- Olha, Rodrigo, estava aqui a pensar fazer um desenho espectacular.
- Faz.
- Mas mesmo espectacular.
- Sim.
- Assim muita difícil.
- Faz.
- O que queres que eu desenhe? Pode ser o que tu quiseres! Pensa bem...
- Hmmmm... [O Rodrigo pensa.]
- Mesmo o que tu quiseres!
- Um esgoto!
- Um esgoto?!
- Sim, um esgoto. É difícil!
- Não é, não!
- É é!
- Vou fazer. Olha um esgoto.
- Isso não é esgoto!
- Não?!
- Não. Isso é uma ventania!
- Pois é. Vou então fazer um esgoto.
- Não! Faz uma ventania.
- Mas eu já fiz uma ventania!
- Faz outra!
- Outra ventania?
- Sim. Ou então um cocó.
- Um cocó?!
- Sim, faz um cocó. É fácil!
- Achas?
- Sim.
- Sabes fazer?
- Sei.
- Como é que é?
- É assim. [O Rodrigo desenha uma linha na horizontal.]
- Isso é um cocó?
- Sim. É fácil!
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Blogueira belga
Era uma vez uma blogueira belga. Para o caso de não saberem, a blogueira é uma espécie de árvore de folhas caducas, em geral, de pequeno porte, oriunda do hemisfério norte. A flor de blogueira é bem boa para fazer chá ou então para temperar vitela. O fruto da blogueira chama-se blogue. Trata-se de um fruto espalmado que pode ter várias cores. Os mais saborosos são amarelos. Os mais nanhosos têm muco e são verdes. Há também blogues castanhos e outros pretos, mas estes têm caroço e vontade própria. Às vezes mordem, o que pode ser perigoso. Há quem coma blogues crus, mas eu por acaso prefiro blogues maduros. É uma questão de gosto. Mas então, voltando ao que eu estava a dizer: Era uma vez uma blogueira belga que morava numa praceta há coisa de quinhentos anos e ultimamente os dias eram sempre iguais, porque a blogueira, além de não ter pernas para andar, vivia na Bélgica, que é um país extremamente aborrecido com uma família real tão nhonhó que só muito raramente é notícia. Ora, um dia, há precisamente seis anos, a blogueira belga acordou bastante zangada, porque estava cheia de pássaros na cabeça e isso dava-lhe imensa comichão. Além disso, andava farta de apanhar com chuva em cima. Sentia que a sua vocação não era aquela, de estar assim no meio da praceta de braços abertos como um espantalho. E então, de súbito, para exercitar os braços e libertar a energia negativa, pegou num blogue amarelo e vicoço e atirou-o contra uma rapariga que ia a passar. A blogueira escangalhou-se a rir, porque a transeunte levou mesmo com o blogue nas trombas. Era uma jovem rapariga que, nesse instante, estava precisamente de trombas, mas ganhou logo outro ânimo quando olhou para o blogue que lhe tinha ido parar aos braços. Inspirada por aquele amor de água fresca, a rapariga pegou, trincou e meteu-o na cesta. O blogue, de início, quis apodrecer e morrer de vez, mas depois lá se habituou à tal água fresca e ganhou vida.
Isto para dizer que esse blogue chamado Belgavista faz 6 anos hoje.
A blogueira, não sei, porque nunca mais passei nessa praceta, mas creio que deve ter morrido de tédio pouco tempo depois.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
O dia mais longo do ano
Hoje, além de sexta-feira, é o dia mais longo do ano, o que à primeira vista pode parecer um gesto querido do nosso planeta terra-a-terra, mas hoje não me dava jeito nenhum. Gostava que este dia terminasse rapidinho, de preferência já de seguida, assim de repente, num ápice, agora já.
É que estou mesmo cheia de sono.
Para passar o tempo de estar acordada enquanto não posso dormir, pus-me aqui a pensar em personagens engraçadas e lembrei-me do Hugh Laurie.
O Hugh Laurie é uma boa companhia para passar um dia que nunca mais acaba.
Eu gosto do Hugh Laurie a toda a hora, sobretudo quando me aparece manco e maldisposto no sofá, agarrado à sua bengala de Dr. House.
Pronto, gosto.
Passei uma longa temporada da minha vida a ver as temporadas todas do House. Uma perda de dias curtos e longos, é certo. À superfície, os episódios são vira-o-disco-e-toca-o-mesmo: os médicos passeiam-se pelos corredores, debitam palavrasextremamentecompridas e os doentes, coitados, estão sempre para morrer. Mas isso não interessa nada ou interessa pouco.
