quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Jovens Criadores 2013
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Narrador omnisciente
O narrador omnisciente andava amuado com aquela coisa da literatura. Ultimamente até ler livros o aborrecia. Começava a ler um texto com a perspetiva de que ia chegar a meio do texto e depois ao fim do texto para poder começar a ler outro texto. De tão previsível, a leitura começou a dar-lhe muito sono e o narrador omnisciente acordava a meio da tarde com um fio de baba que ia do lábio inferior até ao sofá.
E depois não era só isso. Escrever, verdade seja dita, também não era propriamente um desporto radical, nem sequer uma viagem pelo desconhecido. Escrever era só uma atividade de ficar sentado muitas horas a entrelaçar uma coisa que nem era a sério. Era como fazer tricô, embora de uma forma menos verdadeira, porque no final não ficava com um cachecol para o proteger do frio.
Acresce a isto que o narrador omnisciente já sabia tudo e mais alguma sobre as suas personagens e candidatos a personagens. Se comiam pão com queijo, se dobravam as meias assim ou assado, se gostavam de falar ao telefone, se alguma vez tinham atropelado um gato, se transpiravam das mãos, se tinham um tique nervoso, etc, etc, aquelas coisas dos seres humanos. Tudo sabia o narrador omnisciente e isto, apesar de extremamente valioso para a sua posição confortável de domínio psicológico sobre as personagens, a certa altura tornava-se um bocado entediante e a paixão pela coisa literária esmorecia, ficava assim pequenina e muitas vezes nem se dava por ela, era só um pesar incomodativo como, por exemplo, uma dor no rabo.
Isto da dor no rabo vem a propósito porque o narrador deste texto andava precisamente com uma dor no rabo de tanto estar sentado. Certo dia, o narrador omnisciente, cansado de viver dentro de palavras enclausuradas em textos, desamuou, saiu da casca e foi para a rua passear, coisa que já não fazia há bastante tempo. Caminhava de mãos atrás nas costas como se estivesse de asas recolhidas e a certa altura, precisamente por não ter asas, tropeçou, estatelou-se no chão e partiu um dos últimos dentes, os lábios incharam como balõezinhos. Mas pronto, já se sabe que os narradores omniscientes, justamente por estarem convencidos de que a sabem toda, são desavisados. O narrador voltou para casa com os seus lábios-balão e tirou o Guerra e Paz da prateleira de cima.
Era um livro bem grande.
Sempre dava para exercitar os braços.
domingo, 11 de agosto de 2013
Orange marmalade
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Um pombo morto
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Líricos, porcos e rascos
terça-feira, 9 de julho de 2013
Um homem zangado
Abrem-se as cortinas. Entro no elevador.
Um homem muito zangado entra logo a seguir. Fecham-se as cortinas.
Conheço este homem há anos, mas só de vista.
Não sei como se chama nem o que faz. Sei que é italiano e agora também sei que trabalha no nono andar, porque o senhor carrega no botão com o bonequinho 9.
Eu olho para o colega zangado, mas ele não olha para mim, porque a minha existência é toda ela insignificante e o homem está zangado com a vida em geral e com a minha existência em particular. Olho para o senhor outra vez e ele dá um toque de sobrancelhas género: Nunca viste, ó?!
Eu nunca vi pessoa tão zangada como este colega. É uma pena este senhor andar tão insatisfeito, parece-me um desperdício de paisagem protegida. É que este italiano é uma paisagem natural bem bonita de se ver, tem uns olhos grandes e azuis para dar uns mergulhos no verão e uns ombros largos que devem fazer boa sombra. Assim, a olho nu, não tem propriamente razão para estar tão insatisfeito, até porque as pessoas zangadas costumam ser muito feias. Eu, por exemplo, se fosse muito feia, também andava para aí zangada. Deve ser chato ser muito feio.
Eu e o colega italiano voamos juntos, lado a lado. O colega não diz Bom dia!, mas eu não levo isto a peito. Parece-me na verdade bastante coerente, tendo em conta o perfil deste ser humano zangado: nenhum dia é um bom dia. São todos péssimos, uns atrás dos outros, não há dia que se aproveite. Eu também não digo Bom dia!, só mesmo porque sou mal-educada. Eu e o homem zangado voamos em silêncio, não olhamos um para o outro. É como se um de nós não existisse. Ou eu ou ele, não sei bem.
O homem olha-se ao espelho e ajeita a gola da camisa. Eu olho para os meus pés, porque os meus pés são realmente impressionantes e estas sandálias são qualquer coisa.
0, 1, 2, 3, 4, 5, 6 andares. As cortinas abrem-se e eu saio. O homem carrega imediatamente naquele botão assim -><- de fechar as cortinas rapidamente, porque a vida são dois dias horríveis e não há tempo a perder. As cortinas fecham-se abruptamente. Eu fico triste e zangada com o homem zangado.
O colega italiano deve ganhar sempre o jogo do sério: nunca se ri. Vejo-o muitas vezes aqui e ali: na cantina, na cafetaria, nos corredores, no elevador. Nunca está contente. Quando fala com alguém atira os olhos azuis para dentro dos olhos do interlocutor e já não sai mais dali: refila, refila, refila, todo curvado para a frente e agarra o interlocutor pelo braço, dá-lhe palmadas nos ombros.
Uma vez, aqui há uns anos, estivemos na mesma turminha de neerlandês e o colega zangado não andava só zangado com a língua neerlandesa. Andava furioso. A professora dizia: A regra, neste caso, é assim. E ele respondia: Isso não faz sentido. A mim dava-me para rir, mas o colega zangado não se ria. Dava-me um toque de sobrancelhas do género: Não tarda, levas! E eu ria-me na mesma, porque gosto de correr riscos.
É mesmo uma pena este colega andar mal com a vida, porque o senhor tem grande potencial para um intervalo coca-cola light bem passado. Mas assim não vai dar. Aliás, por esta altura, o homem zangado deve ter imensos problemas de costas, porque anda sempre muito tenso e isto agora já não vai lá com uma massagem nem com um banho de imersão.
Ficamos todos a perder com a zanga deste homem.
Eu pessoalmente já perdi vários intervalos bem passados.
Uma chatice.
