terça-feira, 11 de junho de 2013

Espécie animal

Ouvi dizer mas não sei se é verdade.
Num planeta pequenino com sede num sistema solar de várias estrelas multicolores situado a um milhar de bilião de anos-luz do planeta Terra, que é basicamente um número um com dezoito zeros à frente, há vida.
Sim, vida.
Vida mesmo.
Daquela de viver e estar na vida a fazer coisas com as mãos e os pés e numerosos orifícios aqui e ali.
Mas uma vida diferente da nossa. Uma vida muito simples constituída por uma única espécie animal e numerosos vírus e bactérias minorcas e ainda muitas espécies vegetais que se encontram, coitadas, em vias de extinção, porque a espécie animal se alimenta precisamente das espécies vegetais que demoram séculos a crescer (séculos mesmo), mas não sabe cultivar a terra. Portanto, esta espécie animal também se encontra em vias de extinção, embora não saiba disso, porque é uma espécie estúpida sem sapiens na sua designação latina.
A espécie animal é composta por quarenta e um indivíduos que parecem crocodilos, mas têm pernas longas que acabam numas garras grossas, uma cabeça de periquito, uma tromba de elefante, uma juba de leão, uma cauda peluda de animal peludo, duas antenas no cocuruto e umas asas nas costas. Têm também a particularidade de andarem de lado como os caranguejos e de olharem também assim de lado, o que pode ser perturbador para nós, que olhamos sempre de frente (sempre), mas é extremamente aceitável para a espécie animal deste planeta pequenino a um milhar de bilião de anos-luz.
Um dia destes conto-vos uma história sobre esta espécie extremamente interessante e estúpida, porque muito claramente já ando fartinha de seres humanos sapiens sapiens com jubas de seres humanos e tiques de seres humanos.
Além disso, confesso que também gostava de laurear a pevide noutro planeta de outro sistema solar de outra galáxia.
Só assim para variar.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Domingo, na Feira do Livro de Lisboa

Yáááá! Eurekaaaaa!
A karateca chegou finalmente a Livro do Dia!
 
Por outras palavras:
A karateca está tipo em saldos. É que sinceramente já cansa...
Parece aquelas mochilas Monte Campo.
Tipo, TODA A GENTE TEM UMA!

Obrigada à Sara, que fez esta fitinha azul.
E peço perdão à dama aflita a quem arrebatei a imagem.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Em PAX no IKEA

Não conheço ninguém que saia INTËIRU do IKEA.
NINGUUËM!
Eu, pelo menos, já lá perdi uns quantos PARÅFUSÜUS e uma boa parte da minha PACIËNCJA e do meu tempo de VIDDA.
Deve até haver GENTTË que já perdeu a mulher ou o marido no IKEA enquanto comprava, por exemplo, um roupeiro.
O maior DESÄFIIÖ para um CAZAMENTÜ é, quanto a mim, escolher um roupeiro no IKEA. É mesmo complicado para KANEKÖ. Ele há portas deslizantes ou com dobradiça, com vidro fosco ou com espelho, maçanetas, puxadores, gavetas, caixas, sapateiras, prateleiras, varões, suportes para calças, cómodas, compartimentos, saquinhos, cestinhos, BÜRAKINHOS. Não há como não perder as ESTRIBEIRÄS.
E, realmente, pensando bem, não deve haver melhor sítio para uma pessoa pedir o DIVÖRCCIU do que no IKEA, porque o próprio edifício faz lembrar uma espiral negativa.
Ironicamente, a coleção de roupeiros do IKEA chama-se PAX, palavrinha pequerruxa que não deve significar nada em sueco.
Ideias para rebentar com um casamento no IKEA: Quero estes puxadores. Ai é? Olha, eu quero o divórcio.
Pronto, já está. Não custa nada.
Felizmente, tanto eu como o Homem Ilimitado não nos importamos de viver no meio de caixotes, somos até mais felizes no meio de caixotes. Viver no meio de caixotes é uma aventura constante. Cada caixote é uma autêntica caixinha de surpresas. Um caixote tem sapatos, o outro tem camisolas, o outro tem cuecas, o outro tem meias, o outro tem toalhas e o outro lençóis. Ai, que giro, os lençóis estão aqui.
Qual é problema?
Nenhum. Não há problema nenhum.
Estamos em PAX no meio de caixotes.
Juro.
Estamos mesmo.
A sério.
Somos feitos de bom material.
Já o IKEA não vale um TRÄQUUE!