Por mim, a série podia ser só o Hugh Laurie num cenário todo negro a dizer disparates que afinal não são assim tão disparatados e afinal não são disparates nenhuns e afinal são verdades verdadinhas. Eis o ser humano ao espelho, esta amálgama de disparates. Nunca vi personagem tão humana e desumana ao mesmo tempo. Os figurantes, assim como assim, só lá estão para fazerem figuras tristes. E também para serem maltratados pelo House, claro.
Farto-me de rir com as maldades do House. E logo a seguir fico muito séria. A vida é um assunto cómico e sério ao mesmo tempo. As pessoas não mudam, as pessoas mentem. Todos fomos screwed up pelos nossos pais. O House sabe o melhor e o pior de nós, o que é desconfortável para os nossos cérebros grandes e pesados.
No outro dia, fomos ver o Hugh Laurie ao vivo, porque o senhor também toca piano e devo dizer que o Hugh Laurie, sem o House (a sua casa), não tem metade da piada. É um ser humano como os outros, vira-o-disco-e-toca-o-mesmo.
Nos meus sonhos bons, sou maltratada pelo House e adoro sou maltratada pelo House, o que vem mais uma vez demonstrar a preferência das mulheres por homens maus.
As mulheres não mudam.
É que são todas iguais!
São, não são?
São.
Mas eu também nunca quis ser diferente. E hoje tenho ainda mais tempo para ser igualzinha às outras.
Mas eu também nunca quis ser diferente. E hoje tenho ainda mais tempo para ser igualzinha às outras.
Bem bom!
terça-feira, 11 de junho de 2013
Espécie animal
Ouvi dizer mas não sei se é verdade.
Num planeta pequenino com sede num sistema solar de várias estrelas multicolores situado a um milhar de bilião de anos-luz do planeta Terra, que é basicamente um número um com dezoito zeros à frente, há vida.
Sim, vida.
Vida mesmo.
Daquela de viver e estar na vida a fazer coisas com as mãos e os pés e numerosos orifícios aqui e ali.
Mas uma vida diferente da nossa. Uma vida muito simples constituída por uma única espécie animal e numerosos vírus e bactérias minorcas e ainda muitas espécies vegetais que se encontram, coitadas, em vias de extinção, porque a espécie animal se alimenta precisamente das espécies vegetais que demoram séculos a crescer (séculos mesmo), mas não sabe cultivar a terra. Portanto, esta espécie animal também se encontra em vias de extinção, embora não saiba disso, porque é uma espécie estúpida sem sapiens na sua designação latina.
A espécie animal é composta por quarenta e um indivíduos que parecem crocodilos, mas têm pernas longas que acabam numas garras grossas, uma cabeça de periquito, uma tromba de elefante, uma juba de leão, uma cauda peluda de animal peludo, duas antenas no cocuruto e umas asas nas costas. Têm também a particularidade de andarem de lado como os caranguejos e de olharem também assim de lado, o que pode ser perturbador para nós, que olhamos sempre de frente (sempre), mas é extremamente aceitável para a espécie animal deste planeta pequenino a um milhar de bilião de anos-luz.
Um dia destes conto-vos uma história sobre esta espécie extremamente interessante e estúpida, porque muito claramente já ando fartinha de seres humanos sapiens sapiens com jubas de seres humanos e tiques de seres humanos.
Além disso, confesso que também gostava de laurear a pevide noutro planeta de outro sistema solar de outra galáxia.
Só assim para variar.
Num planeta pequenino com sede num sistema solar de várias estrelas multicolores situado a um milhar de bilião de anos-luz do planeta Terra, que é basicamente um número um com dezoito zeros à frente, há vida.
Sim, vida.
Vida mesmo.
Daquela de viver e estar na vida a fazer coisas com as mãos e os pés e numerosos orifícios aqui e ali.
Mas uma vida diferente da nossa. Uma vida muito simples constituída por uma única espécie animal e numerosos vírus e bactérias minorcas e ainda muitas espécies vegetais que se encontram, coitadas, em vias de extinção, porque a espécie animal se alimenta precisamente das espécies vegetais que demoram séculos a crescer (séculos mesmo), mas não sabe cultivar a terra. Portanto, esta espécie animal também se encontra em vias de extinção, embora não saiba disso, porque é uma espécie estúpida sem sapiens na sua designação latina.
