terça-feira, 29 de outubro de 2013

Karateca na Kolômbia

Se estiverem por Bogotá, não deixem de ver la chica karateca. A apresentação será feita pelo lutador tradutor Jerónimo Pizarro e por Sandra Magalhães, da embaixada de Portugal.
Clicar na imagem para ficar mais maior grande:


Mais informações sobre o 7° Festival de Libros para Niños y Jóvenes aqui.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Amanhã, o fim de Portugal em Bruxelas

Amanhã, lançamento de Despaís na Orfeu, às 18h.
Conversa sobre o fim de Portugal com o autor Pedro Sena-Lino.


http://www.wook.pt/ficha/despais/a/id/14922725

Livraria Orfeu
43, Rue du Taciturne - 1000 Bruxelas

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Desfiladeiro em pessoa

O que vale é que isto de voltar à cidade bruxa já nem aquece nem arrefece, é igual ao litro, a pessoa encolhe os ombros e a cabeça, tanto faz, é-me indiferente, o mesmo lusco-fusco, as mesmas pessoas na rua, a mesma rua, a mesma janela por onde vejo o lusco-fusco e as pessoas e a rua, as coisas sempre iguais, o que até é bom, é muito bom, é uma maravilha, no fundo chegar a casa deve ser isto, as coisas como antes, o sofá na penumbra, a manta caída, um tomate podre no frigorífico e afinal não está tudo igual, qualquer coisa apodreceu, que engraçado, e as plantas também murcharam, coitadas, uma sensação tépida de se estar vivo mas não assim muito, porque não sinto nada além de um certo cansaço de andar por aí a arrastar as malas e também esta pedra fria e bem polida que é o meu coração e isto até nem deve ser uma coisa má, eu a bem dizer até gosto de ser este fenómeno esquisito da natureza, este acidente geográfico de espantar ao longe, um desfiladeiro entre duas montanhas que nem conheço bem, porque sou precisamente um desfiladeiro em pessoa ou então uma falésia a cair a pique, a resistir ao vento, e isto até me dá jeito, porque da minha falésia vê-se o mar que também é sempre igual ao longe e andam por aqui gaivotas e também mexilhões, sempre dá para sobreviver e assim como assim eu não moro aqui. Eu moro dentro da cabeça.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Jovens Criadores 2013


Jovens inexperientes procuram público para a Mostra Nacional em Coimbra!
Eu lá estarei no sábado a partir das 16h para o Café Literário.
Apareçam e divulguem!



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Narrador omnisciente

O narrador omnisciente andava amuado com aquela coisa da literatura. Ultimamente até ler livros o aborrecia. Começava a ler um texto com a perspetiva de que ia chegar a meio do texto e depois ao fim do texto para poder começar a ler outro texto. De tão previsível, a leitura começou a dar-lhe muito sono e o narrador omnisciente acordava a meio da tarde com um fio de baba que ia do lábio inferior até ao sofá.

E depois não era só isso. Escrever, verdade seja dita, também não era propriamente um desporto radical, nem sequer uma viagem pelo desconhecido. Escrever era só uma atividade de ficar sentado muitas horas a entrelaçar uma coisa que nem era a sério. Era como fazer tricô, embora de uma forma menos verdadeira, porque no final não ficava com um cachecol para o proteger do frio.

Acresce a isto que o narrador omnisciente já sabia tudo e mais alguma sobre as suas personagens e candidatos a personagens. Se comiam pão com queijo, se dobravam as meias assim ou assado, se gostavam de falar ao telefone, se alguma vez tinham atropelado um gato, se transpiravam das mãos, se tinham um tique nervoso, etc, etc, aquelas coisas dos seres humanos. Tudo sabia o narrador omnisciente e isto, apesar de extremamente valioso para a sua posição confortável de domínio psicológico sobre as personagens, a certa altura tornava-se um bocado entediante e a paixão pela coisa literária esmorecia, ficava assim pequenina e muitas vezes nem se dava por ela, era só um pesar incomodativo como, por exemplo, uma dor no rabo.

Isto da dor no rabo vem a propósito porque o narrador deste texto andava precisamente com uma dor no rabo de tanto estar sentado. Certo dia, o narrador omnisciente, cansado de viver dentro de palavras enclausuradas em textos, desamuou, saiu da casca e foi para a rua passear, coisa que já não fazia há bastante tempo. Caminhava de mãos atrás nas costas como se estivesse de asas recolhidas e a certa altura, precisamente por não ter asas, tropeçou, estatelou-se no chão e partiu um dos últimos dentes, os lábios incharam como balõezinhos. Mas pronto, já se sabe que os narradores omniscientes, justamente por estarem convencidos de que a sabem toda, são desavisados. O narrador voltou para casa com os seus lábios-balão e tirou o Guerra e Paz da prateleira de cima. 

Era um livro bem grande.

Sempre dava para exercitar os braços.

domingo, 11 de agosto de 2013

Orange marmalade

Eu nunca gostei de doce de laranja, porque o doce de laranja não é doce, é uma coisa amarga, e eu não gosto de me sentir enganada. Há anos que não toco em doce de laranja. Mas no outro dia, não sei porquê, senti-me mais velha e decidi tentar outra vez. Foi logo de manhã, sem pensar muito, num rasgo de curiosidade e ousadia. Uma amiga tinha trazido o frasco de Londres, very typical. Era um frasco gorducho. Trazia o nome Orange marmalade na tola e dizia por baixo since 1885, que é sempre uma longevidade que impõe algum respeito, são várias gerações de marmelada. Abri o frasco, barrei o pão e trinquei. De novo um arrepio na espinha acompanhado de uma dor aguda no céu-da-boca, que coisa horrível. Continuo a odiar doce de laranja. Fechei o frasco e devolvi-o ao frigorífico. A minha vida, felizmente, continuou como dantes, doce e não amarga.  
Há coisas que realmente não mudam. 
E eu, apesar de não ser pêra doce, sou esta doçura de pessoa. Não há nada a fazer.