terça-feira, 8 de outubro de 2013

Desfiladeiro em pessoa

O que vale é que isto de voltar à cidade bruxa já nem aquece nem arrefece, é igual ao litro, a pessoa encolhe os ombros e a cabeça, tanto faz, é-me indiferente, o mesmo lusco-fusco, as mesmas pessoas na rua, a mesma rua, a mesma janela por onde vejo o lusco-fusco e as pessoas e a rua, as coisas sempre iguais, o que até é bom, é muito bom, é uma maravilha, no fundo chegar a casa deve ser isto, as coisas como antes, o sofá na penumbra, a manta caída, um tomate podre no frigorífico e afinal não está tudo igual, qualquer coisa apodreceu, que engraçado, e as plantas também murcharam, coitadas, uma sensação tépida de se estar vivo mas não assim muito, porque não sinto nada além de um certo cansaço de andar por aí a arrastar as malas e também esta pedra fria e bem polida que é o meu coração e isto até nem deve ser uma coisa má, eu a bem dizer até gosto de ser este fenómeno esquisito da natureza, este acidente geográfico de espantar ao longe, um desfiladeiro entre duas montanhas que nem conheço bem, porque sou precisamente um desfiladeiro em pessoa ou então uma falésia a cair a pique, a resistir ao vento, e isto até me dá jeito, porque da minha falésia vê-se o mar que também é sempre igual ao longe e andam por aqui gaivotas e também mexilhões, sempre dá para sobreviver e assim como assim eu não moro aqui. Eu moro dentro da cabeça.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Jovens Criadores 2013


Jovens inexperientes procuram público para a Mostra Nacional em Coimbra!
Eu lá estarei no sábado a partir das 16h para o Café Literário.
Apareçam e divulguem!



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Narrador omnisciente

O narrador omnisciente andava amuado com aquela coisa da literatura. Ultimamente até ler livros o aborrecia. Começava a ler um texto com a perspetiva de que ia chegar a meio do texto e depois ao fim do texto para poder começar a ler outro texto. De tão previsível, a leitura começou a dar-lhe muito sono e o narrador omnisciente acordava a meio da tarde com um fio de baba que ia do lábio inferior até ao sofá.

E depois não era só isso. Escrever, verdade seja dita, também não era propriamente um desporto radical, nem sequer uma viagem pelo desconhecido. Escrever era só uma atividade de ficar sentado muitas horas a entrelaçar uma coisa que nem era a sério. Era como fazer tricô, embora de uma forma menos verdadeira, porque no final não ficava com um cachecol para o proteger do frio.

Acresce a isto que o narrador omnisciente já sabia tudo e mais alguma sobre as suas personagens e candidatos a personagens. Se comiam pão com queijo, se dobravam as meias assim ou assado, se gostavam de falar ao telefone, se alguma vez tinham atropelado um gato, se transpiravam das mãos, se tinham um tique nervoso, etc, etc, aquelas coisas dos seres humanos. Tudo sabia o narrador omnisciente e isto, apesar de extremamente valioso para a sua posição confortável de domínio psicológico sobre as personagens, a certa altura tornava-se um bocado entediante e a paixão pela coisa literária esmorecia, ficava assim pequenina e muitas vezes nem se dava por ela, era só um pesar incomodativo como, por exemplo, uma dor no rabo.

Isto da dor no rabo vem a propósito porque o narrador deste texto andava precisamente com uma dor no rabo de tanto estar sentado. Certo dia, o narrador omnisciente, cansado de viver dentro de palavras enclausuradas em textos, desamuou, saiu da casca e foi para a rua passear, coisa que já não fazia há bastante tempo. Caminhava de mãos atrás nas costas como se estivesse de asas recolhidas e a certa altura, precisamente por não ter asas, tropeçou, estatelou-se no chão e partiu um dos últimos dentes, os lábios incharam como balõezinhos. Mas pronto, já se sabe que os narradores omniscientes, justamente por estarem convencidos de que a sabem toda, são desavisados. O narrador voltou para casa com os seus lábios-balão e tirou o Guerra e Paz da prateleira de cima. 

Era um livro bem grande.

Sempre dava para exercitar os braços.

domingo, 11 de agosto de 2013

Orange marmalade

Eu nunca gostei de doce de laranja, porque o doce de laranja não é doce, é uma coisa amarga, e eu não gosto de me sentir enganada. Há anos que não toco em doce de laranja. Mas no outro dia, não sei porquê, senti-me mais velha e decidi tentar outra vez. Foi logo de manhã, sem pensar muito, num rasgo de curiosidade e ousadia. Uma amiga tinha trazido o frasco de Londres, very typical. Era um frasco gorducho. Trazia o nome Orange marmalade na tola e dizia por baixo since 1885, que é sempre uma longevidade que impõe algum respeito, são várias gerações de marmelada. Abri o frasco, barrei o pão e trinquei. De novo um arrepio na espinha acompanhado de uma dor aguda no céu-da-boca, que coisa horrível. Continuo a odiar doce de laranja. Fechei o frasco e devolvi-o ao frigorífico. A minha vida, felizmente, continuou como dantes, doce e não amarga.  
Há coisas que realmente não mudam. 
E eu, apesar de não ser pêra doce, sou esta doçura de pessoa. Não há nada a fazer.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Um pombo morto