A espécie animal é composta por quarenta e um indivíduos que parecem crocodilos, mas têm pernas longas que acabam numas garras grossas, uma cabeça de periquito, uma tromba de elefante, uma juba de leão, uma cauda peluda de animal peludo, duas antenas no cocuruto e umas asas nas costas. Têm também a particularidade de andarem de lado como os caranguejos e de olharem também assim de lado, o que pode ser perturbador para nós, que olhamos sempre de frente (sempre), mas é extremamente aceitável para a espécie animal deste planeta pequenino a um milhar de bilião de anos-luz.
Um dia destes conto-vos uma história sobre esta espécie extremamente interessante e estúpida, porque muito claramente já ando fartinha de seres humanos sapiens sapiens com jubas de seres humanos e tiques de seres humanos.
Além disso, confesso que também gostava de laurear a pevide noutro planeta de outro sistema solar de outra galáxia.
Só assim para variar.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Domingo, na Feira do Livro de Lisboa
Yáááá! Eurekaaaaa!
A karateca chegou finalmente a Livro do Dia!
Por outras palavras:
A karateca está tipo em saldos. É que sinceramente já cansa...
Parece aquelas mochilas Monte Campo.
Tipo, TODA A GENTE TEM UMA!
Obrigada à Sara, que fez esta fitinha azul.
E peço perdão à dama aflita a quem arrebatei a imagem.
A karateca chegou finalmente a Livro do Dia!
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A karateca está tipo em saldos. É que sinceramente já cansa...
Parece aquelas mochilas Monte Campo.
Tipo, TODA A GENTE TEM UMA!
Obrigada à Sara, que fez esta fitinha azul.
E peço perdão à dama aflita a quem arrebatei a imagem.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Em PAX no IKEA
Não conheço ninguém que saia INTËIRU do IKEA.
NINGUUËM!
Eu, pelo menos, já lá perdi uns quantos PARÅFUSÜUS e uma boa parte da minha PACIËNCJA e do meu tempo de VIDDA.
Deve até haver GENTTË que já perdeu a mulher ou o marido no IKEA enquanto comprava, por exemplo, um roupeiro.
O maior DESÄFIIÖ para um CAZAMENTÜ é, quanto a mim, escolher um roupeiro no IKEA. É mesmo complicado para KANEKÖ. Ele há portas deslizantes ou com dobradiça, com vidro fosco ou com espelho, maçanetas, puxadores, gavetas, caixas, sapateiras, prateleiras, varões, suportes para calças, cómodas, compartimentos, saquinhos, cestinhos, BÜRAKINHOS. Não há como não perder as ESTRIBEIRÄS.
E, realmente, pensando bem, não deve haver melhor sítio para uma pessoa pedir o DIVÖRCCIU do que no IKEA, porque o próprio edifício faz lembrar uma espiral negativa.
Ironicamente, a coleção de roupeiros do IKEA chama-se PAX, palavrinha pequerruxa que não deve significar nada em sueco.
Ideias para rebentar com um casamento no IKEA: Quero estes puxadores. Ai é? Olha, eu quero o divórcio.
Pronto, já está. Não custa nada.
Felizmente, tanto eu como o Homem Ilimitado não nos importamos de viver no meio de caixotes, somos até mais felizes no meio de caixotes. Viver no meio de caixotes é uma aventura constante. Cada caixote é uma autêntica caixinha de surpresas. Um caixote tem sapatos, o outro tem camisolas, o outro tem cuecas, o outro tem meias, o outro tem toalhas e o outro lençóis. Ai, que giro, os lençóis estão aqui.
Qual é problema?
Nenhum. Não há problema nenhum.
Estamos em PAX no meio de caixotes.
Juro.
Estamos mesmo.
A sério.
Somos feitos de bom material.
Já o IKEA não vale um TRÄQUUE!
Mia Couto
A primeira vez que percebi que nunca-jamais-na-vida ia ser escritora nem coisa do género foi quando li as Estórias Abensonhadas do Mia Couto. Tinha 15 anos ou então 16, e li o livro como quem lê um mapa, a girá-lo para um lado e para o outro, a pô-lo de cabeça para baixo para perceber onde estava, cheia de cuidados e expectativas, numa viagem pelo desconhecido. A capa era azul-meiga, dava vontade de dormir lá dentro. Mas o livro, de abensonhado, tinha muito pouco. Na verdade, tirava-me o sono, parecia infernizado por algum feitiço, brilhava no escuro! Estranhíssimo.