Mia Couto

A primeira vez que percebi que nunca-jamais-na-vida ia ser escritora nem coisa do género foi quando li as Estórias Abensonhadas do Mia Couto. Tinha 15 anos ou então 16, e li o livro como quem lê um mapa, a girá-lo para um lado e para o outro, a pô-lo de cabeça para baixo para perceber onde estava, cheia de cuidados e expectativas, numa viagem pelo desconhecido. A capa era azul-meiga, dava vontade de dormir lá dentro. Mas o livro, de abensonhado, tinha muito pouco. Na verdade, tirava-me o sono, parecia infernizado por algum feitiço, brilhava no escuro! Estranhíssimo.

O Mia Couto foi o meu primeiro escritor. Assim o primeiro escritor de eu decidir que quero ler porque me apetece e gostei à brava. Mas, enfim, isto de gostar do Mia Couto era mais um correr por desgosto, porque os livros do Mia Couto eram leves por fora e pesados por dentro. Os textos do Mia Couto induziam-me em erro e eu ficava horas com uma azia terrível, as palavras às voltas na barriga. Era preciso beber chá para digerir e eu não sou muito de beber chá. Ainda assim, lia Mia Couto porque me apetecia e gostava à brava.

Uma vez, o Mia Couto foi à Faculdade de Letras, lembro-me perfeitamente disso.

Não, por acaso não me lembro muito bem.

Deve ter sido há uns 10 anos, o que para mim quer dizer que foi há montes de tempo. O encontro foi numa sala que eu associava a um exame de não-sei-quê, mas a partir desse momento, na minha cabeça, aquela passou a ser a “sala do Mia Couto”, porque o Mia Couto esteve mesmo ali, naquela sala igual às outras, com mesas e cadeiras. Lembro-me que o Mia Couto estava sentado na mesa do professor, de frente para os estudantes estudiosos. Eu, estudante assim-assim, tentava reter tudo o que o Mia Couto ia dizendo, mas infelizmente distraía-me com facilidade. Pensava em coisas do género: Olha, o Mia Couto está ali à frente! ou então A voz do Mia Couto é assim, que engraçado!

No final desse encontro, houve um momento para as perguntas dos estudantes estudiosos e eu estive no meu cantinho a inventar coragem. Os estudantes estudiosos iam fazendo perguntas e eu só pensava na minha pergunta que era igual às outras: tinha um ponto de interrogação no fim. E então, num acesso de desmesurada intenção, pus a mão no ar, contei até três e fiz a pergunta. Era uma pergunta pobrezinha certamente, a pedinchar resposta. Enquanto eu fazia a pergunta, o Mia Couto olhava para mim e ouvia as minhas palavras em silêncio, o que demonstrava que o Mia Couto, além de bom escritor, era uma pessoa bem-educada. Isto surpreendeu-me.

Estava à espera que o Mia Couto fosse um bicho esdrúxulo, porque os escritores com um certo nível de sofisticação são bichos esdrúxulos e não pessoas bem-educadas. Quando cheguei ao fim da minha pergunta, o Mia Couto continuou a olhar para mim e respondeu tranquilamente ainda a olhar para mim, o que me pareceu absolutamente extraordinário. Era como se, de repente, o Mia Couto estivesse a conversar comigo. Pensei: Olha, o Mia Couto está a olhar para mim e a responder à minha pergunta. E, em vez de ouvir a resposta do Mia Couto, que deve ter sido muito interessante, fiquei a pensar em coisas deste tipo: Eu estou a comunicar com o Mia Couto!

Senti então qualquer coisa nova. Uma capacidade qualquer de intervir, de ter um impacto na vida dos outros, incluindo na de escritores bem-educados. Isto encheu-me de esperança relativamente ao mundo. A oportunidade existia. A igualdade existia. A justiça existia. Blablabla. Dar e receber. Aprender e ensinar. Ser e estar.

Palermices.

Dez anos depois, nem há um ano, conheci o Mia Couto em Natal. Conheci mesmo. De dizer: Olá, eu sou a Ana. E o Mia Couto respondeu: Olá, eu sou o Mia. Por acaso acho que foi ao contrário. O Mia Couto apresentou-se e eu depois respondi. Desta vez, ouvi o que o Mia Couto disse, porque enfim, já sou mais crescidinha e a minha atenção já não é constantemente interrompida por pensamentos. Aliás, hoje em dia, é raro ter pensamentos. É um grande silêncio na minha cabeça.

Ora, hoje (ontem) lembrei-me de tudo isto, porque o Mia Couto ganhou e eu fico sempre contente quando o Mia Couto ganha.

