não funcemina"

What?

Não há nada a fazer, por isso desisto.
Devolvo o chocolate à prateleira e regresso ao gabinete. 1, 2, 3 até o 10.°.
Penso: "É da maneira que ando de um lado para o outro e poupo em calorias."
Parece que até já me sinto mais ágil, estou cheia de ganas de traduzir o resto do documento.
Olhem para mim a trabalhar com afinco.

Eu não preciso de chocolate para nada.
Nem sequer gosto de chocolate.
Nunca gostei.

Blaaargh! Que enjoo!
Há gente que não passa sem chocolate.
Não compreendo.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A letra morta das canetas

Passa-se algo com as minhas canetas.
Em poucas semanas já finaram umas quatro ou cinco e a morte é sempre súbita. Zás, morreu. Falta-lhes o fôlego e sai-lhes um último suspiro de tinta, a sílaba derradeira, é triste. Resta-me sacudi-las na esperança de que voltem à consciência, mas isso nunca acontece. Ficam para ali mudas e vazias, já não há mais caneta para ninguém.
Isto incomoda-me bastante, sobretudo porque me morrem sempre nas mãos, às vezes mancham-me os dedos, é aborrecido.
À primeira vista trata-se de mortes naturais, mas esta quantidade considerável de canetas moribundas não me parece nada natural.
Fiquei mais atenta à minha escritura e começo a desconfiar da minha mão direita.
Se calhar os meus dedos andam a assassinar canetas e eu ainda não dei por isso. Sugam-lhes a tinta às escondidas. Ou asfixiam-nas assim: polegar contra indicador.
É bem possível.
Mas não há como provar isso.
Já se sabe que, na escrita, a justiça ficou no tinteiro. Não passa de letra morta.
A história é escrita pelos vencedores.

E em terra de canetas, quem sabe escrever é rei.