segunda-feira, 15 de julho de 2013
Um pombo morto
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Líricos, porcos e rascos
terça-feira, 9 de julho de 2013
Um homem zangado
Abrem-se as cortinas. Entro no elevador.
Um homem muito zangado entra logo a seguir. Fecham-se as cortinas.
Conheço este homem há anos, mas só de vista.
Não sei como se chama nem o que faz. Sei que é italiano e agora também sei que trabalha no nono andar, porque o senhor carrega no botão com o bonequinho 9.
Eu olho para o colega zangado, mas ele não olha para mim, porque a minha existência é toda ela insignificante e o homem está zangado com a vida em geral e com a minha existência em particular. Olho para o senhor outra vez e ele dá um toque de sobrancelhas género: Nunca viste, ó?!
Eu nunca vi pessoa tão zangada como este colega. É uma pena este senhor andar tão insatisfeito, parece-me um desperdício de paisagem protegida. É que este italiano é uma paisagem natural bem bonita de se ver, tem uns olhos grandes e azuis para dar uns mergulhos no verão e uns ombros largos que devem fazer boa sombra. Assim, a olho nu, não tem propriamente razão para estar tão insatisfeito, até porque as pessoas zangadas costumam ser muito feias. Eu, por exemplo, se fosse muito feia, também andava para aí zangada. Deve ser chato ser muito feio.
Eu e o colega italiano voamos juntos, lado a lado. O colega não diz Bom dia!, mas eu não levo isto a peito. Parece-me na verdade bastante coerente, tendo em conta o perfil deste ser humano zangado: nenhum dia é um bom dia. São todos péssimos, uns atrás dos outros, não há dia que se aproveite. Eu também não digo Bom dia!, só mesmo porque sou mal-educada. Eu e o homem zangado voamos em silêncio, não olhamos um para o outro. É como se um de nós não existisse. Ou eu ou ele, não sei bem.
O homem olha-se ao espelho e ajeita a gola da camisa. Eu olho para os meus pés, porque os meus pés são realmente impressionantes e estas sandálias são qualquer coisa.
0, 1, 2, 3, 4, 5, 6 andares. As cortinas abrem-se e eu saio. O homem carrega imediatamente naquele botão assim -><- de fechar as cortinas rapidamente, porque a vida são dois dias horríveis e não há tempo a perder. As cortinas fecham-se abruptamente. Eu fico triste e zangada com o homem zangado.
O colega italiano deve ganhar sempre o jogo do sério: nunca se ri. Vejo-o muitas vezes aqui e ali: na cantina, na cafetaria, nos corredores, no elevador. Nunca está contente. Quando fala com alguém atira os olhos azuis para dentro dos olhos do interlocutor e já não sai mais dali: refila, refila, refila, todo curvado para a frente e agarra o interlocutor pelo braço, dá-lhe palmadas nos ombros.
Uma vez, aqui há uns anos, estivemos na mesma turminha de neerlandês e o colega zangado não andava só zangado com a língua neerlandesa. Andava furioso. A professora dizia: A regra, neste caso, é assim. E ele respondia: Isso não faz sentido. A mim dava-me para rir, mas o colega zangado não se ria. Dava-me um toque de sobrancelhas do género: Não tarda, levas! E eu ria-me na mesma, porque gosto de correr riscos.
É mesmo uma pena este colega andar mal com a vida, porque o senhor tem grande potencial para um intervalo coca-cola light bem passado. Mas assim não vai dar. Aliás, por esta altura, o homem zangado deve ter imensos problemas de costas, porque anda sempre muito tenso e isto agora já não vai lá com uma massagem nem com um banho de imersão.
Ficamos todos a perder com a zanga deste homem.
Eu pessoalmente já perdi vários intervalos bem passados.
Uma chatice.quinta-feira, 4 de julho de 2013
Um desenho espectacular
- Faz.
- Mas mesmo espectacular.
- Sim.
- Assim muita difícil.
- Faz.
- O que queres que eu desenhe? Pode ser o que tu quiseres! Pensa bem...
- Hmmmm... [O Rodrigo pensa.]
- Mesmo o que tu quiseres!
- Um esgoto!
- Um esgoto?!
- Sim, um esgoto. É difícil!
- Não é, não!
- É é!
- Vou fazer. Olha um esgoto.
- Isso não é esgoto!
- Não?!
- Não. Isso é uma ventania!
- Pois é. Vou então fazer um esgoto.
- Não! Faz uma ventania.
- Mas eu já fiz uma ventania!
- Faz outra!
- Outra ventania?
- Sim. Ou então um cocó.
- Um cocó?!
- Sim, faz um cocó. É fácil!
- Achas?
- Sim.
- Sabes fazer?
- Sei.
- Como é que é?
- É assim. [O Rodrigo desenha uma linha na horizontal.]
- Isso é um cocó?
- Sim. É fácil!
Blogueira belga
sexta-feira, 21 de junho de 2013
O dia mais longo do ano
Mas eu também nunca quis ser diferente. E hoje tenho ainda mais tempo para ser igualzinha às outras.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Espécie animal
Num planeta pequenino com sede num sistema solar de várias estrelas multicolores situado a um milhar de bilião de anos-luz do planeta Terra, que é basicamente um número um com dezoito zeros à frente, há vida.
Sim, vida.
Vida mesmo.
Daquela de viver e estar na vida a fazer coisas com as mãos e os pés e numerosos orifícios aqui e ali.
Mas uma vida diferente da nossa. Uma vida muito simples constituída por uma única espécie animal e numerosos vírus e bactérias minorcas e ainda muitas espécies vegetais que se encontram, coitadas, em vias de extinção, porque a espécie animal se alimenta precisamente das espécies vegetais que demoram séculos a crescer (séculos mesmo), mas não sabe cultivar a terra. Portanto, esta espécie animal também se encontra em vias de extinção, embora não saiba disso, porque é uma espécie estúpida sem sapiens na sua designação latina.
A espécie animal é composta por quarenta e um indivíduos que parecem crocodilos, mas têm pernas longas que acabam numas garras grossas, uma cabeça de periquito, uma tromba de elefante, uma juba de leão, uma cauda peluda de animal peludo, duas antenas no cocuruto e umas asas nas costas. Têm também a particularidade de andarem de lado como os caranguejos e de olharem também assim de lado, o que pode ser perturbador para nós, que olhamos sempre de frente (sempre), mas é extremamente aceitável para a espécie animal deste planeta pequenino a um milhar de bilião de anos-luz.
Um dia destes conto-vos uma história sobre esta espécie extremamente interessante e estúpida, porque muito claramente já ando fartinha de seres humanos sapiens sapiens com jubas de seres humanos e tiques de seres humanos.
Além disso, confesso que também gostava de laurear a pevide noutro planeta de outro sistema solar de outra galáxia.
Só assim para variar.