segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A letra morta das canetas

Passa-se algo com as minhas canetas.
Em poucas semanas já finaram umas quatro ou cinco e a morte é sempre súbita. Zás, morreu. Falta-lhes o fôlego e sai-lhes um último suspiro de tinta, a sílaba derradeira, é triste. Resta-me sacudi-las na esperança de que voltem à consciência, mas isso nunca acontece. Ficam para ali mudas e vazias, já não há mais caneta para ninguém.
Isto incomoda-me bastante, sobretudo porque me morrem sempre nas mãos, às vezes mancham-me os dedos, é aborrecido.
À primeira vista trata-se de mortes naturais, mas esta quantidade considerável de canetas moribundas não me parece nada natural.
Fiquei mais atenta à minha escritura e começo a desconfiar da minha mão direita.
Se calhar os meus dedos andam a assassinar canetas e eu ainda não dei por isso. Sugam-lhes a tinta às escondidas. Ou asfixiam-nas assim: polegar contra indicador.
É bem possível.
Mas não há como provar isso.
Já se sabe que, na escrita, a justiça ficou no tinteiro. Não passa de letra morta.
A história é escrita pelos vencedores.

E em terra de canetas, quem sabe escrever é rei.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Yáááá Bogotáááá

Se forem a Bogotá [giroflé giroflá] deviam passar por lá [giroflé-flé-flá].
[O giroflé aqui é banda sonora para rotativos.]

[Sei lá... Apeteceu-me.]

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Jornal de Letras - Viagem no tempo e no espaço


O meu nome é Annie Person, sou a companheira do Doctor Who numa geringonça não identificada que voa em todos os tempos e espaços. Eu sou uma pessoa do passado a visitar o futuro, mas às vezes também sou o contrário. Quando calha, sou uma pessoa do futuro a visitar o passado, depende. Neste momento estou a escrever no meu caderno do passado ao lado de um homem com cara de porco. Eu escrevo: As pessoas do passado são feias.
(Continua no "diário" [contracapa] do JL desta quinzena - 11.11.2013-26.11.2013)
 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Albert Camus

Se a vida não fosse absurda, o Albert Camus fazia hoje 100 anos. Felizmente, a vida é mesmo absurda e o Albert Camus escreveu grandes romances sobre isso (ou apesar disso) (ou além disso).
O Albert Camus é eterno. Continua de carinha laroca com três linhas na testa e cigarro ao canto da boca. Assim:
 
 
Eu conheci as palavras de Camus antes de lhe conhecer a carinha laroca com três linhas na testa e cigarro ao canto da boca. Agora que penso nisto, é como se o tivesse conhecido online, eu e o Camus a teclar no messenger. Eu pergunto: R U there? Ele responde:
Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile: « Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. » Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier.
 
Li o Estrangeiro na idade certa. Tinha 16 anos, acho, e andava com o moço de mão dada pela rua. Depois voltei a ler o Estrangeiro na idade certa. Tinha 20 e poucos. O Estrangeiro e eu éramos cúmplices, ele ia ao volante e eu ia no lugar do morto. Depois voltei a ler o Estrangeiro na idade certa. Tinha 30, ou quase 30, e desta vez até o li em francês, oh là là ! Nessa altura, juntámos os trapinhos, passámos a ser roommates. Ele dorme na casinha dos livros e eu durmo com outro homem numa cama king size. Isso é-lhe indiferente. O Estrangeiro não gosta de ninguém. Está-se nas tintas para mim.
Who cares?
Eu também me estou nas tintas para ele.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Amor ortográfico: Notas peganhentas