Hoje passei por um pombo morto.
Estava no meio do passeio, a cabeça tombada para o lado e o bico entreaberto. A meio de uma frase, de uma palavra.
Se calhar era um pombo-correio e nunca chegou ao destinatário.
Fiquei tristonha. 
Percebi que estava tristonha porque antes estava feliz e dei logo pela diferença. 
(Antes do pombo = feliz; depois do pombo = tristonha)
Uma pena abanava o vento.
Não, perdão. Ao contrário: 
O vento abanava uma pena.
Parecia um aceno, um voo de despedida. Uma pena pequenina numa das asas.
Tadinho, tive pena do pombo.
(Olha, «pena» e «pena» são palavras homónimas.)
Logo eu, que por acaso odeio pombos, odeio pessoas que alimentam pombos. Os pombos têm cara de parvos.
Se houvesse um desporto de «tiro ao pombo», eu inscrevia-me e vestia-me assim à coronel tapioca. Com uma pressão de ar nas mãos, de enfiar a bala lá dentro. Apontar, suster a respiração, disparar: PUM!
Quando passo por pombos, aponto e sustenho a respiração. Infelizmente não disparo, porque não tenho licença de porte de arma e eu não faço nada fora da lei, sigo as regras todas. 
Sou um bom soldadinho, acho.
Quando estou dentro de um carro e os pombos andam assim feitos parvos a bicar a estrada, solto uma gargalhada de bruxa má e ponho o pé na tábua. Zás! Faço grandes rasas aos pombos, mas acho que o meu objetivo não é matá-los. (Acho.)
É muito chato isto de morrer, de chegar ao fim do corpo. Fiquei mesmo com pena do pombo.
(Ah, que engraçado: «pena de morte» é outro tipo de pena.)
Depois apercebi-me de que o pombo, assim tombado para o lado, até era bonito. Na verdade, era lindíssimo e essa beleza feia de voo interrompido emocionou-me.
A beleza cruel do cadáver.
Depois segui caminho e pensei que os pombos são muito mais bonitos quando estão mortos do que quando estão vivos. Quando andam assim cheios de vida a criar imundície em cima das estátuas, não têm piada nenhuma. São horríveis.
Agora fiquei com a pressão de ar na cabeça.
(Memórias de infância: Eu era sempre a última a disparar a pressão de ar. Acho que era por ser a mais pequenina.)
Se houvesse um campeonato de tiro ao pombo, inscrevia-me nos campeonatos da região flamenga e não nos da região francófona, porque os francófonos são moles, não devem dar luta nenhuma.
Nunca tentei disparar contra animais a sério. Daqueles assim com asas. 
PUM!
Era vê-los rebentar, penas por todo o lado.
BUWUWUWAHAHAHA (bruxa má).

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Líricos, porcos e rascos


Relativamente a este presente sem futuro, penso que a proposta do Cavaco Silva de juntar os três porquinhos na mesma casa até faz sentido, apesar do lirismo da coisa. Por vezes, o lirismo faz sentido. Assimcomoassim, a alternativa era fingir que havia alternativa. Os três porquinhos, que tanto chafurdaram na lama, que se cheguem à frente e cumpram a sua parte. É a única maneira de tratar os porquinhos como porcos crescidos, que é o que eles são. Eles que enfrentem o lobo mau e que prestem contas apontando o focinho, não para as próximas eleições, mas para o futuro a longo prazo.
E era só isto que eu tinha para dizer sobre este assunto.
Ah! A propósito de futuro, gostava só de acrescentar que, às vezes, para me distrair, imagino uma pessoa do futuro a olhar para o presente e isso funciona sempre, porque efetivamente distraio-me e, nos dias melhores, farto-me de rir.
Por exemplo, eu acho que uma pessoa do futuro ia ter um ataque de riso de ir às lágrimas se (ou)visse um discurso do Cavaco Silva, porque a voz e a postura do Cavaco Silva, para uma pessoa - digamos - do século XXII, devem fazer lembrar a voz e a postura de uma marca de robôs muita rasca, que um dia (no futuro do futuro) se tornará vintage, mas na atualidade do futuro é só uma marca muita rasca de mandar para a sucata e isso deve ser cómico, especialmente se o emissor for um Chefe de Estado. 
E então pus-me a pensar que se calhar o Cavaco Silva é mesmo um robô muita rasca que veio do futuro mais ou menos próximo com uma missão qualquer que nós ainda não percebemos qual é e isso dá-me logo vontade de rir outra vez, o que é muito infantil da minha parte, eu sei, tendo em consideração que a crise política em Portugal é um assunto extremamente sério.
E portanto, olhem, acabou-se a brincadeira.
Nunca mais brinco.


NUNCA MAIS.