Sou do Mia Couto como sou do Benfica. Sou, pronto. Estou sempre a torcer por eles.

E quando as minhas equipas ganham, sinto uma coisa estranha e abstrata que brilha no escuro, algo parecido com aquela palermice de ter esperança no mundo.

Acabo de ler que o Mia Couto quer apoiar os jovens escritores moçambicanos.

É uma luzinha no escuro!

Eu penso* que o Camões deve estar contente.





*Olha, um pensamento!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

E agora...

E agora,  além de ser sexta-feira à tarde, que já é uma coisa boa, acontecia uma outra coisa muito melhor. Por exemplo, eu estava aqui muito bem neste gabinete a fazer assim no teclado e de súbito começava um tremidinho de terra de fazer mexer os copos de água e via-se um raio de luz no céu ou então na terra - não dava para perceber bem porque era assim de repente - e depois aparecia uma coisa a romper as nuvens, tipo um meteoro ou uma estrela cadente ou um foguetão ao contrário, e ouvia-se uma explosão, CATAPUM!, só que não morria ninguém e também não havia feridos, era uma explosão inofensiva e o meteoro nem era um meteoro, era uma coisa que nem sequer estava bem a cair, estava a aterrar, mas assim em descontrolo, e não era bem uma nave espacial, era uma geringonça descontrolada de voar por aí às cambalhotas, e lá dentro estava um mágico de lacinho na garganta ou então um bicho esquisito mas fofinho ao mesmo tempo de andar assim aos pulos ou então uma palmeira muito magra e muito alta que sabia cantar e tudo, e a geringonça até era pequenina, tipo um Smart de andar no Espaço, só que era grande ao mesmo tempo, porque tinha muitas coisas lá dentro, e parecia uma coisa muito nova, mas na verdade era muito antiga, só que o material era tão bom que não envelhecia, e ninguém sabia muito bem o que era aquilo, nem mesmo o mágico de lacinho ou o bicho esquisito e fofinho ou a palmeira de cantar, era uma geringonça que aterrava assim em qualquer lado, out of the blue, e seria precisamente azul e quem quisesse podia andar nela, era só abrir a porta e entrar, e a geringonça servia para viajar no tempo e no espaço e também para viajar dentro da cabeça, por isso era uma máquina que dava perfeitamente para alterar a história do universo, incluindo o Big Bang, e também a nossa própria memória, o que daria imenso jeito para mudar de cenário e de mentalidade. Mas se nada disto acontecer hoje ao final do dia, se não houver tremidinho de terra nem geringonça de andar por aí, também dá para ver um episódio do Doctor Who, porque o Doctor Who muda de tempo e de espaço e, por acaso, também usa lacinho e é esquisito e fofinho ao mesmo tempo. A música do genérico, por exemplo, transporta-nos logo para outro lado. Se não der para ver o Doctor Who por isto ou por aquilo, a hipótese seguinte é ir para os copos. Também serve. Mas neste caso, a geringonça de voar por aí às cambalhotas somos nós.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Irmão Lobo - Convite

A coleção «Dois passos e um salto» do Planeta Tangerina é das coisas mais saltitonas que por aí andam.
A karateca anda por aí aos pontapés.
E agora é a vez do Irmão Lobo abanar a cauda.

Eu cá já tenho um exemplar.

Sou colecionista.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Uma senhora nas urgências III

As cortinas abrem-se, sai um médico.

- Madame não-sei-quê?
- Sim, sou eu.
- Sou o médico YZ.
- Sim.
- Está numa cadeira de rodas?!
- Como?
- A senhora está numa cadeira de rodas?!
- Sim.
- Mas porquê?
- Foi o enfermeiro que me deu esta cadeira, não sei.
- Mas não consegue andar?
- Consigo.
- Ah, estava a ver!
- ...
- Bom, não sei se vai compreender o que lhe vou dizer…
- Compreender?
- Bom, não sei se consegue reter alguma informação neste momento.
- Informação?!
- Sim, por causa do choque e assim… Vamos então para esta sala aqui ao lado, por favor.
- É preciso ir para outra sala?
- Sim, é melhor. Como deve perceber, não lhe trago notícias excelentes.

A senhora e o médico saem de cena. Pas d'excellentes nouvelles.

Há semanas que a narradora deste texto anda a pensar na senhora das urgências, no seu dedo indicador. Na sua voz.
Estamos cá sozinhos.
Realmente...
Sozinhos…