O Mia Couto foi o meu primeiro escritor. Assim o primeiro escritor de eu decidir que quero ler porque me apetece e gostei à brava. Mas, enfim, isto de gostar do Mia Couto era mais um correr por desgosto, porque os livros do Mia Couto eram leves por fora e pesados por dentro. Os textos do Mia Couto induziam-me em erro e eu ficava horas com uma azia terrível, as palavras às voltas na barriga. Era preciso beber chá para digerir e eu não sou muito de beber chá. Ainda assim, lia Mia Couto porque me apetecia e gostava à brava.
Uma vez, o Mia Couto foi à Faculdade de Letras, lembro-me perfeitamente disso.
Não, por acaso não me lembro muito bem.
Deve ter sido há uns 10 anos, o que para mim quer dizer que foi há montes de tempo. O encontro foi numa sala que eu associava a um exame de não-sei-quê, mas a partir desse momento, na minha cabeça, aquela passou a ser a “sala do Mia Couto”, porque o Mia Couto esteve mesmo ali, naquela sala igual às outras, com mesas e cadeiras. Lembro-me que o Mia Couto estava sentado na mesa do professor, de frente para os estudantes estudiosos. Eu, estudante assim-assim, tentava reter tudo o que o Mia Couto ia dizendo, mas infelizmente distraía-me com facilidade. Pensava em coisas do género: Olha, o Mia Couto está ali à frente! ou então A voz do Mia Couto é assim, que engraçado!
No final desse encontro, houve um momento para as perguntas dos estudantes estudiosos e eu estive no meu cantinho a inventar coragem. Os estudantes estudiosos iam fazendo perguntas e eu só pensava na minha pergunta que era igual às outras: tinha um ponto de interrogação no fim. E então, num acesso de desmesurada intenção, pus a mão no ar, contei até três e fiz a pergunta. Era uma pergunta pobrezinha certamente, a pedinchar resposta. Enquanto eu fazia a pergunta, o Mia Couto olhava para mim e ouvia as minhas palavras em silêncio, o que demonstrava que o Mia Couto, além de bom escritor, era uma pessoa bem-educada. Isto surpreendeu-me.
Estava à espera que o Mia Couto fosse um bicho esdrúxulo, porque os escritores com um certo nível de sofisticação são bichos esdrúxulos e não pessoas bem-educadas. Quando cheguei ao fim da minha pergunta, o Mia Couto continuou a olhar para mim e respondeu tranquilamente ainda a olhar para mim, o que me pareceu absolutamente extraordinário. Era como se, de repente, o Mia Couto estivesse a conversar comigo. Pensei: Olha, o Mia Couto está a olhar para mim e a responder à minha pergunta. E, em vez de ouvir a resposta do Mia Couto, que deve ter sido muito interessante, fiquei a pensar em coisas deste tipo: Eu estou a comunicar com o Mia Couto!
Senti então qualquer coisa nova. Uma capacidade qualquer de intervir, de ter um impacto na vida dos outros, incluindo na de escritores bem-educados. Isto encheu-me de esperança relativamente ao mundo. A oportunidade existia. A igualdade existia. A justiça existia. Blablabla. Dar e receber. Aprender e ensinar. Ser e estar.
Palermices.
Dez anos depois, nem há um ano, conheci o Mia Couto em Natal. Conheci mesmo. De dizer: Olá, eu sou a Ana. E o Mia Couto respondeu: Olá, eu sou o Mia. Por acaso acho que foi ao contrário. O Mia Couto apresentou-se e eu depois respondi. Desta vez, ouvi o que o Mia Couto disse, porque enfim, já sou mais crescidinha e a minha atenção já não é constantemente interrompida por pensamentos. Aliás, hoje em dia, é raro ter pensamentos. É um grande silêncio na minha cabeça.
Ora, hoje (ontem) lembrei-me de tudo isto, porque o Mia Couto ganhou e eu fico sempre contente quando o Mia Couto ganha.
Sou do Mia Couto como sou do Benfica. Sou, pronto. Estou sempre a torcer por eles.
E quando as minhas equipas ganham, sinto uma coisa estranha e abstrata que brilha no escuro, algo parecido com aquela palermice de ter esperança no mundo.
Acabo de ler que o Mia Couto quer apoiar os jovens escritores moçambicanos.
É uma luzinha no escuro!
Eu penso* que o Camões deve estar contente.
*Olha, um pensamento!
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