A propósito da proteção de dados pessoais, gostava de escrever umas notinhas sobre notinhas. Há gente que usa notinhas para isto e para aquilo, daqueles post-it de colar na testa dos armários, é um hábito algo desconcertante. Lembretes e recados, números de telefone, listas de compras ou de ideias, sticky notes de todas as cores e feitios que acabam enroladas a um canto quando perdem o norte e também a cena sticky. Eu sou dessas pessoas desconcertantes que usam notas peganhentas para tudo e mais alguma coisa e tenho este tique nervoso de arranjar bloquinhos novos a toda a hora, porque aquele é roxo e este aqui é redondo e hei de guardar as minhas notas até ao fim, mesmo as que ficarem por escrever.  É óbvio que na era da técnica, as minhas notas peganhentas não valem um, porque são uma coisa do passado. Eu sei disso perfeitamente, mas a verdade é que gosto mais das minhas notas do passado do que da era da técnica. Quando encontro uma nota enrolada no bolso é como se ganhasse uma memória na rifa, fico cheia de esperança e expectativa. O que estará dentro desta nota? Talvez o nome de uma pessoa sublinhado três vezes ou um grito: Marcar dentista!, um pedido: responder mail 30/10, uma ordem: Ligar pais. Felizmente sou uma pessoa do futuro e já me habituei às Sticky Notes do Windows 7. Tenho umas quantas no Desktop e até dá para mudar de cor e de tipo de letra. Neste momento tenho uma nota pequenina verde, outra grande e azul e outra intermédia e cor-de-rosa. Eu bem tento brincar com as cores e os tamanhos, mas as notas do futuro não têm piada nenhuma. Além de não se pegarem aqui e ali, também não se perdem e isto é muito aborrecido. As sticky notes verdadeiramente sticky agarram-se ao que não devem e andam por aí descoladas e perdidas. Eu gosto de encontrar uma nota no fundo de uma gaveta: Reservar, 5 pessoas, 20h.
Tenho pelo menos dois blocos clássicos de post-it amarelos e dois blocos a imitar rolos de fotografia, vários bloquinhos pequeninos com setinhas, seis blocos a imitar balões de diálogo, um conjunto de oito blocos da Lotta Jansdotter com folhinhas de árvore e mochos, e tenho ainda um outro redondo com o Ampelmann parado, tipo sinal vermelho para os peões. Gosto aos montes das minhas notas peganhentas. E também gosto de notas peganhentas aos montes. No outro dia vi mesmo um monte de notas peganhentas. Não era um bloco, mas sim uma torre de post- it: ia do chão até à minha cintura, não estou a brincar. Ainda não tinha visto o preço e já estava disposta a pagar montes de notinhas pelo monte de notinhas, mas depois pensei no tamanho do meu rabo e achei que a torre de notas adesivas ia passar os dias a cair ao chão. Então contornei o tique nervoso e decidi que a torre merecia outro destino. 
O que eu mais gosto nas minhas notas peganhentas é a certeza de que elas não vão ser lidas pelos serviços secretos americanos, a não ser que os senhores venham enfiar as mãos nos meus bolsos, o que até pode vir a acontecer, encontrar um americano no bolso do meu casaco. Na era da técnica tudo é possível. Quando olho para as minhas notinhas, fico logo com uma nostalgia de pessoa velha e meto as mãos no bolso. Eu também sou uma coisa do passado.
Agarro-me ao que não devo e também ando por aí descolada e perdida.
 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Karateca na Kolômbia

Se estiverem por Bogotá, não deixem de ver la chica karateca. A apresentação será feita pelo lutador tradutor Jerónimo Pizarro e por Sandra Magalhães, da embaixada de Portugal.
Clicar na imagem para ficar mais maior grande:


Mais informações sobre o 7° Festival de Libros para Niños y Jóvenes aqui.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Amanhã, o fim de Portugal em Bruxelas

Amanhã, lançamento de Despaís na Orfeu, às 18h.
Conversa sobre o fim de Portugal com o autor Pedro Sena-Lino.


http://www.wook.pt/ficha/despais/a/id/14922725

Livraria Orfeu
43, Rue du Taciturne - 1000 Bruxelas